Entrevista ao Professor Paulo Cunha e Silva
Luísa: Então a primeira pergunta que lhe faço é: qual é o contributo que uma
abordagem estética do futebol pode dar ao conhecimento do fenómeno?
Professor Paulo Cunha e Silva (PCS): Eu gostava de começar por fazer duas
distinções que me parecem fundamentais não é? Primeiro, a distinção entre arte e estética e essa distinção pode ser também a distinção entre arte e desporto não é? Muita gente diz, bom, desporto é arte também. Tudo é arte, tudo pode ser arte e se tudo pode ser arte tudo tem estética não é? Porque a arte é de certa forma a confirmação da estética não é? A arte é a forma através da qual as nossas impressões, sensações e constantes estéticas são confirmadas não é? Ou seja…..
Luísa: Ultrapassando essa discussão da relação entre arte e desporto, o
Professor, segundo o seu ponto de vista é possível identificar no desporto ou no futebol em concreto conteúdo estético? Independentemente de ser considerado arte ou não…
PCS: Mas a questão passa por aí, ou seja, a questão passa pela…..e a minha
convicção é de que o desporto não é arte não é? Ou seja, e o desporto não sendo arte, à partida traria uma certa dificuldade à possibilidade de considerarmos no desporto elementos estéticos. Agora a estética é diferente da arte não é? Embora a arte se organize….embora a arte seja, como eu disse, a confirmação da estética, são conceitos de natureza absolutamente diferente. Quer dizer, a arte tem que ver sobretudo com a produção de objectos que passaram por um tratamento estético, se quiser, estético não é? Agora, há objectos e há situações que não são artísticas mas que despertam sensações e que despertam emoções e que despertam uma abordagem de natureza estética. Nesse sentido, quer dizer, um pôr-do-sol pode ser estético e no
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entanto um pôr-do-sol não é uma obra de arte não é? Só é uma obra de arte se for fotografado por um artista que tenha a capacidade de dar àquele pôr-do-sol uma dimensão de obra de arte. Agora, muitos dos pôr-do-sol que nós fotografamos apesar de serem bonitos não são obras de arte, está a perceber? No entanto, eles exprimem sensações estéticas porque são sensações agradáveis… (alguém entrou na sala e interrompeu por breves momentos a entrevista). Portanto, o que eu estava a dizer era justamente isso, ou seja, de que…Agora, a estética é também a possibilidade de você se relacionar com um determinado território, de se relacionar com o mundo através de um conjunto de sensações que são sensações positivas. Essa situação levar-nos-ia a pensar que só as situações agradáveis e as situações que consideremos agradáveis é que tinham potencialidade estética. Ou se quiser, no âmbito do desporto, haveria desportos mais estéticos, mais próximos dessa sensação mais comum do belo, e desportos menos estéticos. Por exemplo a ginástica artística seria mais estética e o boxe seria, por exemplo, menos estético. A minha convicção não é essa, ou seja, tanto pode ser estético o boxe como pode ser estética a ginástica artística. O boxe pode ser mais estético que a ginástica artística ou o atletismo pode ser mais estético do que o voleibol. Quer dizer, depende da forma como olhamos cada um dos territórios. Não há propriamente um padrão de avaliação e uma grelha de avaliação muito definida que nós possamos aplicar à situação. Portanto, a abordagem estética depende sobretudo da capacidade de, perante cada uma dessas situações, extrairmos categorias que podemos classificar como categorias estéticas. Agora pergunta- me: e o boxe é estético? Pode ser porque há confronto, porque há tensão e porque a própria agressividade pode ela ter também uma certa dimensão estética. Não é? Ou seja, a própria noção de belo, desde o fim do século XVIII é uma noção cuja evolução também se foi alterando. Hoje em dia consideramos belas coisas que há cem anos atrás eram horríveis e portanto a estética sofre também essa evolução relativamente à forma como olhamos para as coisas e para as situações. E portanto, voltando à sua questão original, há concerteza no futebol elementos estéticos que têm que ver com várias características, que têm que ver com… aliás, chamo-lhe a atenção para um
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filme muito interessante feito pelo Douglas Gordon que se chama justamente “Zidane, um retracto do século XXI”. Viu esse filme?
