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DEFINE CONSTANT
Florestan Fernandes foi um dos primeiros intelectuais brasileiros a buscar fundamentar suas teses sociológicas com base no Folclore Nacional. A intenção de Florestan era formar a disciplina sociologia, com um marco teórico e conceptual autóctone.
A orientação científica se instaurou nos estudos folclóricos em São Paulo por duas vias diferentes. De um lado, pela preocupação de estudar o paulista antigo, por meio de evidencia das tradições orais. Semelhante preocupação se revela originalmente na obra de Afonso de Freitas, na qual se combinam intuitos históricos, sociológicos e folclóricos. De outro, pela influencia das investigações folclóricas, realizadas em várias regiões do País, por Celso de Magalhães, Sílvio Romero, João Ribeiro e tantos outros. As contribuições de Edmundo Kreeg, de Alberto Faria e de Amadeu Amaral sofreram essa
influencia, antes estimuladora que formativa. Nelas prevalece a aspiração de dar um cunho cientifico positivo à pesquisa folclórica, o que fez com que aqueles autores se interessassem, sobretudo, pela formação de coleções pela análise genético-comparativa (antes erudita, que sistemática, ou pelos problemas teóricos e metodológicos do folclore) (FERNANDES, 1978, p 9).
A tentativa de se pesquisar o folclore em diferentes perspectivas, sincrônica e diacrônicamente, colocava Florestan Fernandes frente-a-frente com seus contrários: os folcloristas que viam na investigação científica uma ameaça à deturpação do folclore e os intelectuais que não viam no folclore a possibilidade se ser estudado sob uma perspectiva científica. Florestan Fernandes tornou-se referência dos estudos folclóricos de perspectiva científica no país, além da formação da sociologia como disciplina científica no Brasil e com a pesquisa empírica realizada em São Paulo.
A afirmação de Florestan Fernandes não nos deixa dúvidas frente à possibilidade do folclore ser tomado, como já tem sido, por outras áreas das ciências sociais e aplicadas. Vejamos o que ele diz, sendo um dos mais respeitados e importantes intelectuais brasileiros, reconhecidos internacionalmente:
As transformações por que passaram os estudos folclóricos em São Paulo, são facilmente compreensíveis. A idéia de converter o folclore e ciência positiva autônoma trazia, consigo, limitações e dificuldades insuperáveis. Esta fora de qualquer duvida que o folclore pode ser objeto de investigação cientifica. Mas, conforme o aspecto do folclore que se considere cientificamente, a investigação deverá desenvolver-se no campo da história, da lingüística, da psicologia, da antropologia ou da sociologia. O Folclore, como ponto de vista especial, só se justifica como disciplina humanística, na qual se poderão aproveitar as investigações cientificas sobre o folclore ou técnicas e métodos científicos de levantamento e ordenação dos materiais folclóricos. (...) o folclore, como realidade objetiva, pode e deve ser investigado cientificamente, porém esse estudo não pode ser unificado, pois cada ciência social o analisa desde um prisma diferente (FERNANDES, 1978, p. 10, grifo nosso).
Florestan Fernandes defende declaradamente o estudo científico do folclore, utilizando inclusive pesquisas já realizadas por antropólogos, sociólogos e cientistas da linguagem. Porém, por outro lado valoriza a importância da investigação interdisciplinar entre o folclore e as ciências sociais, devido a importância dos estudos da significação social das formas de produção criadoras. Assim, ele afirma ser de grande valor as contribuições específicas dos folcloristas, que podem contribuir com a pesquisa dos cientistas sociais.
Já quanto ao campo de pesquisa, Florestan Fernandes vê de maneira muito positiva a investigação de cientistas sociais e a contribuição de folcloristas para a compreensão da
significação dos conteúdos folclóricos. O que se deve considerar é o valor do conhecimento do folclorista, que pode auxiliar na pesquisa científica, com seus conhecimentos, o cientista social, que não deve pretender discernir o campo e as tarefas do folclore, como o fazem com propriedade os folcloristas. Na realidade, o trabalho conjunto e interdisciplinar, pode trazer valiosas contribuições à pesquisa cientifica no Brasil.
