Como já dito, esse bloco se liga diretamente ao objeto “corpo”, na medida em que ele fala sobre como se constituíram os corpos dos sujeitos ao longo das fases da vida, com a presença ou não da condição de obesidade. A maneira como se entende e se relaciona com o corpo é uma construção contínua e pode variar a depender do tempo que a pessoa convive com o fenômeno. Assim, a dimensão da experiência tende a ser um fator importante, como o postulado por Jodelet (2005), pois ela constitui os sentidos que os indivíduos dão ao seu entorno e a si mesmos.
A maioria do grupo afirma que não teve a infância ou a adolescência marcada pela obesidade. Eles contam ter começado a ganhar mais peso na juventude, devido ao estilo de vida “obesogênico” que tiveram, com baixa frequência de exercícios físicos e dieta pouco balanceada, principalmente pela intensa rotina de estudos e/ou trabalho. O casamento e formação da família também foi um motivo listado para a engorda, justificando a falta de tempo e a negligência em realizar atividades voltadas à própria saúde (como exercícios, acompanhamento médico e preparação de alimentos), pois o cônjuge e/ou os filhos exigiam muita atenção e dedicação, como visto nos relatos: “Eu aumentei com a gestação, aí depois você deixa de fazer as coisas que você fazia antes por causa de filho. Aí você se priva. Eu me dediquei muito aos meninos, até hoje eu me dedico muito a eles, aí você esquece de si e passa” (suj. 1.1);
Aí quando casa, você já se acomoda mais. Sente uma estabilidade. Principalmente quando vem filho. Que a gente teve filho, vamo dizer assim, rápido. Aí você tem que dar. Acaba o casal se doando para o filho. Aí as atividades têm que ser as que você pode levar o filho. E o marido que é participativo, ele ajuda a esposa. Então ele divide o tempo e acaba ficando sem tempo” (suj.1.2);
Tais justificativas estão em consonância com as já mencionados mudanças no estilo de vida que a sociedade contemporânea vem apresentando, com muitas demandas sociais de trabalho e/ou familiares, fazendo com que muitas pessoas tirem a atenção de si mesmas e a direcionem para cumprir as expectativas sociais. O tempo têm sido cada vez mais racionado, o que acaba por estimular o consumo de alimentos industrializados, pela sua praticidade, mas aumenta a ingestão calórica. Além disso, a automação do trabalho, trazida pela revolução industrial, tem deixado as pessoas cada vez mais sedentárias, ao mesmo tempo em que aumenta suas cargas de trabalho (ABESO, 2016).
Apenas dois sujeitos disseram vivenciar a obesidade desde a infância. São eles os que parecem lidar melhor com sua condição de obeso, pois referem menos dificuldades em lidar
com ela, tanto quanto à própria exigência em emagrecer (são os que dizem querer perder menos peso) como às limitações ou incômodos que o corpo traria, pois não referem limitações ou incômodos significativos. Eles relatam ainda que também têm familiares em primeiro grau que são obesos (como pais e/ou irmãos). Tal dado mostra que esses sujeitos trazem um grau importante de aceitação em relação ao seu corpo, e isso pode ter influência pela trajetória desse corpo, que sempre esteve, ao menos, acima do peso dito ideal, permeando toda a formação da autoimagem e do autoconceito do sujeito (CAMARGO, JUSTO, JODELET, 2010).
A autoimagem e o autoconceito são perpassados também por como se vê o corpo das pessoas que compõem o contexto social dos indivíduos, pois esses tendem a atuar sobre os referenciais adotados do que é típico ou atípico. É na mediação com o outro que o participante vai constituindo sua identidade, atribui valores, se diferencia e é na família em que isso primeiro acontece (BERGER; LUCKMANN, 1985/2004). Nesse sentido, a maioria dos sujeitos desse grupo tem histórico expressivo de obesidade na família, fazendo com que o componente hereditário seja bastante forte neste grupo, como se vê nas falas: “Todo mundo é gordinho. Sempre escapa um ou dois, mas 80% é gordinho” (suj. 1.3); “é, também tem esse fator. Tenho muitos familiares gordinhos, meu pai, meu irmão” (suj.1.5).
