• Aucun résultat trouvé

DIAGNOSTIC DIFFERENTIEL :

Dans le document LES INFECTIONS ALIMENTAIRES A SHIGELLES (Page 119-173)

Diagnostic différentiel

VI- DIAGNOSTIC DIFFERENTIEL :

185 Deputado jacobino, secretário de Danton quando esse se tornou Ministro da Justiça, combateu Girondinos e

Hebertistas e se colocou favorável ao fim do Terror, por isso foi preso por Robespierre e executado no mesmo dia de Danton.

P á g in a

1

5

6

sentido: “DANTON – o mundo é o caos. O nada é o nascituro deus do mundo”.186 O “nada” atinge Danton e outras personagens do mesmo autor. Seguindo o raciocínio de Rosenfeld, “[...] tal visão leva muitas vezes à redução da imagem do homem que se torna grotesca particularmente quando é oposta à imagem sublime do herói clássico”.187 A proposta estética do dramaturgo do século XIX questionava a imagem do herói clássico, ou seja, com Danton o autor rompe com os códigos estéticos do classicismo vigentes em sua época. Ao tratar da modernidade extemporânea de Büchner, a pesquisadora Irene Aron é didática ao se referir às rupturas formais que a A morte de Danton carrega:

[...] é conveniente reiterar que o estudante de medicina e revolucionário social perseguido pelas autoridades percebeu, de maneira lúcida, o princípio da era industrial e o conseqüente domínio da técnica que leva à impotência e à automatização do ser humano e, necessariamente, à dissolução de padrões morais, religiosos e estéticos do classicismo alemão. A percepção das transformações que ocorriam à sua volta revela-se sobretudo em sua crítica à filosofia e à moral do idealismo alemão, representado particularmente pela obra e pensamento de Schiller, em sua época clássica [...]. É, pois, em A

morte de Danton que Büchner torna patente a necessidade de ruptura de cânones estéticos vigentes, para comunicar que seu tempo faz a sua própria exigência em relação ao drama. Ou seja, para expressar as transições sociais e políticas de sua época, Büchner não lança mão da forma dramática tradicional, fechada. Dentro do processo de busca da inovação que pode negar, superar ou imitar aquilo que se estabelece como sendo sua oposição, ou seja, não-moderno, é importante mencionar que Büchner reatualiza uma forma dramática cuja tradição remonta à Idade Média européia, e que tinha sido retomada ainda recentemente no drama do Sturm und Drang. A forma nova denomina-se aberta, atectônica, não-aristotélica ou épica, em contraposição à tradicional, fechada, tectônica, clássica ou aristotélica. Em outras palavras, os conflitos da realidade social aparecem no drama de Büchner como informação, como parte integrante de sua forma, e, neste caso, a forma tradicional, fechada, representaria desinformação, retrocesso.188

As considerações da autora se aproximam muito das análises de Rosenfeld que, por sua vez, foram recuperadas por Antonio Pasta e, por fim, aparecem nos discursos de Sérgio de Carvalho, o que demonstra um tronco interpretativo e de recepção do teatro épico bastante preciso.

Quando a Companhia do Latão reescreve Danton e realça na estrutura dramática personagens das ruas de Paris, há uma preocupação em refletir a partir de perspectivas

186 BÜCHNER, Georg. A morte de Danton. In: GUINSBURG, Jacó; KOUDELA, Ingrid D. (Orgs.). Büchner:

na pena e na cena. Tradução de Ingrid D. Koudela. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 160.

187 ROSENFELD, Anatol. A Atualidade de Büchner. In: Ibid., p. 17.

P á g in a

1

5

7

coletivas sobre a temática da peça. No DVD Experimentos videográficos do Latão, o diretor Sérgio de Carvalho afirma que o grupo teve a preocupação de elaborar o Ensaio valorizando perspectivas coletivas em detrimento da tragédia pessoal de Danton, o que fez, segundo ele, que Cristininha e Gauché chegassem a se aproximar dos protagonistas da peça. Se tomarmos as ponderações de Rosenfeld e Aron como pressuposto de análise, poderemos perceber que, de acordo com as vivências de Büchner, ele não tinha condições nem interesse de criar um “herói trágico”. Portanto, a crítica a um processo de heroicização da personagem já chega ao Latão pelo próprio texto dramático do século XIX. Em Büchner, Danton expressa “o nada”, já no palco do Latão, a personagem cede espaço para uma polifonia de vozes que vêm das ruas da capital francesa. Em ambas as ocasiões há a percepção de que o processo revolucionário não é homogêneo, porém o tratamento formal dado a essa visão da sociedade depende do momento em que é elaborado. Para o dramaturgo do século XIX, um mundo vazio de significados o aterrorizava, já para o Latão a presença da revolução e da transformação social é prioritária, o que não se promove sem pensar em termos coletivos de ação. O Danton do grupo paulistano é mais modesto, menos efusivo em seus discursos, o foco do grupo não era provocar a compaixão no espectador. Por isso Büchner surge como referência, uma vez que a “quebra” da heroicização já era uma preocupação para o autor, o que retira da Companhia do Latão qualquer ineditismo em termos de desconstrução do “herói” Danton.