Luísa: Não.
PCS: E ouviu falar?
Luísa: Ouvi.
PCS: Pronto, é um filme em que o Douglas Gordon e o Philippe Parreno (o
Douglas Gordon é um artista, um cineasta inglês e o Philippe Parreno é um cineasta) e o que é que eles fazem? Durante todo o jogo de futebol, um jogo qualquer do campeonato espanhol do tempo em que o Zidane jogava no Real Madrid, acho que já não joga não é? São para aí duas dezenas de câmaras colocadas no campo que filmam só, durante todo o jogo, o Zidane, não filmam o jogo. Portanto, o filme é a montagem dos momentos em que o Zidane aparece, portanto é o retrato do Zidane em campo e é um objecto estético, não é? E é um objecto estético porque o próprio Douglas Gordon achava que no jogo de futebol e na figura do Zidane haveria elementos que tinham essa capacidade estética. Portanto, distinções fundamentais: não associar a estética ao belo e não associar a estética à arte e, portanto, não associar também o belo à arte. Não é? São características de natureza diversa, apesar de o próprio belo ter vindo a incorporar noções e características que não considerávamos atrás, quer dizer… hoje podemos considerar belo situações que não despertariam essa beleza, de resto, o próprio Fernando Pessoa disse que era tão belo o binómio de Newton quanto a Vénus de Milo. Não é?
Luísa: O próprio conceito de belo na filosofia tradicional era muito mais
abrangente do que é hoje em dia… Secalhar agora o belo é mesmo só o que é bonito… O conceito de belo era um conceito mais transcendental…
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PCS: Não… Sim… era um conceito de natureza mais filosófica mas a sua
focagem era mais limitada do que é hoje. Não é? Ou seja, você hoje acha belo outras coisas. O belo era mais transcendente mas isso não quer dizer que o seu campo de definição fosse maior. Era menor, ou seja, as coisas consideradas belas eram mais limitadas do que as coisas que são consideradas belas hoje, ou seja, coisas de natureza áspera, por exemplo, um artista simulou um ataque às torres gémeas e disse que a queda das torres gémeas foram o verdadeiro acontecimento artístico do século XXI, o acontecimento mais belo. Quer dizer, ninguém se lembraria de considerar esse acontecimento um acontecimento belo. Portanto, a capacidade de nomear o belo está também dentro de nós e portanto somos nós também, é o observador quem possui os instrumentos estéticos que legitimam uma situação como estética ou não.
Luísa: Do seu ponto de vista o olhar estético pode contribuir para o
conhecimento científico do fenómeno?
PCS: Está a falar do futebol?
Luísa: Sim.
PCS: Sim, concerteza. Agora estamos a falar de uma coisa diferente que é… e
é uma coisa sobre a qual eu até já falei e escrevi, que é o facto de o gesto belo e o gesto do futebolista, do gesto mais eficaz ser o gesto mais belo. Aliás nós dizemos “bonita jogada” não é? Portanto… e uma jogada é bonita porquê? Porque é eficaz, ou seja, vimos aquela jogada e há naquela jogada uma economia motora, se lhe quiser chamar, que faz com que ela seja bonita. Não é? E dizemos “que bela jogada”.
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PCS: Que lhe dá sentido e portanto que a organiza. Contrariando-me um
pouco pode haver jogadas mais eficazes que sejam menos belas, não é? Mas a ideia de belo no desporto está também associada, digamos, à depuração, à eficácia, à simplicidade. É por isso que um jogo de futebol pode ser mais bonito que um número de ginástica artística. Não é? Porquê? Porque pode haver mais eficácia.
Luísa: A esse propósito pergunto-lhe qual a relação entre a finalidade estética
e a finalidade do jogo, que é um jogo essencialmente táctico?
