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Descriptifs donnés par les professionnel-le-s, les accompagnant-e-s et les sujets

8. APPRENTISSAGE ET CONSTRUCTION DE L’EXPERIENCE

8.2. Descriptifs donnés par les professionnel-le-s, les accompagnant-e-s et les sujets

Uma pergunta metodológica que continuo me fazendo é a seguinte: estudar seminaristas brasileiros católicos é uma tarefa que tem especificidade própria? Se eu estudasse os seminaristas da Igreja Messiânica, por exemplo, de que modo o faria? Há modos mais ou menos próprios a este o aquele grupo ou instituição religiosa?

Observa-se cada vez mais a tendência em Psicologia geral para estudar casos individuais e fatos que se dão uma única vez (concepção idiográfica) lado a lado com os estudos nomotéticos30. No estudo de casos individuais, o sujeito precisa ser compreendido a partir de três níveis complementares: primeiro, o corpo e tudo o que nele há de constitucional; segundo, o ego como uma síntese idiossincrática das experiências; terceiro, as estruturas sociais dentro das quais se concretiza a história de vida individual e cujos ethos e mythos moldam o sujeito.

Os sujeitos em questão-seminaristas da igreja católica-possibilitam a pesquisa por, ao menos, uma dupla perspectiva: o sentido pessoal que colocam em sua escolha e aquele compartilhado pela comunidade (BELZEN, 2010, p.63). Ambas as perspectivas incidem em seu funcionamento psíquico global, modificando e instalando modos de ação no mundo. As exigências da Igreja modelam e organizam seu pensar, sentir e buscar. Seus corpos são monitorados e devem submeter-se a regras.

Se estas regras ajudam na instalação, manutenção e amadurecimento da espiritualidade requerida, já teríamos aqui um projeto de pesquisa que lança luzes sobre a pessoa e sobre a instituição. Hoje em dia a visão que temos do corpo inclui o desejo como superação da morada organicista e acesso à corporeidade transcendente, como é o caso da vocação para o sacerdócio. Pereira (2004, p.273), um estudioso da Igreja em suas vertentes institucional e pessoal afirma:

O corpo, que já foi considerado apenas um objeto natural, é aqui entendido como corporeidade, ou seja, como um dos principais objetos de historização (sic). Engloba investigações que analisam as transformações desse corpo do ponto de vista do desejo, das fantasias, do sagrado, dos movimentos e instituições correspondentes.

30 Apud Belzen, 2010. p.151. Windelband, foi quem em 1894 primeiro conceituou esta divisão ao delimitar o método da História do método das Ciências Naturais.

Corporeidade é a soma do corpo biológico com seus afetos desde sempre associados. William James já intuíra esta integração, dividindo o self em social, corporal e espiritual. Este último, para o autor, não é o self da interioridade, mentalista ou psicológico, encapsulado em si e dissociado do corpo. O self espiritual é, para James, um self em ação31. Os avanços das Neurociências igualmente comprovam a impossibilidade de separar mente e corpo sem cair num artifício caricatural32.

Os sentidos presentes na história de cada indivíduo quando trazidos à consciência inovam o self em seus vários aspectos e, igualmente, o universo/cultura do qual provém. Assim é que ao estudar um caso, estamos também esclarecendo a instituição ou cultura na qual emergem as peculiares experiências deste sujeito. O conhecimento de pessoas singulares, com seus afetos e desejos, com sua corporeidade também pode ser o conhecimento de um povo, da peculiaridade de uma língua, de uma religião ou de um sistema legal, de uma peça literária, da arte e da ciência33.

Como entender este corpo ou corporeidade a não ser pela interpretação que fazemos da escuta dos relatos biográficos, das narrativas em 3ª pessoa e da observação direta em contexto clínico? Outro modo não há senão a leitura colorida e narrativa do pesquisador-terapeuta envolvido neste conhecimento. Uma voz que fala com a idade aproximada de cinco anos, apenas para exemplificar, num homem ou mulher de 50 anos, certamente tem algo a dizer sobre esta posição de eu-menino de 5 anos, que permanece ativa no presente de um adulto de 50 anos. É neste sentido que Hermans e Konopka (2010, p.173) afirmam:

De um ponto de vista teórico faz sentido termos a noção de posição e de ‘eu’ num termo composto (posição do eu/I- position). O self se localiza no espaço e no tempo, isto é, como parte de um mundo globalizado e de uma história coletiva. Como um eu receptivo, tem o potencial de se tornar parte de um campo maior de consciência.

