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4.4 Description de l’étude 4
É fundamental situar que Sêneca e Paulo viveram em um mesmo momento histórico, e a diferença na produção de suas epístolas contribui para a observação da razoabilidade na flexão da produção gênero epistolar naquele período. Outro fator preponderante que se observa é o propósito final daquelas epístolas. Becker (2007, p. 24) destaca o fato de Paulo ser pioneiro, entre os primeiros cristãos, no uso do gênero epistolar para comunicação com as igrejas por ele fundadas, e
juntamente com os romanos que fizeram uso desse gênero, serviu de modelo para o ressurgimento da epistolografia no século IV d.C., no período da Patrística.
Se comparadas as finalidades das produções das epístolas de Sêneca e de Paulo mede-se uma distância entre elas. De acordo com Becker (2007, p. 21) há uma diferença marcante entre os propósitos da escrita das epístolas de Paulo e as dos escritores romanos. Ebbeler (2001, p. 68) menciona que no século I d.C. as epístolas de Cícero já se integravam nos círculos de leitura, fato que colaborou para o reconhecimento do enquadramento da epístola no campo da literatura latina. Ebeller (2001, p. 67) ainda destaca que a composição das coleções de epístolas de Sêneca e Plínio tinha como finalidade o encaminhamento à divulgação e publicação. Quanto a esse aspecto, a influência de Cícero tornou-se fundamental na realização desses propósitos.
Para os escritores romanos, de um modo geral, a obra literária servia como recurso para sustentação e permanência da imagem de seu autor, permitindo sua imortalidade. O próprio Sêneca faz referência a esse fato, comentando sobre o valor da correspondência como forma de divulgar certos personagens, possibilitando a oportunidade de seus nomes serem perpetuados.
São as cartas de Cícero que não deixam esquecer o nome de Ático. De nada lhe adiantaria ter tido como genro Agripa, como genro-neto (progener) Tibério, como bisneto Druso César; no meio de tão ilustres nomes, o nome de Ático permaneceria esquecido se Cícero o não tivesse ligado para sempre ao seu (SÊNECA, Ep. 21.4).
Segundo Becker, as epístolas de Paulo não se encaixavam nesse objetivo da produção literária, visto que seus propósitos se mostravam mais imediatos, visando atender às comunidades cristãs, como destinatárias diretas, em seus questionamentos e problemas. Porém, independente de qualquer intencionalidade, as epístolas de Paulo serviram de instruções não somente aos destinatários indicados, mas tornaram-se fontes de ensinamentos fundamentais na implantação e expansão do cristianismo.
Ponderando os objetivos específicos e limitados que perseguem as cartas de Paulo é evidente que o Apóstolo conseguiu afrontar a situação historicamente limitada em que se encontrou de forma que as outras comunidades, desde aquele tempo até hoje, viram-se refletidas nelas e puderam ler e perceber seu conteúdo como orientação. Enfim: elas se encontraram com uma compreensão no cristianismo que se julgava de validade geral e que, pelo visto, conseguiu impor- se com força persuasiva. Essa luz interior de suas cartas demonstrou-se, sem, sombra de dúvidas,
decisiva na coleção e conservação de sua correspondência (BECKER, 2007, p. 22).
O próprio Becker expõe que as epístolas de Paulo não eram detentoras de propósitos literários, mas pela essência e significados de seus conteúdos foram ampliadas para um público não restrito, possibilitando o seu encaixamento no gênero literário, visto que foram copiadas em manuscritos de diferentes origens, o que favoreceu a permanência dos textos.
O apóstolo Pedro fornece um depoimento em sua segunda epístola que autentica a credibilidade de Paulo e ressalta o seu valor.
[...] .e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; como faz também em todas as suas epístolas, nelas falando acerca destas coisas, nas quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição (2 Pedro 3.15-16).
Os comentários de Pedro contribuem como informação sobre a circulação das epístolas de Paulo e a prática da leitura fora da esfera específica dos destinatários. Parece relevante a qualidade e profundidade dos textos e a forma responsável como o gênero epistolar foi requisitado como recurso da comunicação e ensinamentos de concepções espirituais tão profundas, até mesmo inatingíveis para alguns.
