II. La surdité unilatérale
7. Description de l’étude du Professeur Vaneecloo
As relações entre confrarias para enaltecer o culto religioso era uma prática recorrente, estabelecendo tratos de cordialidade, demonstrando o poder económico de umas em relação a outras, como é o caso da Misericórdia. Nas fontes consultadas é visível a ajuda da Santa Casa a outas confrarias, sobretudo no que referia à cedência de paramentos e alfaiais. Houve mesmo ocasiões em que ofertou esmolas.
Enquanto a Misericórdia realizava a procissão de Endoenças na quinta-feira, a irmandade de Santa Cruz fazia a procissão do Enterro e o Descimento do Senhor na sexta-feira Santa329.
Contrariamente à Santa Casa, o poder económico desta não conseguia suportar as despesas destas duas procissões, pelo que foi decidido nos estatutos da irmandade de Santa Cruz em 1762 que estas se realizassem apenas de dois em dois anos, e nunca as duas no mesmo ano, visando tornar as despesas mais suaves. Nesse mesmo ano, os confrades de Santa Cruz enviaram uma petição para pedir as cortinas para o Lausperene, ao que a Mesa da Misericórdia determinou que “o mordomo da caza e capelão mor desem tudo o que necessario for para a referida função”330. Mas já no ano de 1745 a situação económica não devia ser favorável,
escrevendo duas cartas às confrarias da Misericórdia e dos Passos, para estes lhe cederem os paramentos necessários para a procissão do Enterro do Senhor, pois os seus mesários não tinham recursos monetários para os comprar331.
Em 1783, a Mesa, juntamente com a junta de deputados, decide emprestar os ornatos à irmandade332, assim como em 1792, ceder as lanternas de prata, e pela sua generosidade “a
Irmandade também se ofereçeo a imprestarem as suas a esta caza”333. Alguns anos antes, os
irmãos de Santa Cruz, conjuntamente com o dos Santos Passos334, solicitavam à Santa Casa o
329 Em 1760, a Santa Casa mandou fazer um camarote para assistir ao descimento da Cruz. ADB, Fundo da Santa Casa da
Misericórdia de Braga, 14.º Livro dos Termos, 1757-1769, nº 16, fl. 94v.
330 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 14.º Livro dos Termos, 1757-1769, nº 16, fl. 159v.
331 Leia-se a propósito Silva, Elsa Liliana Antunes da, As festas da confraria de Santa Cruz de Braga no século XVIII, Braga,
Universidade do Minho, 2013, tese de Mestrado policopiada, pp. 40-44.
332 ADB, Fundo da Sant Casa da Misericórdia de Braga, 17.º Livro dos Termos, 1780-1787, nº 19, fls. 113-113v. 333 ADB, Fundo da Sant Casa da Misericórdia de Braga, 19.º Livro dos Termos, 1791-1799, nº 21, fl. 24.
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pano de veludo que cobria a tumba, para o usarem na “na função do anniversario da misma caza”, ao qual à Mesa autorizou, também pela relação de mútua correspondência com estas confrarias335.
Por vezes, a Misericórdia também alugava tochas para a procissão do Enterro, como estava escrito no recibo do mordomo Domingos de Moura, que alugou cinquenta e oito tochas para a irmandade de Santa Cruz336. O mesmo acontecia para os irmãos do Santo Ofício na festa
que realizavam na igreja da Misericórdia a S. Pedro Mártir, que alugavam cera e tochas337, assim
como para uma procissão do Cabido, que alugaram dezassete tochas, entre 1739 a 1740338.
As relações com o Cabido tendiam em certas ocasiões, para a discórdia, pois é com estas manifestações que se fazem ver, no seio da sociedade, as hierarquias eclesiásticas e civis339. Em 1628 os cónegos não foram à véspera, nem cantar as vésperas de Santa Isabel. Em
retribuição a Santa Casa não os foi acompanhar na procissão de sexta-feira Santa340 . Contudo,
como já abordámos no tema das procissões pelo tempo, estas duas identidades mantinham uma relação afável no decorrer destas celebrações. A par de outras congregações religiosas, como a de Santa Maria Madalena, à qual era permitia a vinda da imagem da mesma santa para a igreja da Misericórdia, e que o mordomo da casa emprestava os ornatos e o mais que fosse preciso para o decorrer da sua procissão341.