O folclore oferece um campo ideal de investigação para os cientistas sociais. É que ele permite observar fenômenos que lançam enorme luz sobre o comportamento humano, como a natureza dos valores culturais de uma coletividade, as circunstancias ou condições em que eles se atualizam, a importância deles na formação do horizonte cultural de seus portadores e na criação ou na motivação de seus centros de interesse, a relação deles e das situações sociais em que emergem com os sentimentos compartilhados coletivamente, a sua significação como índices do tipo de integração, do grau de estabilidade e do nível civilizatório do sistema sócio-cultural etc (FERNANDES, 1978, p.31).
É conhecida a luta dos folcloristas para delimitar o campo de trabalho, como também, de determinar a natureza do folclore, enquanto disciplina autônoma, visto a sua amplitude e a necessidade de sistematização e explicação dos fatos folclóricos. Dessa maneira, a delimitação dos estudos folclóricos deve privilegiar os fatos folclóricos, para a pesquisa cientifica, o que não quer dizer que não possa ser pesquisado em outros âmbitos, onde as relações podem ser inferidas e os processos comunicacionais percebidos de maneira mais clara.
Para Câmara Cascudo (S/D, 9ª edição, p. 400-401), o Folclore “é a cultura do popular, tornada normativa pela tradição. Compreende técnicas e processos utilitários que se valorizam numa ampliação emocional, além do ângulo do funcionamento racional”. Dessa forma, o processo comunicacional da tradição folclórica contribuiu para a disseminação da mentalidade, móbil e plástica, sedimentando a cultura nacional e fazendo permanecer uma manifestação, ou expressão popular, através dos anos.
En el folclore, la relación entre la obra de arte y su objetivación, o sea las así llamadas variantes de la obra introducidas por las diversas personas que la recitan, corresponde exactamente a la relación entre langue y parole. La obra del folclore es extrapersonal como la langue, y vive de una vida puramente potencial no es más que un conjunto de determinadas normas e impulsos, una trama de tradición actual que los recitantes animan con sus aportaciones individuales, como hacen los creadores de la parole respecto a la langue. En la medida en que esas innovaciones individuales de la lengua (o del folclore) responden a las exigencias de la comunidad y anticipan la evolución regular de la langue (o del folclore),
ellas son socializadas y se convierten en hechos de la langue (o elementos de la obra folclórica) (CIRESE, 1997, p. 210-211).
Assim, como a língua é um fato social, conforme Saussure, o folclore é a concretização das determinações de uma comunidade, em se falando de normas e convenções culturais em termos sociais, ou seja, o fato folclórico é fruto da coletividade, da comunidade, assim como a língua, que só é útil, para a socialização, se é inteligível a todos, da mesma maneira, acontece com o folclore, que é fruto de uma realidade social.
Na realidade, Florestan Fernandes defende aqui a mesma idéia de Pierre Bourdieu quanto às categorias antropológicas de habitus e o modus vivendi. Florestan Fernandes, enquanto sociólogo, mostra a necessidade de se estudar o Folclore, na década de 1970, quando os intelectuais brasileiros se voltam para o povo, com o objetivo de estudar o modo de pensar popular e as suas conseqüências na definição dos dois brasis: elite intelectual e massa popular. Era necessário se estudar o folclore, enquanto gênero, e o modo de compreender a vida humana e os fenômenos a elas relacionados, principalmente os culturais, pelos positivistas e evolucionistas. O termo folclore, porém, emerge como uma distinção à civilização. O que não é próprio da civilização, do erudito, da elite, da classe dominante, é folclórico. O folclore nasce então como uma distinção à cultura de elite (BOURDIEU, 1979). O Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, afirma que “o Folclore estuda
a solução popular na vida em sociedade” (S/D, 9ª edição, p. 401). Assim, o povo busca
soluções para o seu viver, por exemplo, na religiosidade popular, quando o homem não vê mais saída nenhuma, Deus é o todo-poderoso, aquele que tem solução para tudo e, se acredita, que as coisas assim acontecem “porque Deus quiz assim”. Na sabedoria popular, a tradição e os costumes devem ser obedecidos e não questionados, fazem parte da doxa. Para Câmara Cascudo, o Folclore é “a mentalidade, móbil e plástica, torna tradicional os dados recentes, integrando-os na mecânica assimiladora do fato coletivo, como a imóvel enseada dá a ilusão da permanência estática, embora renovada na dinâmica das águas vivas.” (CASCUDO, S/D, 9ª edição, p. 400).
