3 Résultats
3.2 Description des cas
3.2.6 Description des cas de gravité forte
A origem, a história e os agentes que as constituem, somados aos saberes por eles produzidos em defesa da mata, constituem os conteúdos a serem aqui analisados.
6.1.1 A Troça Carnavalesca Mista Arrebenta Sapucaia e a mobilização em defesa da mata.
A Troça Carnavalesca Mista (TCM) Arrebenta a Sapucaia é uma organização de iniciativa do Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa. Trata-se de uma de suas táticas para levar ao conhecimento da população a importância da preservação e conservação da Mata do Engenho Uchôa e denunciar as agressões que a mata vem sofrendo. A tática está em percorrer as ruas do bairro levando informações sobre a mata à comunidade local no momento oportuno da semana pré-carnavalesca, oferecendo alegria e irreverência aos foliões.
De fato, considerando a pouca eficácia das políticas públicas em favor da Unidade de Conservação, como vimos em pesquisas anteriores a exemplo de Negreiros (2008), e o conseqüente estabelecimento de um estatuto que não favorece à mata condições de assegurar à comunidade um espaço de lazer e desenvolvimento do conhecimento tradicional e científico, restou ao Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa, recorrer à algumas táticas no sentido de superar esta barreira42 imposta, tanto pelo poder público, como pelas iniciativas privadas, além do poder do tráfico. Por tais razões, surgiu a Troça, seja para alertar a população quanto à necessidade de preservação e conservação da mata (sua prioridade), seja para oferecer uma opção de lazer à comunidade.
A Troça, fundada em 2007, é uma criação dos integrantes do Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa. Durante todo o ano, obedecendo a uma agenda flexível de reuniões, os integrantes da troça se encontram para discutir detalhes do desfile do ano seguinte (escolha do tema, escolha dos homenageados, o trajeto a ser percorrido, os eventos de divulgação e captação de recursos para sua sustentabilidade, etc). Como se percebe, a Troça faz parte do cotidiano dos agentes envolvidos na defesa da Mata, sendo apontada por eles como um evento de significativa importância no seu calendário de lutas.
Entrevistas com os professores aposentados Edmar José Amorim Neto (in memorian), criador do primeiro estandarte do bloco e José Semente, autor do hino do bloco, foram de grande valia para nos trazer detalhes sobre a Troça enquanto tática mobilizada pelo Movimento em defesa da mata.
A entrevista com o Professor Edmar José Amorim Neto foi gravada, a seu pedido, no diretório municipal do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), do qual ele era militante, situado no bairro de Santo Amaro, Recife/PE, no dia 25 de setembro de 2017 menos de dois meses antes do seu lamentável falecimento, ocorrido em 09 de novembro de 2017.
A escolha do Professor Edmar Neto para participar como campo empírico nesta investigação se deu por ocasião da minha aproximação com o coletivo do
42
Há barreiras que impedem a entrada na mata: Uma, supostamente imposta por “traficantes” que delimitam o território enquanto “boca-de-fumo” (local de comércio de drogas) que, segundo algumas pesquisas (NEGREIROS, 2008), alguns moradores e até mesmo administradores de Unidades de Conservação relatam não poder entrar na mata por causa da violência. Outra barreira vem do poder público que, numa demonstração de fraqueza, se mostra incapaz de implantar o tão desejado Parque Ecológico, o que garantiria o gozo do referido espaço público enquanto espaço de lazer para as pessoas, além de sua exploração enquanto laboratório natural para os pesquisadores.
Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa onde percebi sua dedicação à Troça, sendo mais tarde reiterada esta dedicação pelo professor José Semente que confirmou que ele (Professor Edmar) foi o idealizador do Estandarte da Troça.
Quanto à entrevista com o Professor José Semente, esta foi gravada em sua residência no bairro do Barro, no dia 21 de junho de 2017.
A escolha do Professor José Semente como campo empírico da investigação, se deu também em razão de sua filiação com o Movimento em Defesa da Mata e particularmente por ser ele o autor do Hino da Troça.
José Semente é um dos pioneiros do Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa e, ao lado do Professor Edmar Neto, constitui testemunha da história de longos anos de luta pela preservação e conservação da Mata, sendo sujeitos de sua construção.
