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Para se falar do termo “categoria estética”, é preciso antes compreender o que signi- fica para a filosofia o termo “categoria”, do qual Aristóteles foi o primeiro sistematizador, embora Platão, em Sofista, ao refletir sobre o método de compreensão da realidade, tenha estabelecido ontologicamente os “gêneros supremos”: o ser, o repouso, o movimento, o mesmo e o outro, em uma relação entre a realidade e o discurso para se chegar ao verdadeiro e ao falso (254c-256d) (1972: 185-8). Mantendo essa ideia de realidade, Aristóteles, no Or- ganon, irá listar dez categorias (predicamentos) atribuíveis ao ser: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ação e paixão (I, 4, 1b-2a) (1985: 47). O ponto de vista de Aristóteles, no entanto, é linguístico, sendo a substância o ser (o quê) e todas as outras seus acidentes (o quanto, o como, o com quê, o onde, o quando, o como está, o em que circunstância, a atividade e a passividade). Vejamos que essa ideia de categoria, que, com variações taxonômicas, se estendeu da Antiguidade até a Idade Moderna, é grosso modo uma forma de se conhecer a realidade universal dos seres, algo somente contestado na Idade Média pela doutrina nominalista, que desconsiderou o caráter abstrato dessa universa- lidade afirmando a condição de mero signo (nome), sem existência autônoma, das catego- rias. Todavia, é somente com Kant, em 1781, que a ideia de categoria, também em negação ao realismo clássico, passará de “determinação do ser” a “condição do entendimento”. Ale- xandre Fradique Morujão, no prefácio à sua tradução conjunta portuguesa da Crítica da ra- zão pura (Kritik der reinen Vernunft), esclarece que, a partir daí, as categorias “deixam de ser, como em Aristóteles, as propriedades mais gerais das coisas para se transformarem em funções do entendimento que reduzem de diferentes maneiras as percepções à unidade de um objeto” (Kant, 2001: 14). Os objetos, assim, para Kant (2001: 134-43), seriam formados

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por uma síntese dessas percepções, ou categorias, nas quais age o entendimento. Em uma construção lógica e com o intuito de provar a deficiência da tábua categórica aristotélica, Kant estipula doze categorias e as divide em quatro classes: a) da quantidade: unidade, plu- ralidade e totalidade; b) da qualidade: realidade, negação e limitação; c) da relação: inerên- cia e subsistência (substância e acidente), causalidade e dependência (causa e efeito) e co- munidade (ação recíproca entre agente e paciente); d) da modalidade: possibilidade-impos- sibilidade, existência-inexistência e necessidade-contingência.

Com isso, na idealização estética, essas duas visões, a de Aristóteles e a de Kant, cada qual a seu modo, concorrem para indicar a natureza categórica do belo antes mesmo de o termo (categoria estética) ter sido empregado. O belo, como uma categoria estética entre outras, se fundamentaria tanto na qualidade da substância aristotélica quanto na limitação kantiana. Ariano Suassuna (2004: 57-8) diz que, para Aristóteles, a beleza é uma “proprie- dade do objeto” — o que se alinha à noção de qualidade da substância — e é também a “unidade na variedade” — o que a revela como ideal “estético” e torna possível, por exem- plo, se pensar na beleza do belo, na beleza do gracioso, na beleza do sublime, na beleza do trágico, na beleza do risível, na beleza do feio, na beleza do horrível e na beleza do cômico. Suassuna (2004: 105-14), na verdade, em interpretação à Poética, realiza uma sistematização dessas potenciais oito categorias aristotélicas de beleza, sendo as quatro primeiras de har- monia e as outras quatro de desarmonia. Quanto a Kant, vale observar, na Crítica da facul- dade do juízo (Kritik der Urteilskraft), de 1790, sua análise do belo a partir das quatro classes de categorias tratadas na Crítica da razão pura; e também a do sublime. Formulará, assim, uma analítica do belo e uma analítica do sublime. E dirá que “o belo da natureza concerne à forma do objeto, que consiste na limitação; o sublime, contrariamente, pode também ser encontrado em um objeto sem forma, na medida em que seja representada ou que o objeto enseje representar nele uma ilimitação, pensada, além disso, em sua totalidade [...]” (2002: 90). Na lógica kantiana, a limitação é a realidade ligada à negação, bem como a totalidade é a unidade ligada à pluralidade, sugerindo que o belo não pode ser apenas a realidade, nem o sublime apenas a unidade. E é taxativo ao dizer que “não há uma ciência do belo, mas so- mente crítica” (2002: 150). Do ponto de vista estético, para Kant, o gosto é a faculdade de ajuizamento do belo, em um livre jogo entre a imaginação e o entendimento; enquanto a comoção, provocada pela grandeza e pela potência, é a do sublime, em um acordo entre a imaginação e a razão.

