Conforme já frisamos no início deste capítulo, a mídia brasileira enfrentou a partir da segunda metade dos anos 1990 a maior crise financeira de sua história recente, em que pese algumas controvérsias em relação ao tamanho da dívida, todos os indicadores apontam para algo em torno de R$ 10 bilhões50, como também já comentamos. Deste total, o Grupo Marinho responde por 56% a 60%, e segundo dados do Ministério do Trabalho, as empresas de comunicação cortaram 17 mil empregos em dois anos. Há estimativas que apontam na direção de uma dívida acumulada em 2002 da ordem de R$ 7 bilhões, com a Globopar – holding das Organizações Globo -, correspondendo a R$ 5 bilhões deste montante
.
A receita líquida do setor naquele ano foi 20% menor, em valores reais (descontados a inflação), do que a de 2000.Mesmo assim, de acordo com a nossa pesquisa, esses números contrastam com os dados apresentados pela revista Exame para o período objeto de nosso estudo, que traz a posição no ranking das 500 maiores empresas do Brasil, a partir da pesquisa anual “Melhores e Maiores” na qual figuram os grupos de comunicação, bem como as suas maiores empresas. Aliás, diga-se de passagem, que os principais grupos de comunicação figuraram entre os 300 maiores do Brasil em praticamente toda a década de 1990 e também justamente nos dois primeiros anos do novo milênio, segundo confirma outra não menos tradicional publicação sobre o ranking das empresas brasileiras, a revista Balanço Anual da Gazeta Mercantil.
Os grupos econômicos Marinho (Organizações Globo), Abril (Civita), Frias (Folha da Manhã), Mesquita (O Estado de Sâo Paulo), Silvio Santos (SBT) e Sirotsky (RBS) tinham as suas principais empresas incluídas entre os maiores do país no biênio 2001/2002, registrando altos índices de lucratividade e encontrando-se em ótima saúde financeira, para utilizar uma palavra da moda. Alguns grupos, a exemplo do Grupo Marinho, considerado um dos mais endividados do país em 2002, figurava em 2001 entre os entre os 100 maiores grupos, por
50
Cf. Folha de São Paulo, “Mídia nacional acumula dívida de R$ 10 bi”, Elvira Lobato, de 15 de fevereiro de 2004.
vendas, fazendo parte de um seleto grupo dos 63 bilionários com sede no Brasil, com faturamento acima de US$ 1 bilhão.51
Esses dados relativizam um pouco a idéia de uma crise generalizada no setor, pois as dívidas não atingiram os grupos econômicos de comunicação de maneira completa. Várias empresas de comunicação seguraram o debacle geral, servindo de avalista nas negociações dos grupos econômicos com os credores, vide o exemplo do Grupo Marinho em que a “pérola” da coroa, a Rede Globo de Televisão, foi a grande campeã de lucratividade no período e serviu de aval na negociação junto aos credores. O que contradiz, de certa forma, os dados apresentados pela imprensa de maneira apressada. A exceção, é claro, fica por conta da classe trabalhadora. Foi ela quem mais perdeu em tempos neoliberais com o desemprego e o arrocho salarial de Fernando Henrique Cardoso. (O início do governo Luiz Inácio Lula da Silva não trouxe muitos sinais animadores para uma melhora estrutural).
As tabelas, a seguir, sobre as 300 mairoes grupos nacionais ilustram um pouco o que estamos queremos reforçar:
51
Cf. Valério Cruz Brittos, "As Organizações Globo e a reordenação das comunicações", Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, SP: INTERCOM, vol. XXIII, n.º 1, janeiro/junho de 2000, p. 57 – 76, que afirma que enquanto perde audiência na TV de massa (perda relativa, pois até 2005 era líder de audiência e abocanhava em média 70% do toda a publicidade brasileira), a Globo prepara-se para o novo cenário, liderando a área de televisão segmentada, passando pelas telecomunicações, conquistando o mercado internacional, iniciando-se na área cinematográfica e investindo na construção de estúdios (p.73), assim, organizando-se, como afirma César Bolaño, "para consolidar sua posição de global players no setor nos anos 2000" (Cf. César R. S. Bolaño, “A Economia Política da TV Segmentada no Brasil. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação”. São Paulo: , v.XXV, n.2, p.235 - 237, 2002.).