Paulo também usa o termo epístola145 ao referir-se às suas correspondências destinadas às igrejas: “Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os irmãos” (1Tess., 5.27). No livro de Atos, há uso do termo epístola em contexto diferente: “E pediu-lhe cartas para Damasco para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns deste Caminho, os conduzisse presos a Jerusalém” (Atos 9.2).146 O autor faz referência à perseguição aos seguidores de Jesus, comandada por Paulo (Saulo), antes de sua conversão. Observa-se que em todas as traduções consultadas, das bíblias em português, o termo grego epístola é traduzido como carta, talvez como consequência da tendência de se estabelecer a diferença entre carta e epístola, como já discutido anteriormente.
145
O termo epístola usado por Paulo aparece tanto no grego como no latim da nova vulgata.
Ἐνορκίζω ὑµᾶς τὸν κύριον ἀναγνωσθῆναι τὴν ἐπιστολὴν πᾶσιν τοῖς ἀδελφοῖς. Adiuro vos per Dominum, ut legatur epistula omnibus fratribus (1 Tess. 5.27).
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Nessa passagem de Atos 9.2 nota-se que também o tipo de carta, como um documento de autorização para Paulo perseguir os seguidores de Jesus, é designado como epístola tanto no texto grego quanto no latino, porém, as traduções consultadas optam pelo uso do termo carta. (ᾐτήσατο
παρ. αὐτοῦ ἐπιστολὰς εἰς Δαµασκὸν πρὸς τὰς συναγωγάς), (et petiit ab eo epistulas in Damascum ad synagogas) (Atos 9.2).
Como se mostra evidente, a escolha da escrita da maioria dos livros canônicos de composição do Novo Testamente segue a forma de epístolas. Dos vinte e sete livros, somente seis não se enquadram no gênero epistolar, mas ainda pode-se destacar que a epistolografia comparece no livro de Apocalipse, por meio das epístolas dirigidas às sete igrejas da Ásia Menor. Young (2005, p.10) reforça essa informação fazendo comparação com o interesse nesse tipo de escrita na cultura greco-romana, referindo-se às epístolas de Sêneca dirigidas a Lucílio.
Segundo Hale (1983, p. 31), o texto grego mais antigo, contendo epístolas de Paulo, é o Papyrus P46, datado, aproximadamente, no final do século II d.C. e foi produzido no Egito.147 Trobisch (2001, p.14) também identifica que o conjunto das epístolas de Paulo é tratado como coleção, como mostram os manuscritos existentes, com destaque para o Papyrus 46P que é o manuscrito mais antigo em forma de livro (códex), pois até o século IV d.C. era mais frequente o uso de rolos. Os cristãos foram os primeiros a utilizar com mais frequência o códex, pela facilidade da leitura.
As epístolas que compõem o Novo Testamento norteiam a organização dos textos nos manuscritos encontrados. Os quatro mais antigos são referentes ao século IV d. C., sendo catalogados e guardados em diferentes bibliotecas que lhes dão a identificação.148 Segundo informações de Trobisch (2001, p. 9) nesses quatro manuscritos mais antigos, completos do Novo Testamento, estão registradas quatorze epístolas de Paulo, incluindo a de Hebreus. A sequência dos livros é a mesma nos quatro manuscritos: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Efésios, Filipenses,
Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus, 1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom. Uma
regularidade que se mantém nesses manuscritos é a unidade do livro de Atos com as epístolas gerais: Tiago, 1 e 2 Pedro, 1, 2, 3 João e Judas.
Eusébio de Cesareia faz um comentário em sua obra, indicando que em seu tempo havia dúvidas quanto à autenticidade da autoria de Paulo da epístola aos Hebreus.
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Segundo Trobisch (2001, p. 14), Papyros 46P é um livro (códex) que tem 52 folhas dobradas ao meio, totalizando 104 folhas e 208 páginas. O texto é escrito em grego e existem epístolas incompletas ou até ausentes na coleção. O manuscrito é dividido em dois volumes, estando um na biblioteca de Dublin, Islândia e o outro na Livraria da Universidade de Michigan.
