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SYSTEM DEVICE SUBROUTINE FOR DISK -- DISKZ Phase ID: @DZID

Dans le document Program Logic (Page 146-200)

Um dos conceitos trabalhados por Certeau é o de lugar para ele o mesmo indica estabilidade, centralidade, os espaços só se formulariam enquanto tal a partir da existência de um lugar. São nos espaços que a trama acontece, onde se dá as relações que costuraram as trajetórias de vidas e onde se capta os modos de fazer, a forma de agir de casa indivíduo.

O diferenciador maior entre o espaço e o lugar é a apropriação que o sujeito faz dele. Segundo Certeau, espaço realiza-se enquanto vivenciado, é o ato, o lugar onde

ocorre a ação de indivíduos. Quando se projeta uma cidade está sendo criado um lugar, e as pessoas que por ali transitam transformarão este lugar em espaço.

A respeito da paisagem, Schama dá sua clara definição: “Paisagem é cultura antes de ser natureza; um constructo da imaginação projetado sobre mata, água, rocha”.43

Assim sendo, “uma árvore nunca é apenas uma árvore. A natureza não é algo anterior à cultura e independente da história de cada povo. Em cada árvore, cada rio, cada pedra, estão depositados séculos de memória”.44

Todo espaço existe a partir de um lugar, assim como, para Halbwachs, toda memória individual existe a partir de uma memória coletiva, percebe-se aí uma relação onde um está intimamente ligado ao outro.

Até estabilizar-se definitivamente na cidade de Caicó, Baia havia passado por alguns outros lugares. Mesmo sendo natural da referida cidade a vida fez com que ela perpassasse por outras cidades da região. Por fim, ao retornar a Caicó, Baia encontrara- se novamente com o seu eu, resgatou sua identidade, formulou sua história e construiu o seu espaço. O espaço, formado a partir da vivência de um lugar, é onde habita o homem ordinário.

A construção de espaços está intrinsecamente ligada à formulação da memória. As narrativas de Baia remetem a construção de um espaço que se transformou em lugar, um lugar de memória. “O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória”45

. O contar histórias é algo natural no cotidiano de Baia, reforça-se a história para que ela não seja esquecida, para que todo o transtorno e frustração passados não tenham sido em vão.

O espaço humano é, em qualquer período histórico, resultado de uma produção. “O ato de produzir é igualmente o ato de produzir espaço”. O homem, que devido à sua própria materialidade física é ele mesmo espaço preenchido com o próprio corpo, além de ser espaço também está no espaço e produz espaço.46

Sendo um objeto de estudo trabalhado por Certeau, o homem ordinário enquadra-se como aquele que está em todos os lugares e não está em lugar nenhum. É

43

SCHAMA, Simon. Op. Cit. p. 70

44

Afirmação presente na contra capa do livro Paisagem e memória.

45

NORA, Pierre. Op. Cit. P. 7

46

BARROS, José D'Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004.

um ser astuto que consegue tirar vantagens do lugar no qual está inserido, aproveitando- se dos pequenos deslizes a fim de captar algo para o seu proveito. O mesmo não está fixo em um lugar, são “nômades” que estão sempre em busca de pequenas brechas no espaço.

Então, homem ordinário é todo aquele (indivíduo, grupo, etc.) que consegue fugir, escapar, burlar ou usar em seu proveito um olhar, um enquadramento, uma determinação, uma ação estratégica, um espaço totalizador ou um olhar universalizante através de movimentos e ações táticas, inventivas, astutas burlando, usando e desviando dos choques com o ‘poder’, (re)inventando olhares, lugares e determinações em proveito de outros interesses e desejos. Inventando assim outros espaços, provisórios é certo, de movimentação e de ação, de visibilidade e dizibilidade e de combate. Enfim, o homem ordinário é cada um e ninguém, é uma personagem disseminada, caminhante inumerável, inclassificável.47

Baia, enquanto “sujeito ordinário”, sempre que possível se fazia presente nos mais diversos lugares, porém, sua presença não era de todo notada. Com o passar do tempo e sua inserção nos meios religiosos sua imagem passou a ter maior visibilidade, o que era uma constante, imutável, passou a ser agora uma variável.

O que a torna um personagem singular é o fato de que mesmo ganhando seu reconhecimento enquanto tal, Baia não deixou de ser aquela que estava as margens. Uma mulher negra que se destacou por sua perseverança, religiosidade e canto e que em momento algum saiu do lugar no qual se encontrava, nas margens da sociedade, por reconhecer aquele espaço como seu, algo pertencente a sua história.