O Folclore é o cultivo, a preservação das práticas populares, que se tornam tradicionais pela sua importância para a comunidade. É preciso recordar do que passou e projetar o futuro. Olhar para o passado, viver o presente de maneira mais “esperta”, crítica, para que o futuro seja melhor. O folclore tem em sua essência a motivação e a esperança numa mudança social para melhor, mas em beneficio de toda comunidade, todo o grupo. Câmara Cascudo nos traz a origem do termo Folclore:
O conteúdo do Folclore ultrapassa o enunciado de 22 de agosto de 1846, quando William John Thoms (1803-1885) criou o vocábulo. Nenhuma disciplina de investigação humana imobilizou-se nos limites impostos, quando do seu nascimento. Qualquer objeto se projete interesse humano, além de sua finalidade imediata, material e lógica, é folclórico. Desde que o laboratório químico, o transatlântico, o avião atômico, o parque industrial determinem projeção cultural no plano popular, acima do seu programa especifico de produção e destino normais, estão incluídos no folclore. “The industrial folk-tales and songs are evidence enough that machinery does not destroy folklore,” diz Botkin (CASCUDO, S/D, 9ª edição, p.401).
Assim, a evolução tecnológica não conseguiu, nem conseguirá destruir o folclore, pois ele faz parte da essência do ser humano, na sua forma mais rudimentar e primitiva. No folclore e na cultura popular o ser humano tem o seu lugar de pertença, seu habitus e modus
vivendi, sua maneira de ser e pensar mais essencial, enquanto pessoa. É uma questão de
identidade pessoal e social, além da consciência de quem sou e de que comunidade social faço parte, que pertenço.
Em qualquer deles haverá uma cultura sagrada, hierárquica, veneranda, reservada para a iniciação, e a cultura popular, aberta à transmissão oral e coletiva, estórias e acessos às técnicas habituais do grupo, destinada à manutenção dos usos e costumes no plano do convívio diário (CASCUDO, S/D, 9ª edição, p. 401).
Então, a cultura popular, na realidade, preserva o folclore, na sua essência, cultivando os hábitos e as representações simbólicas, o que torna os fenômenos folclóricos como manifestações de resistência, preservados pela cultura popular resistindo ao tempo. A evolução tecnológica proporciona, a partir da sensibilidade de alguns membros do grupo e acesso aos mecanismos de poder, a difusão de manifestações folclóricas através dos meios de comunicação, publicizando o fato folclórico e movimentando a indústria da criatividade e a economia das pequenas cidades, fortalecendo os laços comunitários, através da solidariedade.
Para Câmara Cascudo, os problemas delimitadores do folclore são idênticos aos das ciências sociais. “O folclore deve estudar todas as manifestações tradicionais na vida coletiva (...)‟ e a „(...) solução popular na vida em sociedade‟, (...) onde estiver um homem aí viverá uma fonte de criação e divulgação folclórica” (S/D, 9ª edição, p. 400-401, grifo nosso). O que é de comum interesse a Folkcomunicação e a investigação das maneiras como o ser humano individualmente, ou em grupo, em sua mais essencial e rudimentar maneira de viver se comunica, se expressa, emite suas opiniões e se faz ouvir aos governantes, aos políticos, que foram eleitos para administrar a máquina pública em beneficio da sociedade, convertendo as
verbas de impostos em melhorias para toda a população em suas necessidades básicas. Interessa, porém, à Folkcomunicação saber a respeito desse “entendimento” entre os líderes políticos, os projetos do governo e as necessidades do povo.
Florestan elabora uma sociologia do folclore brasileiro, mas isso à custa de discussões intensas com folcloristas, que abordavam o tema de maneira simplista e não científica. O esforço de Florestan vai no sentido da configuração de um campo especializado de estudos, buscando a integração “do pensamento sociológico ao sistema sócio-cultural brasileiro e a história das relações entre sociedade e ciência no Brasil moderno” (GARCIA, 2001, p. 143).
Florestan defende o folclore como um objeto específico de estudos, fazendo isso através de uma crítica severa dos trabalhos de estudiosos da crítica tradicional e popular brasileira. Dessa maneira, Florestan trava uma discussão intensa com os folcloristas, veiculada em seus escritos para o jornal O Estado de S. Paulo. Nesses artigos, Florestan inicia um processo, descrito por Cavalcanti & Vilhena (1990), como o início do “processo de marginalização do folclore do campo de estudos acadêmicos de sociologia e antropologia no Brasil” (GARCIA, 1990, p 145-146).
