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DESCRPTION :

Dans le document Livre des recettes Maroc (Page 38-57)

O relacionamento brasileiro-argentino nunca teve uma dinâmica autêntica pelo fato de inserir-se numa situação triangular que tem como égide os Estados Unidos. Ademais, “nunca se tratou de um triângulo eqüilátero” uma vez que sempre prevaleceu um esquema de vinculações diferenciadas e assimétricas entre os lados, resultando, muitas vezes em divergências nas opções de política externa entre Brasil e Argentina, como bem nos lembram Russel e Tokatlian (2003, p.54).

A análise da evolução da antiga situação de competição, para uma posterior fase de desconstrução das desconfianças, e posteriormente para outras de construção e consolidação da confiança, mostra que as variações no cenário externo – e a conseqüente minimização ou intensificação da presença dos Estados Unidos no relacionamento entre os dois países – significaram ora maior margem de manobra para a dinâmica cooperativa, ora uma complicação da mesma.

Porém, não é apenas partindo dos condicionantes externos que devemos avaliar as relações entre Brasil e Argentina, uma vez que elas refletem também a importância histórica que cada País atribuiu um ao outro e ainda, a importância histórica que cada país atribui aos processos cooperativos e integrativos. Particularmente no caso deste estudo, a visão de Defesa e Segurança internacional historicamente construída por cada país também deveria ser considerada. Ou seja, a política externa do Brasil e as opções recentes de parceria com a

argentino terminou optando por um acordo solitário com os EUA”.

Argentina não podem ser entendidas senão no tempo. Acreditamos, portanto, que estes problemas ainda encontram-se sem respostas.

Partindo, porém, para os resultados alcançados, constatamos que ao longo da década de 1980, Brasil e Argentina levaram a efeito um parcimonioso processo de construção da confiança mútua, estimulado pela situação semelhante que naquele momento os aproximava. A crise política e econômica – aparentemente sem saída – que acometia os dois países vislumbrou na cooperação a única alternativa. No entanto, o sucesso desta articulação contou com a desconstrução das percepções de ameaças e a posterior edificação de medidas que garantissem a previsibilidade e a estabilidade do pacto estratégico a ser fixado. Sobre isto se inclina a importância das medidas de confiança mútua construídas no período de 1985 a 1989, as quais merecem atenção especial, pelos desdobramentos que produziriam na década seguinte.

Nos anos 90, as perspectivas para que uma união político-estratégica se efetivasse foram muitas. De um lado, o cenário externo era favorável, de outro os problemas internos brasileiros que antes poderiam representar um óbice à cooperação foram sanados e ainda, por outro, foram estabelecidos os Acordos mais relevantes da História das Relações brasileiro- argentinas. Em termos de resultados, estas medidas de confiança mútua – conceito que usamos para classificar os documentos que aqui estudamos – surtiram importantes efeitos, quais sejam: garantiu aos dois países o fim de um passado de rivalidade e iminência de ofensiva mútua militar por meio da abertura recíproca de seus programas nucleares e forjou uma imagem de liderança dos dois países na articulação de mecanismos regionais de controle de armas nucleares. Este foi o significado aos olhos da comunidade internacional.

Porém, mais do que analisar resultados, a História deve reconstituir processos; e estes nos mostraram que apesar de gozarem dos benefícios destas políticas, Brasil e Argentina, ao firmarem tais acordos, guiavam-se por outros objetivos. A atitude do Brasil nos anos 90 – ponto de nosso enfoque – indicou a instrumentalização das Medidas de Confiança Mútua, visando a atingir metas particulares nacionais. Enquanto Sarney, por meio dos entendimentos com a Argentina, abria caminhos para uma cooperação estratégica que pretendia afirmar a América Latina como um espaço de relevante inserção internacional, Collor transformou o sonho de uma década inteira – o Mercosul – em mero exercício de liberalização da economia e alavanca do desenvolvimento econômico nacional. Além disto, a instrumentalização das medidas de confiança mútua consolidadas na década de noventa, pode ser percebida no interesse, que pareceu o mais importante, de prosseguir com o desenvolvimento de energia nuclear – para fins pacíficos ou não – como base do projeto de modernização nacional. Também a Argentina, de outro modo, instrumentalizou tais medidas, visando recuperar sua imagem perante aos Estados Unidos, com quem estabeleceria laços automáticos com o propósito de obter vantagens diferenciadas.