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Autor de um importante trabalho sobre categoria estética, Robert Blanché (1979: 9) relata que, quando a palavra “categoria” entrou explicitamente no vocabulário da estética, foi precisamente para rejeitar — quer como demasiado vaga, quer como demasiado estreita, de acordo com o sentido dado à palavra “belo” — a definição da estética como ciência do belo, o que dissociou a ideia de beleza da de valor estético, ao ver o belo apenas como uma categoria que deveria ser colocada no mesmo plano das outras qualificações estéticas possí- veis. E esse “explicitamente” a que se refere Blanché se deu no final do século XIX, com Karl Groos, em Introdução à estética (Einleitung in die Aesthetik),77 de 1892; e Victor

Basch, que introduziu o termo na França, em Ensaio crítico sobre a estética de Kant (Essai critique sur l’esthétique de Kant), de 1896. Antes, porém, o termo “modificação do belo” vinha sendo utilizado com um sentido próximo daquilo que “categoria estética” buscaria significar. Consta do dicionário de estética coordenado por Gianni Carchia e Paolo D’An- gelo (2009: 246) que o termo foi difundido na Alemanha, na segunda metade do século XIX, pela chamada corrente estética sistemática, principalmente por Adolf Zeising e Eduard von Hartmann. As modificações do belo (Modifikationen des Schönen) seriam, portanto, altera- ções do belo em si (ou do verdadeiro, ou do puro, ou do absoluto), isto é, da forma da beleza que reside no mundo das ideias (ou no intelecto), excetuando-se sua antítese, o feio. E seriam essas modificações, entre outras, o atraente, o cômico, o gracioso, o humorístico, o idílico, o intrigante, o patético, o tocante, o trágico, o triste, o sublime. Em 1853, Karl Rosenkranz, em Estética do feio (Aesthetik des Häßlichen), se vale da palavra “categoria” para reafirmar o belo como categoria estética por excelência — uma equivalência, de fato, à ideia de mo- dificação do belo —, ao dizer que o feio não era a mera ausência do belo, e sim sua negação positiva, pois o que conceitualmente não pertence à categoria do belo tampouco pode ser incluído na categoria do feio (1992: 189).

Groos dedicará uma parte de seu trabalho para tratar da modificação estética, depois de demonstrar que o belo não poderia ser o único objeto da estética. Será nessa parte, intitu- lada “As modificações estéticas” (“Die ästhetischen Modificationen”),78 que o termo “cate-

goria estética” será usado pela primeira vez, para atestar que o feio ocupa uma esfera legítima e independente ao lado do belo no aspecto estético (1892: 289). Vejamos que Groos não usará o termo “modificação do belo”, e sim “modificação estética”, pois entende todas as

77 Na ortografia alemã atualizada, Ästhetik. 78 Na ortografia alemã atualizada, Modifikationen.

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outras categorias de que trata — o feio, o sublime, o trágico, o cômico — como autônomas em relação à do belo. Há, em Souriau, uma explicação pertinente sobre a questão da utiliza- ção dos termos “modificação do belo” e “categoria estética” nesse princípio de afirmação “científica” da estética:

