• Aucun résultat trouvé

DEFINITIONS UTILES

Dans le document : 3 DBM 21/02/2022 MAIRIE DE MEY (Page 81-86)

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – criado em 1838 – teve uma relevante participação nas discussões sobre identidade no Brasil: seus sócios refletiam sobre quais os elementos que definiriam o “ser brasileiro” no período. Para eles, era necessário “construir uma história da nação, recriar um passado, solidificar mito de fundação, ordenar fatos buscando homogeneidades em personagens e eventos até então dispersos” (SCHWARCZ, 1993, p. 129). O foco era buscar pontos que os distanciassem da herança Ibérica, os aproximassem dos trópicos, e ajudassem a construir uma narrativa convincente sobre as origens do Brasil. Destacamos a multiplicidade de agentes envolvidos nesse novo projeto do Império, que se constituiu, inicialmente, com um total de “27 sócios fundadores, nota-se que, entre eles, 22 ocupavam posições de destaque na hierarquia interna do Estado” (Ibidem, p.133), incluía-se entre os sócios e colaboradores a figura ilustre de Dom Pedro II – frequentador assíduo das reuniões da nova instituição.

O IHGB, ainda na década de 1840, levou uma proposta de concurso à sociedade, na qual pesquisadores participantes deveriam elaborar uma dissertação sobre: “Como se deve escrever a história do Brasil?”. O botânico bávaro Karl Friedrich Philipp von Martius22 venceu o concurso com um trabalho que propunha a inserção dos

indígenas, negros e europeus no discurso histórico, só assim, através do encontro das três “raças”23, que os historiadores e intelectuais entenderiam como se deu a gênese do

país, e, consequentemente, encontrariam definições para o adjetivo “brasileiro”. O trabalho de Martius, assim como inúmeros discursos do período, colaboraram para a criação de diferentes versões da história do Brasil. A primeira referência historiográfica foi produzida por Adolpho Varnhagen ao longo da década seguinte, “História Geral do Brasil, em dois volumes (1854-1857)” (GUIMARÃES, 2011, p. 196). No entanto, para além dos trabalhos historiográficos, o meio letrado carioca intensificou a produção de obras ficcionais que, em suma, criavam perfis e inseriam sujeitos indígenas e negros como protagonistas e antagonistas em extensas narrativas.

Antonio Candido (2002) afirma que o IHGB foi muito importante para a condução do movimento indianista, ao incentivar os estudos etnográficos, possibilitou que literatos produzissem monografias, como é o caso de “O Brasil e a Oceânia” de Gonçalves Dias, mesmo autor dos Timbiras (1852).

22 MARTIUS, Karl Friedrich Von; RODRIGUES, José Honório. Como se deve escrever a História do Brasil. Revista História da América. N°42, 1956, p. 433-458.

Ao longo das primeiras publicações da Revista do instituto, enxergamos uma série de trabalhos que envolviam temáticas indígenas. Só nos resta saber quais os objetivos do IHGB com o movimento Indianista. Em que medida o IHGB integrava as discussões auxiliando o movimento, ou agia operando ideais contrárias? Essa questão é levantada em virtude das inúmeras vozes que integram o Instituto, pois, dificilmente as ideias intelectuais apresentavam apenas um caminho em direção ao projeto de construção identitária pautado nas representações indígenas. Temos que levar em consideração uma multiplicidade de agentes, enquanto Martius operava em direção ao reconhecimento tripartido da identidade nacional, o historiador Varnhagen versava, provavelmente, o oposto, a segregação dos nativos, caminhando “contra a representatividade nacional dos indígenas” (KODAMA, 2009, p. 165).

“Os estudos sobre os índios do Brasil já estavam presentes no Instituto Histórico desde a sua fundação” e caminhavam “em uma construção dupla, tanto literária quanto historiográfica” (Ibidem, p. 164), tanto que no ano de 1848, o “sócio correspondente Sr. Francisco Adolpho de Varnhagen” apresentou uma dissertação intitulada “O Caramuru perante a história”24. Versando sobre a história de Diogo Alvares

Correa e as relações de contato estabelecidas com os indígenas dos trópicos, o autor levantava reflexões justapondo suas considerações acerca da linha tênue que separa a história real do mito propagado pela literatura setecentista. Essa publicação – não a única – foi uma significativa investida para que Francisco Bonifácio de Abreu escrevesse o libreto de Moema e Paraguassú, quatro anos mais tarde.

