O conceito de capital humano apresenta-se à reflexão. Antes, porém, de abordar o conceito de capital humano propriamente dito, faz-se uma opção metodológica por abordar inicialmente o conceito de capital. Segundo Sandroni (2008), capital pode ser compreendido como um dos fatores de produção, formado pela riqueza e que gera renda. Também pode ser
definido como todos os meios de produção que foram criados pelo trabalho e que são utilizados para a produção de outros bens.
William Petty (1623-1687) pode ser considerado como o primeiro economista a enfatizar as diferenças de qualidade do trabalho e a identificar o que, mais tarde, viria a ser conhecido como capital humano, quando defendeu a inclusão do valor do trabalhador nos registros atuariais (CORDEIRO, 1995). A noção de capital em Irving Fisher (1867-1947) é a fonte primária da teoria moderna do capital humano, na forma em que ela surgiu, no fim da década de 1950. Dois teóricos, a saber, Theodore Schultz (1902-1998) e Jacob Mincer (1922- 2006), apresentaram a partir do referencial de Fisher, o conceito de capital humano como um capital independente do capital convencional em relação às características econômicas e produtivas de um país (SAUL, 2004).
A teoria do capital humano pode ser compreendida com um construto ideológico e doutrinário que associa trabalho humano a capital físico, ambos tidos como fatores de produção regidos por lógicas de rentabilidade econômica e de maximização dos benefícios individuais e empresariais. Com o argumento de promover as capacidades humanas, esse quadro teórico reforça o domínio ideológico do capitalismo, acirrando a concorrência entre os indivíduos e transferindo, para os trabalhadores, a responsabilidade pela existência das desigualdades no mercado de trabalho (CATTANI & HOLZMANN, 2006). Essa definição de capital humano apresenta uma crítica importante, especialmente no que concerne a utilização do conceito enquanto legitimador do domínio ideológico exercido pelo capitalismo. Essa crítica está fundamentada na postura de Karl Marx, especialmente no sentido de que o capital humano poderia ser utilizado para garantir maiores ganhos ao capitalista e não ao trabalhador.
Adam Smith, na obra intitulada A Riqueza das Nações (1983), define capital humano como um capital fixo que consiste na soma das habilidades de todos os habitantes ou membros de uma sociedade, os quais contribuem para a valorização desse capital e para o desenvolvimento dessa sociedade. Por isso, para o economista inglês, a educação básica deveria ser generalizada e acessível a todos (OLIVEIRA & SILVA, 2008). Para John Stuart Mill9 (1996), a produtividade do trabalho está limitada pelo conhecimento de seus
trabalhadores e assim entende que a produtividade do trabalho de uma comunidade está determinada em parte pelo grau de destreza e de formação que têm os trabalhadores.
Capital humano também pode ser compreendido como o conjunto dos investimentos destinados à formação educacional e profissional de determinada população. O índice de crescimento do capital humano pode ser considerado um dos indicadores do desenvolvimento econômico. O termo também é utilizado para designar as aptidões e habilidades pessoais que permitem ao indivíduo auferir uma renda (SANDRONI, 2008).
O entendimento de que a educação poderia ser comparada a um investimento produtivo foi tomando corpo na área econômica, a ponto de estimular um campo específico de pesquisa e reflexão. O conceito de capital humano surge na sociedade contemporânea por influência da Economia da Educação10 (CATTANI & HOLZMANN, 2006). Nessa mesma linha de reflexão para Becker (1962) capital humano é qualquer atividade que implique num custo no período corrente e que aumente a produtividade no futuro.
Embora seja antiga a importância atribuída aos elementos ligados à formação dos trabalhadores, remontando à economia clássica, é com Theodore Schultz, na década de 1950, que a teoria do capital humano é alçada ao plano das teorias do desenvolvimento e da equalização social (OLIVEIRA & SILVA, 2008). Nesse sentido, é um conceito sistematizado a partir das décadas de 40 e 50 do século passado, e difundido no Brasil a partir da década seguinte com a divulgação dos escritos do economista americano.
Theodore Schultz pode ser considerado um economista interessado nas situações precárias das nações subdesenvolvidas do mundo. Sua reflexão apontou que os conceitos econômicos tradicionais não tratavam desse problema. Sua alegação era de que a melhora do bem-estar dos pobres não dependia da terra, dos equipamentos ou da energia, mas sim do conhecimento (FITZ-ENZ, 2001).
O movimento pós-guerra (a partir de 1945) marca a passagem para uma concepção de que a educação deve ser compreendida como motor de desenvolvimento econômico e
10 A Economia da Educação surgiu com o objetivo de analisar os assuntos econômicos relacionados à educação, incluindo a demanda por educação e o financiamento e oferta de educação. Além disso, a Economia da Educação, através dos estudos de Theodore Schultz, buscou calcular os valores investidos e as taxas de retorno com educação.
social (PAIVA, 2001). Com isso, os investimentos em educação passaram a receber uma atenção especial, sendo incentivados e difundidos pelo governo e pela iniciativa privada.