Tendo sido indicadas as justificativas pela escolha do campo empírico, passo à discussão em torno da Troça Carnavalesca Mista Arrebenta Sapucaia.
O Professor Edmar Neto, criador do estandarte, explica o que vem a ser a troça Arrebenta Sapucaia e porque ela representa mais do que um simples bloco carnavalesco ao dizer que:
o Movimento da Mata tem uma troça “Arrebenta Sapucaia” que é um braço cultural, digamos assim, do Movimento da Mata Uchôa, e então, todos os anos, no carnaval, nós nos organizamos para colocar lá no Barro, colocar nas ruas, a Troça Carnavalesca Mista Arrebenta a Sapucaia. Esta troça foi fundada no ano de 2007, e já tem mais de 10 anos. Este ano nós vamos fazer o 11º desfile da Troça Arrebenta a Sapucaia. Então, a Troça Arrebenta a Sapucaia recebe apoio de várias entidades locais aqui do Recife como sindicatos, associações... e esses sindicatos ajudam no desfile e na elaboração de um bingo, nós fazemos um bingo dançante e realizamos o desfile. Então, todos os anos temos a cooperação dos sindicatos e das entidades que nos apóiam. Uma coisa interessante que é bom colocar é que nós organizamos a Troça a cada ano com um tema carnavalesco, um tema ligado à política local e nacional, e também homenageamos sempre uma figura de destaque da sociedade. Então, a nossa troça não é uma troça pela troça! Nós procuramos defender a nossa cultura pernambucana, procuramos estar de acordo com a luta da sociedade, onde nós reivindicamos através dos nossos temas a defesa da cultura e a defesa da sociedade. Então, nossa troça realmente é uma troça que colabora com a luta política em defesa de uma sociedade melhor (AMORIM NETO, 2017)43.
Conforme se percebe a troça é uma tática mobilizada pelos sujeitos que defendem a preservação e conservação da mata. Ela, por si só, mobiliza saberes
43
complexos por transitarem pela dimensão cultural, política e social, representando, de fato, mais do que simplesmente um bloco carnavalesco, conforme bem explicado pelo Professor Edmar.
Importante destacar na fala do Professor Edmar, o caráter coletivo tão presente nas ações mobilizadas pelo Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa, e que vem materializado no apoio que ela recebe das entidades sindicais e associações locais que ajudam no desfile da Troça, inclusive na organização prévia de um bingo dançante.
Este bingo é uma forma de captar recursos para ajudar no custeio do desfile a partir das vendas das cartelas e também das camisas do bloco que são lançadas nesta ocasião. Dessa forma, em resposta às estratégias do poder público que limitam o apoio financeiro às agremiações carnavalescas, esta tática de sustentabilidade da Troça surge como alternativa na captação de recursos.
O Professor José Semente, o autor do hino da troça, revela que “a troça foi criada dentro de vinte dias. “Tivemos a ideia no dia 22 de janeiro de 2007 e no dia 11 de fevereiro foi o primeiro desfile” (SEMENTE, 2017)44
.
Ele conta ainda como foi que se chegou ao nome da troça:
“Aí, quando surgiu a idéia da troça veio a questão do nome. Aí, de imediato veio Araçá da Mata – que tinha um jornal, teve algumas edições – porque depois vimos que o nome não era ideal pra carnaval, e no deslocamento quando nós saímos da reunião para o Metrô – algumas pessoas vinham para o Metrô – aí me veio, como na mata já tem a planta, a Sapucaia, aí eu me lembrei daquele slogan do ator Miguel Falabela, que ele coordenava aquele programa Vídeo Show, ele dizia: ‘Arrebenta a Sapucaia’ aí eu coloquei “Arrebenta Sapucaia” (SEMENTE, 2017).
A troça é uma tática em defesa da mata e que busca transformação social. O grau de complexidade e de coletividade que caracteriza os saberes por ela mobilizados lhe confere um caráter crítico de suas ações, o que sinaliza para a possibilidade de alcance de seus objetivos no que diz respeito à transformação social, inclusive na defesa da mata.
Esta criticidade presente na troça, é uma marca característica das demais ações mobilizadas pelo Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa e decorre, muito provavelmente, da formação política de seus integrantes a exemplo do Professor Edmar que faz questão de registrar sua militância política ao dizer “sou
44
militante de um partido que faz um trabalho na comunidade do Barro e através da militância política eu conheci o Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa” (AMORIM NETO, 2017).