PCS: Ou seja, nenhum jogador ao jogar está preocupado com o facto de fazer
uma obra de arte, ou seja, o jogador quando joga não está a fazer uma obra de arte. Está a tentar ser eficaz.
Luísa: Mas fá-la, sem ter essa finalidade.
PCS: Fá-la sem ter consciência disso. Mas, mais uma vez, porque o jogador
não quer dançar. Há um texto meu em que eu distingo a Vera Mantero do Figo. Não conhece esse texto?
Luísa: Não.
PCS: A Vera Mantero é uma coreógrafa e bailarina, o Figo é um jogador de
futebol, como sabe, e portanto, eu discuto a natureza estética dos dois corpos em acção. E portanto, a Vera Mantero quando dança sabe que está a produzir um objecto de natureza estética, o Figo quando joga, apesar de agora já jogar pouco, está a produzir um objecto de natureza pragmática. Mas isso não quer dizer que a pragmática que ele aplica possa ser entendida através de um filtro estético. E se for estético pode ser que a jogada seja mais eficaz, justamente porque associamos a estética também à simplicidade, ao rendimento, à eficácia. Não é? Agora, quer dizer, um jogador para ser bom não tem que saber dançar, percebe? Tem que saber jogar e tem que saber finalizar. Agora,
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associado à finalidade pode haver uma dimensão estética e os jogadores com maior capacidade de concretização e de finalização acabam por ser os que jogam mais bonito, se quiser. Não é? Porque a beleza do futebol tem também que ver com isso, com essa singeleza e com a eficácia da jogada.
Luísa: A estética do futebol manifesta-se no jogo como um todo de natureza
essencialmente táctica ou esgota-se na forma dos seus gestos?
PCS: Eu acho que há várias estéticas dentro da estética do futebol: há uma
estética que pode ter que ver com uma leitura mais impressiva do jogo e do todo, e uma leitura quase desfocada em que estamos a olhar para um campo e para um território em que vemos estruturas que se movem e que definem uma rede e um tecido particularmente vivo, e podemos também focar-nos num jogador e apreciar as qualidades estéticas de um jogador e de uma jogada. Portanto, acho que há vários níveis estéticos.
Luísa: Podemos considerar a existência de uma dimensão supra-estética que
possibilita a sua apreciação estética e que fundamenta a forma dos seus gestos?
PCS: Essa apreciação supra-estética continua a ser uma apreciação estética,
como acabou de dizer.
Luísa: Sim, sim, claro!
PCS: Portanto, pode haver estética na jogada, pode haver estética no jogador
e pode haver estética no jogo, digamos assim. Eu distinguiria estes três níveis: a jogada pode ser estética, o jogador pode jogar de uma forma estética e o jogo em si pode ser estético. E se quiser ainda um outro nível que é o nível da relação entre o campo e o envolvimento, e a bancada. Portanto aí teríamos uma supra-dimensão que é a circunstancia de um jogo ser mais bonito quando acontece num estádio cheio do que num estádio vazio. Porque a estética
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também tem que ver com essa tensão e com essa emoção e um jogo sem público não tem emoção, é um treino.
Luísa: Mas essa visão mais micro do gesto tem valor estético por si só ou
necessita, neste caso concreto do futebol, de ser contextualizado?
PCS: A estética necessita sempre de ser contextualizada. Percebe? A estética
é sempre uma avaliação de uma situação, a estética resulta sempre de um olhar. Quer dizer, as coisas não são estéticas por si. Não é? O pôr do sol só é estético se você achar que o pôr do sol é estético. Não é?
Luísa: Claro.
PCS: Ou seja, os objectos e as situações não têm propriedades estéticas,
somos nós que temos um olhar estético. Está a perceber? Portanto, a natureza estética da realidade só se revela depois de ser revelada, quer dizer, depois de ser olhada. Está a perceber? Não há uma estética a priori, digamos assim.
Luísa: Portanto, está a dizer que não há características no objecto que
potenciem essa relação estética?
PCS: Sim, porque eu sou um bocadinho fenomenologista, o que eu quero dizer
é que não há objecto sem observador que o configure e que o qualifique. Portanto, o objecto só é estético depois de ser apreciado e isso é que também confere à estética uma dimensão subjectiva. Não é? Ou seja, está a perceber?