Conforme dito anteriormente, a forma como o corpo vai exercer seu balanço energético e estocar gordura e nutrientes tem influência genética, ou seja, não depende apenas dos hábitos desempenhados individualmente (ABESO, 2016). Marques-Lopes (2004), em seu estudo de revisão, mostrou que pesquisas indicam que entre 40% e 70% do fenótipo característico da obesidade tinha influência hereditária. Sabe-se que obeso tem mais apetite, produz e armazena gordura com mais facilidade, mas elimina menos calorias e gordura, e as condições para que isso aconteça são multifatoriais (NUNES et al., 1998).
Diversos estudos mencionados, como os encontrados por Coradini, Moré e Scherer (2017), também em sua revisão integrativa, mostram a grande influência da família no desenvolvimento da obesidade, desde a infância, seja pela herança genética que os sujeitos carregam de seus familiares, principalmente quando os pais também são obesos; suas concepções de infância saudável, as quais remetem à corpulência e força e rechaçam biótipos mais magros; e práticas de cuidados desempenhadas, que estimulam a alta ingestão alimentar e a preferência por comidas com mais “sustância”. Dessa forma, o indivíduo pode ser inserido em um ambiente obesogênico já nessa fase, criado pela família.
Sobre o histórico de perda ou ganho de peso, a maioria dos sujeitos diz que já chegou, em algum momento da vida, a emagrecer significativamente (mais de 10 Kg). Dois deles contam serem vítimas do “efeito sanfona”, engordando e emagrecendo sucessivamente, como no relato:
Eu digo, é aquela montanha-russa, né? (...) Desde muito tempo, eu perdia, assim, 10 Kg, aí engordava uns 10 Kg de novo. Do ano passado mesmo, até fevereiro eu emagreci quase 10 Kg, aí ganhei os 10 Kg de novo, engordei até um pouquinho mais. Aí fica nesse efeito sanfona mesmo (suj. 1.6).
Dados da OMS (2003a) indicam que aproximadamente 95% das pessoas obesas que fazem tratamento para emagrecer voltam a engordar. Contudo, apesar de muito comum em pessoas acometidas pela obesidade, o tal efeito pode trazer prejuízos à saúde, como comprometimentos cardíacos e hepáticos, pela sobrecarga metabólica que causam ao corpo. O “efeito sanfona” pode acontecer devido à dificuldade de manter rotinas muito rígidas de dietas, exercícios e/ou medicamentos a longo prazo, na tentativa de subverter, muitas vezes, o acúmulo e a distribuição de gordura corporal de cada pessoa, com grande influência genética (WILLIAMSON, 1996 apud ANDRADE; MENDES; ARAÚJO, 2004, BARBOSA-DA- SILVA et al., 2014). Dois sujeitos dizem que nunca emagreceram de maneira significativa antes, como exemplifica o relato: “Não, sempre fui mais gordinho. Eu ‘tô’ um pouquinho acima do que eu normalmente estive, mas sempre fui mais acima” (suj. 1.5).
A dimensão da experiência pessoal em relação ao objeto e às suas práticas sociais volta a ser percebida quando os sujeitos falam de seus desejos ou planos futuros em relação ao peso. De maneira geral, quem já chegou a ter uma perda importante de peso diz ter mais vontade de voltar a perder. Isso ocorreria por eles já terem tido a vivência de ter um corpo mais aceitável socialmente, permitindo que fossem valorizados por isso e considerassem que se sentem bem assim. Eles saberiam ainda que emagrecer é possível, pois já teriam conseguido antes, entendendo o processo como mais factível. Por outro lado, os dois sujeitos mencionados anteriormente que nunca estiveram fora da condição de sobrepeso/obesidade admitem que até desejariam perder algum peso, mas, comparativamente aos demais, esse volume é menor, como já dito (uma média de 10 Kg contra uma média de 15 Kg dos primeiros sujeitos citados). A aparente melhor aceitação desses sujeitos ao próprio corpo pode explicar essa diferença, ou ainda eles podem encarar como muito dificultoso o processo de perda/manutenção de peso, sentindo-se desestimulados a tentar.
