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Diagnostic clinique :

Dans le document MANIFESTATIONS ORL AU COURS DU COVID-19 (Page 66-70)

symptomes ORL

B. Données cliniques

1. Diagnostic clinique :

A relação de Saito com Donald Pierson37 começa quando o jovem estudante japonês

passa a frequentar a ELSP como aluno ouvinte38. Pierson havia chegado à instituição dez anos

antes, após defender seu doutorado na Universidade de Chicago sobre as relações entre negros e brancos no Brasil, baseado numa pesquisa de campo realizada na Bahia entre 1935 e 193739.

Em Chicago, onde começou a estudar em 1927, no Departamento de Sociologia e Antropologia, teve contanto com professores como Herbert Blumer, Robert Redfield, Alfred Radcliffe-Brown, Louis Wirth e Robert Park (seu orientador). Ele ministra aulas na ELSP até meados da década de 1950, quando retorna para os Estados Unidos para tratar de uma doença e volta ao Brasil apenas esporadicamente (NOVA, 1998; CAVALCANTI, 1999).

A relação entre Saito e Pierson ficou registrada na correspondência trocada entre os dois durante pelo menos trinta anos (1953-1983). Nelas encontramos orientações sobre textos a serem lidos, os melhores encaminhamentos para os seus trabalhos e algumas das pesquisas que o aluno estava realizando ou tinha interesse em realizar. O interesse de Pierson pela assimilação dos imigrantes japoneses, no entanto, não começa quando ele conhece Saito. Já em 1945, ele escrevia que a “oposição feita alguns anos atrás à imigração japonesa para São

35 Em relação à vinda de professores estrangeiros para a ELSP e à participação dos alunos em suas pesquisas,

essa tendência continua nas décadas de 1950 e 1960. Carmen Junqueira compartilhou, em entrevista, que ela mesma chegou a participar de pesquisas deste tipo, sendo a mais marcante a de Harry Hutchinson, que pesquisou a imigração na cidade de São Paulo. Segundo ela, era comum professores estrangeiros contratarem os alunos da ELSP para aplicarem questionários ou serem tradutores. Assim, eles ganhavam experiência de pesquisa sendo também remunerados. Ela ainda lembra que esses professores, além das pesquisas de campo, aproveitavam para dar cursos e aulas em algumas instituições brasileiras.

36 Octávio da Costa Eduardo foi aluno e professor da ELSP entre os anos de 1940 e 1972.

37 Pierson nasceu em oito de setembro de 1900, em Indianápolis (Indiana, EUA) e faleceu em 13 de outubro de

1995, em Leesburg (Flórida, Estados Unidos) (NOVA, 1998, pp. 195-197).

38 Embora a documentação aponte este primeiro contato somente em 1949 (CASTRO, 1994, pp. 127), é

improvável que eles não tivessem se conhecido antes na ELSP.

39 A pesquisa resulta no livro Negroes in Brazil: A Study of Race Contact at Bahia (1942), e a sua edição

Paulo parece que foi motivada, em grande parte, pela apreensão de que os japoneses constituíssem um grupo de difícil assimilação” (PIERSON, 1945, p. 416) 40. Segundo ele, o

problema racial no Brasil não se dava porque os imigrantes japoneses nas primeiras décadas do século XX resistiam a sua própria assimilação, mas sim porque havia resistência e segregação da população local ao receber estas pessoas — segregação esta que poderia se dar através do medo, do desconhecimento ou do preconceito. Ou seja, Pierson estava atento aos problemas que atingiam os japoneses no país e provavelmente por isso se interessou pelas pesquisas de Saito, inclusive por sua dissertação de mestrado.

