• Aucun résultat trouvé

28.04.2022 Demande de permis de construire (P) - 211950

Na linguagem cooperativa o termo “sobras” designa o próprio lucro líquido, ou lucro apurado em balanço, que deve ser distribuído sob a rubrica de retorno ou como bonificação

aos associados, não em razão das cotas-parte de capital, mas como resultado das operações e negócios por eles realizados na cooperativa. Assim, o fato de a lei do cooperativismo denominar a mais valia de “sobra” não tem o intuito de excluí-la do conceito de lucro, mas permitir um disciplinamento específico da destinação desses resultados (sobras), cujo parâmetro é o volume de operações de cada associado, enquanto o lucro deve guardar relação com a contribuição do capital (Lei no 6.404, de 1976, art. 187). 125

Hoje a COOPERMETAL produz aproximadamente 200 toneladas de peças fundidas por mês, tendo um faturamento bruto de, aproximadamente, um milhão e quinhentos mil reais. O pagamento de salário persiste como a principal forma de distribuição dos resultados da produção coletiva. Sua margem de distribuição está definida entre 532 reais o menor, a 4.500 reais o maior.126

Em relação às sobras, a questão é a seguinte: no momento não tem sobra, mas o pessoal recebeu gratificação natalina, todas as horas extras trabalhadas e suas férias. Isso poderia ser contado como sobra, mas se fosse deixar como sobra não existiria. Acredito que agora conseguiremos deslocar a fábrica para o novo endereço e fazê-la funcionar 24 horas, aí a produção vai aumentar 50% a 60%. Eu não tenho sobra, mas eu estou aumentando o capital da empresa de que eu sou sócio. Essa é a idéia: começamos ontem um negócio que está crescendo. Hoje, por exemplo, a COOPERMETAL tem o terreno onde está a empresa, que vale um milhão de reais. De quem é isso? De quem é esse patrimônio? Os caminhões? As máquinas? É da empresa, é da cooperativa. Eu sendo cooperado, automaticamente faço parte desse processo, desse patrimônio. 127

A opção pelo salário revela contradições e gera divisão interna entre os cooperados. A prerrogativa de distribuir salários e não instituir desde o princípio o sistema da divisão das sobras mantém viva no interior da experiência um traço característico do trabalho capitalista. Além disso, o salário é diferenciado, e o conceito de “mercado” é o definidor nessas diferenciações.

Hoje, o supervisor tem um salário, o encarregado tem outro e o líder outro, tudo bem diferente. Não acho que está certa ou errada essa diferenciação de salário. Hoje, no nosso mercado, as coisas estão complicadas, está difícil encontrar um profissional formado - não basta somente dizer que é uma cooperativa e se quiser é assim. Até acho que deveria, mas como começamos de uma forma diferente está complicado para mudar a forma de pagamento, e outro problema é que na nossa região tem muita indústria necessitando

125 Disponível em: <http://www.antt.gov.br/legislacao/Regulacao/suref/Lei6404-76.pdf>. Acesso em: 05/10/2007.

126 Dados coletados nos arquivos do Setor de Pessoal da Cooperativa, durante a pesquisa de campo, em 2007. 127 LEANDRO, Antônio Carlos. 31 de julho de 2007. Entrevista concedida a Luiz Carlos Chaves.

dessa força de trabalho. Independente de sermos cooperativa, essa questão depende do mercado, então temos que manter as condições de salário e benefícios conforme o mercado. Por isso, quando começamos a cooperativa algumas coisas continuaram, como o piso salarial do metalúrgico e o destaque pela função, e isto fez com que a prática do salário diferenciado se consolidasse. 128

A questão de diferenciação salarial é defendida pelo sindicato e está no centro do debate entre os recuperadores, provocando divisões internas. Para alguns cooperados, a preservação da distinção salarial, típica da fábrica capitalista, funciona como estímulo para que todos os trabalhadores busquem constantemente aprimoramento profissional e mantenham-se no quadro da Cooperativa.

