No limite do processo narrativo intitulado “situação final”, geralmente, um novo estado de equilíbrio é apresentado em relação à resolução do desequilíbrio da trama narrativa, marcado por uma transformação em relação à situação inicial. Entretanto, por se tratar de lendas, esse novo estado de equilíbrio pode não ocorrer, visto que são histórias narradas, na maioria das vezes, com o intuito de externar medos aos interlocutores.
Nas duas versões que constituem o corpus, ocorreu a seguinte distribuição dessa estrutura, conforme pode ser visualizada no gráfico apresentado a seguir.
Gráfico 6: Distribuição das ocorrências da macroproposição situação final nas duas versões do corpus Fonte: Autoria própria
Nota-se, a partir do exposto no gráfico, que mais da metade dos textos (68,2%) da primeira versão apresentaram a Situação final. Logo, é uma macropro- posição compreendida pelos informantes no sentido de dar fechamento do texto. Contudo, 31,8% dos dados não realizaram essa compreensão. E, a partir da análise de suas escritas e a reorganização dos segmentos do texto com a finalidade de adequação aos tópicos da sequência narrativa, houve um entendimento maior acer- ca dessa fase e, desse modo, o total de textos sem a macroproposição reduziu para 4,5%, ou seja, somente um dado da versão final e, consequentemente, o total de textos com situação final aumentou para 95,5% dos textos.
O texto a seguir demonstra que há ausência da Situação final na primeira versão.
(T14) Fogo Batatão
conta na serra da gameleira que por lá exsiste um fogo que passa para o lado para outro a sustando as pessoas essas pessoas chama de fogo batatão alguns pessoas diz que o fogo batatão eh metade boi e metade fogo ai outro diz que com gente com palha para assusta as pessoas
mais o certo que ver o fogo batatão quando ele apareçe a noite fica asustado e não anda para os lados onde passou o fogo batatão
Sobre as macroproposições apresentadas na primeira versão, pode-se identi- ficá-las em quatro divisões. A Situação inicial corresponde ao enunciado “conta na serra da gameleira que por lá exsiste um fogo”, em que há a introdução da história que se pretende narrar através da indicação vaga de uma fonte de informação. Des- se modo, a apresentação da história a ser narrada é marcada pela incerteza. O nó
desencadeador relaciona-se ao fogo no processo de descrição das ações que de- sencadeiam o desequilíbrio (passa para o lado para outro a sustando as pessoas essas pessoas chama de fogo batatão alguns pessoas diz que o fogo batatão eh metade boi e metade fogo ai outro diz que com gente com palha para assusta as pessoas), isto é, o fogo citado no início da história assusta a população, principal- mente, por não se ter certeza a respeito da verdadeira origem do fenômeno vivenci- ado. Já a reação aparece no trecho “que ver o fogo batatão quando ele apareçe a noite fica asustado”, assim, a ação desencadeada pelo surgimento do fogo é o me- do, o que leva ao desenlace pela tomada de resolução por quem vê o fenômeno, apresentado no enunciado “e não anda para os lados onde passou o fogo batatão”, cuja organização muito breve das ações gera problemas na separação entre as ma- croproposições presentes na narrativa.
Já na versão final, os dados de (T14) aparecem retextualizados da seguinte forma.
(T14) O fogo batatão
um Homem, certa vez ia subindo a serra como costumava Fazer quase toda Noite Mais quando Menos esperava sentiu aquela quentura nas costas e um fogo apareceu para ele nesse momento ele acelerou o carro morrendo de medo. E o fogo ia seguin- do ele. ele acelerou e parecia que o fogo aumentava ele se tremia de medo sem sa- ber o que fazer pedia ajuda a deus e a todos os santos que se lembrava e o fogo atráz numa certa hora ele teve coragem e olhou para tráz nesse momento ele perce- beu que o fogo já estava indo em outra direção passando de um lado para outro da serra ele deu um suspiro de alívio e correu mais para ver se chegava logo na serra quando chegou lá e contou para as pessoas, uns acreditaram e disseram que o fogo tinha corrido atrás deles também mais outros disseram que era gente com palha para assustar as pessoas mas o que é certo é que ninguém tem coragem de andar pelos lados por onde o fogo passa
Na versão final, ocorre uma mudança significativa com relação à história nar- rada na primeira versão. Essa mudança profunda do ato de narrar deu-se em 27% dos dados da versão final. Nela, o escrevente retextualizou sua produção com o in- tuito de apresentar um texto com os tópicos apropriados à sequência narrativa. Nes- se sentido, é possível notar a forma como se deu a retextualização por meio da oita- va operação de reordenamento de tópicos e reorganização da sequência narrativa.
