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6. IANA Considerations

6.3. Header Field Names

A construção de identidade está intrinsecamente ligada à representação

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, pois ambas

se materializam nas interações e práticas sociais e se vinculam à ideia de reconhecimento.

Desse modo, como afirma Hall (2005), “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’:

formada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados

nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 1987 apud HALL, 2005, p. 12-13) não

podendo ser entendida, portanto, como natural, como biologicamente determinada, ou seja,

como algo inato.

Assim como Hall (2005), Gomes (2005) também entende identidade na perspectiva

cultural. Para esta autora, identidade

[...] se refere a um modo de ser no mundo com os outros. É um fator importante na criação de redes de relações e de referências culturais dos grupos sociais. Indica traços culturais que se expressam através de práticas linguísticas, festivas, rituais, comportamentos alimentares e tradições populares referências civilizatórias que marcam a condição humana. (GOMES, 2005, p. 41)

Além da perspectiva cultural, para Gomes (2005), a identidade envolve também os

níveis sócio-político e histórico. E, “reconhecer-se numa identidade supõe, portanto, responder

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afirmativamente a uma interpelação e estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo

social de referência” (GOMES, 2005, p. 42)

Esse processo de (re)conhecer-se em uma identidade envolve tempo e espaço e um

constante embate das identidades na reconstrução e negociação de sentidos. Desse modo, as

identidades são consideradas também um lugar de poder, no qual a diferença é utilizada como

principal estratégia discursiva e política.

Ao assumir a identidade do grupo de referência, estabelece-se uma fronteira na qual a

diferença é demarcada como estratégia política de reivindicação coletiva e de ocupação de

espaços social, cultural e simbólico. Assim, a diferença é utilizada também como umpoderoso

instrumento de questionamento e desestabilização dos sistemas que dominam a representação

da identidade e da diferença, responsáveis pela invisibilidade histórica de determinados grupos

sociais, como o negro.

Dessa forma, a ênfase na identidade resulta, também, na ênfase da diferença. Ao mesmo tempo em que a busca da identidade por parte de um grupo social evoca a diferença deste em relação à sociedade ou ao governo ou a outro grupo e instituição, ela possui um processo de elaboração e diminuição das diferenças internas do próprio grupo e dos vários grupos que formam, naquele momento de reivindicação, um único sujeito político. (GOMES, 2005, p. 41)

É nesse sentido que surge a identidade negra.

2.2 IDENTIDADE NEGRA

O conceito de identidade negra foi reelaborado pelo Movimento Negro, ligando-o à

cultura, ao reconhecimento da ascendência africana diversa e à memória das relações sociais

processadas ao longo do período de escravização dos negros africanos. Entretanto, vale

ressaltar que, mesmo compartilhando esses aspectos, a identidade negra, assim como todas as

outras identidades, deve ser entendida como um processo aberto, em constante construção, o

qual se dá na interação conflituosa com outros sujeitos portadores de outras identidades,

mesmo quando formam parte do mesmo grupo, o que, politicamente faz com que as diferenças

se reduzam, mas não se constituam, pois, como um “bloco homogêneo”.

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Como nos alertam as DCN-ERER (2004), é preciso ter consciência da complexidade

que envolve o processo da identidade negra no Brasil, já que este processo é “marcado por

uma sociedade que, para discriminar os negros, utiliza-se tanto da desvalorização da cultura de

matriz africana como dos aspectos físicos herdados pelos descendentes de africanos”

(BRASIL, 2004, p. 15). Por isso, autoras como Souza (1983), Gomes (2001, 2005) e Silva

(2011) afirmam que ser negro no Brasil é “tornar-se negro”.

Tornar-se negro é

[...] tomar consciência do processo ideológico que, através de um discurso mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada, na qual se reconhece. [...] é tomar posse desta consciência e criar uma nova consciência que assegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração. (SOUZA, 1983, p. 77)

É, também, um processo de desconstrução das representações sociais atribuídas ao

negro, à sua cultura e à sua história, a fim de inferiorizá-lo. Isso significa dizer que “para

identificar, tornar explícita e aceitar a sua origem negra, o indivíduo [precisa desconstruir] na

sua consciência todos os estereótipos negativos, preconceitos e imagens e juízos presentes na

representação do negro” (SILVA, 2011, p. 94).

