3.1.1 Abordagem teórico-metodológica
Para a constituição dos dados, foi utilizada uma entrevista semiestruturada. Conforme Demo (1995 apud BUONO, 2014), a entrevista semiestruturada é uma atividade científica por intermédio da qual o pesquisador conhece a realidade do sujeito entrevistado. Nesta pesquisa, o procedimento de geração dos dados se caracterizou por aproximar-se de uma conversação baseada em entrevista.
Por meio da entrevista semiestruturada, há a possibilidade de uma significativa interação entre o pesquisador e o entrevistado (AGUIAR; MEDEIROS, 2009; BONI; QUARESMA, 2005; GIL, 2010), onde “uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação” (GIL, 2010, p. 109). As perguntas, assim, foram formuladas com o objetivo de gerar dados que ajudassem a fazer avançar a resolução do problema de pesquisa do estudo.
Segundo Gil (2010), a entrevista é uma técnica importante para a constituição de dados sobre o comportamento humano, já que os dados subjetivos se relacionam com os valores, atitudes e opiniões dos sujeitos entrevistados (BONI; QUARESMA, 2005; RIBEIRO, 2008), além de permitir uma compreensão de suas emoções e experiências (MAY, 2004 apud AGUIAR; MEDEIROS, 2009).
Enquanto técnica de coleta de dados, a entrevista é bastante adequada para a obtenção de informações acerca do que as pessoas sabem, creem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram, bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes (SELLTIZ et al., 1967 apud GIL, 2010, p. 109).
Com a entrevista, desse modo, são gerados dados a partir de uma realidade empírica. Na entrevista semiestruturada, as questões são formuladas de modo que o sujeito possa verbalizar seus pensamentos sobre o tema apresentado, em questionamentos que são
subjetivos e que necessitam de uma relação de confiabilidade entre pesquisador e entrevistado (RIBEIRO, 2008).
As questões norteadoras da entrevista semiestruturada são organizadas previamente em tópicos, podendo contemplar perguntas abertas e fechadas, mas são flexíveis e assemelham-se a uma conversa informal, embora orientada para o tema o qual se deseja que o sujeito discorra. No decorrer da entrevista, o pesquisador pode fazer perguntas adicionais para esclarecer eventuais dúvidas e direcionar o entrevistado para retomar o foco da entrevista caso este se desvie do tema (BONI; QUARESMA, 2005; RIBEIRO, 2008; AGUIAR; MEDEIROS, 2009).
Por ser menos rígida que uma entrevista estruturada ou um questionário, a entrevista semiestruturada permite uma maior proximidade entre entrevistador e entrevistado, favorecendo a investigação de aspectos emocionais (BONI; QUARESMA, 2005). Organizar as questões norteadoras da entrevista com os tópicos principais e permitir que sejam contempladas outras questões que surgem durante a entrevista faz com que os entrevistados tenham maior liberdade para responder de forma espontânea, o que pode contribuir para a qualidade da pesquisa (MANZINI, 1990 apud BUONO, 2014; BONI; QUARESMA, 2005).
Na entrevista, a flexibilidade é maior do que em um questionário, já que o pesquisador pode esclarecer as perguntas e captar a expressão corporal do entrevistado, sua tonalidade de voz e ênfase nas respostas (GIL, 2010). É importante, porém, ter cuidado para que o entrevistador não influencie nas respostas, devendo manter um ambiente amigável (AGUIAR; MEDEIROS, 2009; BONI; QUARESMA, 2005) no qual o entrevistado “deve sentir-se absolutamente livre de qualquer coerção, intimidação ou pressão” (GIL, 2010, p. 116-117).
No início da entrevista, é importante contextualizar o entrevistado na pesquisa, para que compreenda seus objetivos (AGUIAR; MEDEIROS, 2009). O pesquisador deve explicitar a importância da pesquisa e da colaboração pessoal do entrevistado (GIL, 2010), além de esclarecer “que a entrevista terá caráter estritamente confidencial e que as informações prestadas permanecerão no anonimato” (GIL, 2010, p. 116).
