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PLATÃO, Protágoras. Coleção Diálogos. Tradução por Carlos Alberto Nunes. UFPA, 2002. p. 58.

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Descrito pela mitologia grega e exposto em A República por Glauco, de 359d a 360d, o mito de Giges47 pode ser resumido da seguinte forma: Giges era um pastor a serviço do rei da Lídia. Por conta de um grande temporal que acompanhou um tremor de terra, o solo se abriu, formando-se uma fenda no lugar em que ele levara para pastar o seu rebanho. Ao deparar-se com o ocorrido, entrou na abertura e viu, entre outras maravilhas, um cavalo de bronze, oco e com portas em seus flancos. Ao abrir uma dessas portas, Giges viu o esqueleto de um gigante, inteiramente despido, com um anel de ouro à vista, em uma das mãos. Giges retirou o anel e retornou.

Na reunião habitual em que os pastores apresentavam ao rei o relatório mensal do estado dos rebanhos, Giges compareceu com o anel no dedo. Sentado entre os demais presentes, virou a pedra do anel para a palma da mão. Imediatamente se tornou invisível, sem que deixasse de ouvir e ver todos os que ali estavam, entretanto. A pedra do anel, quando volvida para fora, tornava- o visível novamente.

Valendo-se desse recurso, trabalhou para ser um dos mensageiros do rei. Quando chegou à corte, seduziu a rainha e, com a sua ajuda, matou o rei, apoderou-se do trono e casou-se com ela, assumindo o poder.

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Para abordar esse mito, utilizamo-nos das referências em A República, Glauco, 359d a 360d, e também em PUGLIESI, Márcio. op.cit., p. 251-252.

Glauco assevera que na hipótese de haver dois anéis iguais, sendo um deles usado pelo homem justo e o outro pelo injusto, ninguém, absolutamente, segundo o que tudo indica, revelaria resistência para conservar-se fiel à justiça.

Ao narrar o Mito de Giges, Glauco demonstra acreditar que ninguém é justo por livre iniciativa, mas por coação. Este mito é exposto no Livro II de A República, sendo rebatido no Livro X com o Mito de Er, que demonstra a impossibilidade de corromper os deuses e ensina a necessidade de praticar a justiça.

3.5 O Mito de Er

Disposto no Livro X de A República, de 614b a 621b, o Mito de Er, Platão demonstra que é preciso praticar a justiça para fortalecer a alma, sob pena de, caso não praticarmos na vida atos justos, sermos castigados pelos deuses futuramente.

Er, filho de Armênio, morreu em combate. No décimo dia, quando recolheram os corpos em começo de putrefação, o corpo de Er

encontrava-se em perfeito estado. Ao ser colocado na pira48, Er reviveu e contou o que viu no outro mundo. Disse que quando sua alma saiu do corpo, partiu em companhia de muitas outras pessoas e foram parar em um lugar maravilhoso com duas fendas na terra e duas fendas no céu, ambas contíguas. Entre essas duas fendas, estavam sentados alguns juízes que anunciavam a sentença. Os justos deveriam caminhar para a direita, rumo ao céu, com suas sentenças estampadas no peito, os injustos encaminhavam-se para a esquerda, ladeira abaixo, sendo que, também, levavam nas costas o relato de quanto haviam praticado.

Quando Er se aproximou dos juízes, estes lhe disseram que ele havia sido escolhido como mensageiro para os homens e lhe recomendaram ouvir e observar tudo que se passasse à sua volta.

Er notou que as almas, depois de julgadas, dirigiam-se para uma das aberturas do céu ou da terra. Das outras duas fendas saíam de contínuo novas almas. As que vinham da terra apareciam exaustas e empoeiradas, as que vinham do céu estavam limpas e alegres.

Em levas ininterruptas, todas as almas pareciam chegar de uma longa viagem. Se reuniam no prado, onde acampavam como num festival; as que se conheciam, cumprimentavam-se. Tanto os que estavam no céu como os que estavam na terra perguntavam o que havia se passado nos distintos

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A pira era uma fogueira onde se queimavam os cadáveres, também era chamada de pira funerária.

lugares onde não estavam. Os relatos recíprocos davam conta de que na terra as almas que lá estavam sofriam muito, lágrimas e gemidos davam o tom dos relatos. Por seu turno, no céu as almas relatavam suas vivências celestes, de inconcebível beleza.

Pelas faltas cometidas, as almas eram castigadas, por ordem e individualmente. A punição equivalia ao décuplo do crime cometido. Deste modo, quem fosse criminoso de muitas mortes ou houvesse traído cidades ou exércitos e os reduzisse a escravidão, ou fosse cúmplice de alguma malfeitoria do mesmo gênero, por cada crime sofreria dez vezes mais. Por outro lado, os que só espalharam benefícios e viveram de forma justa, eram recompensados na mesma proporção. Entre os principais tiranos que passaram pela história antiga, Er narra que a maioria não se encontrava nem no céu nem no inferno.

O mito de Er, disposto no último livro de A República, mostra que é necessário ser justo para não ser punido. Esse mito refutará o posicionamento de Glauco em relação ao Mito de Giges. Para Platão não seria possível comprar os deuses a fim de que ignorassem os atos injustos praticados em vida; além disso, aqueles que não seguirem o caminho certo serão punidos em vidas futuras.

PARTE II - DESENVOLVIMENTO