O termo negro foi utilizado, inicialmente, como uma “adjetivação dada pelo

colonizador aos povos africanos” (SILVA, 2010, p. 47) para designar pejorativamente os

escravizados (DCN-ERER, 2004). Esse termo, no entanto, foi ressignificado pelo Movimento

Negro, o qual lhe atribuiu um sentido político e positivo de valorização cultural e histórica dos

povos negros, não se restringindo, desse modo, como esclarece Silva (2010), ao indivíduo de

pele negra e cabelos crespos. Aspectos estes valorizados como símbolos de consciência,

autonomia e pertença à identidade negra, devido também à contribuição incisiva do

Movimento Negro.

É no sentido político, portanto, que neste trabalho o termo negro é

adotado.

Desse modo, a identidade negra pode ser entendida como um processo de

conscientização construído social, cultural e historicamente de forma plural que se estabelece

no contato e no contraste com o outro, o que implica a forma como o negro foi e é

representado socialmente, o reconhecimento e a aceitação explícita de sua origem negra, assim

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como por seu grupo referencial étnico-racial, estando a identidade negra, dessa maneira, em

constante processo de reelaboração.

A identidade negra é uma identidade política que busca com a unificação, e não

homogeneização, transformar a realidade do negro no Brasil através da valorização e

conscientização política, sócio-histórica e cultural do negro.

2.3 RAÇA/ETNIA

Ao se abordar a realidade do negro no Brasil, várias instituições sociais, como, por

exemplo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a mídia e alguns/algumas

intelectuais e parte das pessoas que compõem a sociedade brasileira costumam adotar o termo

raça para identificar as pessoas negras. Porém, o uso desse termo é bastante questionado

porque, como afirma Gomes (2005), “nos remete aos ranços da escravidão e às imagens que

construímos sobre ‘ser negro’ e ser ‘branco’ em nosso país” (GOMES, 2005, p. 45),

dimensões históricas ligadas aos processos de dominação e exploração.

Raça é um conceito criado social e historicamente que através das transmutações

ideológicas classificou e hierarquizou as diferenças dos diversos grupos sociais em favor da

manutenção dos interesses e privilégios do grupo étnico-racial dominante.

O termo raça foi empregado nos séculos XVI-XVII, como nos explica Munanga

(2003)

7

, para classificar “a diversidade humana em grupos fisicamente contrastados” e para

distinguir diferentes classes sociais, legitimando as relações de dominação e de sujeição entre

as classes. Posteriormente, para classificar os habitantes das terras “descobertas”, cuja

humanidade era questionada, o termo raça foi recuperado como elemento de hierarquização

entre a diversidade, estabelecendo uma relação “intrínseca entre os caracteres biológicos e

qualidades morais, psicológicas, intelectuais e culturais que desemboca na hierarquização das

chamadas raças em superiores e inferiores” (MUNANAGA, 2003). Esta hierarquização foi

feita pelo naturalista sueco Carl Von Linné, quem dividiu, segundo Munanga, o Homo Sapiens

em quatro raças:

7 Artigo, intitulado Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia, em ocasião da palestra proferida no 3º Seminário Nacional Relações Raciais e Educação-PENESB-RJ, sob o mesmo título, em 05 de novembro de 2003. Disponível em: http://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2014/04/Uma- abordagem-conceitual-das-nocoes-de-raca-racismo-dentidade-e-etnia.pdf. Acesso em: 12 de nov. de 2015.

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· Americano, [...] moreno, colérico, cabeçudo, amante da liberdade, governado pelo hábito, tem corpo pintado.

· Asiático: amarelo, melancólico, governado pela opinião e pelos preconceitos, usa roupas largas.

· Africano: negro, flegmático, astucioso, preguiçoso, negligente, governado pela vontade de seus chefes (despotismo), unta o corpo com óleo ou gordura, sua mulher tem vulva pendente e quando amamenta seus seios se tornam moles e alongados. . Europeu: branco, sangüíneo, musculoso, engenhoso, inventivo, governado pelas leis, usa roupas apertadas. (MUNANGA, 2003)

Nessa classificação, Linné, através da cor da pele, aspectos físicos e culturais,

associando-os também aos aspectos psicológicos, estipula valores hierárquicos nos quais o

branco europeu era o representante supremo das qualidades positivas e de civilidade. Esses

elementos de hierarquização, como afirma Munanga (2003), sobreviveram ao tempo e aos

progressos das ciências e se mantêm intactos no imaginário coletivo das novas gerações.

