2.4.1 A sociabilidade na Praça
Para Simmel (2006, p. 71) “a sociabilidade demanda o tipo mais puro, clássico e atraente de interação, aquela que se da entre iguais, ela precisa criar seres humanos que desapareçam de seus conteúdos objetivos”, os indivíduos precisam despojar-se de suas intenções internas e externas para se equiparem na igualdade. Os indivíduos, segundo Simmel (2006), só podem incorporar os valores da sociabilidade se o mesmo acontecer com os pares, com os quais estes se relacionam num processo de interação social recíproca.
A Praça Dom Antonio Zattera, conforme dito no início deste capítulo é utilizada pelos frequentadores principalmente nos fins de semana, para interagirem. Estes momentos vividos pelos usuários estão relacionados a um conteúdo material em comum o chimarrão (SINDIMATE, 2016) e, sendo assim, o processo da sociabilidade pode ser facilitado. Em relação ao processo de sociação Simmel (2006 p.59), faz as seguintes considerações sobre conteúdo e matéria:
Defino assim, simultaneamente, como conteúdo e matéria da sociação, tudo o que existe nos indivíduos e nos lugares concretos de toda realidade histórica como impulso, interesse, finalidade, tendência, condicionamento psíquico e movimento nos indivíduos - tudo o que está presente nele de modo a engendrar ou mediatizar os efeitos sobre os outros, ou a receber esses efeitos dos outros.
Neste sentido, entendendo os escritos de Simmel (2006) a prática do chimarrão na Praça pode ser vista como um conteúdo material de natureza histórico cultural capaz de promover a sociabilidade, pois se trata de uma característica dos indivíduos o apreço à bebida, uma realidade concreta de uma cidade do Rio Grande do Sul.
Segundo o Arquiteto e Urbanista Fernando Caetano (2016), a prática do chimarrão, fora do ambiente das residências, na praça pública ou em outros espaços públicos na cidade de Pelotas, tem seu início em meados da década de oitenta por influência de estudantes que, vindos de outras regiões de clima quente do centro e norte do país, motivados pelo crescimento do intercâmbio entre as universidades, influenciaram os estudantes gaúchos a levar o costume para a rua, pois estes em Pelotas tinham os mesmos hábitos dos demais Pelotenses, qual seja, a de tomar chimarrão apenas em suas casas.
2.4.2 A educação e a recreação infantil
Em relação aos capitais sociais possíveis de serem identificados e adquiridos na Praça Dom Antonio Zattera, desde a sua gênese, o tema referente a educação é uma possibilidade presente, até os dias de hoje. Isto pode ser percebido pelas edificações no seu interior, uma escola infantil, a Academia Pelotense e ambiente propício, com vasta área para praticas relativas a educação ambiental.
Coleman (1990 p.304), também utilizou o termo capital social, no contexto social da educação “conjunto das relações sociais em que um indivíduo se encontra
inserido e que o ajudam a atingir objetivos que, sem tais relações seriam inalcançáveis ou somente alcançáveis a um custo muito alto”. Por Coleman (1990, p. 304), compreende-se que as relações sociais para a consecução da educação devem ser estabelecidas em determinados espaços que lhe são próprios.
A Praça Dom Antonio Zattera foi concebida segundo relatos históricos com objetivos educacionais. Sendo assim as relações sociais estabelecidas na Praça, voltadas para aquisição do capital social educação devem estar revestidas da solidariedade e da confiança, pois, segundo Coleman (1990, 304), se estas relações não forem estabelecidas desta maneira no momento especifico para tal, dificilmente serão concretizadas em outros momentos, ou se assim for com grande dificuldades e com altos custos.
2.4.3 As práticas religiosas
Historicamente a Praça foi incorporando simbolismos e práticas que se mantiveram no decorrer dos anos. Cabe destaque a questão das práticas religiosas e dos cultos realizados no interior do local. No final do século XIX e no começo do século XX, segundo declaração do pesquisador Adão Monquelat (2016) a Praça era utilizada pelos adeptos das religiões Afro como local para as oferendas. Continuando seu relato disse o pesquisador que havia uma estátua, hoje não mais presente no local, em frente da qual eram depositados os “trabalhos ou macumbas”, assim descritos pelos usuários e moradores do entorno quando viam os objetos depositados na Praça.
Os cultos às religiões Afros e as oferendas na Praça, se mantiveram até a metade do século XX, momento em que, segundo Monquelat (2016), observou-se uma crescente ausência destas práticas e uma significante ascensão das Religiões Evangélicas, culminado, como já descrito no inicio deste capítulo com a instalação de um monumento de culto a Bíblia, por iniciativa da Associação dos Pastores Evangélicos da cidade de Pelotas no ano de 1993, conforme figura 8.
2.4.4 Os eventos culturais e as praticas cívicas e políticas
Um setor específico da Praça em que relações sociais e interações de confiança e forte espírito cívico, como descreve Putman (1996, p.177), são possíveis de acontecer, trata-se do centro cívico ou altar da pátria, espaço físico localizado na quadra da Avenida Bento Gonçalves, onde são realizados desfiles em dia de comemoração de datas pátrias nacionais como sete de setembro, dia da independência do Brasil, ou vinte de setembro data comemorativa da Revolução Farroupilha, marco da história Rio-Grandense.
No mesmo local, já nas investigações exploratórias da pesquisa, o que foi comprovado com a utilização da observação não participante, acontece também outros eventos relacionados a manifestações políticas, fato que pode ser observados no primeiro semestre de 2016, por ocasião das manifestações pró e contra o impeachment da ex Presidenta Dilma Roussef.
2.4.5 As práticas esportivas e o lazer
A Praça Dom Antonio Zattera, nos setores da pistas de skates, na mini quadra de futebol localizada junto ao setor de brinquedos infantis e na academia ao ar livre, possibilita a prática e a interação social através do esporte e do lazer, momento em que relações sociais de confiança e cumplicidade, segundo Putman (1996, p.177) podem ser criadas entre os usuários, características próprias dos capitais sociais adquiridos por pessoas com objetivos comuns em espaços públicos, conforme figura 5,6,7.
Para Maria Regina de Matos8 (2007), a Praça Dom Antonio Zattera sempre se
destacou das demais praças da cidade pela sua estrutura interna, com muitas edificações, possibilitando a prática de várias atividades, principalmente ligada à educação, à recreação. Segundo Maria Regina Matos, ela desde o seu surgimento tem como objetivos principais a recreação infantil e a educação, contemplando uma faixa etária bem determinada, a criança.
8 Arquiteta paisagista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - Porto Alegre – RS.
Todas as possibilidades das interações sociais e dos capitais sociais que são possíveis de se adquirir na Praça, ou de ser ofertados pelos usuários, de acordo com a descrição de suas particularidades físicas e da sua estrutura material, conforme relato deste capítulo e que estejam acontecendo atualmente no local, serão tratados no capítulo quinto, quando analisaremos os dados da pesquisa que descreverá qual a dinâmica atual destes processos.