No ano 2000 a Globo, que em 1999 oficializou sua agência de notícias, responsável pela venda internacional de matérias telejornalísticas, implantaria um segundo canal internacional pago. Segundo Brittos, “o último relatório financeiro da Globopar mostra resultados satisfatórios nos ganhos antes do pagamento de impostos e taxas, depreciações e amortizações: um crescimento de 5,2%, US$ 184,8 milhões nos primeiros nove meses de 1999, somando-se o exercício da TV Globo”. Época que curiosamente coincide com o início da crise financeira do Grupo Marinho, principalmente em razão do endividamento da Globo Cabo/Net Serviços.
Tabela nº. 1
–
Posição do Grupo Marinho/Organizações Globo no ranking nacional (1990-2000) Grupo ou Instituição Ano Posição no ranking Patrimônio Líquido (R$ milhares) (US$ milhares) Receita Operacional Líquida (R$milhares) (US$ milhares) Lucro Líquido Roberto Marinho 1996 57 361.884,0 372.117,2 1.946.441,0 2.120.999,2 NI Organizações Globo 1998 16 2.236.792 2.003.576 4.502.555 4.174.212 309.332 277.080 Organizações Globo 1999 19 4.087.147 2.284.599 2.020.913 1.112.960 217.913 121.807 2000 37 NI NI NI Rede Globo 2001 43 NI NI NI 2000 282 NI NI NI O Globo 2001 322 NI NI NI 2000 430 NI NI NI Editora Globo 2001 491 NI NI NIFontes: Balanço Anual da Gazeta mercantil (1996/1999) e autor. Os dados relativos ao período de 2000-2001 foram extraídos da revista Exame (cf. Melhores e Maiores de 2002, relativo as 500 maiores empresas privadas, por vendas, do país). Obs.: Como a revista Exame trabalha com indicadores diferentes da Gazeta mercantil alguns dados são inexistentes, por isso aparecem em nosso quadro como NI (Dados Não Informados).
Tabela nº. 2 – Posição dos Grupos de Comunicação no ranking nacional na década de 1990 Grupo ou instituição Ano Posição no ranking Patrimônio Líquido (R$ milhares) (US$ milhares) Receita Operacional Líquida (R$ milhares) (US$ milhares) Lucro Líquido (R$ milhares) (US$ milhares) 1996 191 74.731,0 76.844,2 432.171,0 470.928,4 4.344,0 4.466,8 Folha da Manhã 1999 166 90.221 74.643 496.081 427.263 7.249 5.997 1997 106 240.128,0 231.025,6 1.327.798,0 1.320.929,2 68.126,0 65.543,6 1998 78 308.352 276.202 1.362.489 1.263.131 102.894 92.166 Silvio Santos 1999 114 432.802 241.924 1.308.940 720.861 69.877 39.059 1996 146 126.151,0 129.718,3 344.205,0 375.073,6 27.774,0 28.559,4 1997 151 143.149,0 137.722,7 415.216,0 413.068,0 21.738,0 20.914,0 1998 117 168.437 150.875 606.785 562.536 25.337 22.695 O Estado de São Paulo 1999 102 185.774 153.697 615.938 530.494 8.922 7.381 Abril 1998 77 313.611 280.913 1.685.357 1.562.454 36.285 32.502 Fonte: Balanço Anual da Gazeta mercantil. Obs.: Aparece pela primeira vez entre os maiores grupos nacionais, a Organização Três, do empresário Domingo C. Alzugaray, que edita a revista Isto É, que figura na 225º. colocação.