Em suma, os custosos processos de desconstrução da desconfiança, construção e consolidação da confiança mútua brasileiro-argentina, não redundaram em cooperação estratégica, por falta de consenso de interesses e vontade política para sua instituição.

Associando a postura de Collor ao modelo de Política Externa que Celso Lafer – Ministro das Relações Exteriores do governo na época – denominou de Adaptação Criativa e da Visão do Futuro, pressupomos o seguinte: a necessidade de acesso à alta tecnologia foi adaptada ao “reconhecimento da necessidade de controles internacionais”. Os acordos com a

Argentina representaram estas adaptações como alternativa à “aceitação de instrumentos e mecanismos de caráter discriminatório. (In: Ministério das Relações Exteriores, 1992, p.39). Desta forma, em uma “adaptação criativa”, o Brasil precisou romper com a histórica imagem que dele tinha toda a comunidade internacional devido ao objetivo ambíguo de seu “Programa Nuclear Paralelo”, por meio de relações inéditas estabelecidas com o vizinho que tivera sido, no passado, sua principal hipótese de conflito. Também neste aspecto, Collor de Mello mostrou que mais do que o “ser” ou o “fazer”, estava em jogo o “parecer ser ou fazer”, de modo que se garantisse uma política sem confrontos com os Estados Unidos, uma vez reconhecida sua inexorável influência no hemisfério, sem que porém, houvesse subordinação aos mesmos. Assim, por meio de sua política, o Brasil objetivava refazer sua imagem de modo a garantir uma participação relevante no cenário internacional.

À guisa de finalização, as idas e vindas nas relações entre Brasil e Argentina podem ser explicadas pela “intransigência” e pelo “estilo brasileiro de política externa, na qual são muito poderosas as forças em favor da prudência e da tradição.” Nas palavras de Wrobel:

Um presidente determinado pode, de fato, tomar decisões em questões importantes da política externa, como ficou demonstrado, por exemplo, no governo de Fernando Collor, mas o processo decisório da política externa, que inclui necessariamente o Ministro das Relações Exteriores e, conforme o caso, outros setores governamentais interessados, tende a ser encaminhado com muita cautela. (Wrobel, 1996, P.153)

Uma outra suposição é a de que as bases da confiança mútua são ainda muito frágeis, uma vez que não há perseverança nem clareza de objetivos, tampouco vontade de fixar políticas que concilie os interesses de um e de outro. Enquanto as respostas não se fazem conclusivas, Russel e Toklatian parecem acertar o diagnóstico:

Falta ao Brasil dar mostras claras de sua vocação cooperativa. “De outro modo, a relação argentino-brasileira seguirá navegando por um mar de ambigüidades, entre reflexos extemporâneos de rivalidade e uma aspiração de amizade irrealizada. (Russel; Toklatian, 2003, p.114, tradução nossa).

Porém, resta-nos acreditar que mesmo não tendo sido postas, efetivamente, em prática, as medidas de confiança mútua são importantes por sua capacidade de semear uma “cultura de amizade” e uma “cultura cooperativa” que depois de crescidas e amadurecidas, ao longo do tempo, comporão, quiçá, a mentalidade política do país, lançando um elenco de governantes empenhados na união política latino-americana, para a qual, não existe outro ponto de partida senão a maturação das relações brasileiro-argentinas.

Dans le document Livre des recettes Maroc (Page 38-57)

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