SINGNIFICANTE SIGNIFICADO
Do outro lado do
Rio Era uma coisa só É perigoso Tem medo
Mais para cá Todo mundo já
tinha o seu Planta Ir pro centro
Aí lá, uma precisão, tem bananeira, tem muita coisa plantado, mas questão de que a gente não manda mais em nada, quem manda é a bandidagem. [...] Eu não vou lá [do outro lado do rio] nem amarrado, pra aqueles ‘matão’, com esses negócios aí. A gente ‘tamo’ aqui, se a gente chegar lá agora, num carro, é bem capaz da gente sair depenado, sem nada, nu, do jeito que nasceu todo mundo. [...] Antigamente, qualquer hora do dia eu descia, ou da noite, eu descia. [...] Seis horas da noite, sete horas, eu botava minha carroça no animal, descia aí, atravessava o rio e ia embora, voltava oito e meia, nove horas da noite, de lá para cá. A gente não vinha nem um calango correndo no meio de uma moita. Olha hoje: hoje, a gente de carro ainda tem medo (Morador SF01R).
Tem terreno daqui até o outro lado do rio, aqui é grande! Nós não vamos muito não, porque é perigoso. Só quando começar a fazer casa, né? Que melhora. Causa de que vão já começar a fazer casa lá embaixo. Eu não mesmo não planto, não. Só papai. Mais para cá, porque perto do rio, eles ‘rouba’ (SP01C).
Eu nasci, aí quando eu fui crescendo, não tinha essas separações, era uma coisa só, que a gente morava do outro lado do rio. Morei, eu morei do outro lado do rio. Antes, não, ninguém morava desse lado, entendeu? Ninguém morava desse lado. [...] Aí o pessoal ‘se mudaram’ para o lado de cá, porque, tipo assim, o rio dava enchente, enchia, e então ficava difícil o acesso das pessoas passar de lá para ir pro centro, porque o rio era cheio. [...] No lado de cá mesmo, aqui nesse terreno, só tinha mato. Era só até onde é esse muro: o terreno não tinha esse muro, mas tinha, tipo, a cerca. Não era muro, era cerca. Já era cercado, porque todo mundo já tinha o seu, tudo cercadinho, entendeu? [...] Mas, assim, todo mundo passava de um sítio para outro, não tinha barreira, tinha aquela cerquinha, mas o povo deixar aquelas ‘cerquinhas’ para abrir. Todo mundo passava. [... Lá [do outro lado] não ficou nada, ‘tá’ uma mata, só mato mesmo, lá. Eu mesma não lembro quanto tempo faz que eu não vou. Faz muitos anos, muitos anos que eu não vou lá (Moradora SP02R).
Eu não sei como ficou a questão da regularização, entendeu? Porque, querendo ou não, a questão da regularização se dá pelo INCRA, de comunidade quilombola, não se dá pela prefeitura. É uma regularização diferenciada porque não é regularização de cada casa, é a
regularização do território, é um documento único, entendeu? Para todo mundo. Não é uma questão “para a sua casa”, é um documento único. [...] Quando chegar a regularização fundiária, o Governo desapropria [os sítios privados] e volta a ser da gente, porque tem todo um estudo antropológico para dizer de onde vai até onde vai, quem é parente, quem não é. [...] Eu acredito que sim [vão querer regularizar pelo INCRA], mas vai ser uma coisa que vai ter que ter muito trabalho, explicar bem direitinho que não vai ter mais um documento seu, “ah, esse documento é desse sítio”, não, é um documento coletivo, que não pode vender, que não pode morar ninguém de fora (Carla Gabriela, ACQMV).