Entre as 500 maiores empresas do Brasil no período 2000 e 2001, da revista Exame, destacamos as empresas do Grupo Marinho (já referidas no quadro anteriormente), que figuram nesta pesquisa como fazendo parte das Organizações Globo, estando entre os 63º. grupos bilionários do Brasil, com faturamento acima de US$ 1 bilhão de dólares por ano,
ocupando respectivamente o 18.º e o 25.º lugar na tabela, com uma receita em 2000 de US$ 3.206.650. Entre os maiores grupos por vendas aparecem os grupos Silvio Santos, ocupando nos anos de 2000 e 2001, respectivamente a 55.º e 69.º lugar e o Grupo Abril (63ª. e 77ª. posição). Nesta mesma pesquisa da Exame, o Grupo O Estado de São Paulo aparece ocupando nos anos 2000 e 2001, respectivamente a 245º. e 313º. lugares e o Grupo Frias/Folha da Manhã a 281ª. e 320ª. posições, respectivamente.
A partir dos dados levantados pelo jornal Valor Econômico52 relativo ao ano de 2001 o Grupo Abril (Grupo Civita) ocupa a 82ª. posição, incluindo-se entre os grupos bilionários brasileiros, com uma receita bruta em 2001, de R$ 2, 036 bilhões. O mesmo ocorrendo em relação ao Grupo Silvio Santos, 86º. colocação, com uma receita bruta R$ 2, 016 bilhões. Já o Grupo Mesquita (O Estado de São Paulo) ocupa a 163º. posição entre os grupos econômicos nacionais, com uma receita bruta de R$ 752, 9 milhões. Destacamos, por último, no Sul do Brasil, o Grupo RBS, da Família Sirotsky, que aparece entre os 300 maiores grupos nacionais em 1999, ocupando a 124ª. posição, registrando um lucro líquido de US$ 109, 3 milhões. (Cf. Balanço Anual da Gazeta Mercantil: 2000, p.112). Já entre os 500 maiores grupos e empresas do Sul, o Grupo RBS ocupa a 46ª. posição, destacando-se a RBS TV de Florianópolis S.A (343ª. Colocada; cf. Revista Amanhã: 2001, p. 72 e 84). Pela pesquisa do Valor Econômico o Grupo RBS ocupa a 181º. lugar, com uma receita de RS 558, 7 milhões.
Portanto, diante desses dados, queremos reforçar a idéia de que a dívida acumulada no período pelos grupos de comunicação deveu-se, principalmente, ao planejamento mal feito no bojo da euforia provocada pelo Plano Real, na primeira metade da década de 1990, assim como por causa de apostas equivocadas feitas pelos empresários do setor. O exemplo mais eloqüente disso é o caso da TV por assinatura, pois os grupos de comunicação esperavam uma “explosão” no número de assinantes, o que não ocorreu, justamente por não se levar em conta a péssima distribuição de renda no país, além das altas taxas de desemprego por conta da “estabilidade” da moeda. Tudo isso foi agravado pela desvalorização cambial de 1999. Outro fator importante, refere-se a ânsia em manter a situação de monopólio no mercado e fechar as portas à concorrência a todo custo: via novos investimentos, fusões e aquisições, caso em que o Grupo Marinho é exemplar.
Mesmo assim, queremos chamar a atenção que ela é uma dívida que poderíamos qualificar de “seletiva”, pois atingiu somente áreas específicas dos grupos, sem “contaminá-
52
Cf. Jornal Valor Econômico, nº. 662, de 19 de dezembro de 2002, que mostra o ranking dos maiores 200 conglomerados brasileiros, identificando as empresas que compõem cada grupo, dentre os grupos industriais e financeiros.
