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Dans le document SESSION BUDGETAIRE 26 & 27 JANVIER 2022 (Page 22-25)

A partir das recepções apresentadas por Lima Vaz referente às noções de espírito, percebermos a confluência destas com a concepção antropológica de Frankl, o que favorece uma releitura da concepção de dimensão espiritual. Como visto anteriormente, Frankl salienta que a passagem do consciente para o inconsciente e vice-versa é muito fluida; todavia, não é o caso entre o espiritual e o instintivo, vindo a classificar a existência espiritual não só como um problema de maior importância ontológica, mas também de especial relevância psicoterapêutica (FRANKL, 1997, p. 20).

A partir de Lima Vaz ficou patente que ao espírito não constitui exclusivamente uma categoria antropológica, pode-se dizer de uma categoria espiritual, mas o espírito propriamente dito não constitui uma categoria, pois se assim fosse estaria ligado à finitude e contingência do ser humano. O espírito só é compreensível a partir de sua amplitude transcendental. Frankl insiste que o ser humano tem corpo e psíquico, mas é espiritual, ou seja, é em essência, espiritual. A partir disto, já se ressalta que o espírito não é uma categoria antropológica, pois em termos lógicos, se fosse uma categoria pertenceria a algo ou alguém, autorizando a falar de ―minha pessoa‖ ou ―meu eu‖.

A compreensão do espírito, segundo Frankl, não se dá em nível ôntico, apenas ontológico. Para Frankl, é pelo fato de ser in-divíduo que o ser humano se unifica, sendo que a pessoa espiritual é a que estabelece a unidade e totalidade de si (1997, p. 20). Isto conflui para afirmar que o espírito não é propriamente uma categoria, mas o elo em torno do qual se organizam o somático e o psíquico, formando com estes a totalidade do ser pessoa.

Nas palavras de Frankl: ―A esta totalidade, ao homem total, pertence o espiritual, e lhe pertence como sua característica mais específica‖ (1997, p. 21). A pessoa está centrada em seu centro, sendo tal centro, local de atos espirituais. Como apresentado em ―A presença ignorada de Deus‖, a execução espiritual dos atos e consequentemente a identidade pessoal como centro espiritual de tais atos, constitui uma pura realidade de execução (FRANKL, 1997, p. 23). É característica do ser humano ser espiritual, não como categoria, mas como essência. ―Partimos da ideia de que o homem é um ser espiritual, de que ele é em essência espiritual‖ (FRANKL, 1978, p. 194).

Compreendemos que o ser bio-psico-espiritual é composto de corpo, consciência e inconsciente; Frankl ao reabilitar este último não cria outra dimensão, a espiritual, mas percebe e combate um inconsciente exclusivamente instintivo. Ao ampliar o inconsciente e perscrutar sua real profundidade Frankl resgata e defende uma categoria que sempre permeou a compreensão do homem: ora sendo ressaltada, ora negada. Em tal reabilitação percebe não apenas um inconsciente que é detentor de instintos, mas que tem primazia espiritual. Tamanha é à força deste último que o inconsciente passa a ser considerado como um inconsciente espiritual.

Frankl reforça:

Porém, conforme já indicamos, a verdadeira ―pessoa profunda‖, ou seja, o espiritual existencial em sua dimensão profunda é sempre inconsciente. Isto significa que a ―pessoa profunda‖ não é apenas facultativamente, mas obrigatoriamente, inconsciente. [...] Neste sentido, a existência espiritual, ou seja, o próprio eu, o eu ―em si mesmo‖, é irreflexível e, assim, somente

executável, ―existente‖ somente em suas execuções, somente como ―realidade de execução‖ (FRANKL, 1997, p. 23).

Viktor Frankl descobre uma realidade que participa do inconsciente por ser irreflexível, não é que o inconsciente contenha o espiritual, assim como contém o instinto, mas aquele toca e se manifesta no inconsciente, buscando por meio da realização sua execução. Se tal manifestar é desconsiderado, o ser humano é tido em termos reducionistas; guiado, mas não responsável.

