4.5 Construction d’un PSPN r´esistant aux attaques diff´erentielles
5.1.1 Description de PICARO
Dentro das atividades coletivas gerais, entendidas enquanto pré-construídos sócio-históricos, integram-se as atividades de ordem linguística, designadas no quadro
17 do ISD como atividades de linguagem. As atividades de linguagem constroem e verbalizam grande parte das atividades gerais.
Retomando o pensamento marxista e o caráter objetal que caracteriza a atividade humana, poder-se-á encarar a linguagem como instrumento, isto é, como objeto por meio do qual se realiza a atividade; à semelhança dos outros instrumentos usados para levar a cabo uma ação de trabalho, a linguagem pode ser concebida, como diria Leontiev, como o portador da primeira abstração/generalização consciente e racional – na medida em que, tal como qualquer outro instrumento, “acarreta que se tenha consciência do objeto da ação nas suas propriedades objetivas” (Leontiev 2004, 88). A linguagem é, como qualquer outro instrumento, um objeto social, “elaborado socialmente no decurso do trabalho coletivo”, e “produto de uma prática individual” (ibidem 88, 90).
Esta conceção de linguagem como atividade social é ainda subsidiária das reflexões levadas a cabo por autores como Humboldt ([1835]1974), que defende que a capacidade de linguagem se realiza socialmente em línguas naturais, de forma processual6, Voloshinov ([1929]1977), que destaca o carácter social, semiótico e dialógico da linguagem, Habermas ([1981]1987), que releva a dimensão comunicacional-social da linguagem, Coseriu (2001), autor para quem a linguagem se manifesta concretamente como uma atividade humana particular – a atividade de falar (parole ou discours), ou Saussure, que, como constata Bronckart (2009, 2010), concebe a linguagem como um fenómeno de carácter praxiológico, entendendo os discursos/textos como forma de existência privilegiada dos fenómenos de linguagem (e, em última análise, do próprio pensamento consciente)7.
O encarar da linguagem como atividade social tem ainda sido amplamente reiterado por Rastier, na área da semântica textual. Para este autor, o carácter social da linguagem advém do facto de as práticas sociais instaurarem, determinarem e condicionarem as situações de comunicação, sendo estas últimas caracterizáveis por
6
Entender a linguagem como atividade é reconhecê-la não como produto acabado, mas como processo criativo e interpretativo: “En elle-même, la langue est, non pas un ouvrage fait [Ergon], mais une
activité en train de se faire [Energeia].” (Humboldt [1835]1974, 183).
7
Como refere Bronckart (2009, 41), “La position du linguiste genevois était en fait que les discours/textes [de manière générale, Saussure utilisait le terme de ‘discours’ ou de ‘parole’ pour qualifier les textes, et celui de ‘discursif’ pour qualifier leur mise en œuvre] constituent le milieu de vie premier, ou fondamental, des phénomènes langagiers: c’est dans le cadre de leur mise en œuvre
synchronique (leur production ou leur interprétation), ainsi que dans le cours de leur transmission historique, que les valeurs signifiantes des signes se construisent, et qu’elles se transforment en permanence.”
18 usos linguísticos específicos (designados pelo semanticista como discursos): “À chaque pratique social est associée un type d’usage linguistique que l’on peut appeler discours: ainsi discours juridique, politique, médicale, etc.” (Rastier 1989, 39).
Optando pela noção de atividade de linguagem (em detrimento do conceito de discurso proposto por Rastier8
), Bronckart (2008b) defende que a linguagem enquanto atividade apresenta três aspetos distintos: articula-se com outras formas de atividade humana (que o autor designa como atividades práticas), produz/gera significação e resulta da exploração de um sub-conjunto circunscrito do material significante universal cuja tomada de consciência e tratamento cognitivo conduzem à construção da língua, seja ela a língua interna (vivenciada individualmente, relacionada com a forma como cada um internaliza o que é social) ou a língua normalizada (construída pelos gramáticos de cada comunidade). Para além disso, conformeBronckart (1997, 2004b, 2005), as atividades de linguagem comentam as atividades gerais, explorando uma língua natural e materializando-se em diferentes espécies de textos. Nesta perspetiva, os textos empíricos serão entendidos como ações de linguagem, dependentes das propriedades das atividades (gerais e de linguagem) em que são realizados:
Les textes constituent les correspondants empiriques des activités langagières,
réalisés avec les ressources d’une langue naturelle. Ce sont des unités communicatives globales, dont les caractéristiques compositionnelles dépendent des
propriétés des situations d’interaction et de celles des activités générales qu’elles commentent, ainsi que des conditions historico-sociales de leur propre élaboration […].
