3.2 Plus longue sous-suite croissante
3.2.3 Description de la solution systolique
Uma questão importante e para a qual o nosso estudo pretende contribuir e incentivar à sua continuidade prende-se com a investigação académica.
A verdade é que, pelos resultados das pesquisas que apresentámos, o abuso contra os homens permanece sub-investigado e sub-teorizado, independentemente dos números e das notícias se começarem a afirmar. Por exemplo, na Suécia, estima-se que em 2007 3,8% da população masculina foi vítima de violência física (Swahnberg, et al, 2012). A alta prevalência de experiências abusivas contra o homem enfatiza a necessidade de uma melhor compreensão das experiências dos homens como vítimas. A falta de conhecimento do fenómeno está ligada às construções sociais dominantes de masculinidade e feminilidade, sendo, também, necessário entender como o abuso influencia a vida dos homens, intensificando assim esforços para a prevenção primária (cfr Malveiro, 2018, p. 1554).
A pesquisa pelo assunto começou com os movimentos feministas dos anos de 1970 e 1980 e cuja visão dominante da violência conjugal é de que é algo que afeta as mulheres em larga escala devido ao desejo patriarcal masculino em controlar. Daqui decorre, igualmente, que a violência doméstica é, como foi já dito, de género e que o poder estrutural masculino no domínio público é reproduzido no domínio privado. Contudo, em paralelo, segundo Swahnberg et al (2012) ainda nos anos 80, outros investigadores (como Strauss, 1980; Henton et al, 1993; Kalnuss, 1984; Gelles & Strauss, 1988; Brinkerhoff et al, 1988; Sugarman & Hotaling, 1988) relataram que
existia um grande nível de reciprocidade na violência doméstica que não podia ser ignorada:
"The high prevalence of abusive experiences among men emphasise the need for a better understanding of men’s experiences as victims of abuse. The relative lack of such knowledge is probably linked with dominant constructions of masculinity and femininity which tend to view abuse against women as self-evident but misrecognize men as victims within somewhat similar processes” (Swahnberg et al , 2012, p.21).
Apesar das evidências, os primeiros – feministas – continuaram a afirmar que se tal eventualmente acontecia era exclusivamente em legítima defesa. Mais uma vez, o paradigma da autodefesa foi contestado por outros - Morse, 1995; Headey, Scott & de Vaus, 1999; Fergusson, Horwood & Ridder, 2005; Whitaker et al, 2007 citado por Swahnberg et al, 2012 – que alegam que a violência nos relacionamentos é tão ou mais provável começar com a mulher. Este último, num estudo longitudinal, descobriu que quase 50% da violência era recíproca e apenas 24% era unilateral e, daqui, 70% eram as mulheres as perpetradoras. Infelizmente, assiste-se muitas das vezes ao uma conveniência de discurso e, essa falta de rigor na pesquisa, afeta as práticas e o modo como é realizada a prevenção primária e, assim, todos vítimas e perpetradores ficam a perder (cfr Malveiro, 2018, p. 1554).
Em todos os estudos analisados se justifica a necessidade de mais pesquisa sobre a vitimização masculina a fim de compreender melhor as experiências masculinas e, consequentemente, com o objetivo final de melhorar os serviços e o atendimento às vítimas. Ou seja, uma das situações comuns a todos é a expressão da carência de pesquisa para melhorar a consciência da sociedade em reconhecer que há homens vítimas de violência e que as ajudas que lhes são prestadas são escassas, se não mesmo inexistentes, e ineficientes (cfr Malveiro, 2018, p. 1554).
O que muitos académicos feministas argumentam é que a violência contra as mulheres resulta em consequências físicas mais severas, daí que o seu interesse em
as estudar seja maior. No entanto, as taxas igualmente significativas de agressão da mulher para o homem e as suas consequências merecem, largamente, mais atenção. Concentrar-se exclusivamente no abuso masculino ou feminino ignora as complexidades dinâmicas da violência íntima. Um entendimento completo da violência do parceiro só pode ser percebido quando é visto como um problema humano e, quanto muito depois, com a aclamada questão de género (Lupri, 2004).
"It is important to realize that couple abuse by either partner is harmful and demeaning not only to the individuals involved. It affects the whole family, particularly children, for whom a harmful cycle of violence may be established (...) couple violence is as much an ideological issue as it is a scientific one” (Lupri, 2004, p.4).
Mais ainda para Omar (2011) referindo-se ao estudo de Mcneely, et al (2001), a visão popular e académica da violência doméstica, contribui para a indefesa legal e social dos homens, mas, também, ao considerar apenas um perpetrador, torna-se um entrave à criação de políticas sociais que resolvam o problema (cfr Malveiro, 2018, p. 1554).
