III. LES ASPECTS DIAGNOSTIQUES : 1 Le diagnostic positif :
2. Diagnostic différentiel :
Paralelamente aos estudos sobre a forma como se constituíram campos disciplinares no âmbito do conhecimento científico (mas não apenas dele) e sobre o significado desse processo, há também tentativas de se organizar e separar os campos de conhecimento. Essas tentativas de mapear as várias áreas e traçar as fronteiras entre elas é também anterior à formação da ciência moderna e, por essa razão, também se voltam para as outras formas de conhecimento humano.
Essas tentativas são mapeadas principalmente pelos autores que trabalham com teoria da classificação, entre os quais se destaca SPEZIALI (1973). Entre as várias tentativas de se estabelecer “disciplinas” ou áreas disciplinares, o autor destaca que é possível perceber, já na Grécia Clássica, a necessidade de classificar e descobrir relações e conexões escondidas para se obter uma visão total da realidade e explicar o mecanismo do universo. Para Pitágoras, por exemplo, a geometria, a aritmética e a música são as principais ciências que permitem descobrir os segredos do número e da harmonia, sendo sempre necessário começar por eles para se reconstruir a realidade.
Platão, introduzido no método pitagórico, pensa que as idéias podem ser ordenadas de acordo com sua extensão (denotação) em relação inversa à sua intensidade (compreensão): começando com idéias gerais e vagas, chega-se a idéias mais claras e específicas. Platão introduz a idéia de uma hierarquia, composta de gênero e espécie, ainda que, para ele, ambos sejam inseparáveis. Ele aplica o termo mathemata não só para as ciências exatas mas também para as artes técnicas e mecânicas, bem como para artes como a música e a ginástica – todas as disciplinas capazes de educar o homem. Platão concede um lugar privilegiado para a ciência propriamente chamada matemática.
Somente com Aristóteles vamos encontrar a separação entre gênero e espécie, que vai se tornar a base da lógica aristotélica. As espécies são as especificações dos gêneros – ambos aparecem na dedução, na indução e na teoria do conceito. Essa hierarquia será encontrada em todos os tipos posteriores de classificação.
Para Aristóteles existem três grandes grupos de ciências: as teóricas (física e filosofia); as práticas (ética e política); as poéticas (estética). Para ele, toda a realidade só é conhecida por meio da classificação e todas as ciências são subordinadas à filosofia. Entre seus discípulos merece destaque Demetrius de Phalerum, um dos organizadores da Biblioteca de Alexandria, que introduziu divisões e subdivisões do conhecimento com o objetivo de permitir especializações em um dado campo de estudos.
Na Roma Antiga merecem destaque os trabalhos de Posidonius de Apamea (século II a.C.) e Marcus Terentius Varro (século I a.C.). Este último propôs um programa de estudos amplo, extendido por várias áreas, organizado no “Disciplinarium” (cerca de 50 a.C.), cuja classificação previa: gramática, dialética, retórica, geometria, aritmética, astrologia, música, medicina e arquitetura. Pouco depois (77 d.C.), Plinío apresenta com seu “História Natural” um modelo de classificação com ramos das ciências.
Ainda na Antigüidade podem ser encontradas outras demarcações de fronteiras. Os árabes preservaram a ciência grega e também fizeram algumas contribuições originais. Esse corpo de conhecimento foi introduzido na Europa pelos mouros, a partir da Espanha, sendo sua distinção mais relevante entre as ciências árabes (como a poesia e a arte da oratória) e as ciências estrangeiras (astronomia, medicina e matemática).
A China possui uma série de exemplos de classificação em trabalhos enciclopédicos, como o “Erh-ya” produzido na Dinastia Han (século II a.C.), com 19 categorias; o “Shih-ming”, de Liu Hsieh, com 27 divisões; o “Tzu-hui”, de 1615, produzido por Mei Ying-tsu, um dicionário que organiza as palavras ordenando-as a partir de analogias gráficas; e o “K’ang-hsi” (século XVIII), que serve de base para as modernas enciclopédias chinesas. Na Índia também sempre houve trabalhos procurando englobar a totalidade do conhecimento. Nos primeiros séculos d.C., por exemplo, o “Dharma’sãstra” dividia-se em campos da cosmologia, regras sociais, funções humanas e leis. Outros exemplos são as enciclopédias “Abinavagupta” (século XI) e “Somadeva” (século XII).