A este respeito, Carvalho (2011) reforça que a formação do sujeito ecológico deve passar pela dimensão política. Da mesma forma, Loureiro (2011, 2004) e Lima (2009, 1999) defendem que uma educação ambiental crítica, necessariamente passa pela dimensão política.
Acompanhando a troça, dentre os elementos que a simbolizam destaquei quatro deles: o hino, o estandarte, a camisa e, por fim, a culminância do desfile, sobre os quais passo a discorrer.
a) O HINO: O hino da Troça Carnavalesca Mista Arrebenta Sapucaia, de autoria de José Semente e Mauro Semente, chegou ao meu conhecimento por meio de um panfleto que recebi das mãos de uma das fundadoras do Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa, Professora Luci Machado, e apresenta a seguinte letra (cantada em ritmo de frevo):
ARREBENTA SAPUCAIA! (José Semente e Mauro Semente) Hoje é carnaval
Vamos cair na gandaia
Com muito frevo, muito frevo no pé E muita alegria no coração
Arrebenta, arrebenta
Arrebenta sapucaia! (bis) A manhã ensolarada
Incendiou nosso coração Hoje não queremos praia Hoje é carnaval e animação Hoje somos a felicidade A nossa alma vamos aquecer Com a batida das alfaias
E com Vassourinhas o frevo vai ferver Arrebenta, arrebenta
Arrebenta sapucaia! (bis)
O araçá que vem da mata Como o frevo de Pernambuco O canto da jandaia
Arrebenta coração! Arrebenta sapucaia! Arrebenta coração!
Arrebenta, arrebenta
Arrebenta sapucaia! (bis)
Quando a sapucaia explode
Sacode as sementes com animação Quando Vassourinhas explode Explode e sacode os foliões
Arrebenta, arrebenta
Arrebenta sapucaia! (bis)
Considerando a necessidade de se aproximar da comunidade para sensibilizá-la quanto à necessária preservação e conservação da Mata, o hino do
bloco Arrebenta Sapucaia se constitui numa tática para fazer chegar à comunidade esta mensagem levando a todos a alegria e irreverência que vêm expressas nele, bem como a historicidade e a diversidade de conteúdo sobre a mata. Tudo isto confere um caráter de complexidade ao conhecimento que por ali circula, algo que, ouso dizer, quase inexiste no currículo e na prática da educação formal,45 sobretudo nos moldes da legislação em vigor, preenchendo, portanto, uma lacuna nela existente.
O hino traz em seu conteúdo elementos da cultura local e da natureza primária, constitutivos da fauna e da flora e ainda elementos que marcaram, e ainda marcam, a história do Movimento em Defesa da Mata do Engenho Uchôa.
Na entrevista com o Professor José Semente, ele me explicou como surgiu a letra do hino.
Na sua fala, ele revela logo de início, que as pessoas que defendiam a mata já tinham em mente a idéia de mobilizar a comunidade para viabilizar a conquista do parque46. A tática estaria em criar uma troça carnavalesca e percorrer as ruas do bairro e levar a mensagem desejada. Ele conta como surgiram as idéias e também dá exemplos das dificuldades encontradas:
(...) nós nos reunimos para debater o Movimento, como reunir, como mobilizar para pressionar a prefeitura para viabilizar a conquista do parque. Então, nesse momento, nós vimos que era muito difícil mobilizar as pessoas no período de carnaval, então surgiu a idéia da troça (SEMENTE, 2017).
Como se percebe, o cotidiano das práticas lhes permitira concluir que, naquele período carnavalesco, as atenções da comunidade estariam voltadas para as festividades do carnaval o que, certamente, deixaria as pessoas desatentas para necessidade de lutar pela preservação e conservação da Mata e pela a criação do parque ecológico, o que resultou na necessidade de pensar essas táticas.
Tendo sido idealizada a Troça, era necessário, antes de tudo, pensar também num hino para acompanhar o seu desfile pelas ruas do Bairro. Imediatamente, então, surgiu o hino que é uma composição de José Semente e de
45
Sobre Educação Formal e Educação Não Formal: Aprendemos com Brandão (1995) que a educação não se limita apenas ao espaço escolar. Ela ultrapassa este limite e se faz presente em todo lugar onde ocorra a troca de saberes. Para Brandão, o professor não é o seu único agente e, nesse sentido, Gohn (2010) nos fala do educador social. A educação Formal e Não Formal devem ser concebidas como complementares entre si.