Quer-se com isto dizer que, efetivamente, a maioria da pesquisa na literatura de ciências sociais e até nas ciências médicas sobre o impacto da violência por parceiro íntimo e sobre o fenómeno em si é, erradamente, limitado a amostras de mulheres vítimas (cfr Malveiro, 2018, p. 1554). Ou seja, homem abusado e a mulher abusadora tornaram-se marginalizados não apenas na pesquisa académica e no desenvolvimento de intervenções, mas também nas políticas e na prestação de serviços (Josolyne, 2011):
"Some researchers using alternative methodologies have continued to report that a significant proportion of self-identified victims of partner abuse are male (see Archer, 2000 for a review). However, these researchers have until recently remained a minority and marginalised voice in academia, heavily criticised by some (e.g. DeKeseredy and Schwartz, 2003) for reporting significant levels
female violence and abuse. Thus, it is argued that there has been an ‘exclusionary’ aspect to the feminist-inspired research in relation to the presence of a ‘male victim’ and a ‘feminisation’ of the phenomenon of victim” (Joysolyne, 2011, p.9).
Apesar das mudanças legislativas, as práticas institucionais continuam a ser influenciadas pelos discursos de género e dos estereótipos sociais que os sustentam, bem como os homens continuam sob o manto da masculinidade hegemónica e do estigma social
Os estudos de violência doméstica para serem viáveis devem incluir quer mulheres quer homens e as suas experiências de violência doméstica, seja como vítimas, perpetradores ou ambos e devem ser baseados em amostras representativas da população de amostragem aleatória (Mckeown & Kidd, 2002):
"Public awareness campaigns which focus only on women as victims may exacerbate the problems of male victims because it effectively denies the reality of their experience and contributes to the mutually reinforcing process that men do not present for services while services, in turn, do not develop to respond to men’s needs. One group of commentators has described this situation as the unintended negative consequences to wellintended social policies” (Mckeown & Kidd, 2002, p.86)
Há, também, muito pouca literatura sobre o tópico dos serviços para os homens uma vez que esses serviços são raros mesmo em países onde existe estatística relevante. Porém, estes serviços só podem ser desenvolvidos se houver consciência pública muito maior entre a população em geral, assim como entre os prestadores profissionais de serviços, de que isto é uma realidade.
Fazer campanhas e relatórios exclusivos sobre as mulheres, como os da UNICEF, é negar a realidade e traz consequências negativas não intencionais às políticas sociais (Mckeown & Kidd, 2002). Como tal, uma abordagem mais inclusiva da
violência doméstica não deve criar competição entre as vítimas, minimizando experiências, mas deve ser a base para uma abordagem mais abrangente tanto para a prevenção como para o desenvolvimento de serviços para vítimas e perpetradores (cfr Malveiro, 2018, p. 1557).
Em Portugal, e conforme nos foi possível verificar anteriormente, os estudos sobre violência doméstica contra o homem não só são num reduzido número como se concentram quase na sua grande maioria em três áreas: Psicologia, Sociologia e Serviço Social. É o caso, por exemplo, dos estudos de Andreia Machado e Marlene Matos sobre as vítimas de quem não se fala, e de Ana Valério ou Ana Gomes, que caraterizam as vítimas masculinas e as perceções dos homens sobre este tipo de violência, ou de Isabel Dias sobre a violência na família, e de António Fernandes sobre o direito dos homens, ou de alguns estudos da Universidade do Porto, em Serviço Social e Criminologia, caracterizando também as agressoras. Já os estudo internacionais superam em larga escala o número dos mesmos uma vez que a experiência e a existência deste tipo de casas e de instituições estão largamente difundidas pelo Mundo, como no Reino Unido ou Canadá, entre outros e, por isso, não só os estudo incidem sobre a caracterização das vítimas e o problema social da violência doméstica contra os homens mas, também, ao contrário de Portugal, há já uma preocupação em estudar as respostas em si, como é o caso dos estudos de Coralie Wright, Caroletta Shuler, Mckeown e Kidd, Katie Lambert, entre outros. Em suma, o problema da violência doméstica não é homogéneo nem exclusivo de uma ordem social patriarcal, ele também existe em famílias democráticas e matriarcais. Para muitos, aceitar que há homens vítimas pode prejudicar a imagem pública dos movimentos feministas e, pior, colocaria em risco o financiamento na vitimização feminina, levando a resultados políticos que prejudicariam as mulheres, afastando-se do foco da “mulher” e concentrando-se nas pessoas (Sarantakos, 1999). Da mesma forma que aumentar os estudos sobre vítimas masculinas poderia, eventualmente, tirar o foco ao género e centrar-se nas relações humanas e de poder. Então, não é importante o número de homens maltratados, é importante reconhecer que eles existem e merecem ser mais do que simples notas de rodapé, sendo urgente respostas sociais e serviços adequados a este novo flagelo, mas também mais conhecimento social e sociológico para descodificar melhor as malhas que tecem
esta realidade que teima persistir quase oculto ou assume-se como um tabu que ninguém quer discutir.
1.1.4. A implantação de políticas públicas na área da violência doméstica