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DGAFP - Bureau des statistiques, des études et de l’évaluation

Dans le document Formation EMPLOI, REVENUS (Page 29-32)

Dar aula de ciências implica em ouvir perguntas de alunos(as) sobre astronomia, funcionamento de algum objeto, composição da matéria, o que pode acontecer em determinadas experiências, etc. Por exemplo: “Como é possível descobrir a idade da Terra?”; “O que acontece se misturarmos todos os elementos da Tabela Periódica”5? Perguntas dessa natureza

demonstram curiosidade, criatividade e interesse. Mas elas podem também revelar rebeldia, desafio, tédio, subterfúgio à aula e etc. A este tipo de questão feita pelos(as) estudantes, denominamos e delineamos perguntas inusitadas, visto que na literatura da área de ensino de ciências, não existe uma proposta conceitual para este termo. Embora esta pesquisa se debruce a estudar estas perguntas relacionadas ao ensino de ciências, elas são realizadas em todas as

4 Texto original: “Las preguntas elaboradas por los estudiantes, deben ser para el profesor un indicador que este

estudiante ha pensado en las ideas discutidas, y que está intentando encontrar una forma de vincularlas a otros conocimientos que posee, demostrando de cierta forma una brecha existente entre lo que él sabe y hacia donde intenta llegar” (MALVAEZ, JOGLAR e QUINTANILLA, 2013, p.3 e 4).

5 Perguntas feitas por estudantes nas aulas de química lecionadas pela pesquisadora ao longo de sua trajetória

57 disciplinas, inclusive fora do contexto escolar (haja vista as perguntas que as crianças fazem aos adultos!).

Inicialmente estas perguntas eram denominadas de inesperadas, pois de certa forma, o(a) professor(a) não espera nem planeja que elas sejam feitas. Contudo, depois fomos percebendo que a palavra inesperada não se filia a uma rede de sentidos que desejamos estudar, pois na sala de aula muitas coisas não são esperadas. Lecionar é estar em constante contato com situações inesperadas. Assim, optamos pela palavra inusitada, porque pode filiar-se, no contexto educacional, o sentido de algo incomum, excepcional. Podemos compreendê-las também como perguntas perspicazes, absurdas, extraordinárias, etc.

Um dos trabalhos presentes na revisão na literatura que evoca este termo, mas não o define, é o de Scarinci e Pacca (2007). As autoras, ao discutirem truncamentos na sequência pedagógica em sala de aula, finalizam o trabalho com a seguinte consideração: “Como reagir às perguntas inusitadas dos alunos, que não estavam exatamente previstas no planejamento do professor?” (2007, p.11; grifo nosso). Este trabalho influenciou na escolha do termo, apesar desta relação não ter sido tão direta e objetiva. “As palavras falam com outras palavras. Toda palavra é sempre parte de um discurso. E todo discurso se delineia na relação com outros: dizeres presentes e dizeres que se alojam na memória” (ORLANDI, 2005, p.52). Assim, sempre recuperamos as palavras do outro ao falar. O que é dito aqui, já foi dito em outro tempo, em outro lugar. Ao mesmo tempo que sedimenta os sentidos, os desloca.

Compreendendo os possíveis sentidos da palavra inusitado, recorremos a etimologia da mesma. Inusitado, em latim, é inusitatus que é a junção de in (negação) mais usus (uso). Inusitado então quer dizer fora de uso, incomum, excepcional, inabitual (MICHAELIS, 2017). Já a palavra pergunta, que remete ao ato de perguntar, do latim percontāri, significa “inquirir, interrogar, questionar; sondar, no sentido moral” (MARTA, 2011).

Perguntas inusitadas seriam então aquelas perguntas mais incomuns, excepcionais, que eventualmente são feitas e que revelam uma grande perspicácia do(a) aluno(a) em fazê-la. Baseado em seus conhecimentos, o(a) estudante põe em conflito algumas ideias preestabelecidas demonstrando movimentos de reflexão, curiosidade e criatividade.

Geralmente elas têm como ponto de partida algum conteúdo ministrado pelo(a) professor(a), mas não são dúvidas específicas sobre algum conteúdo (ex.: qual o número atômico do carbono?; quantos elétrons têm o Fe2+?), são insights que o(a) aluno(a) tem durante a aula ao refletir, fazer correlações, pôr em conflito suas ideias. Essas perguntas costumam estar mais propícias a surgir em um contexto dialógico e relacionado ao cotidiano dos(as) estudantes,

58 no qual o(a) professor(a) cria um ambiente favorável para o surgimento de variadas perguntas. Porém elas também são feitas em outros contextos, mesmo que sob a forma de resistência.

