Les approches existantes de la critique de l’alimentation industrielle et de la valorisation du naturel
III. Des « goûts de classe » dans un contexte de « crise du goût »
Os agrupamentos sociais são arenas de trocas e conflitos, com racionalidades múltiplas e propensos à formação de vínculos diversos. Uma corrente proeminente dessas relações recebeu o nome de utilitarismo, que tende a julgar a ação humana quanto as suas consequências “úteis” (GAIGER, 2016). Para o utilitarismo, basta que se pague um valor monetário e se fica quites numa relação que não precisa criar laços. O utilitarismo busca equacionar dívidas e evitar a contração de relações que reproduzam ou extrapolem os laços iniciais, pois manter dívidas em aberto é uma forma de preservar os vínculos ativos (CAILLÉ, 1989, 2002; GODBOUT, 1998; SANDEL, 2012).50
Outros estudos, no entanto, apontam que os engajamentos em ações coletivas nas arenas públicas não têm por razão declarada apenas voltar-se para um lucro econômico, político ou mesmo simbólico, não sendo somente o gosto por dinheiro, poder ou prestígio que tem a capacidade de mobilizar as pessoas (CEFÄI, 2011; SABOURIN, 2011). Motivos para engajamentos também podem ser: sensos de responsabilidade e solidariedade, a recusa a injustiças sociais, a preocupação com o bem público, a indignação contra negligências e o desejo de participar de assuntos públicos (POLANYI, 2000; CEFÄI, 2011; DAHLGREEN, 2011).
Seguindo um caminho perturbador para a ideia de vínculo utilitário, o vínculo social, definido por Gaiger (2016, p.10) como “a arte de manter relações como meio de viabilizar a vida”, é um fenômeno que recorre aos afetos – amor, fascinação, sedução (ENRIQUEZ, 1999) -, exatamente para manter as dívidas em aberto. Ou seja, enquanto o mercado e o modelo utilitário são baseados na liquidação da dívida, o vínculo social é
50 Sandel (2012), no livro O que o dinheiro não compra, traz uma boa ilustração para a ideia de quitar dívidas com pagamento em dinheiro, abolindo vínculos. O autor conta a história de uma creche israelita em que alguns pais costumavam buscar seus filhos com certo atraso, devido ao trabalho, obrigando os auxiliares a fazer hora extra e gerando desconforto nesses pais, que continuamente se desculpavam. A creche decide então cobrar uma multa aos pais retardatários. O que aconteceu foi que aumentou o número de pais que chegavam tarde e os atrasos se tornaram mais significativos. A multa, que seria uma sanção moral, foi entendida pelos pais como um preço a pagar pelo serviço prestado e que valia a pena pagar esse preço, liberando os pais de qualquer culpa. O fato de ser paga em dinheiro, reduziu a oferta a uma troca análoga à compra de um serviço no mercado, quitando qualquer dívida e não precisando reforçar laços sociais.
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baseada na manutenção da dívida e na expectativa de reciprocidade. Para o vínculo social, deixar dívidas em aberto é importante para permitir seguidas novas oportunidades de contato e de constituição ou reafirmação de vínculos.
Os estudos sobre os vínculos sociais têm dado atenção a relações de interdependência e cooperação na constituição de um tecido social entrelaçado por diferentes afetos, consequentemente formando constelações distintas de emoções, derivadas desses entrelaçamentos (ELIAS, 1990; POLANYI, 2000; ELIAS; SCOTSON, 2000; GAIGER, 2016). Ao mesmo tempo, ao contraírem-se vínculos sociais, forjam-se identidades, estilos e disposições para a ação, ainda que esses vínculos possam ter um papel temporário, sendo descartados após cumprir sua finalidade (GAIGER, 2016).
Ao basear-se em interdependência e cooperação, o vínculo social promove a ideia de reciprocidade - em detrimento da autonomia individual - como o mecanismo capaz de sustentar a ligação entre as pessoas, fazendo com que as relações possam ser nutridas e evitando que definhem.
