Certeau aparece em nosso caminho como uma “lente não-turva, mas purificada e
positiva” frente ao mais fraco. Proponho tal “metáfora”, pois o autor leva-nos a perceber
a criatividade e “força produtora” (embora muitas vezes rejeitada ou negada) do
consumidor, que põe em uso as “políticas culturais”, as leis, regulamentos e/ou teorias
produzidos e, na maioria das vezes, impostos – sem sentido ou significado aos seus “usuários”. Para Certeau, “consumidor” ou “usuário” é aquele que cria uma maneira de
praticar essas políticas.
Define, em seu livro “A Cultura no Plural” (1995), política cultural, como “um
conjunto mais ou menos coerente de objetivos, de meios e de ações que visam à
modificação de comportamentos, segundo princípios ou critérios explícitos”. (Certeau,
1995, p. 195) Dessa forma, uma pequena – e privilegiada – parte das pessoas de uma
cultura, busca definir tais políticas, determinando princípios, normas, objetivos, ações
que, segundo eles, são eleitos para serem legitimados, seguidos e, por vezes,
Certeau (ibidem, p. 164), aponta para a distância criada entre os produtores de
políticas culturais e seus usuários, quando diz:
Interrogamo-nos sobre nossas concepções, subitamente cobertas, como por uma sombra, pela realidade que elas acreditavam designar; um ‘funcionamento’ parece comandar os saberes tidos até então como estáveis e determinantes; uma organização cultural está em jogo com nossa distribuição de setores onde se elabora o saber e de setores onde se realiza a produção.
Há uma cisão declarada entre os setores onde se elabora um saber estático,
estável e determinante, e onde se realiza a produção (dinâmica, dialética, instável e
indeterminada), consumindo o que foi oferecido.
Percebe-se que, na grande maioria das vezes, as políticas culturais aparecem
como imposições sem se importar com a forma como chegam (ou não) nas pessoas.
Podemos refletir sobre isso, entendendo que a partir do momento que “despejam-se”
sobre cada pessoa idéias e exigências que não interagem nem dialogam com ela,
estabelece-se a possibilidade de uma mensagem, como se dissesse: Aí está a verdade e o padrão. Agora, ‘se vira’... Tal desafio tende a nos levar à invenção: Então... vou fazer do meu modo.... A Professora Maria Leila Alves, em uma de nossas discussões
durante o Grupo de Estudos FormAção, questiona: Ao movimento da batuta, a correspondência do som será exatamente igual ao que o maestro rege? Dessa forma,
somos incomodados a intensificar nossa visão frente à heterogeneidade presente nas
práticas, que vão dando sons e tons “a seu modo”. Certeau convida-nos a olhar e
discutir as práticas, passando a tê-las como referência. Urge a reflexão sobre “o que
acontece com o consumidor”. A visão certeauniana não se direcionava tanto “aos
produtos culturais”, mas para as operações de seus usuários, para as “maneiras” com
as quais os desvios aparecem socialmente, na prática do consumo.
Entendemos, portanto, que as políticas devem estar acompanhadas de seu
diálogo direto com as pessoas envolvidas. Também se torna altamente relevante, ao se
condições de possibilidades integrais, que não tragam a mensagem do “se vira” aos
seus consumidores. O mais adequado seria, por fim, envolvermos as pessoas nas criações das políticas, rompendo com a cisão entre os produtores de idéias e seus
usuários.
Ainda refletindo sobre as maneiras como as pessoas agem (ou reagem) na participação das estruturas sociais, passei a questionar sobre as características das
relações estabelecidas. Inspirei-me nos estudos piagetianos sobre o “desenvolvimento
da autonomia moral”, expressados em livros como “O juízo moral na criança” (Piaget,
1994) e “Cinco estudos de Educação Moral” (Macedo, 1996). Nessas pesquisas,
percebe-se o impacto no comportamento humano realizado pelas características de
ambientes, pelas relações sociais estabelecidas, que são classificadas em dois
modelos centrais: autoritário e democrático. Diante desses referenciais, entendo que
em modelos autoritários, as pessoas envolvidas na realização das políticas culturais só
têm duas opções principais: obedecer ou resistir. Ao “resistir”, sem poder demonstrar
total discordância ou transgressão, passam a marcar suas práticas com burlas, táticas
que escapam às ordens, que são impostas sem oferecer qualquer oportunidade de
participação dos usuários na criação dessas “políticas culturais”. Já em uma proposta
mais democrática, todas as pessoas envolvidas participariam não só da execução, mas
também na criação dessas políticas, dando-se voz à polissemia, aos variados sons e
tons que dão sentido ao cotidiano. As políticas culturais não seriam mais propriedades
dos mais fortes e todos se sentiriam ligados a elas e responsáveis pelo seu “sucesso”.
Elas seriam criadas, realizadas, modificadas, em um processo dialético, partindo de “sentidos” e “significados” das mais diversas pessoas e das necessidades apresentadas
pela própria realidade.