Vale destacar que uma pergunta como “qual o número atômico do carbono?” pode ser considerada inusitada dependendo da situação de interlocução. Se um(a) professor(a) não espera que aquela pergunta seja feita ou que ele(a) não saiba a resposta e isto o(a) desafie de alguma forma podemos entendê-la como inusitada, incomum e inabitual. Este tipo de pergunta costuma desafiar o(a) professor(a) pois, muitas vezes, ele não tem uma resposta de imediato para dar ao(à) aluno(a), podendo causar temor e insegurança. Segundo Freire e Faundez (2017):

A curiosidade do estudante às vezes pode abalar a certeza do professor. Por isso é que, ao limitar a curiosidade do aluno, o professor autoritário limita a sua também. Muitas vezes, por um outro lado, a pergunta que o aluno, livre para fazê-la, faz sobre um tema, pode colocar ao professor um ângulo diferente, do qual lhe será possível aprofundar mais tarde uma reflexão mais crítica. (p. 64 e 65).

Mas será que, enquanto professores, deveríamos temê-las, considerando-as como um problema? Ou deveríamos usá-las a nosso favor, aprofundando nas reflexões que nos levam a construir conhecimentos? De acordo com Freire e Faundez: “[...] a inquietação dos estudantes, a sua dúvida, a sua curiosidade, a sua relativa ignorância devem ser tomadas pelo professor como desafios a ele” (2017, p. 64).

Macedo (1999) faz uma distinção muito interessante entre exercício e problema. Para ele, o exercício pressupõe uma habilidade prévia e o ato de exercitar seria a repetição desta habilidade que não é um fim em si mesmo, mas meio para outra finalidade. Já o problema exige solução, decisão diante de situações que não eram esperadas. Mesmo que se conheça a forma do problema, não se sabe seu conteúdo. É, portanto, desafiador. Nas palavras do autor:

Em síntese, exercício é o repetir, como meio para outra finalidade: por exemplo, caminhar para promover um trabalho cardiovascular. Problema é o que surpreende nesse exercício, é o novo, o que supõe invenção, criatividade, astúcia. É certo, também, que, dependendo da forma como é proposto, o exercício pode configurar um problema (MACEDO, 1999, p.4).

Neste sentido, podemos compreender as perguntas inusitadas como problemas, desafios que nos são apresentados na sala de aula e para os quais, nós professoras e professores, não estamos preparados(as).

Macedo (1999) enfatiza a importância de diferenciar exercício de problema e indaga o que seriam as questões (perguntas) dentro desta perspectiva.

59 Seria então possível perguntar se as questões são formas de exercício ou de problema, aliás, uma boa pergunta. Há questões que têm sentido de questão, mas há outras, por exemplo, que propõem cópia ou algo não desafiador. Ou seja: uma pergunta pode ter várias intenções: pedir conselho, falar mais sobre o assunto, suspender um juízo sobre o que está sendo analisado, fazer comparações. Certas questões sugerem bons problemas, outras não. Por exemplo, há questões que propõem bons problemas para o professor, mas não necessariamente para os alunos a quem são dirigidas. O importante é que a questão faça gerar um desejo ou uma necessidade que só o trabalho de encontrar uma solução possa satisfazer. É fundamental, ainda, que a questão proponha um desafio que possa proporcionar ao sujeito que o experimenta algo no mínimo original, criativo ou surpreendente. Convenhamos, na escola nem sempre sabemos fazer isso (p.4).

Embora Macedo (1999) atribua o mesmo sentido para as palavras pergunta e questão é interessante tecermos um comentário a respeito. Pesquisando sobre a etimologia da palavra questão, do latim quaestĭōne, significa “procura; interrogatório; questão; inquérito; problema; tema; inquérito judiciário; informação” (MARTA, 2011). Isto nos mostra que a origem da palavra questão está relacionada ao âmbito judicial e por mais que esta palavra seja utilizada muitas vezes como sinônimo para pergunta, as origens destas duas palavras são bastante distintas. Esta talvez seja uma hipótese do por que ao buscar trabalhos sobre perguntas em sala de aula utilizando a palavra-chave questão, encontramos trabalhos que se referem ao sentido mais amplo de: assunto, ponto, tópico a ser discutido, aspectos, tema de debate, problema (MARTA, 2011). Apesar disso, na área da educação ela adquire outro sentido, sendo sinônimo de pergunta, dúvida, questionamento.

Como os sentidos para a palavra pergunta são diversos, buscaremos relacionar alguns conceitos da análise de discurso para delinear de forma mais embasada uma proposta conceitual para o termo perguntas inusitadas.

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