La expresión toma la palabra “modificación” en un sentido que procede de la esco- lástica y de origen aristotélico; significa “particularización según un modo, especifi- cación por una manera de ser sacándolo del accidente y no de la esencia”. En el lenguaje corriente la palabra ha tomado el sentido de “cambio” y se sobreentiende la idea de dos etapas sucesivas a lo largo de las cuales la naturaleza de la cosa modifi- cada se transforma. Se habría podido entender entonces que la “modificación de lo bello” es algo temporal, a lo largo de lo cual lo bello deja de ser lo que era en prin- cipio, para pasar a ser otra cosa. El peligro de rechazo explica el hecho de que se haya reemplazado el empleo de este término por el de “categoría estética”. (2010: 255)79

Fica claro, assim, que o problema do termo “modificação do belo” está mais no adjunto adnominal “do belo” do que no substantivo “modificação”, pois esse termo indica somente o sentido de belo como categoria estética por excelência. Em oposição, o termo de Groos — “modificação estética” — se mostra como referente às várias categorias estéticas, entre as quais a do belo só seria mais uma. Note-se que, em analogia à explicação vista em Souriau sobre a acepção do termo “modificação”, “modificação do belo” sugere a particularização ou especificação de algo conforme os preceitos do belo; já “modificação estética”, a parti- cularização ou especificação de algo conforme os preceitos da estética, o que obviamente configura um espectro muito mais abrangente. Contudo, é Basch (1896: 557), em seu ex- tenso estudo sobre a estética kantiana, o responsável por firmar no ideário estético o termo “categoria estética”, ao dizer que o sublime, o gracioso, o trágico e o cômico não eram mo- dificações do belo, e sim que todas essas formas, inclusive o belo em si, eram manifestações pertencentes ao estético em geral. Para Basch (1896: 593), a fria razão de Kant não o permi- tiu se perder nesse problema, e o fez, conforme todos os estetas que o precederam, coordenar

79 “A expressão toma a palavra ‘modificação’ em um sentido procedente da escolástica e de origem aristotélica;

significa ‘particularização segundo um modo, especificação por uma maneira de ser tirada do acidente, e não da essência’. Em linguagem corrente, a palavra tomou o sentido de ‘mudança’ e se subentende a ideia de duas etapas sucessivas durante as quais a natureza da coisa modificada se transforma. Pode-se entender, então, que a ‘modificação do belo’ é algo temporal, na qual o belo deixa de ser o que era em princípio para passar a ser outra coisa. O perigo de rejeição explica o fato de se ter substituído o emprego desse termo pelo de ‘categoria estética’” [tradução minha da tradução do original em francês para o espanhol].

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o sublime ao belo, assim como viria a coordenar o cômico ao sublime e ao belo. E, após mais de duas décadas, ainda plenamente fundamentado em Kant, Basch dirá que não são as cate- gorias que criam o ambiente estético, e sim a maneira como se contempla as coisas: “Le caractère esthétique d’un objet n’est pas une qualité de cet objet, mais une activité de notre Moi, une attitude que nous prenons en face de cet objet, une façon particulière que nous avons de l’envisager, de le regarder, de l’entendre, de l’appréhender, de l’interpréter” (1921: 13),80 o que é justamente uma síntese do sistema kantiano do gosto, ou melhor, do juízo de

gosto.