Outro elemento formal importante dos escritos de Büchner e que a Companhia leva para o seu palco é o tema da “automatização do ser humano”, expresso por meio da construção de personagens que agem como marionetes. De acordo com Rosenfeld, nos escritos büchnerianos:

[...] origina-se o topos das marionetes e do automatismo, tradição grotesca haurida em Callot-Hoffmann (como revela o próprio Büchner), mas que agora se carrega de um pavor novo por exprimir “o horrendo fatalismo da história” de que se sente “aniquilado”, segundo documenta uma carta em que a própria supressão do verbo – tão freqüente nos seus escritos – antecipa um típico “gesto expressionista”: Encontro na natureza humana uma terrível igualdade [...] O indivíduo, só espuma na onda, a grandeza, mero acaso, o domínio do gênio, um jogo de títeres, uma luta ridícula contra uma lei ênea”. O automatismo será tema fundamental de Danton (“Somos bonecos, puxados no fio por poderes desconhecidos”), de Leonce e Lena, em que se manifesta até linguisticamente, na disparada saltitante dos trocadilhos, e sobretudo em Woyzeck.189

189 ROSENFELD, Anatol. A Atualidade de Büchner. In: GUINSBURG, Jacó; KOUDELA, Ingrid D. (Orgs.).

P á g in a

1

5

8

Como o próprio Danton se torna um autômato de todo o processo revolucionário e é conduzido à morte em um contexto que ele mesmo ajudou a construir, numa espécie de “horrendo fatalismo da história” que o aniquila, para a Companhia do Latão esse aniquilamento não vem para a cena por meio da personagem que dá título à peça. Como o intuito do grupo é realçar as propostas coletivas da ação política, os seus autômatos são pessoas do povo, que andam pelas ruas de Paris, assistem às execuções nas guilhotinas como espetáculo que ajuda a esquecer da fome, que saqueiam açougues e bradam morte aos que não têm buraco nas roupas. Para o Latão, esse seria o locus privilegiado para se mostrar indivíduos que “espumam na onda”, formando um jogo de títeres que trava uma luta ridícula contra a lei ênea. Vejamos a cena:

A disposição cênica sugere um pequeno teatro de marionetes. Cristininha de um lado e Susaninha, filha de Simon, de outro, são manipuladas por atores que controlam fios imaginários.

SUZANINHA [Como marionete] Ei, revolucionário! Você me acha bonita? CRISTININHA [Como marionete] Ei, seu açougueiro! Me dá um pedaço de carne, por favor? Eu estou pedindo, por favor.

SUZANINHA [Como marionete] Quer ver o que eu tenho aqui debaixo da blusa? Quer ver mesmo?

CRISTININHA [Como marionete] O que vai acontecer se não me der a carne? Quer saber mesmo?

SUZANINHA [Como marionete] Minha mãe disse era pra eu mostrar. Debaixo da blusa, tenho dois botõezinhos e também uma florzinha.

CRISTININHA [Como marionete] Sem carne, eu vou retalhar o senhor com um caco de vidro e pendurar no gancho.190

Vários são os focos de discussão realçados pelo Latão, muitos deles já dados na própria dramaturgia de Büchner, o que aponta para um processo de reescritura no qual o que torna possível um momento ser revisitado por outro são as inquietações do presente daqueles que tomam elementos do passado como passíveis de serem valorizados. Entre Büchner e a Companhia do Latão existe um espaço que não é só temporal, cuja mediação é marcada por referências intelectuais e pesquisas acadêmicas. São as peculiaridades múltiplas que envolvem essa relação que dão a tonalidade para uma discussão sobre as transformações políticas e

190 CARVALHO, Sérgio de; MARCIANO, Márcio. Ensaio para Danton. In: ______. (Orgs.). Companhia do

Dans le document LES INFECTIONS ALIMENTAIRES A SHIGELLES (Page 119-173)