lo” por inteiro, já que nenhum grupo de comunicação importante faliu de 1990 para cá, embora a Família Marinho tenha decretado a moratória da dívida (muitos se previniram através das operações de hedge por ocasião da mudança do câmbio, como já comentamos), e buscaram o caminho mais fácil através da tentativa de obtenção de empréstimos junto ao BNDES para sair do sufoco. O faturamento em termos publicitários da grande mídia manteve- se estável, sem motivos para grandes alardes, pois os grandes grupos continuaram a manter ótimo desempenho financeiro e fazendo vultosos investimentos, quer através da construção de novos parques gráficos como a aquisição e modernização de seus equipamentos, assim como o lançamentos de novos veículos de comunicação. Tanto isso é verdade, que em nenhum momento, durante a última década, a ANJ ou a ABERT, os pívôs ideológicos do setor, porta- voz dos grandes grupos de comunicação do país, emitiram durante o período considerado crítico de endividamento da mídia, qualquer sinal de descontentamento com a política econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso. O mesmo não se deu por parte dos donos dos grandes grupos de comunicação.
À retórica crítica contra a política econômica do governo que pôde-se observar nas páginas de alguns jornais do país, pode-se opor a imagem positiva em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso que era expressada nos discursos dos grandes empresários da comunicação através dos veículos de difusão de dois de seu principais pivôs ideológicos, no caso a ABERT e a ANJ, como pudemos analisar tanto nos boletins como nos jornais publicados pela duas entidades durante o período analisado. Portanto, o que se observou no estudo foi um sorridente Fernando Henrique Cardoso aparecendo em quase todas as inaugurações dos novos e suntuosos parques gráficos dos principais conglomerados espalhados pelo país, assim como espelhado nas recepções camaradas promovidas tanto pelo presidente da República como por ministros ao setor de mídia, sem contar as inúmeras reuniões formais e informais, além de jantares realizados pelos pivôs ideológicos da comunicação, envolvendo políticos e autoridades de Brasília, como mostram algumas de suas publicações.
O próprio noticiário da imprensa, em matérias já citadas anteriormente, só confirma o que afirmamos acima, ao destacar que as empresas apostaram no crescimento da economia e na estabilidade do câmbio, na segunda metade dos anos 1990, e se endividaram em dólar para diversificar e aumentar a capacidade de produção53 (e também garantir a sua posição de monopólio no mercado). Um relatório da ANJ, enviado ao BNDES em outubro de 2003,
53
Cf. Folha de São Paulo, “Mídia nacional acumula dívida de R$ 10 bi”, Elvira Lobato, de 15 de fevereiro de 2004.
deixa claro que 80% das dívidas eram em dólar, e 83,5% tinham vencimento de curto prazo. O relatório também reforça o que falamos, pois segundo o presidente da ANJ na ocasião e um dos donos do Grupo O Estado de São Paulo, Francisco Mesquita Neto, todos os jornais, em graus variados, haviam investido na informatização das redações e na compra de impressoras novas para aumentar a tiragem e ter edições coloridas.
Foram gastos entre US$ 600 milhões e US$ 700 milhões na compra de rotativas e no aumento do parque gráfico, a partir de 1995. Isto é, o grosso da dívida acumulada era proveniente de novos negócios, numa tentativa desenfreada de manter o monopólio do setor a todo custo, envolvendo, inclusive, os setores de TV por assinatura, telefonia e internet. Sem capital próprio suficiente e sem linhas de crédito de longo prazo no país a juros compatíveis com o retorno dos investimentos, as empresas se endividaram em dólar. Vide a situação dos principais grupos de comunicação em 200454, de acordo com os dados divulgados pelos principais grupos econômicos de comunicação do país:
O Grupo Marinho (Organizações Globo)
O Grupo Roberto Marinho responde por 60% do endividamento total de RS$ 10 bilhões do setor. A Globopar tem uma dívida equivalente a US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 5,6 bilhões) e deixou de pagar aos credores em outubro de 2002, como já havíamos comentado. Essa cifra não inclui as dívidas da Infoglobo, que edita os jornais O Globo, Extra e Diário de São Paulo e é parceira do Grupo Frias (Folha da Manhã S.A) no jornal Valor Econômico, e das emissoras de rádio e da Rede Globo, que estão fora da estrutura da Globopar.