Quanto às eventuais limitações que os sujeitos experimentam por causa da obesidade, praticamente todos eles relataram que se sentem demasiadamente cansados nas atividades cotidianas e acham que o excesso de peso tem relação direta com a fadiga e falta de
disposição. Além desses, foram citadas dores no corpo, dificuldades para dormir e taxas metabólicas alteradas. Melo (2011), ao dissertar sobre as doenças desencadeadas ou agravadas pela obesidade, aponta estudos como Survey of Health Ageing and Retirement in Europe e o Swedish Obese Study, os quais sugerem que a sobrecarga causada pelo peso elevado diminui a resistência física, provocando incapacidade funcional.
Haveria também ligações entre a obesidade e o aumento de apneia do sono e ronco, principalmente em homens, o que pode trazer prejuízos ao sono e desenvolver outras patologias, como hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral e arritmias noturnas. Além desses, evidencia-se o aumento da prevalência do diabetes tipo 2, o que incluiria a obesidade, segundo os médicos, como um fator de risco cardiometabólico, como se pode ver: “Você anda um pouquinho mais do seu limite, eu já canso. Subir escada, eu não consigo subir escada, nem um andar, porque eu canso. Às vezes, você vai até botar uma calça, uma bermuda e o fato de você se esforçar um pouco mais, cansa” (suj.1.1); “(...) me limita muito em algumas coisas. Como eu te disse, a questão de dormir, do ronco” (suj. 1.6).
Praticamente todos os sujeitos disseram ter incômodos com o acúmulo de gordura na região abdominal (barriga e cintura) e que isso modifica a silhueta corporal, sendo considerado esteticamente desagradável por eles. Eles afirmam que gostariam de mudar isso em seu corpo, se pudessem, como nas falas: “Minha barriga. Se eu pudesse, eu tirava. Fazia a cirurgia. É que eu não tenho coragem. Mas tem gente que faz, né? Lipo, lipoescultura, essas coisas. Se eu pudesse, eu faria. Tirava a gordura e a barriga” (suj.1.1); “perder a barriga, que ninguém gosta de ser barrigudo, né. E no homem é perigoso. Nessa idade, por conta da questão do coração, né” (suj.1.2); “os pneuzinhos. O que me incomoda é isso aqui. Eu sentar e parecer um pudim. Aí cai pelos lados. Saindo esse aqui eu já fico feliz, já era suficiente” (suj.1.3).
Contudo, todos eles trouxeram a dimensão estética da questão, não a dimensão de saúde. Como já dito, a obesidade do tipo abdominal é a considerada, pelos estudos, a mais perigosa, por depositar gordura nos órgãos viscerais, causando doenças como esteatose hepática (COUTINHO (coord.), 1999). Somente um sujeito diz não sentir incômodo algum com seu corpo, e que o desejo de perder algum peso residiria no desejo de sentir-me menos cansado e indisposto apenas.
A queixa sobre a “barriguinha” parece ser comum a homens e mulheres, apesar de suas particularidades em relação aos ideais de beleza para cada gênero. Santos (2008)
observou em sua pesquisa sobre o corpo, o comer e a comida, na cidade de Salvador, na Bahia, que as mulheres entrevistadas diziam focar mais os exercícios físicos na metade inferior do corpo (pernas e bumbum), enquanto os homens preferiam hipertrofiar a metade superior (braços, costas e o peitoral). Mas todos os participantes disseram que se preocupavam também com o abdômen. Para a autora, um abdômen flácido e volumoso é um símbolo de decadência e de perda da juventude, pois remeteria à imagem da velhice decrépita e inútil que ninguém quer corroborar atualmente.
Contudo, Santos (2008) ressalta que a meta de manter a barriga “seca” ao longo da vida é bastante difícil de ser alcançada, devido às características naturais da composição e distribuição corporal que privilegiam o acúmulo de gordura nessa área. No caso das mulheres, isso é ainda mais acentuado, pelas alterações ocasionadas em eventuais gestações, que incluem diástase abdominal e perda de colágeno na pele. Os exercícios físicos e as dietas atuam para a diminuição global da gordura corporal, mas a própria ciência não sabe determinar qual a efetividade na perda de gordura localizada. Já a mídia tende a explorar a imagem da barriga como algo ausente, ou seja, sempre apresentando modelos com barrigas “chapadas” ou até “negativas” e continuamente propagandeando soluções diversas para eliminar ou diminuir a circunferência abdominal.