Não é mais possível nesta visão a afirmação radical “eu sou eu”. Estamos sempre enredados na interpretação que fazemos do outro e de nós mesmos. Na pesquisa hermenêutica nada é fixado a priori e o pesquisador - sempre consciente

31 Cf. James, 1890, p. 188.

32 Cf Paiva, 2007; Valle, 2001. A visão cognitiva e a visão das neurociências comparecem ao longo dos casos que acompanho.

de que há um a priori. – vai modulando a interpretação. Não há interlocução sem a

priori e o instante mágico do encontro espontâneo acaba se tornando o divisor de

águas da tarefa clínica. Mostrar o sujeito a si próprio e apresentar-lhe a instituição tal como a vê, o emancipa. Ao emancipá-lo, o mesmo emancipa a instituição da qual convém que se veja e atue como instituinte já que toda instituição , apesar de sua rigidez, é também, segundo Pereira (2004, p.285):

... um processo aberto, fluido. A trama dialética entre os movimentos do instituinte, do instituído e da institucionalização faz com que o eu seja uma realidade inacabada, um ato permanente, um projeto em construção, como a própria vida. Por isso, a instituição não pode ser compreendida somente do ponto de vista conservador sem o movimento contrário, apenas como a face do instituído.

Ao entrar em contato consigo próprio, o indivíduo percebe e passa a dispor de múltiplos aspectos de seu self e aquelas áreas ligadas ao institucional de algum modo se desprendem através das intervenções/interpretações do psicoterapeuta. Nesta devolução aquele que a recebe, recebe de modo pessoal, dizendo melhor: interpreta. Gadamer (1989, p.422)34 mostra que em nenhuma condição nós humanos temos uma única visão do que quer que seja. Sempre há um diálogo interno sobre o que algo é e sobre o que algo não é ou é de outro modo. Esta condição humana traz o pensamento de que algo é visto a partir de um certo ponto ou prisma. A pesquisa com pessoas acontece dentro do círculo hermenêutico (GADAMER, 1960, 1988; BELZEN, 2010, p. 147) e traz à tona o sentido em sua mobilidade caracteristicamente humana. O que hoje assim é, amanhã pode não mais ser. O que de modo algum tira a veracidade da experiência relatada. “A verdade é sempre contextual e existe no tempo” (BELZEN, 2010, p. 148).

Estudar seminaristas católicos inclui desde o início a instituição, a posição de instituído (aquela que já se deu) e a posição de instituinte (aquela que se dá no presente). Inclui sobretudo o momento histórico em que a pesquisa se dá (SERBIN, 2008, passim) com os sentimentos e as ações geradas por esse momento. Do mesmo modo, estudar seminaristas católicos pelo viés da psicoterapia traz consigo as posições e valores do pesquisador que, preferencialmente de modo metódico e metodológico, as suspende para realizar trabalho científico fidedigno. A relevância

deste tipo de pesquisa longitudinal com pessoas religiosas que vivem hoje é mencionada por Belzen (2010, p. 171):

Ainda que em tese seja possível isolar uma única experiência ou ato, a perspectiva que qualquer Psicologia assume tipicamente para compreendê- lo é a do processo. Mesmo um ato ou experiência isolado será compreendido por um psicólogo como parte de um contexto biográfico da pessoa envolvida

Compreender o contexto biográfico de qualquer pessoa necessariamente supõe considerar sua cultura original ”a fim de detectar, seguir e analisar as lutas e vicissitudes dos processos da biografia do indivíduo no qual um ato ou uma experiência particular está imersa e do qual ela é um elemento inerente e constituinte”. Por se tratar de pessoas contemporâneas também tem importância significativa “conceituar este caráter histórico da relação entre a cultura e o corpo que cada pessoa é” (BELZEN, 2010, p. 61). É bom lembrar que, no exemplo dado, o homem ou mulher de 50 anos não está necessariamente fixado nesta era de sua vida e sim que naquele momento, naquele enredo ou contexto, uma posição de eu (HERMANS e KONOPKA, 2010, p.173), se apresentou para o diálogo. Ou o terapeuta/pesquisador responde a esta interpelação ou lhe restará apenas esperar nova oportunidade.