Outra confirmação a partir dos dados publicados pela midia, conforme já dstacamos antes, refere-se a aposta equivocada da Família Marinho, pois o endividamento da Globopar vem dos investimentos feitos, a partir de 1995, em TV a cabo (Net Serviços), em TV por satélite (o projeto Sky, em parceria com Rupert Murdoch) e na Glbosat. A abertura do mercado de telecomunicações, com o surgimento de novos serviços, e o fim do monopólio estatal da telefonia provocaram uma euforia de investimentos nesse setor, que se prolongou até a privatização da Telebrás, em 1998. “Durante o boom, havia dinheiro sobrando. Todos os investidores estrangeiros queriam aplicar no Brasil, sem questionar os projetos”55, afirma o diretor de Planejamento e Controle da Globopar, Jorge Nóbrega. Este mesmo otimismo se estendia ao mercado da mídia impressa: era época de câmbio estável (US$ 1 valia R$ 1),
54
Cf. Folha de São Paulo, Op. cit., 15 de fevereiro de 2004. 55
crédito estrangeiro farto, crescimento do mercado publicitário (que não foi tão desfavorável assim) e otimismo com o aumento da circulação de jornais e revistas.
Em 1998, o Grupo Marinho lançou, simultaneamente, o jornal popular Extra, no Rio de Janeiro, para concorrer com O Dia, que havia batido O Globo em circulação aos domingos, além da revista Época, em São Paulo para concorrer com a Veja (Grupo Abril). O jornal consumiu R$ 30 milhões em investimentos, e a revista, US$ 40 milhões. Em 2001, após o investimento no Valor Econômico, o Grupo Marinho comprou o Diário Popular (atual Diário São Paulo), do ex-governador Orestes Quércia, pelo valor estimado de R$ 200 milhões.
Grupo Abril
O dono do Grupo Abril56, Roberto Civita, afirma que os investimentos feitos em TV por assinatura foram a principal razão do endividamento do seu grupo, que fechou o balanço financeiro de 2002 com uma dívida de R$ 960 milhões (mas figurando entre os 300 maiores do Brasil, conforme demonstramos). A Abril é acionista majoritária da TVA, sistema de TV paga com transmissão por cabo e por microondas) e foi acionista da DirecTV, via satélite. As empresas que arriscaram investir em TV por assinatura dizem que o governo Fernando Henrique Cardoso, os bancos, os consultores, os investidores e elas próprias superestimaram o potencial do mercado brasileiro57 (Ninguém fala em concentração de renda e perda de poder aquisitivo do minguado salário mínimo). Roberto Civita vai mais além, afirmando que o endividamento se deve “ao custo do capital no Brasil, e não a erros estratégicos” das empresas. Para Roberto Civita, “a dívida da Abril, comparada ao tamanho da empresa, seria pequena em qualquer país com custo financeiro razoável. Estamos sendo punidos pela ousadia, pela confiança e pela fé”.
Grupo Frias
O Grupo Frias inaugurou seu novo parque gráfico em 1995, que custou US$ 120 milhões, investimento pago na época com recursos próprios.58 Em 1996, lançou o provedor de acesso à Internet UOL (Universo Online) e a Plural, gráfica comercial em parceria com a norte-americana Quad Graphics. Em 1999, lançou o jornal Agora e, em 2000, associou-se ao Grupo Marinho para lançar o Jornal Valor Econômico. Embora o Grupo Frias tenha investido em Internet e gráfica comercial, seu endividamento, de R$ 290 milhões, vem principalmente
56
Cf, Folha de São Paulo, Op. cit.,15 de fevereiro de 2004. 57
Cf. Folha de São Paulo, Op. cit., 15 de fevereiro de 2004. 58
dos investimentos feitos nos jornais Agora e Valor Econômico. Segundo o presidente do Grupo Folha, Luís Frias, a dívida do grupo, não é grande , se considerada a geração de caixa própria.