Já a Idade Média, na Europa, é marcada pelos estudos do “Quadrivium”, que distingue as áreas da aritmética, da música, da geometria e da astronomia, todas tomadas como requisitos preliminares para o estudo da filosofia e da teologia. Produzido em Paris, o
“Didascalion” contém uma classificação das ciências que é um típico exemplo da cultura da Alta Idade Média: a filosofia encerra todo o conhecimento, e é subdividida em ciências teóricas (matemática, física, teologia), práticas (privadas ou públicas), de serviços mecânicos (navegação, agricultura, caça, medicina, teatro) e lógica (gramática e retórica). No século XIII Roger Bacon, continuando o trabalho de Robert Grosseteste, coloca a matemática na base das ciências da natureza. Sua classificação é a seguinte: a) gramática e lógica; b) matemática; c) filosofia da natureza; d) metafísica e ética. Na época de transição da Idade Média para a Idade Moderna, um importante sistema de classificação das ciências é desenvolvido por Francis Bacon:
Deve-se, porém, a Francis Bacon na Chart of learning (1605), a maior contribuição ao estudo dos modernos sistemas de classificação. Em sua obra
Advancement of Learning baseada também no Trivium e no Quatrivium, de Cassiodoro, ele classificou as ciências segundo as faculdades intelectuais da Memória – Imaginação – Razão, originando, respectivamente, a História – Poesia – Filosofia (BARBOSA, 1969, p. 47).
A partir do século XVI, com o início da ciência moderna, esse processo de fragmentação do conhecimento vai se acelerar com a institucionalização das disciplinas científicas. Lakatos e Marconi apontam para a emergência de diversas tentativas de classificação das ciências, como as promovidas por Comte, Carnap, Bunge e Wundt (LAKATOS; MARCONI, 1986, p. 24). Diversos autores vão procurar sistematizar e legitimar as fronteiras entre as várias ciências, principalmente na França (SPEZIALI, 1973). Em meados do século XIX, surge o sistema de Comte, com papel decisivo nas classificações posteriores:
(...) o estabelecimento do conceito moderno de hierarquia das ciências e o princípio da filiação, pelo qual cada ciência depende da precedente, vem de Augusto Comte, que adotou a ordem dos conhecimentos humanos, como sendo uma ordem de complexidade decrescente e complexidade crescente. Suas séries começam com Matemática, decrescendo para a Astronomia, Física, Química, Biologia e Sociologia (BARBOSA, 1969, p. 47).
No mesmo período, o físico Ampère propôs uma tabela de todos os campos do conhecimento, composta de três tabelas com domínios e subdomínios, dividindo cada ciência em ciências de segunda e terceira ordem, num sistema com 128 disciplinas. Em 1851, A. A. Cournot introduz uma separação entre leis estruturais e critérios históricos.
Identifica três grandes áreas da ciência: a teórica, a histórica e a prática. Cada uma é composta pelos seguintes tipos de ciência: matemática, física, biológica, mental e simbólica, e política.
Pouco depois, em 1864, Herbert Spencer propõe a idéia de que todo conhecimento varia com o objeto, elaborando uma classificação das ciências de acordo com seu grau de abstração em relação ao objeto. Obteve, assim, uma série linear do abstrato ao concreto, da seguinte forma: ciências abstratas (lógica e matemática, que lidam com a aparição dos fenômenos); ciências abstrato-concretas (mecânica, física e química, que investigam as causas dos fenômenos); ciências concretas (interessadas apenas nos resultados). Por fim, em 1865 surge a primeira classificação histórica com o “Manuel du libraire et de l’amateur de livres”, de Jacques-Charles Brunet.
Em outros países também se deu esse processo. Vários filósofos e cientistas alemães e ingleses também lidaram com a questão da classificação das ciências. Na Alemanha, destaca-se Schopenhauer que distingue as ciências empíricas (a posteriori) das ciências puras (a priori) e outros como Hegel, Helmholtz, Dilthey, Münsterberg, Adler, Wundt, Ostwald e Tillich. Na Inglaterra destacam-se Bentham, Stuart Mill, Pearson, Giddings. Nos Estados Unidos, Charles Peirce ordena as ciências de descobertas, de revisão e práticas, numa seqüência decrescente de importância. Na União Soviética destaca-se a proposta de Bonifatii Kedrov, de um sistema fechado e cíclico. E, em 1920, Adrien Naville elabora uma classificação não com base em nomenclaturas mas sim com base em idéias principais dos grupos de ciências e suas interrelações. Apresenta, assim, três grandes classes: a) teóricas (matemática, física, química, biologia, psicologia e sociologia); b) históricas (história natural, teoria da evolução, geografia humana); c) canônicas (regras, artes, beleza, verdade).
Até aqui, foram apresentadas tentativas de classificação da ciência que costumam ser denominadas “classificações filosóficas” (SVENONIUS, 1985), isto é, um tipo de classificação criado pelo pensamento filosófico com a finalidade de definir, esquematizar e hierarquizar o conhecimento a partir de critérios epistemológicos.
O apogeu da institucionalização dos campos disciplinares que constituem a ciência se dá com a criação, no final do século XIX, dos sistemas de classificação universais ou enciclopédicos, que, cobrindo todos os ramos do conhecimento, determinam e legitimam domínios de conhecimento limitados e estáveis. Esse segundo tipo de classificação é conhecido como “classificação bibliográfica” e possui uma preocupação mais específica, a
possibilidade de organização de documentos em algum sistema de informação (bibliotecas, catálogos, etc). As mais conhecidas são a Classificação Decimal de Dewey, criada em 1876, e a Classificação Decimal Universal, criada em 1895 por Otlet e LaFontaine. A partir desse momento a classificação das ciências torna-se, então, objeto da Teoria da classificação.