Tomando por base o pensamento de Certeau no tocante ao modo como o homem ordinário é visto por si só e pelos demais temos que:

O homem ordinário desempenha aqui ainda o papel de um deus que se pode reconhecer por seus efeitos, mesmo acanalhado e confundido com o comum supersticioso: fornece ao discurso o meio de generalizar um saber particular e garantir por toda a história a sua validade.48

47

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4º ed. São Paulo: Edusp, 2003.

48

A linguagem define não só seus preceitos, mas sua historicidade. Neste segmento há uma inversão de perspectiva, a atenção desloca-se para o “homem ordinário”, que, ao contrário do convencional, cria o seu cotidiano utilizando dos seus meios disponíveis. Essa invenção do cotidiano se dá devido às “artes de fazer”, as astúcias e o modo de operar do indivíduo, sua persuasão e habilidade de se sobressair de determinadas situações do dia a dia. O estudo do cotidiano seria uma análise das práticas em ação, uma análise das práticas comuns e principalmente a forma narrativa dessas práticas.

O cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão no presente. [...] O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. [...] É uma história a caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. [...] Talvez não seja inútil sublinhar a importância do domínio desta história “irracional”, ou desta ‘não história’, como o diz ainda A. Dupont. “O que interessa ao historiador do cotidiano é o Invisível (...).49

Desta forma, a análise do cotidiano se faz a partir de práticas cotidianas e das maneiras de fazer como falar, ler, circular, comprar. São as práticas microscópicas que interessam a Certeau, assim como as pequenas resistências do indivíduo.

O trocar experiências e a arte da oferenda fazem parte das práticas tradicionais africanas. Em entrevistas com Dona Baia foi possível sentir a arte da oferta em sua narrativa, a troca, não dita de forma verbalizada, mas sentida a partir de gestos.

Baia, além do campo religioso, inseriu-se também no âmbito político, participava ativamente de comícios onde abraçava a campanha junto ao seu candidato e cantava durantes as passeatas alguns de seus jingles.

Caicoense brabo 15 de Novembro vamos todos votar vamos votar com Vivaldo para prefeito para melhorar

após tanto tempo o nosso povo vai se libertar ele não queria queria mas Dinarte quis e resolveu ficar

49

Dr. Vivaldo com essa luta triunfante tem todo estudante e trabalhador essa vitória é de gente consciente e foi Deus onipotente que lhe mandou

não promete nada nós já sabemos a quem tem a dar trabalho e honestidade, dedicação vai nos ofertar com a nossa ajuda o estudante vai se transformar

Dr. Vivaldo é do povo e no meio ele vai ficar

Dr. Vivaldo é do povo e no meio do povo é o seu lugar.50

Segundo a personagem, suas composições eram gratuitas, ela não cobrava nada por elas, cantava nas passeatas por amor ao partido e a bandeira vermelha (cor que repersentava o partido). Percebe-se aí um apego partidário, não tanto ao representante, mas a cor da bandeira. “Quem eu gostava de abraçar na política chama Vivaldo Costa, mas eu soube que agora ele é bacural”51

(cuspiu no momento em que disse isso).

Há uma contradição em sua fala quando indagada sobre as eleições, a mesma afirma não ir votar nas próximas campanhas pelo fato dos candidatos atualmente não darem mais nada ao eleitor, diferente de antigamente.52 Baia afirma nunca ter recebido ajuda de políticos, quando na verdade a casa que mora há quase quarenta anos foi paga em partes por um político.

Ao casar-se com o primeiro esposo ambos haviam dado entrada em uma casa e pagavam a quantia de dez cruzeiros por mês. Alguns anos após a aquisição da casa o esposo de Baia veio a falecer, e as prestações da casa passaram um ano sem vir, até que, quando enfim chegaram, foi com o valor correspondente ao ano todo. Sem ter como quitar a dívida, a maneira mais fácil encontrada por Baia foi solicitar a ajuda de um político candidato a época das eleições.

Quando fez um ano chegou o papel pra pagar um ano todin de uma vez. Quanto dava? Dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, cem, cento e vinte cruzeiro. Aí pronto, fui pra convenção dos partidos de Wanderley Marisco e ele disse: não Baia depois nóis acerta isso. Aí ele pagou o que eu tava devendo e eu não paguei mais não. (sic)53

50

Autoria de Maria José da Silva.

51

Maria José da SiIva, 70 anos, entrevista realizada dia 05 de Dezembro de 2015.

52Observações registradas em caderno de campo. 53

Constata-se por meio de seu depoimento uma forma de benefício recebido pela mesma em tempos de eleições políticas, o que aparece como um momento onde há a possibilidade do “sujeito ordinário”, que está sempre à procura de algo que possa te beneficiar, tirar dali algo para o seu proveito. Analisa-se todos meios possíveis de se inserir no meio e tirar da situação algo de proveito para si.