Os folcloristas agrupam-se em uma das vertentes de estudos impulsionadas pela valorização das tradições populares e da pesquisa histórica que marca o cenário cultural paulista desde os anos 20. No decênio de 30, rumo à institucionalização, em torno do Departamento de Cultura da cidade, dirigido por Mário de Andrade entre 1935 e 1938. O auge do debate entre a sociologia e o folclore, representados respectivamente por Florestan Fernandes e Edison Carneiro, só vai ocorrer na segunda metade da década de 50, quando o movimento folclórico atinge o auge no Brasil, institucionalizado na Comissão Nacional do Folclore, do Ministério do Exterior, e na Campanha Brasileira de Defesa do Folclore, do Ministério da Educação e Cultura (CAVALCANTI & VILHENA apud GARCIA, 1990, p. 146).
Dos trabalhos mais importantes de Florestan Fernandes, nesse sentido, temos as publicações Folclore e grupos infantis (1942); Educação e cultura infantil (1943); As
trocinhas do Bom Retiro, considerada por seus críticos como a obra de maior impacto nessa
temática. Florestan toma como ponto de partida os fatos folclóricos, como fatores de associação, ou seja, no âmbito sociológico, o folclore promove a socialização em âmbito infantil.
O folclore foi produto da vida social do passado (...), no presente, não é a vida social dos grupos infantis que gera os elementos folclóricos, mas são os elementos tradicionais que provocam e organizam a experiência social das crianças no interior dos grupos de folguedos. Definem-se assim, os aspectos socializadores do folclore através da diferenciação entre cultura
adulta e cultura infantil para, analisando o funcionamento desta última, mostrar como ela atualiza para as crianças os mesmos padrões da cultura adulta, reafirmando dessa maneira unidade dos valores e padrões de conduta de uma sociedade (GARCIA, 1990, p.147).
Dessa maneira, entendemos que Florestan Fernandes aponta para o aspecto socializador do folclore, e mais que isso, ele vê o folclore também como Bourdieu, como uma estrutura estruturante, ou seja, ele provoca e organiza a experiência social e, poderíamos dizer, re- adapta também, porque o folclore, assim, como a sociedade, é dinâmico e a sua dinamicidade envolve-se com a sociedade num movimento dialético, em que a ideologia popular é expressa através das práticas sociais e culturais.
A segunda dimensão de socialização do folclore, elaborada por Florestan Fernandes, é a observação do funcionamento dos grupos, descrevendo os conflitos e a solidariedade entre as crianças de um mesmo grupo e de diferentes traços brasileiros, estrangeiros e filhos de estrangeiros, crianças pobres, ricas e de classe média. Ou seja, os grupos sociais se formam através da identificação, dos valores e contexto social. E o folclore, nesse processo de socialização consegue organizar essa realidade social, ou seja, é uma estrutura estruturante da realidade social e organizadora, delimitando os que são ou não aceitos no grupo.
Citamos um exemplo, nesse sentido, exposto por Beltrão, descrevendo como acontecia o processo de codificação e decodificação pelos índios do Brasil, que ele extrai de Sérgio Buarque de Holanda.
Soube o nosso indígena, como depois o quilombola, ou o jagunço, ou o cangaceiro e, ainda agora, o romeiro, o retirante ou o foragido, valer-se de recursos diversos para “desenvolver ao máximo um poder invertido orientado para o bem do grupo, como se deve esperar de homens para quem o viver era antes e acima de tudo um conviver. Precisamente a indústria com que sabia recorrer à comunicação indireta a fim de transmitir advertências e notícias sempre que uma necessidade se apresentava serve como prova de tal aptidão. É conhecido o exemplo do trocano ou tambor de aviso... Pode-se lembrar, além desse, o processo de sinalização por meio de fogueiras e rolos de fumaça, usado até hoje pelas nossas populações rurais. Viajantes que percorreram os rios do Brasil Central atestam como, para indicar que determinado local é abundante em determinada casta de peixes, os índios usam às vezes o sistema de desenhar nas areias da margem a figura desse peixe. Quem venha depois e esteja a par do processo não correrá o risco de enganar-se. É só lançar o anzol” (HOLANDA, S.B. apud BELTRÃO, 1980, p.11, grifo nosso).