A diferenciação de salário é correta, porque existem várias classificações na produção, e isso é uma forma de incentivar a pessoa que está trabalhando. O cooperado terá que se espelhar em alguém. Por isso tem que haver essa classificação, porque uma função mais qualificada, como um torneiro, não pode ganhar igual uma pessoa de chão de fábrica, pelo próprio nível de escolaridade e profissionalismo que é totalmente diferente um do outro. 129

Se você admitir um torneiro como cooperado e não tiver diferença entre ele, o mecânico e o ajudante de moldador ou com o moldador, o torneiro mecânico não vai ficar. O mercado é quem dita isso. Então nós temos que ter essa diferença de função, infelizmente. Eu gostaria que todo mundo ganhasse o salário que o presidente ganha. Nessas condições, daí sim, todo mundo ficaria contente. Mas infelizmente temos muitas dificuldades nesse ponto. Nós temos isso claro e está no estatuto: as sobras têm que ser divididas em partes iguais. Portanto, pode existir diferença de remuneração pela função, agora, o lucro, esse tem que ser dividido em partes iguais. 130

O cooperado Antônio Carlos131 defende a permanência do salário, dados os condicionamentos históricos. Ao defender esses pressupostos e inseri-los na dinâmica interna do processo de trabalho, o presidente da cooperativa e os cooperados que o acompanham nessa tese explicitam o maior entrave à autogestão, direcionando a experiência às práticas empresariais capitalistas. Além do salário diferenciado, a COOPERMETAL constitui dois prêmios a serem distribuídos a todos aqueles que atingem metas de produtividade: cestas básicas e 52 reais em vale-combustível, inclusive para os cooperados que não possuem automóveis. Essa repartição simboliza um prêmio pelo bom desempenho no trabalho. Para

128 CAMPOS, Albertino Batista. 01 de agosto de 2008. Entrevista concedida a Luiz Carlos Chaves.

129 Trabalhador D. 25 de julho de 2007. Entrevista concedida a Luiz Carlos Chaves. O Trabalhador D trabalha na fábrica-cooperativa desde 1998.

130 LEANDRO Antônio Carlos. 31 de julho de 2007. Entrevista concedida a Luiz Carlos Chaves. 131 LEANDRO Antônio Carlos. 31 de julho de 2007. Entrevista concedida a Luiz Carlos Chaves.

obter esses benefícios no final do mês, o cooperado de cada setor deve cumprir as metas cotidianas de produtividade e também dispensar total atenção para evitar desperdício de materiais, visando ao alcance da meta de maior quantidade e melhor qualidade.

A cesta básica funciona assim: tem uma quantidade determinada de produção para cada setor e tem, também, uma meta de diminuição do refugo. Então, cada trabalhador e cada setor têm que se esforçar para fazer a sua parte, porque se um setor não trabalhar de acordo, ninguém ganha. Agora, quem falta ou tem atestado médico perde o direito de receber a cesta básica. O trabalhador não pode ficar doente e não pode faltar. Se ficar doente um dia não tem direito à comida, mesmo trabalhando todos os outros. Foi discutido em assembléia e o pessoal aceitou, teve votação, o pessoal achou que seria bom. Só que isso é uma prática de empresa capitalista, não de cooperativa sem patrão, e no fundo vem para te cobrar qualidade na produção e não na vida. 132

Quem trabalhar recebe, mas quem não trabalhar não recebe... Outros prêmios também são distribuídos ao final do ano:

Qual a empresa que dá o lanche de manhã, o almoço, cesta básica, o transporte (independente se o pessoal usa ou não)? No final do ano passado, dos 180 trabalhadores, 168 ganharam televisores 20 polegadas. Qual é a empresa que faz isso? Até 12 de dezembro todos os que tinham os critérios (assiduidade, não ter dispensas médicas e ter alcançado as metas estabelecidas) que nós discutimos na assembléia ganharam televisores de 20 polegadas. Qual é a empresa aqui no estado que faz isso? Não sei de uma empresa que faz isto no Brasil. O café não tem um custo, o almoço não tem um custo. Tem uma empresa que cobra 51,00 reais pelo almoço e diz que paga a metade. Eu estive fazendo a conta aqui, nós não gastamos isso por pessoa. Qual é a empresa que está dando cesta básica? Qual é a empresa que irá dar ajuda de transporte se o trabalhador vem de bicicleta, mora do lado da empresa? Não existe isso. Eu acho que isso é trabalho sem patrão. Acho que é você querer para você mesmo, tentar defender os objetivos e socializar o lucro da empresa. Nada mais, nada menos. Para cada trabalhador são estabelecidos 245 reais, independentes da retirada deles. Então uma pessoa que retira 700 reais tem um ganho de 25%. E, na situação de hoje, 25% a mais, todos os meses, é um bom incremento na renda. 133

Na cooperativa autogestionária a instituição dessa estratégia extrapola, inclusive, as orientações da ANTEAG, que não prevê a distribuição de prêmios extras como um princípio da autogestão.

132 Trabalhador C. 24 de julho de 2007. Entrevista concedida a Luiz Carlos Chaves.

Documents relatifs