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Detailed Analysis – Qualitative Phase

Donald Pierson era estudante de sociologia na Universidade de Chicago e seu orientador foi o famoso Robert Park, líder na escola de sociologia de Chicago. Park e a escola de Chicago advertiam sobre a importância do trabalho de campo e da observação etnográfica em primeira mão. Pierson teve uma relação particularmente estreita com Park e sua mulher, a quem

se referia como “mãe”.3 A influência de Park sobre Pierson e estudiosos posteriores da Bahia não pode ser subestimada: seu incentivo foi funda- mental para Pierson estudar o Brasil, assim como foi seu aconselhamento a Ruth Landes nos preparativos para a viagem à Bahia em 1937. E. Franklin Frazier – ex-aluno de Park que se tornou sociólogo proeminente – chegou à Bahia em 1940. Cada um desses visitantes veio moldado pela orientação de Park, mas, ainda mais importante foi o acesso aos contatos de Pierson, seus conselhos e seu estudo sobre a formação das relações raciais na Bahia. Pierson proveu seus colegas norte-americanos com cartas de apresenta- ção à intelectuais locais, tais como Arthur Ramos e Edison Carneiro, bem como a muitos outros amigos baianos. Além disso, seu Negroes in Brazil: a study of race contact at Bahia (1942) tornou-se leitura obrigatória para todos os pesquisadores estadunidenses posteriores. E após ser traduzido para o português, em 1945, sua influência foi profunda também no Brasil. As conclusões de Pierson, particularmente as que salientaram a excepcio- nal harmonia racial da Bahia, ecoaram em estudos posteriores e foram a pedra angular para a percepção internacional sobre a Bahia.4

Pierson conduziu a pesquisa sobre os negros brasileiros na Bahia entre 1935 e 1937 e concluiu que essa era uma sociedade extremamente bem ajus- tada em termos de relações raciais. Em dezembro de 1934, quase um ano antes de chegar ao Brasil, ele descreveu em seu projeto: “Meu trabalho é o centro da Bahia, o antigo porto para a imigração forçada de africanos e o locus do primeiro contato do português com os indígenas. Minha principal preocupação é com o contato, a adaptação e a integração entre brancos e ne- gros, com particular interesse na presente conformação racial”.5 Essa ideia de adaptação e integração, presente ao longo de sua obra, foi, sem dúvida, 3 Ver, por exemplo, Donald Pierson para Mrs. Robert Clark, 22 de julho de 1939, DPP, pasta 62. 4 Depois de completar sua pesquisa na Bahia, Pierson aceitou um cargo de professor em São

Paulo e foi correspondente ativo e conselheiro no desenvolvimento de campo brasileiro da Sociologia. Embora tenha sido tremendamente influente na formação de concepções sobre a Bahia e no posterior incentivo a pesquisas de norte-americanos no Brasil, seu legado per- manece, em grande parte, não examinado. Para exceções importantes a essa tendência, ver especialmente Guimarães, “Cor, classes e status nos estudos de Pierson, Azevedo e Harris na Bahia: 1940-1960”; Guimarães, “Classes sociais”; Bacelar, A hierarquia das raças: negros e

brancos em Salvador, cap. 3; e Corrêa, História da antropologia no Brasil (1930-1960): testemunhos Emílio Willems, Donald Pierson..

moldada por sua consternação com o que via como o modelo mais anta- gônico das relações raciais nos Estados Unidos, e pela experiência forma- tiva no sul daquele país. Por recomendação de Park, Pierson preparou-se para a pesquisa com uma estada na Universidade Fisk, a HBCU6 sediada em Nashville, uma experiência que Park também sugeriria a Ruth Landes. Pierson passou a acreditar que essa passagem por uma faculdade negra do Sul tinha-lhe despertado para a discriminação enfrentada por negros nos Estados Unidos. A comparação implícita com o sistema de segregação nos Estados Unidos iria moldar, em grande parte, sua obra no Brasil.7

Chegando ao Rio de Janeiro em meados de 1935, Pierson rapidamente fez contato com Arthur Ramos, que lhe forneceu outras cartas de recomen- dação para a Bahia, em que o apresentava como estudioso dos “elementos étnicos de origem africana”.8 É possível que Ramos compreendesse mal o projeto ou que Pierson o tivesse desvirtuado (talvez em decorrência de problemas de tradução), mas o fato é que quaisquer tendências a estudar as origens africanas haviam sido desaconselhadas por seus orientadores, e não só Park, também os outros membros de sua banca examinadora, os an- tropólogos Robert Redfield e Louis Wirth. Como Park lembrou-lhe insis- tentemente no início de 1936, “este é, como observou Redfield, um estudo das relações raciais e não das origens de restos de cultura africana como ainda existem no Brasil”.9

Pierson estabeleceu-se na Bahia e em fevereiro de 1936 começou a en- viar relatos periódicos à sua banca. Embora suas declarações iniciais indi- quem a existência de problemas raciais, estas concepções parecem ter sido modificadas ao longo do tempo. Num dos primeiros relatórios, inquieta- va-se que seus amigos baianos, que haviam insistido na ausência de pre- 6 HBCU ou Universidades e Faculdades Historicamente Negras, grupo do qual faz parte a Uni- versidade Fisk, são instituições que foram criadas nos EUA depois da guerra civil e têm como foco a inclusão de negros no ensino superior.

