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MATÉRIELS ET MÉTHODES

IV. Diagnostic du paludisme : 1 Diagnostic clinique :

Considero importante deter-me em alguns aspectos específicos do Seminário 11 Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, de 1964. Esse seminário ocupa um lugar diferenciado no ensino de Lacan, por representar uma decisiva torsão teórica e política em seu ensino e igualmente uma ruptura nos destinos institucionais da Psicanálise. O Seminário 11 é o primeiro seminário pronunciado por Lacan após ter tido seu nome

riscado da lista dos analistas didatas da IPA35, instituição psicanalítica criada por Freud.

A expulsão da IPA ou a sua excomunhão, para usar um termo do próprio Lacan, deu-se logo após o pronunciamento da primeira lição daquele que seria o Seminário 11, Nomes do pai. A ruptura de Lacan com a IPA foi concomitante com a fundação da Escola Freudiana de Paris naquele mesmo ano de 1964. O ato de fundação da Escola produz uma disjunção absolutamente inédita na história do movimento psicanalítico, pois desde 1910, quando a Internacional foi fundada por Freud, não havia ocorrido nenhuma intervenção de outra corrente institucional no âmbito da psicanálise. Esses fatos institucionais do ano de 1964 marcam o início do ensino de Lacan propriamente dito, não mais voltado para a leitura de textos freudianos. É a partir do Seminário 11 que vemos Lacan formulando uma pergunta sobre o desejo de Freud e as consequências desse desejo na história política e institucional da psicanálise.

Lacan, no Seminário 11 Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1985)36,

aproxima o conceito freudiano de Vorstellungsrepräsentanz, o representante psíquico das pulsões no inconsciente, do significante saussureano. De forma semelhante, relaciona o significante saussureano com o Wahrnehmungszeichen, o signo de percepção, presente na famosa carta 52 de Freud a Fliess, datada de 1896. Em Lição sobre Lituraterra37, Lacan afirma que o signo de percepção é o que Freud pôde encontrar de mais próximo do significante no sentido de Saussure, em uma época em que o mesmo ainda não havia sido elaborado. No meio psicanalítico, por sua vez, o

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Internationa Psychoanalytical Association. 36

LACAN, J. (1964) Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

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LACAN, J. (1971) Seminário 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

termo significante já foi absorvido de modo a significar tudo aquilo que pode ser entendido como linguagem, representação e o registro do simbólico. A origem linguística do termo parece não ter importância para os psicanalistas. Arrivé, em contrapartida, não se furta da questão, ao enunciar que:

...a linguagem com a qual está estruturado o inconsciente não se confunde com a linguagem tal como a concebem os linguistas. Contrapartida obrigatória dessa primeira verificação: o significante lacaniano não se confunde com o seu homônimo (e epônimo) saussuriano. Donde a necessidade da pesquisa de que hoje dou os tardios resultados: que há de comum entre o significante saussuriano e o lacaniano? (Arrivé, 2001, p.96)38

O próprio Lacan não se mostra indiferente a esses limites entre a linguagem do inconsciente e a linguagem dos linguistas, sem pretender negar uma aproximação possível. No final de seu ensino, após haver se distanciado do Estruturalismo, Lacan

(1985, p.25)39 então enuncia, em uma aula de seu Seminário 20 Mais, Ainda: “Meu

dizer que o inconsciente está estruturado como uma linguagem não é do campo da lingüística.” Lacan (2009. p.14)40 tampouco se mostra indiferente às particularidades do uso do termo significante no campo linguístico e psicanalítico, inclusive, reconhecendo

que o uso que faz do termo não é exatamente aquele do campo da Linguística: “Faço

desse significante um uso que incomoda os linguistas.”

Com o objetivo de manter certa distância entre as duas disciplinas, Lacan, no Seminário

20, forja o conceito de linguisteria41 (neologismo criado mais sobre o termo “linguista”

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ARRIVÉ, (1986) M. Lingüística e Psicanálise: Freud, Saussure, Hjelmslev, Lacan e outros. São Paulo: Edusp, 2001.

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LACAN, J. (1972-73) Seminário 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

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LACAN, J. (1971) Seminário 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

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Neologismo construído por Lacan no Seminário 20 Mais, ainda (1972-73), para dizer qual Linguística interessa à Psicanálise. Uma junção entre linguista e histeria.

do que “linguística”) para se referir à linguística que é tratada no inconsciente, uma

linguística que toca a dimensão do sujeito e do gozo42. A despeito de tal afastamento,

Lacan não deixa de testemunhar, na mesma lição, que um dia percebeu que era difícil não entrar na Linguística, a partir do momento em que o inconsciente estava descoberto. Mas faz uma importante objeção que justifica seu neologismo da linguisteria: nem tudo da linguagem depende da Linguística ou do linguista. É importante ressaltar que a crítica de Lacan é circunstrita ao seu tempo e que, evidentemente, a Linguística e o linguista não partem do pressuposto de que tudo da linguagem depende deles. A linguisteria, termo cunhado em uma aula dedicada ao linguista Roman Jakobson,

representa, usando uma expressão de Milner (2008)43, um “adeus à Linguística” e outro

adeus ao paradigma estruturalista por parte de Lacan. O interesse lacaniano pela Linguística inicia-se em 1953 no Discurso de Roma, apresenta sinais de declínio a partir da década de sessenta e parece se extinguir a partir de 1972 no Seminário 20. A referência onde passa a ser situado o inconsciente é precisamente aquela a qual escapa à

Linguística: relação com o real e o fora de sentido encarnados no conceito de objeto a44.