Grupo Mesquita
O Grupo Mesquita (O Estado de São Paulo) tomou empréstimos de US$ 120 milhões no exterior para investimento no parque gráfico e na empresa de telefonia celular BCP. Segundo Francisco Mesquita Neto, “havia um cenário estratégico que quase te obrigava a tomar essas decisões, mas as projeções foram frustradas depois da desvalorização cambial, da queda da economia brasileira e do ataque terrorista de 11 de setembro.”59 E completa: “A crise provocou um atraso no vôo de crescimento que imaginávamos..., [e] há dois anos estamos olhando apenas para dentro das empresas”.
O Grupo O Estado anunciou a conclusão da renegociação com seus credores, em dezembro de 2003, num longo processo, que resultou no afastamento da família Mesquita dos cargos executivos. Francisco Mesquita Neto assumiu o Conselho de Administração do grupo em 2004, e a família participa da orientação estratégica e editorial, mas saiu do dia-a-dia da administração do grupo. O grupo Estado foi acionista minoritário da empresa de telefonia celular BCP, que acabou vendida ao grupo mexicano Telmex, em 2003, após passar por longa crise. O Grupo Estado divulgou possuir dívida de R$ 384 milhões no seu balanço financeiro de 2002.
Grupo Sirotsky
O investimento em telefonia foi uma das causas do endividamento do Grupos RBS, que declarou uma dívida de US$ 125 milhões (cerca de R$ 370 milhões, pelo câmbio de 2004).60 O presidente do Grupo RBS, Nelson Sirotsky, afirma que a situação financeira do grupo estava equacionada em 2004, mesmo se não houvesse liberação de recursos pelo BNDES. A RBS foi, segundo Nelson Sirotsky, a primeira empresa de mídia a apostar em TV a cabo (Net Sul) e em telefonia. Foi acionista da telefônica CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações) e da empresa de telefonia celular BCP, mas vendeu sua parte nas teles em 1998 e passou o controle da Net Sul para a Net Cabo (Net Serviços), da Globo, em 2001.
59
Cf. Folha de São Paulo, op.cit., 15 de fevereiro de 2004. 60
Para Sirotsky, “fomos o primeiro grupo de comunicação a entrar em telefonia e o primeiro a sair..., e voltamos a nos posicionar como um grupo regional.”61 A aventura da compra de parte da CRT deu enormes prejuízos ao grupo, da qual teve que desfazer-se e acumulou dívidas, naquela que fora uma equivocada política de crescimento do grupo. Esta tentativa frustrada de entrar na telefônica CRT tinha a ver com a pesrcpectiva de estabelecer um monopólio num ramo de negócios no qual a RBS não tinha qualquer experiência, mas no qual acreditava devido a estabilidade econômica e por ser uma área estratégica para a consolidação do grupo gaúcho do ponto de vista regional. Para financiar os investimentos em telefonia e em TV a cabo, o grupo lançou US$ 175 milhões em títulos de dívida no exterior dos quais, segundo Nelson Sirotsky, US$ 50 milhões já foram quitados.
Grupo Bandeirantes
O Grupo Saad (TV Bandeirantes) também em 1998, emitiu US$ 100 milhões em eurobônus (títulos emitidos na moeda européia, o euro) para quitar dívidas em reais, comprar novos equipamentos e para a produção de novelas e programa de entretenimento em parceria com a Sony, que foram um fracasso no Ibope.62 Segundo o consultor da presidência do grupo, Antonio Teles, além da fartura de recursos externos, a juros convidativos, havia a convicção de que “a estabilidade do Plano Real e a paridade do dólar ao real, a moeda nacional, seriam para sempre”. Até 20 04, a Bandeirantes mantinha ainda suspenso o pagamento da sua dívida externa de 2002 e estudava uma proposta de renegociação a ser apresentada aos credores.