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Por mais de quatro décadas os cultos eram realizados somente em taiwanês. A fluência na língua era devido ao esforço dos pais em transmitir a cultura linguística aos seus filhos. Apesar de multiplicado, o grupo se manteve coeso nas primeiras décadas, portanto, não havia necessidade da tradução do culto para o português. Contudo, nem todos os pais das novas gerações conservaram a preocupação de seguirem os mesmos costumes de ensinar o taiwanês fluente para seus filhos. As dificuldades linguísticas com o taiwanês começaram a aparecer entre as novas gerações, pelo fato de não compreenderem o culto na íntegra. Houve com isso, a necessidade de se traduzir o conteúdo do culto para a língua portuguesa. Segundo Dantas:

(...) toda cultura é um processo permanente de construção, desconstrução e reconstrução que, em tempos de rápidos deslocamentos e constante contato intercultural, torna-se extremamente dinâmico (DANTAS, 2012, p.114).

56 A Comunidade chinesa em São Paulo é estimada em 200 mil pessoas, incluindo os nascidos na China e os descendentes, a maior do Brasil, segundo o presidente da ONG JCI Brasil-China, Chang Kuo I. Essa estimativa considera os chineses continentais e também os nascidos em Taiwan e Hong Kong. “A comunidade chinesa no Brasil não é homogénea, há muitos grupos que se identificam mais pela região ou pelo idioma”, afirmou Chang Kuo I, que reside no Brasil há mais 25 anos. Uma das principais atividades da ONG JCI Brasil-China é a realização de eventos culturais de caráter educacional, com foco tanto na cultura chinesa como na brasileira, com o objetivo de promover a integração. Informações obtidas em>http://www.revistamacau.com/2015/05/18/comunidade-chinesa-em-sao-paulo-estimada-em-200-mil- pessoas/Acesso em 10.Out, 2017.

Aproximadamente nos últimos sete anos, a Igreja Presbiteriana de Formosa inseriu a tradução simultânea para o português.

Para explicar o termo aculturação Watchel considera que “aculturação é todo fenômeno de interação social que resulta do contato entre duas culturas, e não simplesmente a sujeição de um povo por outro” (SILVA & SILVA, 2009, p. 15)57.

Na proposta de Oliveira, a “fricção interétnica” propõe explicar as relações sociais que acontecem dentro das sociedades que se interagem através de contatos e conflitos em relação à difusão, transmissão e assimilação da cultura. De acordo com Viertler, “no jogo das relações intergrupais, Interétnicas (...) estes vários “outros” são apenas semelhantes enquanto seres humanos, mas de qualidades e valores desiguais” (VIERTLER, 2006, p. 45).

Os taiwaneses não perderam sua identidade étnica, apesar da interação com a sociedade brasileira, “as transformações sofridas pelas sociedades em contato interétnico não são os resultados da influência da cultura de uma sobre a outra”, nem mesmo “o produto de uma criação comum determinada pelos fatores postos em interação pelos grupos étnicos” (OLIVEIRA, 1976). Os resultados da interação reestruturam os interesses do grupo e se mantém como forma de sobrevivência, sem perder a identidade étnica do grupo. OLIVEIRA segue “o princípio de Durkheim de estudar o social pelo social, sendo, portanto, a identidade étnica uma forma de identidade social” (VERAS & DE BRITO)58.

“Chamamos 'fricção Interétnica' o contato entre grupos tribais e segmentos da sociedade brasileira, caracterizados por seus aspectos competitivos e, na maioria das vezes, conflituais, assumindo esse contato muitas vezes proporções 'totais', i.e., envolvendo toda a conduta tribal e não tribal que passa a ser moldada pela situação de fricção Interétnica". A formulação do conceito significava, em primeiro lugar, uma atitude crítica frente a abordagens correntes à época no Brasil, como aquelas que focalizavam os processos de "aculturação"

57 O termo aculturação foi inicialmente cunhado por antropólogos norte-americanos, sendo o historiador francês Nathan Watchel um dos principais responsáveis por sua adaptação para a História. De acordo com ele, o conceito de aculturação é útil para o desenvolvimento de reflexões sobre as mudanças que podem acontecer em uma sociedade a partir da inclusão de elementos externos, ou seja, do contato com outras culturas. (SILVA & SILVA, 2009, p.15).

58 Informações extraídas da Revista de Antropologia: ANTROPOS. VERAS, Marcos Flávio Portela. DE BRITO, Vanderlei Guimarães. Ano 4, Vol. 5 – Maio de 2012. Artigo 4: Identidade Étnica: A dimensão política de um processo de reconhecimento.

ou de "mudança social", inspirados, respectivamente, nas teorias funcionalistas norte-americanas ou britânicas59.