Algumas vezes citado em suas cartas, este trabalho foi orientado por Pierson e publicado primeiramente em formato de cinco artigos na revista Sociologia, entre os anos 1954 e 1955, que revelam também um pouco da relação que havia entre o aluno e o professor. O primeiro artigo possui uma apresentação do então orientador, que comenta as pesquisas por ele auxiliadas. Na apresentação, Pierson afirma que:

O estudo da assimilação é tanto de valor prático, para o país em questão, como de proveito para o desenvolvimento da teoria sociológica. Quanto a esta, o estudo da assimilação (e da migração e acomodação que lhe são associadas) nos oferece meios de compreender melhor a integração e desintegração grupal, ocasionadas pela migração de indivíduos que, desligando-se dos seus grupos originais, vem a incorporar-se a grupos novos no país adotivo. Ao mesmo tempo, os migrantes levam consigo aquilo que podemos chamar de “bagagem cultural”, de modo que se processa, mui naturalmente, e transplantação de traços e complexos que, de acordo com as circunstâncias, ou desaparecem mais cedo ou mais tarde, ou passam a substituir fenômenos equivalentes no novo país, ou ainda podem ser incorporados à cultura deste, sofrendo no processo, modificações mais ou menos profundas. 41

Pierson aponta, portanto, a importância do estudo da assimilação, que nos permite conhecer aquele que está entrando no país e as suas possibilidades de integração à sociedade local, depois de perder parte do contato com a cultura de origem. Ele destaca ainda a influência da “bagagem cultural” do imigrante no seu processo de assimilação, termo também utilizado por Saito (1956; 1961). A expressão se refere às características da cultura de origem que influenciam a personalidade do indivíduo e que podem determinar a sua adaptação ao novo contexto social. Os traços da cultura japonesa identificados por Saito entre os imigrantes da Cooperativa Agrícola de Cotia, por exemplo, definem como eles se organizam

40 Pierson completa: “tentando refutar esta acusação, a Embaixada Japonesa no Rio de Janeiro publicou em 1935

um panfleto intitulado: ‘O Cruzamento da Etnia Japonesa, Hipótese de que o Japonês não se cruza com outra Etnia’, ilustrada com várias fotografias de casais mistos de japonês e brasileiro” (PIERSON, 1945, pp. 146).

41 PIERSON, Donald. Apresentação. In SAITO, Hiroshi. O cooperativismo na região de Cotia: estudo de

economicamente perante a sociedade brasileira, mas podem impedir que traços culturais brasileiros específicos sejam adotados, a fim de conseguirem conviver com a população local.

No segundo parágrafo da apresentação do artigo, Pierson comenta a importância de se pesquisar os imigrantes japoneses, que, até então, tinham sido estudados, principalmente, por Willems, Izumi e Saito. Este último, que era assistente de pesquisa de Pierson, estava realizando, sob sua coordenação, três estudos de assimilação e acomodação sobre o mesmo objeto42. De acordo com um relatório de atividades de Saito, uma destas pesquisas seria o seu

tema de pesquisa de mestrado, cuja denominação é “estudo de transplantação cultural”, e que se referia à transplantação de um complexo cultural (o cooperativismo) para o meio rural brasileiro pelos imigrantes japoneses43. Saito afirma que a pesquisa começou em 1953 e que

possuiria três fases: trabalho de campo (com a realização de um grande número de entrevistas individuais e coleta de dados); registro dos dados em fichários; elaboração dos dados (análise e escrita do texto). Ele ainda completa que planejava a conclusão do estudo para o semestre seguinte, de modo a “esclarecer muitos aspectos sobre a introdução de novos padrões culturais e consequente modificação do nosso meio rural”.

A segunda pesquisa que ele estava fazendo com Pierson era denominada “Experiências do Imigrante”. Com a colaboração do Jornal Paulista, promoveu-se um concurso com trabalhos que se detinham à experiência de imigrantes japoneses. Saito estava traduzindo os textos recebidos, que, junto com histórias de vida já coletadas por ele, constituiria uma “fonte de informações para elucidar o problema de assimilação de japoneses e seus descendentes.”.

Por fim, a terceira pesquisa era sobre a “mobilidade social de imigrantes japoneses” e estaria ainda em sua fase inicial. Ela teria como referência a “distribuição ecológica e mobilidade social dos tintureiros japoneses em São Paulo”, isto é, havia-se a pretensão de estudar os imigrantes no mundo urbano. A pesquisa estava sendo realizada, por ora, com a aplicação de um survey para a coleta de dados e planejamento da pesquisa44.