AUTODEFINIÇÃO
SINGNIFICANTE SIGNIFICADO
No começo Não gostavam Não entendia Medo
Agora Faz questão Vai clareando Direitos
Aí foi quando a gente passou, logo no começo – eu não, mas as minhas meninas -, minha avó e tinha umas tias minhas que não gostavam desse nome “quilombola”, quando dizia “quilombola”, menina, para elas... [silêncio] Entendeu? Quer dizer, era uma coisa que era, né? Tipo, agora já tá mais... Até se você falar para minha avó, minha avó não vai entender. [...] Mas agora não, essa juventude tudo nova, eu digo logo pros meus meninos: “é bom que vocês estudem sobre o quilombo, porque você vai saber o que é o quilombo”. Porque chega você e pergunta “o que é o quilombo?”, agora eu já sei, através de pouquíssima coisa – eu, assim, eu preciso estudar mais. [...] Hoje o pessoal faz questão de dizer que é do quilombo, por quê? Porque sabe vem benefícios, sabe que, quanto mais você tiver orgulho de dizer que é, as coisas melhoram pra você. Eu acho, assim, no meu ponto de vista -, porque antes não, antes as pessoas não [entendiam]... entendeu? Principalmente gente daqui da comunidade, era assim. [...] Vai ter, assim, um clareamento ‘mais’ sobre o quilombo, o que é o quilombo, né? Eles vão, tipo assim, não vai pegar muita pessoa, assim... Hoje em dia, não, já vai clareando. E tipo assim, tem que estudar, porque assim, eu digo mesmo: “temos que estudar”, né? Sobre o que é o quilombo que é pra não pegar a gente, tipo assim, né? Pra saber os direitos, os deveres, né? [...] Não é mais aquela pessoa que, tipo assim, como antigamente, minha avó conta que o que predominava aqui era o medo, né? Tipo assim, se visse uma pessoa de, tipo, lá do centro de Parnamirim, que tivesse um poder ‘mais’ - não, tem que ser, não pode falar alto. Hoje você não pode falar alto, mas pode falar, né? Falar alto é ignorância. É falar os seus direitos, né? (Moradora SP02R).
Assim, a comunidade, a gente começou esse autorreconhecimento de quilombola desde 2005, foi bem quando Parnamirim realizou a Primeira Conferência de Igualdade Racial. aí uma pessoa que era do Movimento Negro do Rio Grande do Norte que trabalhava no
Aeroporto (e tinha uns primos da gente que trabalhava no Aeroporto), [...] com o nome de Genildo Oliveira, veio na comunidade e nos convidou: “olha, vai ter uma atividade lá no Shopping de Parnamirim, vão lá que tem uns direitos para vocês” - ele falou desse jeito. . E aí naquele momento, em 2005, a gente foi em seis pessoas. E aí na Conferência, que tem em Parnamirim, de Igualdade Racial, a gente saiu delegado para ir para Conferência Estadual que foi em Natal. E aí, nesse momento a gente nem sabia o que se era conferência, delegada! [...] E aí quando a gente chegou em Natal, a gente conheceu a ONG Kilombo, que é com K: existem as comunidades quilombolas com Q e existe a ONG Kilombo com K que, até então, se fazia todo esse trabalho com as comunidades quilombolas no Rio Grande Norte e o próprio Movimento Negro, né? Esse trabalho de autorreconhecimento do que é ser negro, né? (Silvana Rodrigues, ACQMV).
CONFLITOS
SINGNIFICANTE SIGNIFICADO
Antes Só família Até a linha do trem Confusão por terra
Hoje Pessoas estranhas Jockey Clube Herança
Antes era só família, hoje não é mais família que passa lá, entendeu? Passa pessoas estranhas e tal, fica até meio... pra eles ‘andar’ sozinhos, entendeu? Que ninguém sabe a
intenção de cada um. [...] Mas eu digo: “minha avó, como é que vocês herdaram uma coisa que vocês nunca compraram?”. Eu não sei se eu ‘tou’ certa, mas ela dizia: “é uma herança, sim, é uma herança”, “mas, assim, vocês compraram essas terras?”, entendeu? Aí ela não gostava quando eu dizia. Porque ela dizia que o povo branco queria tomar a terra, como ela diz. Eu não sei, porque ela que diz que essa terra aqui da gente não era só aqui, passava. Eu não sei, porque ela é uma pessoa antiga, ela que sabe. Lá [do outro lado do rio] também era do mesmo jeito, mas ela dizia pra gente, ela dizia desse mesmo jeito: “a terra da gente era pra ser até lá, na linha do trem”. Era muita terra, ‘nera’? Então se reduziu nisso aí. [...] Eu lembro que o pessoal tinha uma medição de terra todo ano, quase todo ano: “vamos medir terra”. Aí o pessoal fazia muita confusão por terra. Agora até que mudou mais, mas antigamente fazia muita confusão por terra. [...] Então, aí na frente era só mato, mas tinha - minha avó conta – aqui, tinha um, tipo assim, jockey, que é por isso que chama hoje “Jockey