O germanista e professor de estética Marc Jimenez acredita que “a obra de Kant en- cerra a seu modo os debates incessantes e insolúveis sobre as modificações do belo e as categorias estéticas dos séculos e dos decênios que o precederam” (1999: 139). É que, com Kant, se fixa em dois polos o problema do valor estético, colocando-se a sua visão subjetiva do juízo em oposição à propriedade imanente do objeto. E isso, conforme veremos no tópico a seguir, se liga diretamente à noção kantiana de imaginação transcendental (ou produtiva), geradora de conhecimento, que se coloca em um patamar diverso do da nomeada imaginação reprodutiva, a qual é marcada por suas funções evocativa e substitutiva. Ainda que não tenha se concentrado propriamente na questão da arte, Kant abrirá um caminho importante para a imaginação como a base de estabelecimento das categorias estéticas, as quais, para Souriau (1973: 30-1), seriam intermináveis, da mesma forma que são intermináveis as obras de arte. E Souriau, com sensibilidade poética, chega a chamar de sabor o valor advindo da experi- ência estética; sabor esse que viria de todas as coisas, ou melhor, da impressão de todas as coisas, podendo revelar, por exemplo, um “jardim sob a chuva” ou uma “harmonia da tarde”. E concluirá que “reduzir a estética ao estudo do emprego de alguns epítetos é restringir, de maneira nociva, seu domínio, e encurtar dolorosamente a capacidade do espírito humano” (1973: 31). E é essa mesma percepção que levará Blanché a atestar que, a partir daquele final de século, o XIX, “l’esthétique n’est plus la science du beau, elle est devenue la science des catégories esthétiques” (1979: 17).81

80 “O caráter estético de um objeto não é uma qualidade desse objeto, e sim uma atividade do nosso Eu, uma

atitude que assumimos em face desse objeto, um modo particular que temos de considerar, ver, ouvir, apreen- der, interpretar” [tradução minha do original em francês].

81 “A estética não é mais a ciência do belo, ela se tornou a ciência das categorias estéticas” [tradução minha do

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Essa conclusão de Blanché — uma possível tautologia — levanta um problema quando, em analogia, a transferimos para os campos da lógica e da ética, com base nos três ideais supremos que, desde a Antiguidade, se consagraram canonicamente: a verdade, o bem e a beleza, e os quais nos fazem questionar se, então, a lógica seria a ciência das categorias lógicas e a ética a das categorias éticas. Observe-se que, no grego antigo, o lógico (λογικός : logikós) era o relativo à razão; o ético (ἠθικός : ethikós), aos bons costumes, ou à moral;82 o

estético (αἰσθητικός : aisthetikós); à percepção dos sentidos — sabendo-se que, como já foi dito aqui, o termo “estética” só viria a ser neologizado no século XVIII. Portanto, a razão (λόγος : lógos) seria o que conduz à verdade; os bons costumes (ἦθος : êthos),83 ou a moral,

o que conduz ao bem; enquanto a percepção dos sentidos (αἰσθητός : aisthetós), o que conduz à beleza, embora esses três ideais muitas vezes se complementem, na concepção de que é necessário ser bom e belo para ser verdadeiro; e verdadeiro e belo para ser bom; e verdadeiro e bom para ser belo.

Mas o verdadeiro nunca foi nem se tornou uma categoria lógica entre outras, como o bem nunca foi nem se tornou uma categoria ética entre outras; são, sim, seus fundamentos e seus objetos. Não há categoria lógica nem ética no sentido de categoria estética. Não há, por exemplo, em lógica, as categorias do verdadeiro, do falso, do possível; ou, em ética, as do bem, do mal, do justo, como vieram a haver, em estética, as do belo, do feio, do sublime. O falso é o desvalor do verdadeiro; o possível, o que pode ser verdadeiro; o mal, o desvalor do bem; o justo, o que está de acordo com o bem. Não são categorias, portanto. O feio, como categoria estética autônoma, transcendeu a ideia de desvalor do belo, e o sublime a de ser sua gradação. O problema deduzido a partir dessa analogia, pois, está na particularização de que a percepção dos sentidos conduz à beleza, tal qual a razão à verdade e a moral ao bem. Efetivamente, a percepção dos sentidos conduz à imaginação, e a imaginação — não qual- quer imaginação, mas a imaginação inteligível — é o que concebe o belo, o feio, o sublime, o trágico, o fantástico, ou qualquer categoria estética.

82 O ético relativo aos bons costumes (moral) era grafado com a inicial eta (η), sendo uma variação do relativo

ao costume no geral (hábito), grafado com a inicial épsilon (ε).

83 Conforme ocorre nos derivados descritos na nota anterior, de ἔθος (éthos) para ἦθος (êthos) também há a

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