Luísa: Sim.
PCS: Até porque a estética é não só pessoal, como é cultural, e portanto a
estética tem uma dimensão antropológica, se quiser. Culturas diferentes consideram de valor estético situações completamente diferentes. Ou seja situações que nós repugnamos na nossa cultura ocidental são situações que
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têm uma dimensão estética nas culturas da Nova Guiné. E situações que eles consideram estéticas, e até estéticas com uma dimensão operacionalizante, com uma dimensão ritual, nós consideramos situações abjectas, que nos provocam a abjecção e o nojo se quiser. Portanto, o que eu quero dizer é que a estética do século XX e do século XXI tem uma dimensão muito antropologia, não há, digamos, uma estética universal que é um bocadinho um mito romântico do Hegel que acabou, porque não há uma estética, digamos assim, há estéticas. E as estéticas são condicionadas e têm uma dimensão cultural e uma dimensão antropológica.
Luísa: No caso específico e concreto do futebol…
PCS: Por exemplo, um jogo de futebol para um grupo de marcianos pode ser
uma coisa que não faça sentido nenhum. Não temos que ir tão longe, não temos que ir até Marte, basta irmos até aos Estados Unidos: os americanos olham para o futebol europeu com alguma displicência, quer dizer, não o consideram. E o facto de considerarmos o futebol um evento de natureza estética tem que ver também com a dimensão que na cultura europeia e sul- americana, se quiser, é atribuída ao futebol. Ou seja, a possibilidade de o futebol ter também uma dimensão estética tem que ver com o facto de ser um fenómeno social com esta repercussão global e que envolve tanto as pessoas. E o facto de envolver leva-nos a dizer “bom, isto se nos envolve e se mexe tanto conosco deve ser porque é interessante, e se deve ser porque é interessante começamos a escalá-la e deve ser porque é bonito e se deve ser porque é bonito é porque tem características estéticas, tem valores estéticos”.
Luísa: Mas sendo o futebol um desporto com muito mais, a nível mundial,
muito mais adeptos do que as outras modalidades, exclui a possibilidade de haver no futebol características que o caracterizam como um primum que potencia depois reacções estéticas?
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PCS: Eu acho que o facto de ser uma modalidade com muitos adeptos, e não
só com muitos adeptos, mas que convoca uma multidão muito grande, faz com que… e tendo a capacidade também de despertar paixões e de despertar emoções, faz com que a dimensão estética se coloque com muito mais pertinência do que com uma modalidade praticada por pouca gente, do que o hóquei em patins, por exemplo. Ou seja, a questão de o futebol ser bonito coloca-se com muito mais pertinência do que o hóquei em patins eventualmente o ser, ou seja, o facto de ser praticado por muita gente tem essa capacidade de convocatória. Está a perceber? E a estética também tem que ver com isso, ou seja, com a capacidade de as pessoas serem convocadas, despertadas. E ao sermos convocados somos confrontados e ao sermos confrontados a estética surge como uma possibilidade biológica, ou seja, como uma possibilidade de entre nós e o futebol surgir uma relação que passa pelo facto de o considerarmos bonito.
Luísa: Qual a importância e contributo de uma formação estética dos
jogadores para o fenómeno, do seu ponto de vista?
PCS: Para o quê? Para a estética do futebol?
Luísa: Sim, para o futebol em si, qual o contributo que uma formação estética
pode dar às capacidades dos jogadores.
PCS: Ora bem, eu acho que, sinceramente não sei se o Cristiano Ronaldo
jogaria melhor se tivesse passado por todos os museus do mundo. A convicção que temos é que o Cristiano Ronaldo não é propriamente frequentador de museus.
Luísa: Mas a formação estética não se pode dar de um modo não intencional?