Bronckart 2004a, 115
A dimensão ativa da linguagem não se verifica apenas ao nível coletivo; com efeito, a linguagem é ação também ao nível individual. No entanto, como já foi referido, os conceitos de atividade e ação não podem ser entendidos como equivalentes – já que a atividade (seja ela geral ou de linguagem) é considerada em termos de dimensão social, enquanto a ação/o agir se relaciona com a dimensão psicológica (individual). Qualquer produção linguística surge num contexto social de atividade, refletindo o recorte de uma ação individual de alguém que se posiciona e interage socialmente. Neste contexto, Bronckart herda de Habermas ([1981]1987) a noção de agir comunicacional (concebido no seio de um modelo comunicacional da ação), referindo- se com ela às ações linguísticas realizadas por um sujeito individual (encarado como
8
Para Bronckart, o conceito de discurso surge associado a questões enunciativas (tipos de discurso). É
19 ator social) com vista ao entendimento mútuo.9 O agir comunicacional relaciona-se, pois, com a integração do indivíduo na sociedade e com a intercompreensão, através da linguagem (caracterizável pelo carácter sígnico/significativo), sendo constitutivo do social propriamente dito e adquirindo, para além de uma dimensão gnosiológica (associada aos mundos formais de conhecimento), uma dimensão transindividual e praxiológica. Inspirado por Popper (1972) e por Habermas ([1981]1987), este autor entende que o agir comunicacional tem um efeito mediador, veiculando representações coletivas do meio envolvente e configurando os mundos representados, isto é, as atividades: “Sous l’effetmédiateur de l’agir communicationnel, l’homme transforme le milieu […], en ces mondes représentés qui constituent désormais le contexte spécifique de ses activités.” (Bronckart 1997, 33-34).
A atividade de linguagem, em geral, e o agir comunicacional, em particular, são materializados por meio de textos, as únicas realidades empiricamente atestáveis das línguas (Bronckart 1997). Nesta perspetiva, os próprios textos – e os géneros textuais de que eles relevam –, pelo seu estatuto de reconfiguradores da ação, devem ser encarados como ação. Retomando o pensamento de Ricœur (1986), poder-se-á afirmar que os textos são ação na medida em que, para além de lhes ser inerente uma função representativa10, consistem am atos linguísticos, constituindo ações de sujeitos histórica e culturalmente situados. Para este autor, teoria do texto e teoria da ação influenciam-se mutuamente: “Je dirai en bref que d’un côté la notion de texte est un bon paradigme pour l’action humaine, de l’autre l’action est un bon référent pour toute une catégorie de textes.” (Ricœur 1986, 175). Se, por um lado, a ação humana é um quase-texto (dado que, ao ser exteriorizada, se autonomiza de quem a produziu e do contexto em que foi produzida, permitindo a atualização do seu sentido em novos contextos e adquirindo uma dimensão social), por outro, há textos que têm como referente a própria ação (já que, através de um processo de imitação criadora, mimetizam a ação humana, tornando-
9
Para Habermas, a linguagem é entendida como um meio de intercompreensão, que permite estruturar configurações de conhecimentos: “Seul le modèle communicationnel d’action présuppose le langage comme un médium d’intercompréhension non tronqué, où locuteur et auditeur, partant de l’horizon de leur monde vécu interprété, se rapportent à quelque chose à la fois dans le monde objectif, social et subjectif, a fin de négocier des définitions communes de situations.” (Habermas [1981]1987, 111).
10
A própria representatividade inerente à língua/linguagem poderá ser entendida como ação – como mostra Saussure (2002), a língua constrói o real (não se limitando a refleti-lo), sendo ação também nesse sentido.
20 se indissociáveis as noções aristotélicas de mito e mimese, que Ricœur redefine como “fiction” e “redescription”)11.
Ao focar as relações que se estabelecem entre ação e texto, Rastier (2001a) considera a articulação entre dois planos distintos – um de ordem praxiológica, outro de ordem linguística. Sobejamente conhecido, o esquema seguinte dá conta das correspondências que se estabelecem entre estes dois planos, que vão do global ao local: