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Section 2. Bruno Latour : le détour par l’articulation de nos attachements pour poser le problème

2. Deuxième figuration (attachements)

pelos preços baixos dos aluguéis e pela movimentação do local. Sua primeira coleção foi lançada na base do susto da inauguração da loja: comprou tecido, fez alguns vestidinhos, que são o forte e a marca registrada da loja, e se jogou.

A paixão e o interesse por moda são antigos. Seu tio era representante de marcas, a pri- ma era estilista, outra prima trabalhava com a renomada estilista Glória Coelho e o avô era dotado de talentos manuais para esse ramo, fazia cinto e carteira de couro. Se você herda aquilo com o que você convive diariamente, Cíntia herdou a paixão por moda. Começou aos 18 anos trabalhando como vendedora de loja em shopping, mas já almejava vôos mais altos. Apesar de não saber costurar, ela garante que para desenvolver uma coleção não é necessário dominar linha e agulha. Segundo ela, é preciso ter bom gosto, conhecimento e saber vender. Afinal, de nada adianta fazer o produto mais lindo do mundo, mas não saber vendê-lo. E Cíntia sabe como vender.

A fachada da loja confunde-se facilmente com a de um american bar do Baixo Au- gusta. O letreiro luminoso em neon vermelho com o nome da grife também estampa as palavras “Sex” e “Drinks”, acompanhado do desenho de uma pin-up mergulhada em um copo de Martini com azeitona. Em seu interior, a “Santa do Cabaré” é uma extensão do aconchego da sala de casa. A loja tem papel de parede florido vintage, poltrona de onci- nha, televisão e telefone retrôs, e as Andrews Sisters cantando no aparelho de som. As roupas nas araras são milimetricamente bagunçadas entre lenços, assessórios e os sapatos Melissa. Até parece o closet da sua melhor amiga, daquela que você adorava pegar roupas emprestadas.

- Hoje, para sobreviver com a concorrência dos produtos chineses, das grandes marcas e do Bom Retiro, é preciso um diferencial, uma identidade. – ela comenta enquanto se ajeita na poltrona de oncinha.

Tanto a decoração quanto as peças da loja exalam um perfume retrô, único. A “Santa do Cabaré” aposta na originalidade e na autenticidade para ter o seu diferencial. A equipe da marca é responsável pelo desenvolvimento desde o desenho das peças até a modelagem e a estamparia. Tudo para “sair da mesmice” e oferecer looks que não são encontrados facilmente por aí.

Na Santa, cada peça de roupa é uma história. É que Cíntia equivale a moda a um en- redo de escola de samba: tem um tema, que é o samba enredo, e a partir daí desenvolvem- -se as fantasias. Por isso, cada coleção sua tem um tema. Agora é a vez de Eva Perón ser lembrada em estampas florais e tweeds pendurados nas araras. Antes dela, teve a Bossa Nova, que foi homenageada na estampa Nara Leão, nas cores Elenco (nome da célebre gravadora responsável pela produção de algumas das principais vozes de Bossa Nova), Meditação e Corcovado. Já teve coleção cujas estampas foram baseadas em azulejos. Ou-

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A sul-mato-grossense tem o desejo de sempre contar novas histórias, e se irrita com o repetitivo cenário atual dos fast fashion. “Não aguento mais essa onda de rock na moda! Já chega, já deu! Vamos passar para outra história, assim as pessoas podem saber que exis- tem outras coisas”, debocha. O desânimo de Cíntia devido à disseminação de uma moda “vazia” e “massificada” também se estende à Ouro Fino. Ela sai da sua loja, caminha pelo segundo andar e lamenta: “antes aqui tinha um mix de produtos diferentes para vários públicos, hoje é um festival de caveira, camisa xadrez e camiseta de rock. É o ‘produto do momento’, o fast fashion”.

De 2009 pra cá, uma crise vem assombrando a Ouro Fino. Os altos preços dos alugueis somados à falta de público e investimento em marketing tem mudado o perfil da galeria. Sem uma identidade definida, a Ouro Fino vai distanciando-se da moda alternativa de galerias como a Bond Street, em Buenos Aires, ou o Mercado de Fuencarral, em Madrid, nos quais cultura e moda dialogam em uma mesma linguagem.

- Tem muita gente que abre lojas aqui e compra roupa no Bom Retiro, no Brás, na 25 de Março... Aí tira a etiqueta e substitui por uma da sua marca. Ou então a pessoa pega o ponto de alguém, e procura o produto igual ao que era vendido na loja anterior –, relata.

Se hoje a moda é efêmera e o que vale é ter estilo, Cíntia não usa rótulos para deno- minar o seu. Também nunca programa o que vai vestir. Mas uma coisa é certa: ela sempre estará usando uma peça de sua grife. “Se eu não acredito em mim, quem vai acreditar?”, esclarece. Como uma Coco Chanel – que revolucionou a moda feminina ao optar pela praticidade das vestimentas do guarda-roupa masculino – às avessas, Cíntia não abre mão de um vestido. E sabe como usar um. Ela propõe a “volta à feminilidade”, sem deixar de lado a praticidade de Mademoiselle Chanel: “O vestido é uma peça única, você coloca e não precisa ficar pesando muito!”, diz. Seu favorito é o vestido multiuso, peça patenteada feita para usar de várias maneiras, como frente única, decote canoa, tomara-que-caia, um ombro só, decote em “V”... De rosto lavado, livre de brincos ou qualquer outro acessório, sandálias nos pés e um vestido de estampas geométricas e transparências, revelando uma tatuagem em seu braço esquerdo, ela admite:

- Quando você me vir de calça jeans é porque eu não tenho roupa passada, aí eu pego o jeans e pronto!

Ela transmite um ar urbano e moderno, que nunca revelariam as origens da moça cria- da na fazenda. Sua mãe veio estudar em São Paulo sem saber que estava grávida. Deu a luz à Cíntia, e quando a garota tinha um mês de vida, levou-a para o Paraguai, para crescer ao lado dos avôs e tios, no meio do mato. A menina morou na fronteira até os 13 anos, e então veio para São Paulo. Suas raízes rurais ficam evidentes enquanto ela cantarola uma polca Paraguaia e descreve, com saudades na voz, como eram as festas na fazenda, que chegavam a durar até três dias. Mas do que Cíntia mais sente falta é do churrasco e do avô.

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