Beltrão fala sobre grupos ou comunidades marginalizadas que utilizaram meios diversos para desenvolver um “poder invertido”. Que poder invertido é esse, senão a luta por tomada de posições no espaço social? É a luta pelo poder hegemônico, em fazer ouvir sua voz e suas
reivindicações, em prol do bem comum. Por outro lado, são lembrados os processos de codificação de sinais emitidos pelos índios, cujo objetivo era a sobrevivência de tribos e comunidades quilombolas, numa realidade vivida na época do Brasil colônia.
Se averiguarmos o discurso popular, veremos que este é um contra-discurso do discurso hegemônico. Assim, o povo, por vezes, se utiliza do humor para rir da própria desgraça e realiza seu contra-discurso de maneira satírica e crítica, para reivindicar seus direitos frente às injustiças sociais e termina seu discurso dizendo sobre sua reivindicação, o que quer, um futuro melhor. O povo olha para o passado, lamentando o sofrimento vivido, e procura viver no presente com fé e esperança, lutando sempre, para que no futuro possa viver de maneira digna. Ou seja, o folclore é uma estrutura estruturante da sociedade, sociologicamente falando, e como tal exerce seu contra-discurso.
Para Florestan Fernandes, se considerarmos o desenvolvimento social, que é dinâmico e gradual, a sociedade está, paulatinamente, em constante transformação e de maneira evolutiva. Para explicarmos esse fenômeno, dever-se-ia estudar a persistência de elementos sobreviventes desses fenômenos na sociedade e que eram formas de condutas incompatíveis com os valores característicos e dominantes num estado qualquer considerado – o positivo, por exemplo, para Comte – estabelecido teoricamente (FERNANDES, 1978, p. 40).
Esse se tornou o ponto de partida para os pesquisadores em folclore: “o progresso não se processa uniformemente na sociedade, havendo por isso camadas da população que não participam do desenvolvimento da mesma sociedade ou apenas o acompanham com retardamento evidente” (FERNANDES, 1978, p. 40). Esta era uma inquietação de Luiz Beltrão, que a grande massa da população estava alienada, como que ensurdecida à crise vivida pelo país, alienada da realidade, do processo de desenvolvimento, como também das metas desenvolvimentistas. Assim como Beltrão, Florestan Fernandes via que
os elementos culturais, que constituem o patrimônio cultural dos indivíduos a elas pertencentes, não se sintonizam dinamicamente com a cultura tomada como um sistema ou como um todo orgânico e por isso deixam de refletir integralmente a evolução cultural da sociedade (FERNANDES, 1978, p.40).
Dessa maneira, a partir desse esquema evolucionista, Florestan Fernandes admite que os primeiros folcloristas entendiam que “o folclore abrangia tudo o que culturalmente se explicasse como apego ao passado”, assim todos os fatos não explicáveis pela ciência eram explicados pelo folclore, reportando-se ao passado, “compreendendo todos os elementos que a secularização da cultura substituía por outros novos (...), e ainda os elementos característicos
de estilos de vida considerados típicos, particulares a certos agrupamentos (...)”. Assim, o folclore era não só o modo de pensar, mas o modo de ser no mundo, de existir, enquanto indivíduo e enquanto comunidade, em se falando dos microcosmos sociais, mas que se expande para toda a sociedade, pois através da língua e do folclore, pode-se conseguir a aglutinação do povo. Ao pensar, porém, no folclore como objeto de estudo, para Florestan Fernandes (1978, p. 40):
Em síntese, o objeto do folclore seria pode-se falar assim, dentro desse esquema – o estudo dos elementos culturais praticamente ultrapassados: as “sobrevivências”. Ou seja, como o definiu Sébillot: (3) “a ciência do saber popular”, partindo da significação do próprio vocábulo (folk=povo; lore=saber), tal como o propusera seu criador, William Thoms. (4) Essa é a pista seguida por Saintyves na definição que apresentou mais tarde e que logo se tornou clássica, principalmente entre os folcloristas latinos: “o folclore é a ciência da cultura tradicional nos meios populares dos países civilizados”. (5) Essa definição, entretanto, é um verdadeiro juízo de valor, que no que se refere aos “meios populares”, como no que concerne aos chamados “países civilizados” – e não poderia ser diferente, levando-se em conta o que apontamos acima: havia um compromisso muito forte em