Viertler (2006, p. 45, 46), declara que “esta dinâmica de relações intergrupais, acaba cristalizando certas marcas ou atributos dos vários grupos envolvidos”, essas “marcas” são construções culturais que visam classificar outros que se diferem de acordo com as “novas conjunturas que assume”. “A identidade é, assim, marcada pela diferença” (SILVA, 2000, p.9). “Assim como a identidade depende da diferença, a diferença depende da identidade, sendo ambas inseparáveis” (SILVA, 2000).

Segundo Dantas, o imigrante deve ajustar-se ao novo local e aprender novos códigos sociais, colocando em xeque o seu universo cultural.

Fica claro, portanto, que o contato contínuo com outra cultura supõe um conflito, crise e uma posterior “adaptação” ao novo ambiente cultural. Interessante lembrar que a palavra “crise” em chinês é formada por dois ideogramas, em que um significa perigo e o outro, oportunidade (DANTAS, 2012, p.116).

São poucos os casamentos mistos entre taiwaneses e brasileiros. O incentivo maior é para uniões matrimoniais endogâmicas, a fim de se evitar conflitos culturais. “Uma etnia pode manter sua identidade étnica mesmo quando o processo de aculturação em que está inserida tenha alcançado graus altíssimos de mudança cultural” (OLIVEIRA,1976)60.

A aculturação dos taiwaneses foi se solidificando com o passar do tempo, identificada principalmente, nos hábitos alimentares adquiridos dos brasileiros, como o costume de comer churrasco e a feijoada, pratos típicos da culinária brasileira, que fazem parte do cardápio dos taiwaneses em eventos e nos almoços coletivos aos domingos, hábito praticado até mesmo pelos anciãos do grupo.

(...) “A cultura não é algo dado, posto, algo dilapidável também, mas algo constantemente reinventado, recomposto investido de novos significados e é preciso perceber (...) a dinâmica, a produção cultural” (CUNHA, 1986, p.99, 101).

59 Informações extraídas da Revista de Antropologia. OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. O Movimento dos Conceitos na Antropologia Universidade Estadual de Campinas São Paulo, USP, 1993, V. 36. Disponível em:<https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/111381/109565. Acesso em 06.Out.2017.

60 Informações extraídas da Revista ANTHROPOLÓGICAS, ano 9, vol. 16(2), 2005, p.19. Disponível em:> http://www.revista.ufpe.br/revistaanthropologicas/index.php/revista/article/viewFile/56/53. Acesso em 06.Out.2017.

A introdução da música brasileira no cotidiano taiwanês é percebida na liturgia de culto, em que se alternam música de bandas evangélicas nacionais e hinos em taiwanês. Hall (2004) defende que a identidade de um grupo é algo construído ao longo do tempo por meio de “processos inconscientes”. A identidade é uma construção social que “se forma através da comunicação com diferentes grupos (..) sendo assim, dinâmica e em constante construção ou formulação” (VERÁS & DE BRITO, 2012, p. 109, 110). A esse respeito Borges Pereira declara: “a identidade não é um dado da natureza: ela é construída socialmente” (PEREIRA, 2005, p.104). Segundo Dantas o migrante enfrenta uma crise psicológica e uma reorganização de mundo, frente a uma outra cultura um complexo processo de negociação relativo à própria identidade, a identidade grupal, os próprios valores, (...), vivência de preconceito, educação dos filhos, relações familiares, questões Inter geracionais (DANTAS, 2012, p.116).

Com isso tornam-se inevitáveis os conflitos geracionais, por se tratar de imigrantes inseridos em uma sociedade marcada pela cultura multirracial, como a do Brasil. “Ocorrem conflitos de mentalidade entre os anciãos e os jovens. A cultura ocidental é diferente da cultura oriental, porém a maioria dos casos de conflitos são resolvidos com diálogo” (Sr. S., 2017).

A transmissão da cultura acontece pela oralidade, tendo em vista a grande barreira linguística enfrentada pelos taiwaneses da primeira geração. A oralidade desempenha um papel central na preservação e difusão de saberes, como ocorre no grupo étnico taiwanês. Concentra-se na comunicação oral a materialização ou exteriorização cultural através da palavra que encerra um legado da própria coesão do grupo. A oralidade torna-se assim importante fonte histórica e para reconstituição do passado e a figura do ancião é primordial como guardião da memória e responsável por ativar o passado às novas gerações.

O conhecimento é a própria palavra. É ela que transmite os conhecimentos de uma geração para outra. (...) daí que os mais novos são treinados anos afora na arte da memorização. A autenticidade da transmissão é assegurada pela existência de uma série de normas rigorosamente observadas na chamada cadeia de transmissão61.