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Hale (1983, p. 33) informa que o Codex Vaticanus (B) está na Biblioteca do Vaticano. Este manuscrito contém a maior parte do Velho Testamento e todos os livros do Novo Testamento (exceto
Hebreus 9.15,13.25; 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemom e Apocalipse). Estes livros e porção de Hebreus
De minha parte, se hei de dar minha opinião, eu diria que os pensamentos sim são do Apóstolo, mas o estilo e a composição são de alguém que evocava a memória dos ensinamentos do Apóstolo, como um aluno que anota por escrito as coisas que seu mestre disse. Por conseguinte, se alguma igreja tiver esta carta como sendo de Paulo, que também por isto seja estimada, pois não sem motivo os antigos varões a transmitiram como de Paulo (EUSÉBIO, Hist.Ecles. VI. XXV. 13).149
Trobisch (2001, p.10) relata que Martinho Lutero ao traduzir o Novo Testamento do latim para o alemão, com base na tradução de Erasmo de Roterdã,150 mudou a ordem dos livros, retirando a epístola aos Hebreus da coleção de Paulo, colocando-a juntamente com as epístolas gerais,no final, antes de Apocalipse.
A autenticidade paulina de algumas epístolas foi posta em dúvida a partir do século XIX, conforme os dados apresentados por Heyer (2008, p. 6). De início, as chamadas pastorais, 1 e 2 Timóteo e Tito, e depois também 2Tessalonicenses,
Efésios e Colossenses. As escolas acadêmicas que investem na crítica da forma e
conteúdo da exegese bíblica são responsáveis pela apresentação de argumentos que rejeitam a autoria de Paulo dessas epístolas citadas. Heyer (2008, p. 8) faz algumas observações, concordando com a reclassificação da coleção das epístolas de Paulo de treze para sete. Além de sua adesão à negação da autoria de Paulo das outras seis epístolas, Heyer justifica que só utiliza na escrita de sua obra essas sete epístolas151 consideradas autênticas, tomando-as como base para investigar a vida e o pensamento de Paulo.
A discussão em relação à autoria de Paulo forma nitidamente grupos favoráveis e contrários. Hale (1983) se agrega aos que defendem a autoridade de Paulo em responder pela produção da coleção de treze epístolas. Hale (1983, p. 141)152 toma como base as fontes dos manuscritos que dão sustentação para sua defesa. Ele
149
Tradução de Wolfgang Fischer. 150
Em 1516, Erasmo de Roterdã publicou uma nova edição e tradução para o latim do Novo Testamento, feita a partir dos manuscritos bizantinos dos séculos XIII e XIV.
151
As epístolas de Paulo, consideradas autênticas são: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas,
Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemom.
152
Em seus relatos, Hale (1983, p.149) afirma que “embora Clemente de Roma e Inácio de Antioquia conhecessem algumas das cartas de Paulo, a coleção concreta e existente mais antiga é o Cânon de Marcião, de cerca de 140-150 d.C. Esta lista inclui uma coleção editada de dez cartas de Paulo (em ordem: Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Romanos, 1 e 2 Tessalonicenses, Laodicenses (Efésios),
Colossenses, Filipenses e Filemom). As Pastorais foram, provavelmente, rejeitadas pelo fato de
Marcião ter sido um gnóstico. O Fragmento Muratoriano (cerca de 180 d.C.) inclui as Pastorais nas treze epístolas de Paulo, mas Hebreus não está na coleção. O mais antigo manuscrito grego (P 46 ) das epistolas de Paulo que foi preservado data de cerca do fim do segundo século. Este manuscrito, pelo fato de colocar Hebreus entre Romanos e I Coríntios, indica Paulo como sendo o autor de
Hebreus. II Tessalonicenses, Filemom e as Pastorais estão ausentes do manuscrito preservado, mas
apresenta justificativas dos que negam a autoria de Paulo das seis epístolas e tece seus argumentos a favor da autoria de Paulo. A ressalva de Hale (1983, p. 247) é quanto ao seu posicionamento favorável à ideia de anonimato da autoria do livro de
Hebreus, por não ser igual a nenhum outro livro do Novo Testamento, pois começa como um tratado, continua como um sermão e conclui como uma epístola.
