Os estudos sobre a polidez e a face, de autores como Goffman (1967) e Brown e Levinson (1987) iluminaram várias pesquisas subseqüentes sobre o tema, mesmo com as críticas aos seus principais modelos. Mas, a despeito de tantas pesquisas, a natureza da polidez, sua função e seu uso não são consensuais para os estudiosos. Brown e Levinson (1987) explicaram a polidez por meio da face, já Leech (1983) fez uso de Máximas para esmiuçar o termo. Autores como Fraser (1990) apostam que a polidez é regida por um contrato conversacional e Watts (2003) defende que se trata de um comportamento marcado e recorrente em cada cultura.
Alheios às diferenças, os estudos alcançaram investigações de como as pessoas desenvolvem o comportamento verbal polido nas mais diversas áreas, como no discurso médico (Jameson, 2003), em salas de batepapo na internet (PAIVA, 2008), dentre outros. Este trabalho se afina com a colocação de Holtgraves (2005:74), que vê a polidez como um construto teórico o qual congrega processos culturais, sociais, cognitivos e lingüísticos. Para o autor, as motivações sociais e culturais exercem impacto no uso da língua e a face é uma variável mediadora desse uso; ela é construída, negociada e/ou trocada no ato da interação.
As estratégias de polidez são um reflexo das percepções e expectativas individuais, as quais são geradas em função do evento, ou seja, em função do comportamento apropriado para o evento. Entretanto, essa é a visão de um ideal de aplicação das estratégias. Devese considerar que, no ato da interação, fatores como crenças, motivações e objetivos não só podem, como serão, levados em conta no caso de a interação tomar um rumo fora do previsto. Se, por exemplo, um cliente ligar para uma prestadora de serviços para contestar o valor de uma conta, esse consumidor pode fazer uso de seus direitos de forma pacífica ou de forma ríspida e ameaçadora. A expectativa gerada pelo evento é a de abrir um protocolo de contestação do valor e isso será feito independentemente da postura agressiva ou tranqüila do consumidor, sendo essa a sua expectativa individual. Assim, podese dizer que não há uma fórmula de uso das estratégias em decorrência do evento. O
uso da polidez é intrínseco às percepções e vontades do falante, às vezes, definidas apenas durante a conversação.
Nas aulas, por vezes o comportamento verbal dos interlocutores não está exatamente ligado à polidez positiva ou negativa, mas sim a um comportamento apropriado. Há, em algumas situações, intenções de suavizar alguma imposição, mas não que tal imposição ameace abertamente a face alheia. A imposição, assim como a ordem e a advertência, são inerentes ao evento aula. Tratase de um comportamento esperado e previsível, também definido na Teoria da Prática de Bourdieu (1990) como hábito. Watts (2003:149) afirma que o comportamento habitual é o “conjunto de predisposições para agir de certo modo, o que gera práticas cognitivas e corporais para o indivíduo”.
Uma forma de explicar a predisposição de agir de forma específica em situação específica é evocar a noção de frame (Bateson, 1954; Goffman, 1974; Tannen, 1993). Tannen define frame como “estruturas de expectativas baseadas em experiências passadas” (1993:53), como uma coleção de conhecimentos e procedimentos sobre eventos específicos. São as estruturas de expectativas, ou expectativas comportamentais (SpencerOatey, 2005), que antecipam que o falante pode se aborrecer ao pedir a revisão de conta a uma prestadora de serviços e que o mesmo falante não deve se zangar num evento de aula. Entretanto, ambas as situações estão passíveis de reações distintas das esperadas.
Assim, o fato de existirem determinados padrões de comportamento, não significa que eles sempre apontem para o equilíbrio social ou a manutenção da harmonia entre os interlocutores. Tal constatação difere do que sugere Fraser (1990) ao afirmar que o comportamento polido é sempre o esperado e que, por isso, não é notado. De acordo com o autor, apenas o comportamento impolido é percebido, quando o interlocutor viola o contrato conversacional. Estender o comportamento polido como regra geral de eventos comunicativos requer margens a exceções, haja vista os notórios eventos em que a discordância é esperada ou até requerida.