As pesquisas em torno do tema foram iniciadas por Theodore Schultz na década de 40 e 50 do século XX. O autor buscou analisar a rápida recuperação econômica de países como o Japão e a Alemanha no pós-guerra concluindo que isso se dava em virtude de tais países contarem com uma população saudável e pelo alto nível de educação da população (SIEDENBERG, 2012).
O estudo das condições de saúde e educação de um povo, ou seja, das capacidades físicas e intelectuais, capazes de constituir a força de trabalho de uma nação, deve ser considerado. Não basta dizer que isso precisa ser levado em consideração sem mencionar os motivos, pois parte-se do pressuposto de que o nível de desenvolvimento dos países com maiores índices de qualidade na educação é maior que nos países que relegaram para segundo plano tais investimentos. A análise de indicadores nesse tipo de abordagem conduz a um tema muito mais amplo que é o da problemática desenvolvimento e subdesenvolvimento econômico (CANO, 1998)11.
O conceito de capital humano é amplo e pode ser considerado complexo. Tem no início de sua formulação uma preocupação preponderante com o nível de escolaridade dos indivíduos, sem levar em consideração outras dimensões.
Com o passar dos anos a compreensão de capital humano foi evoluindo e passou a não depender exclusivamente da educação formal, mas passou-se a considerar as virtudes pessoais e as competências diversas que nem sempre dependiam da aprendizagem sistemática (PAIVA, 2001)12.
Nesse sentido, a definição de capital humano refere-se tanto à capacidade, habilidade e experiência quanto ao conhecimento formal que as pessoas detêm e que são capazes de agregar valor às empresas. O fato de agregar valor está intrinsecamente relacionado aos ativos intangíveis, mensurados pelas empresas, que por vezes excedem os ativos tangíveis. Nesse
11 Em uma abordagem atualizada: países desenvolvidos e países em desenvolvimento. 12
Essa abordagem que compreende o conceito de capital humano de forma ampliada será aplicada na pesquisa realizada, não se detendo simplesmente nos aspectos formais de educação, mas ampliando para os atributos pessoais, por exemplo.
sentido, os conhecimentos, o know-how, a marca e as patentes, são exemplos de elementos que agregam valor às empresas. O que faz a Microsoft e a Apple estarem entre as maiores empresas do mundo em valor de mercado? Esse valor de mercado está baseado nas estruturas das empresas, nos seus modernos prédios situados nos maiores centros urbanos de todo o mundo? A resposta é não. O maior valor da Microsoft e da Apple está na capacidade de oferecer soluções às pessoas em termos de informática, está na capacidade de conjugar pessoas, conhecimentos e esforços para a oferta de produtos inovadores e que surpreendam seus clientes espalhados pelo planeta. O mercado acionário reconheceu a importância do conhecimento humano ao conceder um valor de mercado às empresas de serviços e tecnologia que excediam em muito seus valores contábeis (FITZ-ENZ, 2001).
Um dos elementos que merece destaque é o fato de que o capital humano tem sua aquisição mediante o investimento em educação e qualificação. Conforme afirma Schultz (1967, p. 26): “A taxa de rendimento do investimento na instrução é tão ou mais elevada do que a de qualquer outro investimento”.
O papel do capital humano e das capacidades tecnológicas se tornará cada vez mais significativo como fator determinante do crescimento a longo prazo nos países em desenvolvimento. O nível e a qualidade de investimentos nos recursos humanos cresceram significativamente durante os anos 90, de maneira a enfrentar o rápido crescimento do número de jovens, e também para fazer com que sua força de trabalho utilizasse novas tecnologias objetivando aumentar a produtividade (SALOMON, SAGASTI & SACHS-JEANTET, 1993).
A teoria do capital humano pode ser aplicada em um município ou país, na perspectiva de se desenvolver de maneira satisfatória e eficiente, uma vez que tem a possibilidade de proporcionar ascensão ao indivíduo na escala social. O investimento em capital humano, além de aumentar a capacidade cognitiva dos indivíduos, contribui gerando maiores ganhos a todos (GRIEBELER, 2008).
Ao longo da vida as pessoas vão conquistando aprendizados importantes. Seja através de uma experiência profissional, da interação com diferentes pessoas e grupos, ou mesmo de viagens realizadas. O capital humano pode ser compreendido como o cabedal de conhecimentos adquiridos ao longo da vida do indivíduo e que pode ser colocado a serviço da empresa a qual estiver alocado.
Evidentemente todos os conhecimentos carreados para dentro da empresa pelos funcionários são importantes, mas alguns merecem uma atenção especial e serão destacados na apresentação dos dados levantados através da pesquisa. A qualificação pessoal, especialmente através da educação formal é o primeiro que pode ser destacado. A quantidade de anos que um indivíduo passa nos bancos escolares é um indicativo que precisa ser levado em consideração quando se faz a análise do capital humano (SCHULTZ, 1973). Talvez esse seja um dos principais indicadores para se mensurar o capital humano, porém, corre-se o risco de esvaziar a discussão ao afirmar de forma tão tácita, pois existem outros fatores que também apresentam relação substancial com o tema do capital humano.
No contexto desse trabalho compreende-se capital humano como todo o arcabouço conceitual, vivencial e formativo, adquirido pelos indivíduos ao longo de suas vidas, capazes de diferenciá-los, aumentando sua produtividade e seus ganhos futuros.