Na concepção de Becker (2007, p. 24), o valor dado às coleções de epístolas, no contexto em que Paulo produziu suas correspondências, pode ter sido favorável ao interesse na conservação das epístolas e talvez uma tentativa de rearranjo para preservar e compilar as instruções de Paulo, como ponto de partida para a instituição do cristianismo. Becker (2007, p.25) indaga sobre a manipulação em algumas partes dos textos das epístolas, os supostos acréscimos153 às epístolas aos
Romanos e aos Coríntios, a criação de epístolas paralelas se não poderiam ser
considerados como conclusão redacional de uma coleção de epístolas com vistas à posteridade.
Outro fator que interfere na expectativa da coleção dos escritos de Paulo é a ausência de outras epístolas que ele poderia ter escrito, como ele próprio cita “Já lhes disse por carta que vocês não devem associar-se com pessoas imorais” (1Cor. 5.9). E ainda o comentário da epístola recebida da igreja de Corinto. “Ora, quanto às coisas que me escrevestes” (1Cor. 7.1).
Becker (2007, p. 27) chama atenção para o valor de outras fontes externas à coleção das epístolas de Paulo. Estas fontes154 podem ser encontradas no cânon
153
Hale (1983 p.142) analisa a discussão sobre a integridade de Romanos 16 e afirma que a maioria dos manuscritos de melhor evidência inclui o capítulo 16 com a doxologia depois de 16.23. No que diz respeito à primeira epístola aos Coríntios, segundo Hale (1983, p. 163) há falta de qualquer evidência do manuscrito que apoiasse uma compilação das duas primeiras cartas para formar uma. Por estas razões, a grande maioria dos estudiosos bÍblicos aceita a integridade da Primeira Epistola aos Coríntios canônica, como assegurada. Segundo Becker (2007, p. 24) “há boas razões para se supor que as comunidades colecionadoras não só alinhavam os endereços das cartas a que tinham acesso, colocando talvez a carta a elas dirigida no inicio ou no final, mas que também interferiam no próprio texto das cartas. Sempre se chamou a atenção que a doxologia no final da Carta aos
Romanos (Rm. 16.25-27) não pertence à carta original: ela apresenta uma linguagem que imita a de
Paulo, mas que é significativamente modificada e contém uma teologia que se aproxima da teologia deutero-paulina presente em Efésios ou Colossenses. O mesmo sucede com partes das epístolas aos Coríntios, pelo menos mais duas passagens, importantes do ponto de vista de conteúdo, estão sob suspeita de serem acréscimos não-paulinos: 1Cor. 14.33-36 e 2Cor. 6.14, 7.1. Esses acréscimos dão a entender que a coleção interessava a toda a cristandade”.
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Com relação às outras fontes que contribuem, diretamente ou indiretamente, com informações sobre a vida de Paulo, Becker (2007, p. 27) observa que “é preciso, antes de qualquer coisa, fazer alusão ao livro dos Atos dos Apóstolos, que dedica mais do que a metade de seu texto à narrativas a respeito de Paulo. Alem disso, a primeira carta de Clemente e a carta de Inácio de Antioquia citam os martírios de Pedro e Paulo (cf. XV.3). Mesmo assim, as duas citações são comparativamente
que integra o Novo Testamento, e oferecem mais credibilidade do que a literatura apócrifa. No grupo de literatura apócrifa, destaca-se a coleção de epístolas da suposta correspondência entre Paulo e Sêneca, que teria deixado seus primeiros vestígios após o século II d.C. Independente da veracidade do contato entre Paulo e Sêneca, ao analisar a escrita nas produções destes dois autores identificam-se certas proximidades quanto ao conteúdo ético-moral de suas epístolas.