A humanidade, ao longo de sua história, sempre buscou coletar, armazenar e analisar dados. Sempre observamos o mundo procurando retirar significado a partir da correlação das informações apresentadas aos nossos sentidos, seja informalmente ou formalmente. Até os fenômenos mais simples e imediatos à percepção humana, como o ciclo dia-noite ou o passar das estações, sempre apresentaram grande valor simbólico, social e econômico. Utilizamos os fatos que nos circundam, sejam eles de origem natural ou cultural, para atribuir significado ao mundo e à nossa subjetividade.
À medida que a sociedade se torna mais complexa, a percepção dos sujeitos passa a capturar e tentar sistematizar uma quantidade cada vez maior de informações. Relacionar os dados naturais de forma empírica passa a revelar insights importantes para a sobrevivência e prosperidade, como épocas de colheita, padrões de caça etc. Além disso, o sujeito passa a necessitar de novas formas de registrar sua realidade social, cultural e econômica.
O advento da escrita na Mesopotâmia, por exemplo, emerge graças às necessidades de uma ferramenta eficiente de coleta e registro de informações, principalmente monetárias, possibilitando o desenvolvimento da economia e do comércio. O registro escrito só encontra sua forma ideal enquanto método de armazenamento de informação a partir do surgimento e disseminação da prensa tipográfica, por volta de 1455. Enquanto a prática manual da cópia de textos era ineficiente, graças à lentidão e a margem de erro, a impressão tipográfica tornou a produção informacional mais uniforme e eficiente, pavimentando a cultura para o crescimento exponencial da necessidade de métodos para coleta, armazenamento e preservação de dados.
Em decorrência, desenvolvem-se diversas tecnologias, técnicas e métodos para registrar e melhor compreender tanto o que se apresentava para o homem, quanto o que ele produz no contexto social. O gerenciamento, coleta e análise de dados "analógicos", porém, sempre foi muito custoso, exigindo grandes investimentos tanto financeiros, quanto de tempo. Até o advento dos sistemas informáticos a sociedade acostuma-se, portanto, a coletar e trabalhar com pequenas quantidades de informação, desenvolvendo assim técnicas para a utilização do mínimo possível de dados com maior qualidade e precisão possível. O processo de pesquisa por amostragem, como exemplo, advém dessa necessidade.
É possível perceber, portanto, que as práticas humanas sobre a informação seguem propósitos comuns que extrapolam o artefato tecnológico (sejam papiros, livros ou bits) no qual está registrada a informação. Buscamos sempre coletar e preservar as informações, manter
registros das informações coletadas, organizar os itens de forma eficaz, criar artifícios para buscar e acessar essas informações etc. (MURRAY, 2011, pos. 2063)19.
Os sumérios, por exemplo, tinham a prática de arquivar seus registros informacionais (que, nesse caso, tomavam a forma de barras de argila com escrita cuneiforme) em grandes prateleiras e cestos. Como essas barras poderiam conter os mais diversos tipos de informação (de textos mitológicos a registros comerciais) normalmente eram colocadas pequenas etiquetas nas extremidades, catalogando ali o conteúdo daquele artefato.
Nesse sentido, como aponta Murray (2011), as diferentes formas que o homem buscou ao longo de sua história de coletar, preservar e transmitir a informação refletem uma forte ambição enciclopédica. Artefatos de controle social como os censos populacionais e extensas obras narrativas que se expandem por diversos personagens, histórias e cenários ao longo do tempo – como os trabalhos de Shakespeare e, mais recentemente, as séries de TV – são, para a autora, um reflexo desse desejo.
Desde que a sociedade começou a capturar dados a partir das primeiras sistematizações da escrita e outros sistemas de registro até o presente dia, marcado por uma ecologia complexa de informações, mídias e tecnologias da informação (SANTAELLA, 2013, pos. 106), observamos um aumento exponencial não só na quantidade de informação que se apresenta ao sujeito, mas também na sua variedade de formato e linguagem, na sua manifestação e nos seus suportes de apresentação.