Durante a entrevista, o pesquisador deve estar atento à narrativa do entrevistado, de forma a estar “sempre pronto a enviar sinais de entendimento e de estímulo, com gestos, acenos de cabeça, olhares e também sinais verbais como de agradecimento, de incentivo” (BONI; QUARESMA, 2005, p. 77). Assim, deve também “procurar intervir o mínimo possível para não quebrar a sequência de pensamento do entrevistado” (BONI; QUARESMA, 2005, p. 77) para que o mesmo esteja à vontade para expressar-se e sinta confiança no entrevistador e na pesquisa.
De acordo com Biklen e Bogdan, os entrevistadores precisam “ser detetives, reunindo partes de histórias pessoais e experiências, numa tentativa de compreender a perspectiva pessoal do sujeito” (1994 apud AGUIAR; MEDEIROS, 2009). Além disso,
[...] o pesquisador deve levar em conta que no momento da entrevista ele estará convivendo com sentimentos, afetos pessoais, fragilidades, por isso todo respeito à pessoa pesquisada. O pesquisador não pode esquecer que cada um dos pesquisados faz parte de uma singularidade, cada um deles tem uma história de vida diferente, têm uma existência singular (BONI; QUARESMA, 2005, p. 77).
Assim, os dados da pesquisa são constituídos por meio do diálogo entre pesquisador e entrevistado (RIBEIRO, 2008). Este diálogo deve considerar a sequência de pensamento do entrevistado, seguindo uma conversação que seja natural. Para isso, é mais interessante realizar, não perguntas diretas, mas questões com as quais o entrevistado pode relembrar fatos da sua vida e tecer as respostas a partir de suas memórias (BONI; QUARESMA, 2005).
3.1.2 Constituição do corpus da pesquisa
Para gerar os dados para a constituição do corpus da pesquisa, foi organizada uma entrevista semiestruturada para ser realizada com alunos dos anos finais do Ensino Fundamental. Antes de iniciar o período de entrevistas, foi realizada uma entrevista-piloto com um aluno também dos anos finais de uma escola da rede municipal de Caxias do Sul, a partir da qual foram realizados pequenos ajustes para refinar o instrumento de geração de dados.
As questões norteadoras para o desenvolvimento da entrevista (Apêndice D) foram elaboradas considerando, especialmente, o problema de pesquisa a ser respondido, mas também com base em uma entrevista para o diagnóstico da inter-relação cognição-afeto desenvolvida por Chacón10 (2003), em que são considerados diversos aspectos a respeito da influência das emoções na aprendizagem de Matemática.
A entrevista semiestruturada foi planejada abrangendo questões em que o aluno pudesse pensar e discorrer sobre sua experiência escolar, em seus aspectos positivos e negativos. A partir da análise das respostas, pretendeu-se, entre outras coisas, compreender que papel os alunos entrevistados atribuíam ao professor em sua aprendizagem matemática, considerando suas características pessoais, sua metodologia e a interação em sala de aula.
10 A referida entrevista desenvolvida por Inés Maria Gómez Chacón encontra-se na página 231 do livro
Os entrevistados foram convidados a discorrer também sobre as dificuldades que sentem na aprendizagem de Matemática e a pensar sobre possíveis causas. As questões consideraram permanentemente os aspectos emocionais envolvidos na aprendizagem de Matemática, sendo elaboradas de forma a permitir ao aluno uma reflexão sobre suas emoções diante da aprendizagem de Matemática e da própria Matemática como ciência. Além disso, a entrevista abrangeu a influência da família e da comunidade na construção da concepção do aluno a respeito do estudo de Matemática, e encerrou permitindo que o entrevistado acrescentasse outras contribuições que considerasse pertinentes e que não tivessem sido abordadas durante a entrevista.
Com a autorização dos pais ou responsáveis dos alunos participantes, as entrevistas foram gravadas em áudio para posterior análise pela pesquisadora. Conforme Gil (2010), por meio da gravação eletrônica o conteúdo da entrevista é registrado com precisão. As entrevistas foram realizadas no turno de estudo dos alunos, individualmente, durante quatro tardes. Cada áudio foi transcrito pela própria pesquisadora, com auxílio do programa Express Scribe Free11. O corpus da pesquisa foi, portanto, constituído pela transcrição das respostas das entrevistas a partir das gravações em áudio.