A discussão sobre o varejo serviu para demonstrar que não existe um conceito preciso que sirva de modelo para explicá-lo. No entanto, deve se considerar que as diferentes abordagens compartilham de algumas semelhanças, qual seja a venda a retalho e o atendimento ao consumidor final, devendo-se considerar que a falta de um consenso se dê em função dos diferentes tipos de negócios ou a forma como eles se organizam.
Por outro lado, se pode afirmar que o varejo é suscetível a uma variedade de temas, como a globalização, tecnologia, recursos humanos, comportamento do consumidor, política de crédito, inflação, os efeitos do tempo etc., assim como sugerem Balasubramanian & Peterson (2002, p.9):
Perhaps different definitions of retailing should be expected. Different definitions reflect different perspectives on retailing as well as the dynamic, changing nature of retailing. Indeed, given the changes that are taking place in retailing, any definition of retailing should probably be treated as context- and time-dependent.
Levando-se em conta todas essas restrições, uma tentativa de enquadramento do varejo do Moda Center deve ser lembrada, levando-se em conta que:
i) As empresas são do tipo do varejo com lojas, sem a predominância de alimentos. Aquelas dedicadas a venda de alimentos atuam como apoio ao varejo principal que está relacionado com a venda de confecções. Foram essas as empresas da pesquisa dessa dissertação, estando próximas do que Guidolin et al. (2009) descrevem como loja de especialidade, as que trabalham com uma linha de produto com maior ou menor especialização dentro dessa linha, como exemplo, lojas de vestuário;
ii) As empresas atuam de forma independente, quando o quesito venda direta é enfocado, embora estejam sujeitas aos ditames do condomínio do qual fazem parte;
iii) Quanto ao nível de serviço oferecido se aproximam, segundo Kotler e Keller (2006) do “Serviço completo”, na medida em que os vendedores estão prontos a atender todas as fases do processo de compra, e também da “Seleção”, onde os clientes encontram os produtos que querem comprar;
Vale ressaltar, além do enquadramento feito a partir do arcabouço do varejo, que o Moda Center possui algumas facetas que o diferenciam, tais como:
i) Presença de três tipos de vendedores de confecções: a) os que vendem apenas os produtos que fabricam; b) os que vendem apenas os produtos de outros fabricantes; c) os que vendem mercadorias de outros fabricantes e as que próprio produzem. Tem também os vendedores de serviços auxiliares como restaurantes, lanchonetes, pousadas e hotéis;
ii) As vendas são feitas a grosso ou a varejo;
iii) Os estabelecimentos são do tipo lojas e boxes, com o mesmo tamanho para os boxes, mas com diferentes tamanhos de lojas;
iv) Os dias de funcionamento da maioria dos estabelecimentos são apenas dois por semana, às segundas e terças-feiras, em regime de horário corrido que oficialmente ocorre das 7 às 18 horas e informalmente podendo se estender por mais tempo. Pouquíssimas empresas abrem nos demais dias. A essa característica pode-se dizer que seu formato é a semelhança do que ocorria com a antiga feira de comercialização da sulanca em dias e horários bem marcados;
v) Os compradores são divididos em dois grupos distintos: a) os que compram mercadorias em grande quantidade, geralmente a grosso, conhecidos como revendedores ou sacoleiros; b) os compradores individuais e/ou para seus familiares, não revendedores, que na maioria das vezes compra a varejo em pequenas quantidades;
vi) A principal forma de pagamento para as compras é o dinheiro, com pouca participação das compras a prazo com o uso do carão de crédito, como também, é diminuto o uso dos cheques;
vii) Existe uma forte sazonalidade nas vendas concentradas próximas ao meio do ano, antecedendo o São João, e a seu fim, no período natalino;
Registra-se que embora não seja o objetivo encontrar uma conceituação adaptada ao tipo de varejo que se pratica no Moda Center, a busca de uma conceituação que se aproximasse da prática varejista constatada no trabalho empírico faz amadurecer uma visão de que de fato há vários componentes naquele varejo que lhe são particulares.
Portanto, não deixa de ser curioso o fato de um moderno centro de compras como é o Moda Center, preservar características das antigas feiras semanais das
cidades brasileiras, concentrando as negociações em dois dias da semana, às segundas e terças-feiras. Outra similaridade com as feiras está no fato de que no restante dos dias, os empreendedores utilizam para fabricar a maioria dos produtos vendidos, assim como os pagamentos das compras são feitos, na maior parte das vezes utilizando o dinheiro, com reduzida participação no pagamento a crédito.
Vale ressaltar que a semelhança com as feiras livres é rompida radicalmente quando o destino das compras é enfatizado. Mesmo sendo maioria entre os compradores, os que fazem compra de forma individual e/ou familiar gastam em média menos do que os compradores revendedores, de modo que, em termos monetários, as vendas do Moda Center só se encerram em outros lugares, nesse ponto se aproximando mais do modelo de varejo conhecido como Atacarejo.
Desse modo, se faz necessário ampliar os conceitos vigentes de varejo, além mesmo do conceito de Atacarejo, para que se possa incluir neste conceito um espaço com características tão particulares, ficando, pois, o desejo e a sugestão de que novos estudos enfrentem esse desafio com sucesso.
5 ASPECTOS METODOLÓGICOS
Segundo Silva e Menezes (2005, p.19) “pesquisa significa, de forma bem simples, procurar respostas para indagações propostas”, podendo ser descrito como um conjunto de ações que se propõem encontrar soluções para um problema, tendo por base procedimentos racionais e sistemáticos.
A pesquisa que fundamenta este estudo baseou-se em extensa pesquisa bibliográfica e em um levantamento de dados primários no Moda Center, realizado entre os dias 15 e 16 de setembro de 2012. A pesquisa de campo foi realizada com a oferta e a demanda operante no Moda Center e a realização de entrevistas não estruturadas com dirigentes do Centro de Compras. Foram aplicados dois questionários, um junto a 299 vendedores e outro a 409 compradores, dos quais, 220 compradores para uso próprio e/ou da família e 189 compradores revendedores.
O levantamento de dados desenvolvido, do ponto de vista de sua natureza, foi uma pesquisa aplicada, cujo objetivo é o de gerar conhecimentos para aplicação prática, dirigidos à solução de problemas específicos (Ibidem, p.20).
Quanto a forma de abordagem do problema, a pesquisa pode ser classificada como quantitativa, o que significa, de acordo com Kauark, Manhãs e Medeiros (2010, p.26), que se pode traduzir em números as opiniões e informações levantadas de forma a poder classificá-las e analisá-las, requerendo o uso de recursos e técnicas estatísticas.
A pesquisa realizada no Moda Center também é descritiva cujo objetivo está na “descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis” e uma de suas marcas mais significativas está na utilização de técnicas padronizadas de coleta de dados (GIL, 1989, p.45).