7 Donald Pierson para Robert Redfield, 15 de maio de 1935, DPP, pasta 61. Para o impacto dessas comparações sobre estudos de raça no Brasil, ver especialmente Seigel, Uneven encounters:

making race and nation in Brazil and the United States; e Seigel, “Beyond compare: comparative

method after the transnational turn”.

8 Pierson contou com numerosos apoios para reunir um número substancial de cartas de apre- sentação, incluindo várias de Anísio Teixeira e Gilberto Freyre. Veja a correspondência selecio- nada em DPP, pasta 62.

conceitos, começassem “a reconhecer que tal descrição é somente teórica, que, na realidade eles não aceitam o negro em um plano de igualdade social completo”.10 Surpreendentemente, no entanto, Pierson relegou essa in- formação a uma nota de rodapé, o mesmo tratamento que daria também em seu livro. No final, o preconceito que ele percebeu na Bahia, frequen- temente relatado em seu detalhe etnológico, seria abandonado por outro enfoque teórico sobre classe, status e cor.

A ideia da Bahia como sociedade “culturalmente passiva” era central para a abordagem de Pierson. Essa visão era herdada de Park, que defendia que a vida nessas sociedades se mantinha “na mesma rotina tradicional e ininterrupta… [onde mudanças se operam] num movimento impercep- tível”.11 Já no início de seu livro, Pierson enfatizou que a Bahia não havia sofrido quaisquer mudanças históricas e sociais significativas no passado recente. O modo de vida baiano, segundo ele, continuava a ser moldado por estruturas coloniais. Como descreveu,

a ordem social ainda é relativamente estável. Pouca mudança tem havido. Salvador, como vimos, é uma cidade relativamente velha, bem consciente e orgulhosa de suas antigas tradições. O compor- tamento costumeiro, originalmente, desenvolvido em resposta às necessidades da vida colonial, ainda persiste e orienta a vida, quase pelos mesmos velhos e familiares caminhos [...] A Bahia é, pois, uma área ‘culturalmente passiva’, possuidora de uma estabilidade e uma ordem que relembram a Europa da Idade Media. É, de fato, em certos aspectos, uma cidade medieval.12

Na Bahia, Pierson encontrou relações sociais favoráveis, em compara- ção com cidades do mesmo tamanho nas “sociedades industriais”. A Bahia não tinha as tensões do mundo industrial, ao contrário, assemelhava-se mais a “uma aldeia cheia de mato”. Longe de considerar a modernização necessária, Pierson observou que essa sociedade estática havia produzido uma “ausência da maioria das formas de conflito”. Seus comentários in- trodutórios alertavam os leitores que “em toda esta exposição, aparecerá 10 Relatório no. 3, 19 de junho de 1936, DPP, pasta 62.

11 Park, citado em Pierson, Brancos e pretos na Bahia: estudo de contacto racial, p. 61-62. 12 Ibid., p. 61-62.

um mínimo de conflito racial”.13 Em sua visão, Salvador, embora fosse uma cidade profundamente dividida, conseguia evitar tensões raciais devido à tenacidade com que mantinha a tradição e evitava as mudanças. Sua po- sição estática, medieval, no meio do mundo moderno e industrializado, guardava o segredo daquela harmonia.

Apesar destas repetidas afirmações de harmonia, indícios de gritantes desigualdades raciais existem no relato de Pierson. Ele ressaltou que a clas- se baixa era principalmente, nos termos dele, “preta” e “mulato escura”, e que os brancos dominavam a elite. Observou que a elite vivia nos cumes da cidade, e que

circulam principalmente nessas áreas os cinco jornais... Ali se en- contram os donos de quase todos os 3855 telefones, 1028 automó- veis, e dos rádios e bibliotecas particulares da cidade. Ali o apego ao candomblé, ou culto afro-brasileiro, é mínimo, e a crença cató- lica é menos modificada por outras tradições religiosas. Ali vive a parte da população a que o ‘povo’ chama de ‘ricos’.