É o que Lacan afirma em Radiofonia:

O inconsciente pode ser, como disse, a condição da linguística. Esta, no entanto, não tem sobre ele a menor influência. É que ela deixa em branco o que surte efeito nele: o objeto a, com o qual, ao mostrar que ele é o pivô do ato psicanalítico, pensei em esclarecer qualquer outro ato. (Lacan, 2003, p.

407)45

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Gozo: modo de satisfação própria do ser falante, que coloca em dimensão o corpo marcado pela linguagem. O gozo é um conceito que extrapola o campo do simbólico e da representação, sendo uma satisfação paradoxal que porta um desprazer. É um conceito que advem da noção freudiana de pulsão de

morte.

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MILNER, J.C. (2002) Le périple structural – figures et paradigme. Éditions Verdier: Paris, 2008.

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Objeto a: ponto irredutível e inassimilável no ser falante. Um resto da operação produzida pela linguagem sobre o corpo. O objeto a não possui materialidade significante ou conformação simbólica. 45

Ainda em Radiofonia, soa importante ater-se a essa surpreendente formulação que aparece não apenas no fragmento supracitado do texto: o inconsciente é a condição da linguística.

Em uma primeira leitura, pode soar paradoxal o conceito de significante ter adentrado a Psicanálise e se solidificado de maneira tão forte na mesma, pois trata-se de um conceito advindo de uma teoria linguística estrutural que não se ocupa da noção de sujeito, essa indissociável da teoria psicanalítica. Considero importante ressaltar que, embora o sujeito não seja uma questão de interesse para a Linguística Estrutural, correntes posteriores vão se ocupar dele. O significante lacaniano também não se separa do sujeito. O sujeito é o próprio efeito do significante, conforme enuncia sua tão repetida fórmula que diz que o significante representa um sujeito para outro significante, fórmula essa difundida em diversos momentos e fases de seu ensino, dificultando fazer um apanhado preciso. O sujeito está igualmente encarnado no significante lacaniano ao partir da própria definição saussureana de significante.

No contexto do estabelecimento da doutrina do significante, encontramos uma fundamental afirmação de Lacan sobre o que é para ele o lugar da Psicanálise:

A psicanálise não é nem uma ‘Weltanschauung’46

nem uma filosofia que pretende dar a chave do universo. Ela é comandada por uma visada particular que é historicamente definida pela elaboração da noção de sujeito. Ela coloca esta noção de maneira nova, reconduzindo o sujeito à sua dependência significante. (Lacan, 1985, p. 78)47

Se o inconsciente, no sentido que encontramos nos primeiros textos de Freud, é tecido de linguagem, isso é reafirmado no retorno a Freud, empreendido por Lacan na década de cinquenta. O encontro de Lacan com a Linguística Estrutural, também na década de

46

Weltanschauung – Visão de mundo totalizadora.

47

LACAN, J. (1964) Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

cinquenta, é, em si, uma resposta para questões eminentemente políticas e institucionais

existentes no campo psicanalítico. Para ele, o discurso freudiano, no âmbito da IPA,48

havia perdido sua especificidade em nome de uma prática analítica adaptativa, pedagógica, desenvolvimentista e diluída no discurso psicológico.

De acordo com suas críticas, as primeiras gerações de analistas buscaram suturar a hiância do inconsciente freudiano em favor de um discurso de caráter cientificista. Seu percurso, em contrapartida, buscou refundar as bases do pensamento freudiano a partir de contribuições da Linguística, da Filosofia, da Lógica, da Matemática e da Topologia, rechaçando a Biologia e a Psicologia de seu campo. O inconsciente freudiano situa-se, como observa Lacan, em um ponto em que entre a causa e o que ele afeta há sempre claudicação e divisão subjetiva:

A bem dizer, essa dimensão do inconsciente, que eu evoco, estava esquecida, como Freud havia previsto perfeitamente bem. O inconsciente se havia refechado sobre sua mensagem graças aos cuidados desses ativos ortopedeutas em que se tornaram os analistas da segunda e da terceira geração, que se dedicam, no que psicologizando a teoria psicanalítica, a suturar essa hiância. (Lacan, 1985, p.28)49

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