Nos capítulos subsequentes, levantaremos algumas discussões propostas por Varnhagen25, em sua dissertação de 1848, estabelecendo diálogos com a

produção de Bonifácio de Abreu. Precisamos entender as seguintes questões: “Quais os caminhos que a narrativa do libretista propunha?” e “Qual o lugar ocupado por esses indígenas que foram representados no libreto?”.

Ao longo desse intenso projeto que o IHGB inaugurou, de

fundar uma historiografia nacional e original, há a intenção de não só ensinar e divulgar conhecimentos, como formular uma história que, a exemplo dos demais modelos europeus, se dedicasse à exaltação e glória da pátria (SCHWARCZ, 1993, p.135 - 136).

24 Revista trimestral de História e Geografia, 2ª Ed. 1870.

25 Varnhagen era um potencial defensor da escravização indígena em meados do séc. XIX. A historiadora

Larissa Mundim afirma que “a escolha do indígena como representante da nação estava ligada, entre outras coisas, ao fim do tráfico. Na iminência de enfrentar o problema da escassez de mão de obra, parecia ser necessário eleger uma figura forte, obediente e barata para ser o trabalhador ideal (MUNDIM, 2017, p. 71).

Esse princípio ecoaria nas produções subsequentes, no caso específico de Moema e Paraguassú, temos a constante exaltação à pátria por parte das personagens indígenas. Inclusive na voz de Caramuru, que distante de sua terra natal relembra – com orgulho ao longo da narrativa – a sua inserção naquele mundo Português como súdito e fiel patriota.

O historiador Khaled Júnior lembra que

um dos fatores para a promoção do sentimento nacional é o Estado, percebe-se o quanto o Brasil estava distante de ter um sentido próprio para seus habitantes. Isso representa um problema com que a elaboração discursiva da nação teria que lidar, pois um dos elementos que por excelência legitimam uma nação é sua antiguidade, o fato de sua existência já estar solidificada pelo decurso do tempo” (KHALED JÚNIOR, 2010, p. 24).

Mas a saída para o IHGB, com suas novas propostas de construção da “história oficial”, incentivou os intelectuais a olhar para o passado na tentativa de conceber um locus específico para inserir o ponto de início da história do país.

A presente proposta apareceria na produção indianista do período, como acontece no libreto de Bonifácio de Abreu26. Utilizar o poema épico de Santa Rita Durão,

bem como as releituras posteriores, seria uma saída criativa naquele momento, afinal, recontar o passado destacando o contato do branco com o indígena e estabelecendo uma gênese da “Nação” Brasil seria um caminho assertivo. O médico caminhava em direção às premissas das instituições imperiais, e consolidava então a produção de um “mito fundador”.

Bonifácio de Abreu deixou ecoar em sua obra uma concepção ímpar acerca do Brasil daquele período, abordando, dentre muitas discussões, as possibilidades de miscigenação. Como a narrativa apresenta um recorte histórico ocorrido no início do séc. XVI, aborda um contraste de opiniões e concepções que envolvem o imaginário do oitocentos, e coloca em destaque interlocuções com o mundo real e o ficcional. Nesse intento, o autor levava a cabo na sua obra as ideias defendidas no trabalho de Martius.

26 Algumas fontes recentes afirmam que Francisco Bonifácio de Abreu era sócio do IHGB; no entanto, na

publicação de 1888 da Revista do instituto, há uma homenagem póstuma do colaborador Augusto Victonino Alves do Sacramento Blake, direcionada ao médico. Dentre os muitos louros e pontuais palavras de engrandecimento, consta a afirmação de que Bonifácio de Abreu não era membro do Instituto, mas merecia a homenagem em virtude dos serviços prestados ao Brasil. No texto, Blake traz recortes das obras de Abreu, além de exaltar sua figura enquanto médico, cientista e literato (BLAKE, 1888, p.222).

Dans le document : 3 DBM 21/02/2022 MAIRIE DE MEY (Page 81-86)

Documents relatifs