A igreja de S. João Marcos, por estar sob a administração do hospital, que necessitava recorrentemente de elevadas verbas para o manter, talvez se descuidasse um pouco no brio do seu culto. No ano de 1785, os mesários, com a junta de deputados, mandaram fazer uma capa
de Cristo. Consulte-se Ferraz, Tiago, “As confrarias bracarenses no século XVIII: uma abordagem”, in Oficina do Historiador, EDIPUCRS, v.9, nº1, Porto Alegre, 2016, p. 345.
335 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 15.º Livro dos Termos, 1769-1776, nº 17, fl. 275. 336 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, Recibo de Mordomos, 1732-1810, nº 678, fl. 13. 337 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, Recibo de Mordomos, 1732-1810, nº 678, fls. 19v., 38. 338 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, Recibo de Mordomos, 1732-1810, nº 678, fl. 18.
339 Romero Mensaque, Carlos José, “Sentimento religioso y actitudes conflictivas en las hermandades de penitencia de
Sevilla durante el siglo XVIII, in Revista de Humanidades, nº 18, 2011, p. 71.
340 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 2.º Livro dos Termos, 1598-1632, nº 4, fl. 210.; ADB, Fundo das
Gavetas do Cabido, Livro 2º das Sentenças, nº 13, não paginado.
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de asperges de damasco342 branco castelhano, para a função da novena do tríduo de S. João
Marcos, evitando assim que se voltasse a pedir a “diferente corporaçoens”343.
Os únicos aos quais era possível emprestar os ornamentos de S. João Marcos, era ao convento dos Remédios, pela boa relação que mantinham com o hospital344. Mas em 1734, os
mesários ordenaram que não se cedesse qualquer tipo de ornamentos a nenhuma instituição religiosa, e que o irmão que o fizesse pagaria uma multa no valor de 4800 réis345.
Relativamente às esmolas concedidas em dinheiro, a Santa Casa recebia petições346 dos
religiosos de São Frutuoso, para ajudar a expor o Santíssimo Sacramento e para a cera de quinta- feira de Endoenças347. O mesmo se sucedeu com os religiosos do convento do Carmo, para
ajudar na compra da cera do santo sepulcro, nesse mesmo pedido 1200 réis foram para o os religiosos do Carmo, e 2400 réis, para os de São Frutuoso348. As petições para a cera do santo
sepulcro ou exposição do Santíssimo Sacramento, por vezes, não eram só de instituições locais, estendendo-se aos religiosos de São Francisco, de Guimarães349, de São Francisco, de Vila
do Conde350, de São Paio do Monte351 ou às freiras do Calvário, da cidade de Évora352.
342 Para saber o que é damasco consulte-se no capítulo III, p. 107, nota de rodapé 78.
343 ADB, Fundo da Sant Casa da Misericórdia de Braga, 17.º Livro dos Termos, 1780-1787, nº 19, fl. 186v. 344 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 9.º Livro dos Termos, 1709-1723, nº 11, fls. 232v.-233. 345 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 9.º Livro dos Termos, 1709-1723, nº 11, fls. 28-28v.
346 Sobre esta temática, das petições feitas por instituições religiosas à Misericórdia de Braga veja-se em Araújo, Maria Marta
Lobo de, “Assistir os pobres e alcançar a salvação”, in Capela, José Viriato; Araújo, Maria Marta Lobo de, A Santa Casa da Misericórdia de Braga 1513-2013…, pp. 474-476.
347 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 14.º Livro dos Termos, 1757-1769, nº 16, fl. 159; 16.º Livro dos
Termos, 1776-1780, nº18, fl. 66.
348 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 10.º Livro dos Termos, 1723-1734, nº 12, fl. 184. 349 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 15.º Livro dos Termos, 1769-1776, nº 17, fl. 142. 350 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 14.º Livro dos Termos, 1757-1769, nº 16, fls. 241v.-242. 351ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, 10.º Livro dos Termos, 1723-1734, nº 12, fl. 234.
352 ADB, Fundo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, Livro da Despeza do Tezoureiro da Santa Caza, 1726-1754, nº
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