A partir daí, as raças diferentes foram divididas em três: raça branca, negra e

amarela, tendo sido a cor da pele usada como critério fundamental.

No início do século XIX, traços morfo-biológicos como,

formato do nariz, lábios,

crânio e face foram acrescentados à cor da pele como critério de classificação das raças. E, em

meados desse mesmo século, teorias científicas como as de Charles Darwin (1859), sobre

evolução, seleção natural e hereditariedade das espécies, formaram a base para teorias

pseudocientíficas de cunho racista para classificar e hierarquizar as diferenças humanas

através das características físicas/biológicas, “transformando-as em desigualdades, em marcas

de superioridade para uns/mas (fenótipo branco/europeu) e de inferioridade para outros/as

(negro/africano)” (Silva, 2001, p. 76), entendidas supostamente como naturais.

Todavia, no século XX, com o avanço tecnológico e nas ciências biológicas, os

cientistas comprovaram, através do cruzamento de critérios e do padrão genético dos

indivíduos, que biológica e cientificamente as raças não existem, sendo raça, como colocou

Munanga (2003), um conceito cientificamente inoperante para explicar a diversidade humana

e para dividi-la em raças estancas.

Mesmo esse conceito de raça tendo sido refutado cientificamente, seus

[...] argumentos [e] concepções racialistas ainda estão presentes na atualidade e continuam exercendo força ideológica não apenas entre a comunidade branca, mas

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entre parcelas significativas da comunidade negra. Elas não surgiram espontaneamente nem são frutos de meras transposições de pensamento externo. Elas se alimentam e terminam por legitimar o racismo. (GOMES, 2001, p. 88)

Sendo assim, alguns cientistas sociais continuam utilizando o conceito raça para

discutir a situação social do negro, já que o racismo funciona como mecanismo de sua

exclusão. Contudo, não o fazem com o significado com o qual ele foi forjado, na ideia de

purismo e supremacia racial, mas da forma como junto ao Movimento Negro o conceito raça

foi ressignificado:

[...] como uma nova interpretação, que se baseia na dimensão social e política do referido termo. E, ainda, usam-no porque a discriminação racial e o racismo existentes na sociedade brasileira se dão não apenas devido aos aspectos culturais dos representantes de diversos grupos étnico-raciais, mas também devido à relação que se faz na nossa sociedade entre esses aspectos físicos observáveis na estética corporal dos pertencentes às mesmas. (GOMES, 2005, p. 45)

Alguns/algumas intelectuais, entretanto, preferem utilizar o termo etnia ao de raça

para se referir à relação entre o negro e o

branco no nosso país por entenderem que o termo

raça remete aos antecedentes históricos de subjugação e hierarquização de determinados povos

pautados na naturalização dos aspectos físico/biológicos. Assim, o termo etnia é empregado

em alusão “às características culturais- língua, religião, costumes, tradições, sentimento de

‘lugar’- que são partilhadas por um povo” (HALL, 2005, p. 62) e ao “pertencimento ancestral

e étnico/racial dos negros e outros grupos em nossa sociedade” (GOMES, 2005, p. 50).

Mesmo que muitos estudiosos/as das relações raciais reconheçam a contribuição

teórica do conceito de etnia nesse campo, como afirmam Gomes (2001) e Munanga (2003),

quando se discute a situação do negro na sociedade brasileira, raça ainda é o termo mais

adotado.

Acredito, desse modo, que a expressão étnico-racial, depois da ressignificação do

termo raça pelo Movimento Negro, agregaria esses dois posicionamentos quanto à raça e à

etnia pois, de acordo com as DNC-ERER (2004),

[...] o emprego do termo étnico na expressão étnico-racial, serve para marcar as relações tensas devidas a diferenças na cor da pele e traços fisionômicos o são

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também devido à raiz cultural plantada na ancestralidade africana, que difere em visão de mundo, valores e princípios das de origem indígena, europeia e asiática. (BRASIL, 2004, p. 13)

No Brasil, os processos ideológicos se basearam no conceito de raça, como ele foi

inicialmente elaborado, e serviram, em primeiro lugar, para dominar e escravizar os povos

negros trazidos à força da África. E, posteriormente, para forjar uma identidade nacional,

através da mestiçagem

8

, processo de branqueamento da população brasileira, e para disseminar

a crença na existência de uma democracia racial

9

. Estes processos contribuíram, ao longo da

história, para a subordinação social das pessoas negras, para a sua representação negativa e,

consequentemente, para a sua invisibilidade. Por isso, como afirma Gomes (2005), “raça é o

termo que consegue dar a dimensão mais próxima da verdadeira discriminação contra os

negros, ou melhor, do que é o racismo que afeta as pessoas negras da nossa sociedade”

(GOMES, 2005, p. 45).