Compreendemos, a partir disto, que a grande diferença entre instinto e espírito é se uma existência é pautada em termos de destino – psicofísico, social, econômico – ou na responsabilidade, sendo que a existência espiritual é entendida precisamente como ser responsável (FRANKL p. 25 apud PETER, 2005, p. 57). Não há nada de pitônico na consideração frankliana, o fato é que duas forças podem operar no inconsciente: a de condicionar e a de libertar, esta última apresenta uma força maior, capaz de elevar o ser humano acima de qualquer condicionamento; entretanto implica um modo próprio de existência. Frankl está chamando a atenção para o fato de que se o ser humano se justifica por seus instintos ao deixar-se levar pelo destino, mais ainda deverá se justificar pelo seu espírito, como força vital própria em ser responsável e assumir escolhas.

Ao defender uma dimensão espiritual, Frankl está defendendo uma abertura à transcendência, pois a existência só é verdadeira vivida em termos de autotranscedência (FRANKL, 1997). Tal existência possibilita desalojar-se das adaptações e assumir uma existência própria, que se dá a partir da vivência como ser-responsável, tal vivência é possibilitada pela consciência (Gewissen), sendo que esta é:

Aquela instância que decide se algo deve se tornar consciente ou permanecer inconsciente, funciona, ela própria, inconscientemente. Porém, a fim de poder decidir, ela deve ser capaz, de alguma forma, de discernir. E ambas as ações, decidir e discernir, são próprias de algo espiritual. Assim, novamente verificamos que o espiritual não somente pode ser inconsciente, em diferentes graus, mas necessariamente deve ser inconsciente, tanto na sua instância última quanto na sua origem (FRANKL, 1997, p. 24-25).

E qual seria esta instância última? Qual seria a origem? Nas próprias palavras de Frankl: a ―consciência como um fato psicológico imanente já nos remete, por si mesma, à transcendência, somente pode ser compreendida a partir da transcendência‖ (FRANKL, 1997, p. 41). C. Greco comentando o pensamento de Scheler ressalta que é na abertura do ser humano à transcendência que o divino encontra o homem. Uma abertura não só cognitiva, mas também existencial para o infinito (GRECO, 2005, p. 210). E, como visto em Lima Vaz, o espírito finito do homem participa por analogia de um Espírito infinito. Para Scheler, há no

homem um excesso de forças a propósito do mundo, uma insuperável tensão para o absoluto, que rompe todo esquema de adaptação ao mundo (SCHELER, p. 384 aput GRECO, 2005, p. 209).

Disto que ficou dito podemos destacar que o ser humano é em essência espiritual, por tal fato é também indivíduo, pois o espírito trás em si os atributos da liberdade e responsabilidade que garantem a existência de forma pessoal. A existência espiritual garante ao ser humano uma unidade e totalidade de suas dimensões, pois ela é o elo entre tais dimensões, a final, como se viu, o ser humano propriamente dito é uno e não divisível.

A existência espiritual só pode ser vivida se de alguma maneira for antecipada, promanam do espiritual o ser que deveria ser mediante a intuição que a consciência provê. É na abertura da consciência ao espírito que o ser vai se delineando em sua forma originária. Na realidade, a vida só vivida em seus próprios termos quando o indivíduo se desaloja de sua egoicidade e transcende-se. O ser humano, na visão frankliana, não se realiza em si, mas para além de si, se realiza em termos de autotranscedência.

Na autotranscedência o ser humano é compreendido não só como in-divíduo, mas também como personalidade, no sentido que, o caráter transcendente da consciência dá condições de compreender o ser humano em um sentido mais profundo, pois na pessoa humana per-sonat, retumba, algo transcendente. Este algo não é crível, mas vivencial. Não se pode dizer o que é, mas permite um relacionar-se, ainda que o transcendente esteja oculto ou ignorado. É por esta via que passaremos a perscrutar o Homo religiosus, como um ser de sentido.

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