42 Pierson também comenta estas pesquisas no Relatório de Pesquisa enviado a Anísio Teixeira em 31 de março

de 1955. O professor destaca que estaria preparando seus três assistentes de pesquisa, Saito, Alfonso Trujillo Ferrari e Esdras Borges Costa, para se tornarem professores e diretores de pesquisas. Fonte: Carta de Donald Pierson a Anísio Teixeira, pp. 1-3. Data: 31 de Março de 1955. Disponível em: http://www.museuafrodigital.ufba.br/donald-pierson-e-anisio- teixeira-19551963-e-1967. Acesso em: 21 de novembro de 2016.

43 Carta de Hiroshi Saito a Anísio Teixeira. 10 de setembro de 1954. FDP/AEL/Unicamp.

44 No mesmo relatório enviado a Anísio Teixeira, Saito ainda aponta outras atividades que estaria exercendo

Além das pesquisas, a orientação de Pierson também se dava por meio de sugestões de leituras, como os cinco volumes do livro The Polish Peasant in Europe and America, de Florian Znaniecki and William I. Thomas (da Universidade Chicago), publicados entre 1918 e 192045. A coleção traz uma pesquisa que durou mais de dez anos sobre a vida do imigrante

polonês nos Estados Unidos. A obra tem como novidade a utilização de histórias de vida através da análise de documentos pessoais (como correspondências) destes imigrantes. Segundo Nova (1998, p. 74), o trabalho “inaugura o emprego desse tipo de fonte na pesquisa sócio-antropológica”. Para os autores da obra, a assimilação seria um processo psicológico, que teria os seus aspectos político e econômico negligenciados e que ocorreria quando o imigrante tivesse o mesmo interesse pelas mesmas coisas e ideias que o nativo. Um dos principais aspectos a serem observados em relação à assimilação está ligado à linguagem utilizada pelo imigrante, pois fazer uso da língua nativa seria essencial para que este processo ocorra; não obstante, também seria importante que o imigrante continue a falar e a ler em sua língua materna para favorecer a transição da “assimilação” com intensidade menor de choque cultural (COULON, 1992, p. 32).

Saito era também a pessoa com quem Pierson contava quando precisava de algum livro do Brasil, mesmo que estes fossem de sua própria autoria. É o que ocorre em um pedido que faz a Saito para que ele lhe envie dez exemplares da 8ª edição do seu livro Teoria e Pesquisa em Sociologia46, além de outros exemplares dos livros O Japonês no Brasil e Contenda. Pierson ainda indica a leitura de textos, como os livros de La Viollette, The Japonese Canadian and World War II, e Ralph Linton, The Cultural Background of Personality, entre outros. O primeiro livro, de acordo com Saito, seria útil para a descrição dos conflitos entre gerações nas comunidades japonesas no Canadá, enquanto o segundo, para os conceitos “real culture” e “culture constructo”, apesar de não serem definidos por ele nas cartas47.

As correspondências entre Pierson e Saito, trazidas em diversos momentos deste trabalho, mostram a relação entre orientando e orientador, além de ser uma forma de acompanhar o desenvolvimento intelectual de Saito. Sempre elogioso em relação ao ex-

participação de algumas aulas ministradas pelo professor na ELSP e a aplicação e tabulação de questionários para a pesquisa “Estudo da Organização Social do Brasil”.

45 Carta de Donald Pierson a Hiroshi Saito. 16 de dezembro de 1953. FDP/AEL/Unicamp. 46 Carta de Donald Pierson a Hiroshi Saito. 16 de novembro de 1963. FDP/AEL/Unicamp. 47 Carta de Hiroshi Saito a Donald Pierson.08 de dezembro de 1954. FDP/AEL/Unicamp.

aluno, Pierson foi uma das grandes influências, ao lado de Willems e Izumi, dos trabalhos de Saito, principalmente na sua dissertação de mestrado48. Além disso, a sociologia de Chicago,

muito presente na ELSP por conta de Pierson, influenciou os trabalhos de Saito durante toda a sua carreira. O sociólogo japonês sempre demonstrou ter como prioridade em suas pesquisas a empiria e o compromisso social de que seus trabalhos contribuíssem com a sociedade ao seu redor, principalmente para a comunidade imigrante japonesa. Nas cartas há informações ainda sobre as disciplinas assistidas por Saito no período em que foi aluno na ELSP, nas quais ele buscava entender como a academia poderia auxiliar nas mudanças passadas pelos imigrantes.

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