2.4 RACISMO/DISCRIMINAÇÃO RACIAL

O racismo, como vimos, a partir das teorias pseudocientíficas, é um conceito sócio-

histórico, que através de ideologias inferiorizantes, manipula a diferença como instrumento de

(des)valorização e hierarquização entre os diversos grupos étnico-raciais, sendo o branco

europeu visto como referência positiva em oposição aos demais. É, portanto, uma forma

perversa de desumanização e exclusão, pautada na ideia da existência de raças superiores e

inferiores, presente nas diversas sociedades.

Muitos autores/as estão de acordo com o fato de o racismo no Brasil ser um caso

complexo e singular, já que ele se afirma por meio da sua própria negação, o que constitui seu

caráter ambíguo. Contudo, vale lembrar, como mostra Van Dijk (2008), que o racismo

também foi frequentemente negado em outros países da América Latina, como Venezuela e

Chile, por exemplo. Assim,

8 Esse processo será desenvolvido no capítulo 3, seção 3.2.

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As desigualdades na interação diária com os indígenas e com as pessoas negras em sociedades tradicionais, em que todos os grupos tinham seu lugar e papel próprios, pareceram tão ‘naturais’ que a ideia de dominação racista foi geralmente vista- e, muitas vezes, ainda o é- como uma acusação absurda. (VAN DIJK, 2008, p. 13)

No Chile, o racismo é direcionado ao índio, em particular à etnia Mapuche, mesmo

tendo a maioria da população raízes indígenas, enquanto na Venezuela se verifica tanto em

relação ao índio como ao negro, sendo mais evidente em relação ao negro. É interessante notar

que os mecanismos racistas adotados nestes países foram os mesmos presentes no Brasil, a

exemplo da mestiçagem, processo político-ideológico utilizado para ocultar e naturalizar as

desigualdades.

Já o racismo direcionado aos negros (todas as pessoas não brancas) nos Estados

Unidos e o racismo que ocorreu na África do Sul, com o extinto regime do apartheid, era

explícito e institucionalizado, o que significa dizer que “implica práticas discrimitórias

sistemáticas fomentadas pelo Estado ou com o seu apoio indireto” (GOMES, 2005, p.53) que

se manifestavam sob a forma de extrema violência física, por vezes resultando em

assassinatos, violência moral e patrimonial.

Por muito tempo o racismo no Brasil, comparado ao racismo praticado nos Estados

Unidos e na África do Sul, foi considerado pelos grupos dominantes, como sinaliza Van Dijk

(2008), como relativamente benevolentes. Ou mesmo, como mostra Gomes (2005), essa

comparação foi utilizada para explicar a suposta inexistência do racismo no Brasil, ajudando a

reforçar a sua ambiguidade e a ideia da existência de uma democracia racial na sociedade

brasileira.

O pensamento sobre a existência de uma convivência pacífica e em igual condição

entre os diversos grupos étnico-raciais, e, desse modo, a negação do racismo, ainda está

presente na atualidade, dificultando a mudança de valores e práticas sociais em relação ao

negro, o seu acesso a posições sociais privilegiadas e a bens materiais e simbólicos, assim

como dificulta a efetivação de políticas públicas voltadas para esse grupo étnico-racial no

Brasil.

No Brasil, o modelo racista, criado e desenvolvido histórica e ideologicamente, se

manifesta na vida cotidiana do/a negro/a brasileiro/a por meio de atos discriminatórios,

baseados na naturalização do conceito de raça, que violam os seus direitos e os direitos do

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grupo étnico-racial ao qual pertencem, se apresentando, como coloca Silva (2001),

basicamente em três níveis: individual, institucional e cultural.

No nível individual, um membro de um grupo racial julga-se superior a outro simplesmente por pertencer ao grupo tido como superior (branco, por exemplo). O racismo acentua atributos positivos do grupo que se acha superior e atributos negativos do que é inferiorizado, retira a humanidade do grupo racial em posição de inferioridade, transforma as diferenças em desigualdades.