61 BÁ, A. Hampaté. História Geral da África, vol. I. 2ª. Edição. Revisão - Brasília: UNESCO, 2010, capítulo 8, p.168, 169.

No que tange a aculturação no ambiente religioso, destaca-se o evento que ocorre todos os anos, chamado Caipira Naite, que tem promovido adaptação e reelaboração de elementos que expressam a manifestação cultural brasileira, no interior de uma festa taiwanesa.

Houve adaptação quando foi necessário conservar velhos costumes em condições novas ou usar velhos modelos para novos fins. Instituições antigas, com funções estabelecidas, referências ao passado e linguagens e práticas rituais podem sentir necessidade de fazer tal adaptação. Mais interessante, do nosso ponto de vista, é a utilização de elementos antigos na elaboração de novas tradições inventadas para fins bastante originais. Sempre se pode encontrar, no passado de qualquer sociedade, um amplo repertório destes elementos; e sempre há uma linguagem elaborada, composta de práticas e comunicações simbólicas. Às vezes, as novas tradições podiam ser prontamente enxertadas nas velhas; outras vezes, podiam ser inventadas com empréstimos fornecidos pelos depósitos bem supridos do ritual, simbolismo e princípios morais oficiais (HOBSBAWM, 1984, p. 13 e 14).

A festa Caipira Naite representa a ressignificação da cultura, com a tradição de pratos típicos da culinária taiwanesa e, ao mesmo tempo, uma adaptação da festa junina brasileira, representada através da decoração com bambus, bandeirinhas coloridas e vestimentas em xadrez. Realizada próxima da data da festa junina brasileira, tem atraído um número significativo de visitantes a cada ano, de valor social plural, a festa recebe a cobertura da imprensa local: TV O Diário, filial da Rede Globo, divulgadora do evento na região do Alto do Tietê62.

62 O Diário de Mogi, filial da Rede Globo, realizou a reportagem da Festa “Caipira Naite” no ano de 2017. disponível em:> http://odiariodemogi.com.br/mogi-tem-festa-da-cultura-de-taiwan-neste-sabado/05/Ago/2017. Acesso em 11.Nov.2017. Reportagem de Natan Lira.

Figura 17: Festa Caipira Naite, na quadra esportiva da IPF em 2016.

A festa possui significados relevantes para o grupo étnico - a integração dos departamentos em prol do sucesso do evento; a transmissão da cultura às novas gerações através da culinária; oportunidade de outras Igrejas, vizinhos e convidados conhecerem a cultura taiwanesa. A arrecadação da festa é encaminhada às missões evangelísticas.

No dia 05 de agosto de 2017, a Igreja Presbiteriana de Formosa comemorou a 18ª. edição da festa Caipira Naite, com a participação ativa dos seus membros, colaboradores e voluntários externos. A festa contou com aproximadamente 1.400 pessoas que visitaram o evento, realizado nas dependências externas da Igreja. Desde o início da sua realização, a Caipira Naite conta com a participação direta da juventude da IPF, com o objetivo de levantar ofertas para os missionários da Igreja. A brincadeira da prisão é um atrativo que faz sucesso entre os adolescentes e jovens, uma adaptação das brincadeiras juninas brasileiras.

Hobsbawm considera que as rupturas são inevitáveis mesmo em movimentos que se denominam “tradicionalistas”:

(...) Provavelmente, não há lugar nem tempo investigados pelos historiadores onde não haja ocorrido a “invenção” de tradições (...)

mesmo os grupos considerados por unanimidade repositórios da continuidade histórica e da tradição, tais como os camponeses. Aliás, o próprio aparecimento de movimentos que defendem a restauração das tradições, sejam eles “tradicionalistas” ou não, já indica essa ruptura (HOBSBAWM, 1984, p. 12, 15, 16).

De acordo com Borges Pereira (2005, p.103 e 104), o crescente processo de globalização, emerge como uma preocupação atual das identidades singulares: uma “espécie de homogeneização da vida sociocultural de povos diferentes e assim liquidaria com as especificidades desses povos ou grupos”. O que fortalece as “reelaborações de identidades étnicas, a fim de reencontrar e recontar a sua história, recuperar as suas tradições culturais e afirmar-se como grupo social nos espaços sociais e políticos”. “A chamada “crise de identidade” pode ter origem nessas identidades globalizadas, as quais massificam as culturas entrando em choque com as identidades locais” (SILVA, 2000).

Nessa perspectiva, vêm se acentuando os sentimentos de que participamos de uma sociedade global com fronteiras geográficas mais tênues, em função, sobretudo da disseminação de novos modos de comunicação e sociabilidade63.

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