Esse cenário fascinante só é factível graças a dois processos – decorrentes da disseminação dos computadores – de caráter tanto técnico quanto cultural: a) em primeiro lugar, a massiva virtualização dos dados e o desenvolvimento de formas passivas e automatizadas de obtenção, registro, preservação e criação dos mesmos. A este processo, dá-se o nome de
datafication (MAYER-SCHONBERGER; CUKIER, 2013); b) em segundo lugar, mas de
equivalente relevância, a substituição de tecnologias físicas, mecânicas e eletrônicas para criar, distribuir e acessar produtos midiáticos por programas de computador ou softwares. Processo esse conhecido enquanto softwarization (MANOVICH, 2013).
Os fenômenos de datafication e softwarization compõem, portanto, as bases tecnológicas e culturais para mudanças de cunho tanto quantitativo, no que diz respeito à diferença massiva e crescente na produção de informação, quanto qualitativo, percebendo as diferentes formas como essa grande enxurrada de informação passa a agir sobre a sociedade, assim como os sujeitos passam a interagir com ela.
19 As citações que utilizam o termo "pos." (position) se referem a livros que foram acessados em sua versão digital, no aplicativo Amazon Kindle para iPad.
3.2 SOBRE DATAFICATION
Com o processo de virtualização das informações (LEVY, 2010), ou seja, a transformação de sua natureza analógica para digital, estas passam a ser passíveis de leitura e manipulação também por computadores. Essa codificação (transformação da matéria física em código), que tem acontecido de forma frenética desde a penetração dos computadores nos lares e instituições ao redor do globo, foi um dos primeiros passos para formar a base do cenário informacional contemporâneo.
Nesse momento histórico, cujo ápice ocorre com a popularização da Web na década de 90, a ordem do dia é digitalizar tanto o conhecimento quanto a produção cultural humana, tornar acessível por meio do ciberespaço o que já foi produzido pela sociedade, na tentativa de atingir uma suposta inteligência coletiva de forma colaborativa (LEVY, 2007). Iniciativas como o Projeto Gutenberg20 representam categoricamente esse esforço. Digitalizar, aqui, é uma ação consciente e ativa do sujeito, que transpõe algo produzido no passado, utilizando tecnologias físicas, mecânicas ou eletrônicas, para a linguagem computacional de código binário.
Na medida em que as tecnologias digitais tornam-se cada vez mais presentes na sociedade, ou seja, passam a fazer parte e mediar diversos aspectos da vida pessoal, social e profissional dos sujeitos, é possível perceber mais claramente como o processo de datafication passa a extrapolar a produção consciente e ativa humana, tornando-se muitas vezes invisível. Como nossas atividades online (sejam elas formais ou informais) já nascem organizadas e armazenadas em bases de dados, a disseminação da Web acaba contribuindo para a proliferação do processo de datafication (WILSON, 2013).
Muitas das nossas produções informacionais rotineiras são realizadas deliberadamente, pois há sempre determinado esforço, seja físico, intelectual ou cognitivo, que muitas vezes podemos quantificar e perceber de forma simples. Como exemplo, podemos citar posts em blogs e em redes sociais na Web, a publicação de um artigo em algum periódico online, a alteração do layout de um site etc. Todas essas ações possuem rastros materiais sobre os quais podemos visualizar nossa ação.
O aplicativo para dispositivos móveis chamado Project Noah21 (fig.8), por exemplo,
permite que os usuários documentem a vida selvagem de espaços que decidirem explorar. São
20 Projeto voluntário cujo objetivo é digitalizar e distribuir obras culturais da humanidade através da digitalização de livros. Fundado em 1971. Ver mais em www.gutenberg.org
21 Ver http://www.projectnoah.org. Disponível para Android e iOS. Lançado em 2010 pelo Programa de Telecomunicações Interativas da New York University.