No nível institucional, o racismo dispõe as instituições (Estado, escola, igrejas, partidos políticos etc.) a serviço dos pressupostos do racismo individual; limita, a partir de algumas práticas institucionais as escolhas, os direitos, a mobilidade e o acesso de grupos e pessoas (negras, por exemplo) a determinadas posições ou ao seu desenvolvimento pleno. [...]

No nível cultural, pode ser entendido como a expressão individual e institucional da superioridades da herança cultural de um grupo étnico-racial com relação a outro; ou seja, o racismo se expressa na cultura quando todos os saberes produzidos pelas sociedades milenares africanas, por exemplo, não têm o valor cultural de saberes greco-romanos. (SILVA, 2001, p. 77)

Essas práticas são conhecidas como discriminação racial, que afeta o/a negro/a

e seu grupo étnico-racial nos vários aspectos de suas vidas, na maioria das vezes, causando sua

separação ou sua exclusão das relações e convívio com outras pessoas ou grupos, negando-

lhes “os direitos de cidadania e os bens econômicos e de prestígio na sociedade” (SILVA,

2011, p. 75), como também a expressão e valorização de sua memória cultural ancestral.

De acordo com Gomes (2005), se deve ter cuidado para não considerar a

discriminação como produto direto do preconceito, já que este pensamento tem grande

aceitação no Brasil. Segundo essa autora, baseada nas explicações de Teixeira (1992), essa

afirmação acaba por posicionar o indivíduo, portador do preconceito, como responsável pela

discriminação, quando se sabe que “os preconceitos não são necessariamente manifestações do

racismo. Pelo contrário: é o racismo que gera os piores e mais violentos preconceitos”

(MOORE, 2007, p. 280).

Dessa maneira, partindo do pressuposto de que a discriminação se apresenta de dois

modos, Gomes (2005), fundamentada em Jaccoub e Begin (2002), os classifica em direto e

indireto, que podem ser associados, no meu ponto de vista, à discriminação no nível individual

e à discriminação no nível institucional, respectivamente, estabelecidas por Silva (2001). No

modo direto, o fator para exclusão se baseia na cor da pele. Já no modo indireto, segundo

Gomes (2005), é a forma mais perversa de discriminação, pois “geralmente alimenta

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estereótipos sobre o negro e é exercida sob o manto de práticas administrativas ou

institucionais” (Gomes, 2005, p. 56), sendo a melhor forma de torná-la visível e superá-la a

análise de indicadores de desigualdade entre os grupos.

O conceito de

discriminação racial foi estabelecido pelas Nações Unidas, na

Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial

(1968)

10

como:

[...] toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública (ONU, 1968)

Comprometendo-se os Estados-partes a “tomar as medidas imediatas e eficazes,

principalmente no campo do ensino, educação, cultura, e informação, para lutar contra

preconceitos que levem à discriminação racial” (ONU, 1968)

Acredito ser necessária uma breve explicação do que se configura como preconceito,

pois, como apontado anteriormente, é ele gerado pelo racismo e se encontra embutido nas

relações sociais “tornando-se uma espécie de mediador de todas as relações humanas”

(SANT’ANA, 2005, p. 62). Essa explicação será desenvolvida na seção a seguir.

2.5 PRECONCEITO/PRECONCEITO RACIAL

As relações humanas são baseadas no reconhecimento, o que implica a visão que se

tem de si próprio e do outro. Quando esta visão se expressa através de um julgamento negativo

e prévio, que estigmatiza pessoas e grupos étnico-raciais, “baseado em dados não

comprováveis da realidade do outro, colocando esse outro sob rejeição ou suspeita” (SILVA,

2010, p. 21), tem-se a materialização do preconceito.

Assim, o preconceito pode ser entendido como:

10 Disponível em: http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=94836. Acesso em: 27 de mar. de 2007.

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[...] basicamente uma atitude negativa (é necessário que haja algum referente positivo para comparação) com relação a um grupo ou pessoa, baseando-se num processo de comparação social em que o grupo da pessoa preconceituosa é considerado um ponto positivo de referência. É uma posição psicológica que acentua sentimentos e atitudes endereçados a um grupo como um todo, ou a um indivíduo por ser membro dele.

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