Em sala de aula, situações de brigas ou discordâncias mais acaloradas são pouco ou não esperadas, mas isso não deve ser confundido com a idéia de um ambiente interacional harmonioso por natureza, o qual, aliás, não existe. O que há é uma predisposição habitual gerada pelo evento e pelos interlocutores envolvidos, mas toda conversação é baseada em transmissões lingüísticocognitivas rápidas e
os nela envolvidos são cuidadosos nas escolhas de estruturas, que revelem o que desejam e que escondam o que não querem mostrar. Como lembram Locher e Watts (2003), essas escolhas são, na maioria das vezes, (mas não sempre) feitas inconscientemente e formadas pelas normas sociais, pelos frames e pelas expectativas advindas do evento comunicativo. Mas o que parece óbvio numa predisposição de hábito pode ser revertido por motivos nãolingüísticos ou nem mesmo pelo evento em si, mas por fatores outros, como a estruturação discursiva, o humor dos interlocutores e a forma como recebem os turnos proferidos. Esses são fatores que podem definir um reposicionamento do comportamento verbal e o uso das normas sociais, dos frames e das expectativas podem não validar o antes previsível tom da conversação.
Pela mescla de gêneros que dão contorno ao gênero aula Chat, podese dizer que a apropriação do comportamento verbal é determinada pelo frame ou hábito dos participantes em vivências em aulas presenciais e em ambientes de interação virtual – Chat, fórum de discussão, blog, email, sites de relacionamento, dentre outros. Mas, autores como Locher e Watts (2005), lembram que é importante ponderar que o que parece óbvio numa interação verbal ideal, quando posto em situação real de comunicação pode ganhar contornos polidos ou impolidos para interlocutores distintos.
Estudos como os de Holtgraves e Yang (1990, 1992 apud Holtgraves, 2005) apontam que quanto maior o grau de poder do falante menos recursos de polidez serão usados no discurso. Esses pesquisadores também identificaram relações significativas quanto à distância (D), mencionada por Brown e Levinson (1987). De acordo com Holtgraves e Yang, a ênfase dada a determinadas estruturas polidas reflete, propositalmente, no aumento da distância entre os interlocutores, mas assumem que outros estudos (Baxter, 1984, apud Holtgraves, 2005) apontam para o extremo oposto, em que não há qualquer relação entre a noção de distância e o uso da polidez.
Na verdade, as noções de poder e distância podem ser facilmente manipuladas e, no caso da segunda, admite diferentes interpretações, podendo ser tratada como grau de familiaridade ou como grau de afetividade. Tal distinção é relevante, pois o fato de haver familiaridade entre os interlocutores não necessariamente diminuirá o uso da polidez, mas influenciará o grau de afetividade
e intimidade. De acordo com Holtgraves (2005), as pessoas são mais polidas tanto com pessoas com pouco ou nenhum grau de familiaridade quanto com pessoas de quem elas gostam e têm intimidade. Essa generalização ignora possibilidades relevantes, como o evento em que se dá a interação e as motivações e objetivos dos interlocutores. O item 4.4 detalhará melhor como as variáveis de poder e distância influenciam a interação virtual.
Além das variáveis de poder e distância citadas e do grau de imposição, outras dimensões também estão envolvidas e podem funcionar como subdivisões de P, D e R. Gênero, diferenças ocupacionais e mesmo o humor intervêm, diretamente, na ação interacional. Estudos como o de Forgas (1999a, apud Holtgraves, 2005) atesta que pessoas com mau humor tendem a usar mais estratégias de polidez do que as bem humoradas. Mesmo não fazendo parte das variáveis analisadas nos dados deste trabalho, é importante pontuar que tendências emocionais também exercem impacto no grau de polidez dos falantes. E sua existência é, muitas vezes, usada como forma de negociação ou alteração do contexto interpessoal. Assim, uma pessoa que, em determinada interação, possua poder mais elevado que os demais – como é o caso do professor – pode se apoiar nas variáveis citadas, buscando negociar uma relação mais próxima e amigável com seus alunos.
De acordo com Shegloff (et al 1977), há uma forte tendência para que os interlocutores permitam que os falantes corrijam ou reparem seus próprios erros conversacionais, em vez de corrigirem uns aos outros; com isso, há um declínio de uma postura que ameaça a face alheia. O hábito de evitar situações que apontem alguma falha do outro é o que motiva o uso do pedido de desculpas retóricas nas aulas Chat, as quais remetem a uma autoavaliação do falante sobre algo que ele acredita ter falhado, bem como dos atos de fala profiláticos, os quais preservam a autoimagem do falante por meio de antecipação de uma eventual falha. Ambos as desculpas retóricas e os atos de fala profiláticos serão detalhados no capítulo 6 de análise.