Havia, segundo ele, uma grande “barreira social” entre ricos e pobres, difícil de superar. Um visitante na cidade notaria que “esta segregação, de acordo com as classes econômicas e educacionais, obedece de maneira geral – embora com algumas exceções importantes – às diferenças de cor da po- pulação”. Pierson acreditava que “essa segregação é em grande parte devida à circunstância de que a cor e as classes tendem a coincidir”. De acordo com esse autor, isso era compreensível dada a recente experiência da escravidão, mas afirmava que uma “consideração importante é a de que não existe, na Bahia, ao que parece, esforço proposital de segregar as raças a fim de manter distinções de casta”.14 Pierson, familiarizado com discriminação racial ex- plícita que conhecera nos Estados Unidos, sofreu para compreender uma sociedade na qual o racismo não resultou em segregação legal, mas afetou a população de outras formas. No entanto, como ele mesmo observou, ainda não havia uma aceitação plena da cultura africana, nem igualdade social entre as pessoas que ele rotulou como não brancas e a elite.

13 Park, citado em Pierson, Brancos e pretos na Bahia: estudo de contacto racial, p. 62-63. 14 Pierson, Brancos e pretos na Bahia: estudo de contacto racial, p. 66, 70, 73.

Pierson pisava em ovos. Relatava o que observava, o que incluía ati- tudes de natureza inegavelmente racista. Atitudes essas, no entanto, que foram sempre rejeitadas como de pouca importância real. No seu anexo, por exemplo, no qual registrou “ditos comuns relativos aos negros”, ame- nizou o choque das declarações racistas e insistiu que eram principalmen- te uma coisa do passado e, de todo modo, “sempre enunciados com um sorriso”.15 Os argumentos de Pierson minimizavam a importância das bar- reiras raciais na sociedade baiana, levantando a hipótese de que a divisão dominante era de status. Suas conclusões afastavam o racismo e insistiam na importância das hierarquias de cor, mas enfatizavam a permeabilidade dessas categorias e o potencial de mobilidade ascendente. Este argumento reforçou muitas das sedutoras teorias de harmonia racial de Freyre e, como mostrarei no capítulo 5, recebeu ampla atenção do projeto da Unesco sobre raça na década de 1950.

No entanto, Pierson foi notavelmente o primeiro a estudar as relações raciais, em vez de sobrevivências africanas, na Bahia. Isto foi explicitado por Arthur Ramos, em 1945, na tradução de Negroes in Brazil: a study of race contact at Bahia para o português; Ramos observou o abandono do foco antropológico da escola de Nina Rodrigues. O estudo sobre “contato racial” de Pierson percorreu um caminho delicado; embora, sem dúvida, assimilacionista, discutia também o papel da cultura africana, e particu- larmente do Candomblé, na Bahia. “Se ele agora estuda também [como a escola baiana] os africanismos, é mais como ponto de referência para a avaliação de quanto o fenômeno pode influir nas relações de raças”, ob- servou Ramos.16 Embora Pierson afirmasse examinar um processo dinâ- mico de “contato racial”, seu trabalho pagou um tributo maior às tradições estáveis do que à mudança social: seu foco na passividade cultural, com- binado com a atenção à cultura africana, deu ao seu trabalho um tom de africanismo maior do que ele gostaria de admitir. Talvez tenha sido essa atenção às raízes africanas e às tradições da Bahia que permitiu a Pierson manter seu relacionamento com acadêmicos da escola baiana, cuja ênfase era nas continuidades africanas. Pierson esgueirou-se entre um comentá- 15 Ibid., p. 433.

rio elogioso de Freyre a seu trabalho e um longo prefácio de Ramos. Apesar de seu mencionado afastamento da escola baiana – cuja metodologia resi- dia principalmente na exploração de africanismos e origens –, Pierson não provocou sua ira.

Ruth Landes e E. Franklin Frazier, os dois pesquisadores mais enfatica- mente afastados da ideia de sobrevivências africanas na Bahia, não teriam a mesma sorte. Frazier também observou preconceito de cor na Bahia, e por isso recebeu críticas no prefácio de Ramos ao livro de Pierson, como exem- plo de um visitante dos Estados Unidos cujas conclusões sobre raça não mereciam tanto crédito.17 Frazier, por ter negado à África um papel na es- trutura familiar baiana, também atraiu para si a ira de Herskovits. Mas para Ruth Landes, a reação foi ainda pior. Ramos atacaria Landes de modo mais vil, lançando persistentes dúvidas sobre a sua reputação pessoal e acadêmi- ca. Ambos, Frazier e Landes, foram amplamente criticados pelos baianos perturbados pela negligência com a estrutura baiana da tradição. E ambos enfrentaram ataques públicos e diretos de Herskovits, o mais radical adep- to da escola baiana e de seu foco em um passado inalterado.