Primeiramente, na Situação inicial, nota-se a introdução de um personagem (um homem), em seguida, apresenta um marcador temporal (certa vez). Note-se que o tempo verbal dos tópicos altera do presente para o pretérito imperfeito (ia subin- do). A relação de espaço (a serra), apresentado na primeira versão é retomada e há o estabelecimento de uma situação de equilíbrio que leva a uma atividade rotineira
praticada pelo personagem (como costumava fazer quase toda noite). A partir dessa mudança, verifica-se uma adequação à macroproposição que estabelece o limite inicial da sequência narrativa.
Como elemento de inserção do Nó (desencadeador), tem-se a utilização do marcador de oposição “mas”, grafado pelo falante como “mais”, o que denota pro- blemas de compreensão na forma de grafar esse conector, contudo, nota-se pelo contexto (Mais quando menos esperava) que ele conhece os recursos linguísticos responsáveis pela introdução de uma situação que quebra o equilíbrio apresentado anteriormente em seu texto e introduz o nó. Após esse enunciado, o escrevente apresenta o elemento causador do desequilíbrio (sentiu aquela quentura nas costas e um fogo apareceu para ele). Ao realizar a inserção nessa parte de seu texto, o in- formante efetua um deslocamento do objeto do começo do texto da primeira versão para outra parte, estratégia típica da oitava operação de retextualização.
A Re-ação envolve os enunciados
nesse momento ele acelerou o carro morrendo de medo. E o fogo ia seguindo ele. ele acelerou e parecia que o fogo aumentava ele se tremia de medo sem saber o que fa- zer pedia ajuda a deus e a todos os santos que se lembrava e o fogo atráz numa cer- ta hora ele teve coragem e olhou para traz
É possível notar nesse trecho a mudança nas informações em comparação à primeira versão, em que nessa há a uma maior presença de eventos para o estabe- lecimento das circunstâncias ocasionadas pelo elemento de desequilíbrio.
O Desenlace é marcado pelo trecho “nesse momento ele percebeu que o fo- go já estava indo em outra direção passando de um lado para outro da serra”. Logo, o fogo desapareceu, solucionando o desequilíbrio da história. Nota-se, nesse enun- ciado, uma informação presente na primeira versão, porém nessa última versão, o escrevente a colocou mais próxima do final da história, ao passo que na primeira, localiza-se logo após o início. Essa mudança de posição de tópicos faz parte do pro- cesso envolvido na aplicação da oitava operação de retextualização a partir dos es- tudos de Marcuschi (2010).
E a Situação final dá-se início a partir do trecho “ele deu um suspiro de alívio e correu mais para ver se chegava logo na serra” e segue com informações sobre os acontecimentos desencadeados após a chegada do personagem em seu destino, o que aponta para um novo equilíbrio na história. Em seguida, o autor finaliza o texto com um dado presente na primeira versão (mas o que é certo é que ninguém tem
coragem de andar pelos lados por onde o fogo passa), contudo, retextualizado de forma a constituir nessa última, o fechamento do texto.
Como se pode verificar, a inserção da Situação final, bem como as demais macroproposições do plano de texto do gênero lenda, passa por alterações nos da- dos globalmente, uma vez que a reflexão sobre a necessidade de reordenar os tópi- cos e reorganizar o texto de modo a adequá-lo à sequência narrativa leva à tomada de decisões sobre as mudanças possíveis no texto e, assim, constituir um todo coe- rente e organizado com as informações e as relações semânticas adequadas ao mundo do narrar.
Em suma, os resultados gerais desta análise permitem-nos fazer as seguintes considerações:
I. Na primeira versão, os dados estavam relacionados a um contexto de situa- ção familiar entre os interactantes e às perfomances desses no ato do narrar. Por esse motivo, apresentaram tantas discrepâncias em relação à forma de apresentar o gênero lenda e as macroproposições da narrativa.
II. Também nessa versão, os textos que apresentaram as cinco macroproposi- ções que constituem o plano de texto do gênero lenda explicitaram problemas com relação a uma quantidade menor de informações, o que confere uma enumeração de ações. Já os que apresentaram algumas das estruturas típi- cas da narrativa, apresentam problemas com relação ao uso dos tópicos no texto, uma desorganização a respeito das lacunas apresentadas face à com- posição do gênero e, desse modo, compromete o sentido do texto.
III. Na versão final, os dados apresentaram avanços relevantes sobre o uso das macroproposições adequadas à sequência narrativa e, por essa razão, há uma diminuição das discrepâncias em relação ao plano de texto do gênero. IV. A principal causa para esse avanço está relacionada à abordagem da 8ª ope-
ração de retextualização, pois permitiu uma reflexão pelos informantes acerca da organização estrutural do gênero por meio da sequência narrativa.
V. A partir dessa reflexão, os escreventes reordenaram as informações no plano de texto de modo a adequá-lo à sequência narrativa.
Logo, os dados apresentaram um plano de texto mais organizado com rela- ção à estrutura composicional e às informações apresentadas nesse plano. Assim, os textos que compõem a versão final se adequaram mais à situação discursiva
apresentada pelo objetivo do projeto de leitura e produção de lendas: a sua divulga- ção em uma esfera pública de comunicação.