Alguns autores foram pioneiros no estudo da reciprocidade como elemento crucial para a formação e manutenção de vínculos sociais (SIMMEL, 2015; GOULDNER, 1960; POLANYI, 2000; MAUSS, 2003; LÉVI-STRAUSS, 2003), outros têm contribuido com a renovação desses estudos (GODBOUT, 1998; CAILLÉ, 2002; SABOURIN, 2011). As relações de reciprocidade geram valores como amizade e responsabilidade, que garantem modos de regulação capazes de estabelecer contra-poderes (SABOURIN, 2011). Para que o jogo da reciprocidade se estabeleça e perdure, as emoções exercem papel essencial.
Caillé (1989, 2002) recuperou e atualizou o paradigma da dádiva de Mauss (2003), propondo uma ruptura com o paradigma utilitarista e defendendo que a dádiva não é exclusiva das sociedades primitivas, mas pertence a nosso mundo moderno. Mauss (2003) havia estudado a dádiva como própria das sociedades arcaicas e suas contribuições, embora importantes, muitas vezes foram descartadas ao se estudar regimes de associações atuais.
Em seu Ensaio sobre a dádiva, Mauss (2003) concebeu-a como uma forma de circulação material e sobretudo simbólica de bens e serviços impulsionada por qualquer prestação efetuada sem garantia de retorno, com o fim de alimentar o laço social e objetivo de criar, alimentar, recriar o vínculo social entre as pessoas. Nessas condições, os bens não valem por sua utilidade (valor de uso) ou por seu preço (valor de troca), mas porque criam e alimentam a relação interpessoal (valor de vínculo). A dádiva alimenta os vínculos sociais e os promove na direção de uma reciprocidade que, para Mauss (2003)
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deve ser percebida não como ato isolado, mas como um ciclo que cumpre três momentos: dar-receber-retribuir. O utilitarismo isola como único momento o receber e coloca os indivíduos como movidos pela única tentativa do recebimento. Caillé (1989, 2002) aponta como o grande problema desse paradigma o fato dele desprezar as relações de interdependência.
Mauss (2003) ficou mais conhecido por ter redescoberto a dádiva nas sociedades primitivas do que por sua contribuição à noção de reciprocidade, embora sua obra já contivesse elementos que apontavam para a reciprocidade através da formulação da tríplice obrigação de dar-receber-retribuir.
Lévi-Strauss (2003) fez uma crítica a Mauss, que não teria percebido que é a troca – que deveria ser colocada no centro da função simbólica-, e não um sistema qualquer de crenças, que constitui a estrutura subjacente às três obrigações. Ele partiu dos estudos de Mauss, reconhecendo um compromisso nas interações como garantia no estabelecimento de vínculos sociais e já falando em reciprocidade, ao invés de dádiva. Este estudioso, como também Simmel (1939), defenderam a reciprocidade como fundamento para a formação de vínculos sociais e elemento essencial à coesão de um grupo.
O avanço dos estudos conduziu à uma afirmação da diferença entre os termos troca e reciprocidade, compreendendo-se troca como algo mais imediato e que liberaria o beneficiário da sua dívida, enquanto a reciprocidade não poderia ser reduzida a permuta, pois nela existe uma espera de retorno da ajuda, ainda que não haja nada de contratual ou obrigatório. Os estudos, no entanto, não negaram a existência do princípio de troca, nem propuseram uma substituição de uma lógica por outra - troca ou reciprocidade-, mas chamaram a atenção para uma dupla leitura e reconheceram sistemas onde uma lógica ou outra podem prevalecer ou ainda coexistir (SABOURIN, 2011).
O conceito de reciprocidade encontra resistências num cenário marcado por liberalismo e propriedade privada, onde compromisso mútuo simbólico e corresponsabilidades perdem importância. No entanto, os estudos têm sido renovados e defendem que a reciprocidade se mantém nas sociedades contemporâneas, assumindo várias formas e diferentes níveis - inclusive dando lugar a reciprocidades positivas, negativas, simétricas, assimétricas - e também destacam a emergência de formações alternativas a modelos hegemônicos, onde se observam atividades não motivadas apenas por interesse material individual ou corporativista, mas que incluem preocupação com a satisfação das necessidades dos outros ou com a manutenção do laço social, das relações humanas e das necessidades do conjunto da comunidade (SABOURIN, 2011).