Podemos nos arriscar na criação de um quadro elucidativo frente às reflexões
supracitadas, sugerindo um modelo democrático, rompendo com as referências
exclusivas aos produtos culturais impostos e almejando relações mais cooperativas,
onde as idéias tenham “sentido” a todos e estejam em um processo dialógico
Modelo autoritário: comumente percebido
Modelo
democrático/participativo: desejável
“Os mais fortes nas estruturas sociais”
Impõem idéias
Criam condições para que
todos participem na criação
de políticas, perpassando-
as pelos sentidos de todos os envolvidos
Mensagem percebida pelos “mais fracos” ou
pelos “usuários”
Consumidores devem “se
virar”, inventando, do seu
jeito, maneiras de praticar essas políticas, mesmo que
em forma de burlas
Há uma necessidade na
criação coletiva de políticas
que, cheias de sentido, aperfeiçoem as práticas
cotidianas
Análise da prática, da realidade
Políticas culturais
produzidas por “superiores”
são a referência para toda
análise sobre a prática
Sentidos, significados construídos, invenções
criativas, passam a ser a referência na leitura do
cotidiano
Avaliação dos mais fortes frente às ações dos mais
fracos
Há uma obediência ou
resistência frente aos
produtos impostos
As idéias são
constantemente avaliadas, preocupando-se com os
“sentidos” que estão tendo
para os “consumidores”
Josgrilberg (2005, p. 22) ratifica o quadro sugerido acima, ao destacar a fala de Mizon, quando entendia que Certeau “nos instalava imediatamente numa relação de igualdade, quase dirigida voluntariamente contra todo espírito de hierarquia”.
Certeau (1995, p. 180) também faz uma consideração que se relaciona com o
movimento da prática cotidiana e de mudanças, quando diz que uma mudança “é
vivenciável apenas se for pensável, em seguida a um deslocamento do pensamento.”
Toda mudança real é carregada de sentidos e significados construídos criativamente
por seus autores. Somos seres ativos e interativos, pensantes, imaginadores.
Apreciemos a reflexão de Certeau: “Um fenômeno de massa se explica pela ação
de uma elite; de que a multidão é por definição passiva, arregimentada ou vítima,
segundo os “líderes” desejem seu benefício ou dele se desinteressem”. (1995, 166) Os “consumidores” das políticas culturais “deveriam se tornar um passivo receptáculo das
idéias e programas elaborados nos altos cargos, nas ‘sedes’ do pensamento e da
direção” (ibidem, p. 167), no entanto, manifestam-se como criadores, inventivos,
criativos. “A multidão adquire vida.” (ibidem, p. 169)
Voltas e atalhos, maneiras de dar golpes, astúcias (...) mil práticas inventivas provam, a quem tem olhos para ver, que a multidão sem qualidades não é obediente e passiva(...) cada um procura viver do melhor modo possível a ordem social e à violência das coisas. (...) É a arte de viver a sociedade do consumo. (Giard in: Certeau, 1994, p.8)
A figura de uma marginalidade não é mais a de pequenos grupos, mas de uma
massa, de todos os que não são os produtores de políticas culturais. “Essa
marginalidade se tornou maioria silenciosa”. (Giard in: ibidem, p. 44)
Essa multidão encontra-se repleta de “heróis anônimos”, segundo Certeau (1994,
p. 57). São heróis que perdem o nome e o rosto, tornando-se expressões móveis e
inteligentes que não pertencem a ninguém.
Mesmo vivenciando situações de “transmissões” e “receptividade” de idéias e/ou
normas, os “consumidores” dessas teorias que, no cotidiano, as colocam em prática,
não interagem com elas de maneira mecânica, obediente e passiva, como sempre se
multiplicidade de “práticas”, que diversificam as “maneiras” de uso dos produtos “impostos”, através de uma ação inteligente, inventiva, “criadora”. Os usuários dos
códigos sociais os transformam em metáforas, reapropriações. Acreditava que “o
cotidiano se inventa com mil maneiras de caça não autorizada”. (Giard in: Certeau,
1994: 38) Chama de “liberdade gazeteira”, apreciando (confiando e se maravilhando
com) “microdiferenças” onde apenas víamos passividade, homogeneização,
uniformização, resistência, inércia, obediência.
Sua não-credulidade diante da ordem dogmática que as autoridades e instituições querem sempre organizar, sua atenção à liberdade interior dos não-conformistas, mesmo reduzidos ao silêncio, que modificam ou desviam a verdade imposta, seu respeito por toda resistência, ainda que mínima, e por toda forma de mobilidade aberta por essa resistência, tudo isso dá a Certeau a possibilidade de crer firmemente na liberdade gazeteira das práticas. (Giard in: ibidem, p.19)
É como se passássemos a assumir a capacidade de todo indivíduo, mesmo em
situações menos privilegiadas. É valorizar e honrar o que era tido como “insignificante”:
eis a beleza de sua proposta. Assim como seu objeto de estudo, essa análise era
rejeitada, o que, hoje, entendemos ser fundamental.
Por fim, cabe salientar que, ao tentarem organizar o movimento cotidiano, os produtos culturais dos mais fortes acabam marcados pelo uso que dele se faz. As ordens não podem mais ser vistas como se fossem quadros normativos, mas
manipuláveis, segundo a consideração abaixo:
Como utensílios, provérbios ou outros discursos são marcados por usos, apresentam à análise marcas de atos os processos de enunciação, significam as operações de que foram objeto (...) Indicam portanto uma historicidade social na qual os sistemas de representações ou os procedimentos de fabricação não aparecem mais só como quadros normativos, mas como instrumentos manipuláveis por usuários. (ibidem, p. 82)
Por fim, percebe-se que a realidade como “devir” é apresentada até no que é
imposto como “verdade” pronta e acabada. Objetos ou idéias acabam sendo marcados,
apresentando marcas, modificações quando “usados”. Dessa forma, mais uma vez, os “usuários” de políticas culturais impostas como “ordens”, também ressaltam sua