A deturpação analítica da economia sertaneja está ligada ao processo de “combate à seca”, política nordestina, mas que, no entanto era apenas um meio de arrecadar tributos do governo para satisfazer seus próprios interesses. Medidas compensatórias a curto-prazo surgiam, como frentes de trabalho, mas nada que fosse plausível de eficácia; a população continuava marginalizada em meio a medidas paliativas32.
Tudo isso estava presente no Nordeste, por conflitos, bem entre a disponibilidade de recursos e seu uso por parte do poder político, que cada vez mais se mostrava “perdido” diante das decisões tomadas como forma de solucionar os problemas.
As frentes de trabalho foram criadas a partir do Programa Alimentos para a Paz para busca de soluções para os problemas da pobreza, no entanto, com o passar dos anos e, diante da seca cada vez mais frequente, estas passaram a ser não só o único refúgio dos mais necessitados, bem como um grande comércio para os mais abastados.
Assim sendo, qualquer que fosse a ameaça de fim destas, a população de flagelados ficava temerosa e angustiada por notícias e, quando essas demoravam a ser declaradas, o clima de tensão se alastrava pelo Estado. Alguns dos exemplos mais impactantes registrados foram os casos das cidades de Santa Cruz, Jardim de Piranhas e São Vicente.
Após constantes inspeções feitas pelos responsáveis dos órgãos executores das obras aos locais onde estavam instaladas as frentes de trabalho. Uma onda de
32 Ver introdução do trabalho de Meryelle Macedo da Silva e Antonia de Oliveira que trata das condições climáticas, que propiciam a escassez chuvosa no sertão nordestino caracterizando-o como uma base política regional inviável do ponto de vista econômico. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2182-12672016000100013. Acesso em 16 de agosto de 2018.
boatos de que o trabalho estava sendo improdutivo e que suas atividades iriam parar fez com que tivesse início uma onda de invasões e saques por várias cidades do Nordeste.
Na cidade de Santa Cruz, no interior do Rio Grande do Norte, um dos motivos que culminou com a invasão e saque daquela cidade, segundo relato dos próprios camponeses, seria a forma como os trabalhadores vinham sendo tratados. Em entrevista, seu Celestino afirmou que recebiam um salário de fome, sendo dois mil cruzeiros novos e uma cuia de feijão. Isso pelo trabalho realizado durante uma semana de trabalho exaustivo durante doze horas e debaixo de sol forte. O senhor ainda relatou que, “a água servida nas frentes de trabalho era como o salário, pouca e ruim”. O líquido é oleoso, já que é colocado em barris que antes eram depósito de óleo33.
A situação só se agravou, pois o salário se tornou insuficiente para o sustento, e até mesmo o alimento recebido como parte do pagamento chegou a ser vendido e os filhos desses trabalhadores passaram a virar pedintes como forma de complementar uma renda para tantas necessidades.
Não suportando mais a situação de miséria e descaso, 700 homens que há dias aguardavam ser alistados pelo escritório da SUDENE, não obtendo resposta que deveria vir da cidade de Natal, como informou o prefeito Clodoaldo Medeiros, por volta das 15 horas iniciou os saques à cidade. Um depósito no centro foi o primeiro saqueado, suas portas foram arrombadas, pessoas foram pisoteadas e durante 15 minutos as pessoas subtraíram todos os gêneros alimentícios do local. Dalí a população faminta buscou novos lugares para repetir a cena, e só encerrariam o episódio após intervenção da polícia que por ordem do delegado controlou os saques34.
A situação tornou-se um fato comum em diversos municípios do Estado. Apenas era controlada com a chegada de mantimentos por parte do Programa Alimentos para a Paz enviados pelo o Governo do Estado, e diante de declarações como a do senhor Gilberto Sá, diretor do escritório da SUDENE no Rio Grande do Norte, que afirmou que, as “frentes de trabalho” criadas pelo governo do Estado em parceria com a SUDENE ainda continuariam, que apenas sofreram uma redução de
33 DRAMÁTICA a situação dos operários nas “Frentes de Trabalho”. Diário de Natal, Natal, 16 de fevereiro de 1967, p. 10. Acesso em 12.03.2018.
7.000 inscritos para 3.600, que por livre vontade, com o atraso na colheita do algodão ocasionada pela falta das chuvas abandonaram o trabalho35.
Os operários eram esperançosos por dias melhores e carentes de oportunidades, pois, ainda que soubessem que muito do que foi dito não seria cumprido, se tratando do fechamento de algumas Frentes de Trabalho, os mesmos não tinham escolhas, tendo que permanecer em uma constante conformação.
Na cidade de Jardim de Piranhas, o Presidente da Câmara de Vereadores, Valdemir Dantas, relatou à redação do Diário de Natal que, no último domingo, 250 homens invadiram a feira livre da cidade provocando pânico entre comerciantes, moradores e flagelados. A situação foi solucionada a partir da atitude da prefeita Paula Saldanha da Cruz, que juntamente com outras autoridades políticas da cidade, conseguiram junto ao comércio local uma quantia em dinheiro, além de gêneros de primeira necessidade, como, farinha, feijão e rapadura. Após a distribuição dos itens para a população faminta e ociosa, uma frente de trabalho foi criada, indo da cidade ao sítio Juazeiro, onde se concentrava a maioria dos flagelados. Tal atitude exigiu rápida intervenção do governo do Estado, que providenciou de início, a pequena quantia de 3 mil quilos de alimentos36
Na cidade de São Vicente 300 pessoas invadiram a cidade alegando estar passando fome e clamavam por trabalho.
O episódio poderia ter tido um desfecho drástico, parecido com o que aconteceu em Santa Cruz ou em vários outros municípios. No entanto, o prefeito Francisco Pereira Filho, soube negociar e procurou meios de divulgação para pedir solução para esses flagelados, tendo explicado que a prefeitura não tinha condições de solucionar tal problema e exigindo assim ajuda dos poderes estaduais e federais37.
35 SUDENE diz que não acabou com as Frentes de Trabalho. Diário de Natal, Natal, 24 de janeiro de 1967, p. 10. Acesso em 12.03.2018.
36 SUDENE ampliou ações no RGN criando mais quatro frentes. Diário de Natal, Natal, 27 de maio de 1970, p. 04. Acesso em 18.08.2018.
37 300 homens famintos invadiram São Vicente. Diário de Natal, Natal, 23 de abril de 1970, p. 08. Acesso em 17.08.2018.
Fotografia 6 – Momento da invasão de 300 flagelados à cidade de São Vicente 1970.
Fonte: 300 homens famintos invadiram São Vicente. Diário de Natal, Natal, 23 de abril de 1970, p. 08. Acesso em 17.08.2018.
As negociações foram pacíficas, ao contrário do que ocorreu em outros municípios, o povo agiu de forma ordeira, atendendo ao pedido do prefeito que aguardassem notícias nos seus lugares de origem evitando assim qualquer tipo de transtorno. O povo sertanejo estava cansado de ser tratado como mendigo, as pessoas precisavam de oportunidade pra conseguir um emprego e ter um salário melhor, não adiantava nada ficar recebendo uma quantia insuficiente de alimento.