46
Faz parte do cotidiano da comunidade a luta pela criação de um Parque Ecológico na Mata do Engenho Uchôa, como vimos no capítulo anterior.
seu primo Mauro Semente, como o próprio Semente revela na entrevista ao dizer que
O hino é composição minha e de meu primo Mauro Semente. Eu fiz a letra e ele musicou. A troça foi criada dentro de vinte dias. Tivemos a idéia no dia 22 de janeiro de 2007 e no dia 11 de fevereiro foi o primeiro desfile (...). Então foi criado dentro de vinte dias o hino (SEMENTE, 2017).
E completa:
(...) quando teve o nome da troça (Arrebenta Sapucaia), e então eu gosto de escrever um pouco, tive a idéia de escrever uma música para a troça. Então escrevi uma (não tenho certeza se foi Araçá da Mata), mostrei ao pessoal, mas não estava gostando muito e aí o pessoal também não gostou. Escrevi outra, que é essa que tocamos hoje e aí o pessoal gostou. Eu apresentei ao meu primo, ele musicou, levamos para um cantor, ele cantou só com o teclado, porque ela hoje só é com o teclado, mas ela tem a partitura - porque para registrar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, para registrar tem que apresentar a letra e apresentar a partitura. A partitura quem fez foi o Maestro Nunes, um ícone do carnaval. (...) Mas nós ainda não tivemos condições financeiras de pagar a uma orquestra para gravar então, por enquanto, ela continua só no teclado (SEMENTE, 2017).
Percebe-se na fala do Professor José Semente, que as táticas em defesa da mata surgiram graças ao trabalho coletivo (a construção do hino teve a participação de pelo menos quatro pessoas: José Semente, Mauro Semente, um cantor de identidade não revelada e do Maestro Nunes, além da aprovação pelo coletivo que constitui o Movimento em Defesa da Mata). A tarefa, no entanto, teve que enfrentar obstáculos como a falta de recursos financeiros para contratar uma orquestra e registrar o hino na Biblioteca Nacional.
Se, porém, o estatuto de procedimento legal impede que seja registrado, de direito, a letra do hino numa instituição, de fato não foi suficiente para impedir que o hino fosse entoado durante o desfile da Troça, levando a mensagem desejada pelos seus idealizadores.
Isto põe em evidência que o cotidiano das práticas daqueles que defendem a Mata, é marcado mais uma vez pela força do fraco, que, usando de suas astúcias, seguiu caminho diferente ao burlar (CERTEAU, 1998) um estatuto estabelecido por imposição legal, de forma que o hino parece ter ‘caído na boca do povo’.
A Troça Carnavalesca Mista Arrebenta Sapucaia desfila há 10 anos entoando o mesmo hino o qual vem resistindo ao tempo mesmo sem atender ao estatuto estabelecido que sugere o seu registro na Biblioteca Nacional.
De certo, esta resistência pode estar na sua própria letra que conta aspectos da mata, destacando suas dimensões cultural, biológica e histórica, conforme pode se perceber nos esclarecimentos dados pelo Professor José Semente ao oferecer as seguintes explicações e interpretações dizendo: “A letra eu escrevi, como tudo que eu escrevo eu tento contextualizar, me situar dentro daquela realidade do objetivo para o qual eu me propus a escrever, naquela linha. Então, como era carnaval, aí... carnaval e mata!” (SEMENTE, 2017).
O título do hino também tem sua razão de existir. E sobre ele o Professor José Semente revela que
Quando surgiu a idéia da troça veio a questão do nome. Aí, de imediato, veio Araçá da Mata – que já tinha um jornal (com este nome), tiveram algumas edições. Depois vimos que o nome não era ideal pra carnaval (...) aí me veio - como na mata já tem a planta, a Sapucaia - aí eu me lembrei daquele slogan do Miguel Falabela (ator e apresentador de TV) que ele coordenava aquele programa Vídeo Show, ele dizia: “Arrebenta a Sapucaia”. Aí eu coloquei: “Arrebenta Sapucaia!” (SEMENTE, 2017).