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PCS: Sim, não quero ser preconceituoso, eu não quero dizer que o Cristiano
Ronaldo não tenha passado por situações de natureza estética, concerteza que sim, e portanto, no seu dia a dia e no seu quotidiano, digamos, o que eu quero dizer é que o convívio com a arte não faz das pessoas artistas no sentido de bons utilizadores da estética. O Cristiano Ronaldo joga bem, por exemplo, e jogará, bonito, mas não é pelo facto de ter uma noção muito precisa do que é o belo, ou seja… Está a perceber?
Luísa: Sim, eu percebo o que me está a dizer mas, por exemplo, o contacto, o
convívio que ele teve com o futebol ao longo da sua vida, e considerando o futebol como uma actividade que possa ser encarada como artística, não lhe terá dado uma formação, uma bagagem de apreciação estética?
PCS: O que está a dizer é ao contrário, está a dizer o contrário do que eu
estava a dizer. Portanto, eu estava a supor que o que me queria perguntar é se o facto de um jogador conviver com um universo estético isso lhe daria maior eficácia. E o que me está a dizer é o contrário, ou seja, sendo o futebol estético, o facto de haver um bom jogador, portanto, isso querer dizer que se ele convive, está numa bolha estética, num ambiente estético, isso lhe dá uma noção do belo? Sinceramente é uma pergunta à qual não sei responder. E mais uma vez essa questão convoca aquilo que eu estava a tentar definir que é também a natureza circunstancial, antropológica e contingente do estético. Quer dizer, o Cristiano Ronaldo pode ser um personagem estético dentro de um jogo de futebol, jogar muito bem, mas depois na sua vida social pode ser alguém pouco estético, a sua casa pode ser pouco estética, os seus amigos e o seu modo de vida pode ser pouco estético. Está a perceber?
Luísa: Sim. Por isso é que há estéticas e não…
PCS: Por isso é que há estéticas. Portanto, o que eu lhe queria dizer é que o
facto de o Cristiano Ronaldo ser um óptimo jogador de futebol e um jogador que joga bem, bonito, e com qualidades estéticas, não lhe dá um suplemento
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de capacidade de apreciação do belo. Percebe? Do belo no sentido do belo, ou seja, de se comover perante um quadro do Caravagio ou do Botticelli… presumo que ele nunca tenha ido a um Uffizi em Florença, tão-pouco ao British Museum, apesar de viver em Manchester.
Luísa: Não lhe dará uma capacidade de apreciação estética do jogo?
PCS: Isso não sei. Não. Dá-lhe a ele uma capacidade de resolução de
problemas no jogo e essa resolução passa muitas vezes pela eficácia do gesto estético. Aquilo que estamos a dizer é que o gesto estético é um gesto mais eficaz. Agora, se o Cristiano Ronaldo vai jogar melhor pelo facto de ter consciência de que o seu jogo… ou pelo facto de achar que socorrendo-se de características estéticas a sua jogada vai ser melhor, isso eu não consigo dizer nem ninguém conseguirá. Tínhamos que fazer um filme que se chama não “Na cabeça de John Malcovich” mas “Na cabeça de Cristiano Ronaldo”. Não sei se há realizador com essa capacidade.
Luísa: Eu digo isto porque, olhando para o Cristiano Ronaldo, por exemplo, ou
jogadores do estilo, dá a entender que, ainda que não seja intencional ou que não seja consciente, que tem uma capacidade de apreciação do jogo ou de resolução do jogo superior em termos estéticos.
PCS: Tem uma capacidade, pronto… é a tal história, ou seja, tem uma
capacidade no sentido que quer dizer que ele joga, parece jogar, mais bonito que os outros, não é?
Luísa: Ainda que não tenha consciência de que o faz.
PCS: Sim, mas pronto, mas o problema é que o próprio treino incorpora gestos
que nós depois consideramos bonitos mas que têm que ver com essa eficácia. Percebe? Ou seja, o próprio treino e a forma como cada jogador incorpora a aprendizagem motora é diferente, faz com que haja jogadores que joguem de
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uma forma mais bonita, se quiser, do que outros jogadores. Agora, há jogadores que jogam de uma forma feia mas que são extremamente eficazes