O contraste presente no testemunho de Baia nos mostra como a memória é lacunar, o ato de desnarrar tanto pode ser uma falha da memória como uma maneira de voltar atrás no que disse outrora.

À medida que a gente envelhece vai perdendo a memória do presente. Acho que falhei em certas ocasiões, mas falhei porque era muito moça; O bom senso vem quando a gente é mais velha. É por isso que se tem que ter paciência com os moços. Não me arrependo da compreensão que tive”.54

54

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Chegamos aos final deste trablho com sentimento de dever cumprido para com a sociedade, a personagem em estudo, e a academia. A gratificação se dà diante da conclusão da pesquisa, tendo em vista o àrduo, porém prazeroso, onde, cada nova descoberta surgia como um novo estimulo para sua concretização.

Esta pesquisa é apenas um laboratório na área das singularidades, tendo em vista a quantidade e a qualidade do material disponível para demasiados estudos e o que ainda falta ser pesquisado. Observamos que as subjetividades do indivíduo vão além do que foi trabalhado aqui, é um vasto campo que permite ser analisado a partir de diferentes olhares e perspectivas. O indivíduo e suas singularidades dispõe de material para pesquisas no tocante a História Cultural, História Local e História Social, assim como para outras linhas.

No decurso das entrevistas, percebemos que, por vezes, as narrativas de Baia adquiriam um ar alegórico, soando como algo fantasioso a quem ouve; o que não agride a “veracidade” dos fatos, mas se caracteriza apenas como uma tentativa de dar mais vivacidade e beleza a sua história, como não é nossa preocupação a constatação da veracidade de suas (des)narrativas, tomamos as supostas “fantasias” de seu discurso como uma tentativa de dar mais densidade aos seus momentos vividos, se caracterizando como mais uma das formas do “sujeito ordinário” se destacar.

O que propusemos aqui foi uma análise do indivíduo enquanto um alguém que se encontra nas camadas mais simples da sociedade. A importância deste trabalho se dá na valorização do indivíduo, na análise de mundo feita a partir de seu olhar e nas resistências do mesmo. O mundo para Baia é visto como um lugar bom, bonito, apesar da inveja e orgulho presente nas pessoas que nele habitam. Quando indagada a respeito da importância do presente trabalho representa para ela, obtivemos a seguinte resposta: “eu gosto que é pra saber que eu existo, [...] pra minha história não se perder”. A partir de sua resposta fica nítida a preocupação em se preservar um pouco da história de cada ser, independentemente de seus feitos para a sociedade ou um grupo, cada um, principalmente aqueles que vivem as margens e que não tem uma “posição” na sociedade, quando se deparam com algum interessado em estar sua história de vida se sente importante, digno de reconhecimento por ter sua história lembrada.

Por fim, concluímos que, utilizando um olhar micro para a compreensão do macro, a busca pela captação da problemática envolvendo o sujeito histórico não finda por aqui, ainda há mais a se pesquisar, novas perspectivas de análise sobre o indivíduo, suas artes de narrar e desnarrar, assim como o que pode nos proporcionar a revitalização de memórias. O estudo foi satisfatório por alguns bons motivos, um deles foi poder chegar ao final e vermos a alegria nos olhos de Baia, a satisfação por ter colaborado com a pesquisa que a tinha como objeto de estudo. Além do que, as descobertas a respeito das peculiaridades do sujeito histórico mostrou-se como algo inovador na perspectiva na qual o trabalho foi realizado.

O surgimento de uma problemática a partir de uma história “comum” mostra a grandeza por trás de casa “simples” pessoa. A beleza nos detalhes, nas sutilezas da vida.

FONTES ORAIS:

Maria José da Silva. 70 anos de idade. Natural da cidade de Caicó – Atualmente residente nesse mesmo município. Data de nascimento: 04.07.1945. Entrevistas em 01/10/2015, 31/10/2015 e 05/12/2015.

Maria Gabrielle Lúcio de Queiroz. 29 anos. Natural da cidade de São Bento – Estado da Paraíba – Reside atualmente na cidade de Caicó. Data de nascimento: 26/12/1985. Entrevista realizada em 05/12/2015.

REFERÊNCIAS:

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COSTA, Emília Viotti da. A dialética invertida: 1960-1990, Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 14, 1994.

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LE GOFF, Jacques. História e memória. 5 ed. Campinas, SP: UNICAMP 2003.

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NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo, 1984.

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