Conforme se vê na fala do Professor José Semente, o título do hino já sinaliza o propósito do Bloco de convidar a comunidade para a folia com a responsabilidade de refletir sobre a mata, afinal o termo ARREBENTA no contexto em que é empregado, sugere explosão de alegria, deixar-se extravasar, pular de felicidade. Já o termo SAPUCAIA (nome popular de uma árvore da família das Lecythidaceaeque conhecida cientificamente por Lecythis pisonis) é utilizado para lembrar a árvore que existe no interior da mata, valorizando a paisagem pela sua beleza. Logo, por este prisma, percebe-se a dimensão cultural e biológica presentes nos saberes da mata.
Em todas as estrofes do hino está presente a dimensão cultural, e em particular, dá para perceber claramente a valorização da cultura tradicional e popular de Pernambuco manifestada pelo frevo e pelo maracatu (com a batida das alfaias) e, do consagrado bloco Vassourinhas (de Olinda), reinando no período carnavalesco, o que reforça a fala de que os saberes da mata contemplam a dimensão cultural. Na entrevista, o Professor José Semente explica esta dimensão cultural ao comentar que o hino diz:
(...)“vamos cair na gandaia”, que é um termo popular. (...) As pessoas, no carnaval, todo mundo fica à vontade. Pra criar este clima: vamos cair na gandaia! Fala nas alfaias que também - nós entendemos que também é um símbolo importante na cultura pernambucana, porque faz parte do maracatu (...). Então as alfaias,
aqueles bombos que o pessoal usa. Fala do maracatu, fala das alfaias e fala, nessa troça, que também é um ritmo do carnaval pernambucano: as vassourinhas! (SEMENTE, 2017).
A natureza primária, naturalmente, não poderia ficar de fora da letra do hino, uma vez que ele retrata a mata em algumas de suas dimensões. Dessa forma, a dimensão biológica se faz presente também ao longo da letra do hino porque, a exemplo da Sapucaia (Lecythis pisonis) outras espécies da fauna e da flora são lembradas, a saber: o Araçá, nome popular de um arbusto frutífero do gênero Myrcia sp, pertencente à familia das Myrtaceae, da espécie Psidium guineensise a Jandaia, uma ave pertencente à família das Psittacidae e cientificamente conhecida pelo nome de Eupsittula áurea.
Em visita in loco, por ocasião da trilha percorrida na mata, vi a ocorrência do arbusto do Araçá e fiz o seu registro conforme fotografia 13.
Fotografia 13: O araçá na mata
Fonte: Santos (2017a)
O araçá é um elemento característico da mata. Sua ocorrência está mais concentrada na área da restinga. Ele aparece na letra do hino da troça Arrebenta Sapucaia.
De fato, na quarta estrofe da letra do hino, é feita menção ao araçá que vem da mata. Vimos que o araçá é um arbusto que compõe o acervo da flora da mata,
mas, vale ressaltar, que este arbusto também deu nome a um Jornal que funcionava como veículo de informações acerca dos acontecimentos sobre a Mata do Engenho Uchôa.
O jornal denominado Araçá da Mata (ANEXO B) faz parte da história do Movimento em Defesa da Mata e foi uma criação dos seus integrantes, no sentido de levar à comunidade as notícias do cotidiano sobre a mata, o que representa mais uma tática do grupo a fim de cumprir com o seu propósito.
Percebe-se neste contexto as dimensões culturais, biológicas (natureza primária) e histórica presentes na letra do hino.
O Professor José Semente confirma esta nossa percepção da complexidade das dimensões presentes no hino ao dizer que ele
(...) fala das alfaias, fala em vassourinhas, fala da sapucaia, fala da jandaia, que é um pássaro que também tem, fala do araçá... então, junta carnaval com a mata, pra criar um clima de.... a questão de expressão! produzir uma expressão artística que é a música que é fundamental para o ser humano (SEMENTE, 2017)
Como podemos perceber, a tática mobilizada para fazer chegar à comunidade do entorno da mata, por meio do hino entoado na ocasião do desfile da Troça Carnavalesca Mista Arrebenta Sapucaia, contempla saberes de diversas áreas do conhecimento e de dimensões igualmente diversas, como a cultural,