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Para Sabourin (2011), as relações de reciprocidade, além de valores materiais ou imateriais (como conhecimentos, informações, saberes), produzem valores afetivos (amizade, proximidade) e éticos ou espirituais (confiança, equidade, responsabilidade), exigindo estudos que busquem a compreensão dos sentimentos gerados e compartilhados em grupos.
Jogar luzes sobre os engajamentos observando as emoções necessariamente envolvidas nas relações não significa idealizar as relações ou romantizar os estudos. A ideia de vínculos sociais comporta uma perspectiva crítica em relação a motivação nas ações, que não deixa de perceber tensões, resistências dos enredos instituídos, a incerteza de alianças, os riscos dos vínculos se deteriorem ou contradições em atuações possivelmente altruístas.
Gaiger (2016) lembra que condutas altruístas de ações também podem ter uma estratégia utilitarista e que isso não necessariamente precisa ser encarado como algo negativo pois, conforme o autor, participar ou abster-se dependerá sempre de um cálculo de ganhos e perdas pessoais e que, ao colaborar com os outros, em princípio algo se ganha, mesmo que dividendos morais como o reconhecimeto dos pares. O que Gaiger (2016) critica é a compreensão do vínculo como algo tão somente utilitarista e o excesso de crença no utilitarismo como solução final, abolindo a ideia de vínculo social, que se manifesta nas relações, sempre intercaladas por emoções.
Para Caillé (2002), procurar uma reciprocidade plenamente desinteressada baseia- se numa confusão entre gratuidade da relação e desinteresse. Na reciprocidade, na verdade, a gratuidade é aparente, pois o que é ofertado deve custar um preço - não um preço liquidado em dinheiro, mas, por exemplo, com entrega de tempo ou a habilidade do que se pode fazer em/pelo o grupo. Assim, a perspectva da reciprocidade pode ser entendida não como uma bondade desinteressada, mas como um mecanismo sofisticado que permite a formação e a continuidade de vínculos.
Ao lado do jogo entre gratuidade/pagamento, há no vínculo social um jogo paradoxal entre liberdade e obrigatoriedade. É possível apontar que, no modelo mercantil, há a liberdade de sair de uma relação com facilidade – liberdade apoiada na liquidação imediata da dívida, uma vez que a troca se completa por si e a relação é pontual, sem inserir os participantes em um sistema de obrigações, resultando num vínculo frágil, enquanto no modelo gratuito da reciprocidade, a troca é voltada a se perpetuar, como num pacto, criando também controle e sendo fonte de tensões (CAILLÉ, 2002; GODBOUT, 2002; NICOLAS, 2002). Esse jogo de trocas, que Godbout (2002) denomina de
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endividamento mútuo positivo, implica em algum tipo de privação nas trocas, em perda, mas também em ganho recíproco, constantemente renovado.
Sabourin (2011) alerta que se deve evitar uma idealização das práticas e sistemas de reciprocidade uma vez que, assim como a troca capitalista, elas conhecem alienações perigosas - ainda que de natureza diferente da economia de troca capitalista-, que necessitam de mais estudos para uma melhor compreensão.
As práticas de reciprocidade também não estão livres de climas de rivalidade e sentimentos de inveja que podem ameaçar grupos, levando mesmo à dissolução dos jogos de vinculação (CAILLÉ, 2002). No entanto, esses jogos podem ser mantidos, reinventados, remodelados. Os diferentes acordos/desacordos comprovam a presença de emoções nas alianças e como essas emoções podem ser transformadas.
Para completar o olhar sobre a formação de vínculos e a dimensão emocional, e nos aproximarmos mais do objeto de estudo nessa tese, tratamos a seguir dois estudos em específico que ajudam a iluminar questões: a) o estudo sobre o gosto, o prazer desenvolvido em alguma atividade ou na relação com um objeto - ainda pouco estudado pelas ciências sociais e que Antoine Hennion chamou de pragmática do gosto; e b) o estudo sobre a emoção dos jornalistas, de Le Cam e Ruellan, que se dirige mais à investigação sobre a emoção no campo do jornalismo.