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Ao avançarmos, Bordwell e Thompson (2013) chamam a nossa atenção para este processo de análise ao comparar o cinema com outras artes. Para a dupla, analisar uma pintura, por exemplo, requer conhecimento das cores, da aparência, da composição. Podemos incluir aqui questões como período, o artista e o recorte geográfico. Dentro desta leitura, a dupla destaca a importância da mise-en-scène no processo de análise como mais um dos elementos responsáveis pelo estilo fílmico. Vamos então pontuar como a mise-en-scène pode auxiliar na questão do fluxo narrativo.

A mise-en-scène pode ser compreendida como a encenação necessária e essencial utilizada para a construção de um filme. O termo vem do francês e significa pôr em cena. Podemos pensar aqui em cenários, figurinos, iluminação até comportamento e ação dos personagens. A mise-en-scène possui o poder de agregar elementos ao filme. Ao pensar dentro deste recorte, o diretor busca criar significado e emoção através do que acontece no quadro fílmico de cada plano, seja um com duração de três segundos ou até um longo plano- sequência com duração de dez minutos.

Vamos exemplificar a nossa análise apresentando a sequência da morte de Caleb no filme A bruxa para compreender a importância da mise-en-scène diante do produto audiovisual. Lançado em 2015, o filme se passa no final do século XVIII e acompanha uma família de ingleses que mora em uma colônia nos Estados Unidos. Por seguirem o protestantismo, eles são expulsos da colônia e vão viver no bosque. A família é composta pelo pai, William (Ralph Ineson); a mãe, Katherine (Kate Dickie), a filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy); o filho, Caleb (Harvey Scrimshaw); os gêmeos, Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) e o recém-nascido Samuel (Axtun Henry Dube).

desparecido. O garoto, que tem idade aproximada de 12 anos, chega até uma casa no meio da floresta e encontra uma mulher. Após algumas horas desaprecido, Caleb chega em casa com sinais de fraquesa, desorientado e sem roupas. Ele passa alguns dias doente. A sequência que nos interessa começa no tempo fílmico de 56m46s. A família se reúne em torno de Caleb para desesperadamente rezar pela sua melhora. Aqui é utilizado o plano geral mostrando todos em torno de Caleb e planos fechados em personagens específicos. A câmera está quase sempre em movimento, embora estes sejam sutis. Aqui não vamos ter movimentos como travellings ou panorâmicos. Vamos ter ao final a utilização de zoom-in e zoom-out.

Ao começarem a rezar, os gêmeos dizem que não conseguem se lembrar de suas preces e começam a gritar como que tomados por agonia. De repente Caleb acorda e começa a dizer paravras aparentemente de teor religioso, mas sem um sentido específico assustando a todos os presentes. A câmera passa a mostra Caleb sempre em plano plongée, como é possível ver na figura 06 abaixo.

Figura 17 - Caleb em plano plongée.

Fonte: Print Screen da reprodução DVD A bruxa, 2015, no MPC–HC x64.

A sequência da agonia de Caleb é testemunhada pelos seus familiares, mostrados quase sempre em planos isolados e com a câmera com planos fechados e com movimentos suaves acompanhando estes personagens. Podemos ver esta disposição ilustrada por meio da mãe de Caleb na próxima página.

Figura 18 - Disposição da mãe de Caleb.

Fonte: Print Screen da reprodução DVD A bruxa, 2015, no MPC–HC x64.

Após ficarem chocados com as revelações de Caleb, Katherine começa a oração em torno do garoto sendo acompanhada por William e Thomasin. Para começar a oração, Katherine se abaixa e a câmera a acompanha neste movimento passando a recebe uma forte luz vinda da janela deixando a imagem espontaneamente quase estourada. Em seguida vemos um plano mais aberto mostrando Thomasin e William também participando da oração. Estes planos ficam claros nas figuras 08 e 09 abaixo:

Figura 19 - Câmera se move acompanhando Katherine e assim tendo um estouro de luz através da janela.

Figura 20 - Plano mostra familiares em torno de Caleb.

Fonte: Print Screen da reprodução DVD A bruxa, 2015, no MPC–HC x64.

A cena da morte de Caleb é mostrada em um único plano e ele está falando durante toda o plano. O mesmo já começa com um suave movimento de zoom-in em direção do garoto. A imagem permanece alguns segundos com Caleb em plano fechado. Logo começa o movimento inverso com um zoom-out para a câmera depois permanecer novamente mais alguns segundos parada. No entanto, ao fazer o movimento zoom-out, Caleb se levanta em direção a câmera quase que insistindo que o foco da ação fique nele. Aqui temos dois movimentos em uma única cena. O primeiro se dá na própria câmera por meio do zoom enquanto o segundo é percebido pelo mover do personagem dentro do quadro.

Se formos utilizar a questão dos diálogos acelerados vistos anteriormente, Caleb está falando apressadamente ao mesmo tempo em que seus pais e irmã estão rezando e os gêmeos gritando. Após o zoom-out, a câmera então faz um movimento tilt para se aproximar mais de Caleb, que se deita novamente. Por fim, a câmera encerra com mais um zoom-in até o rosto do garoto e permanece lá até o fim do plano quando ele morre e tem seu rosto tocado pela mão de Katherine. Toda esta cena possui duração de 01m21s.

Figura 21 - Acompanhamos o plano sem cortes, mas com movimentos de câmera que culminam com a morte de Caleb.

Fonte: Print Screen da reprodução DVD A bruxa, 2015, no MPC–HC x64.

É interessante observar que a sequência analisada de 56m46s até 59m55s possui 25 planos, em um total de 3m55s, o que gera um ASL de 9,4s. Porém, conforme vimos, esta sequência possui alguns elementos que podem fazer com que a mesma seja percebida como possuindo um fluxo narrativo acelerado. Para isto, vamos complexar a questão da importância da mise-en-scène neste processo.

O primeiro elemento é o cenário. O quarto no qual Caleb se encontra representa uma construção humilde. O colchão é feito com feno e praticamente não existem móveis que possam ser vistos. Esta escolha além de dialogar com a realidade dos personagens, que foram expulsos e partiram com poucos móveis, também permite que o olhar do público fique direto nos personagens. Este olhar é guiado pela câmera, que sempre acompanha o movimento dos personagens, por mais sutis que sejam visto que nenhum chega a mudar de lugar dentro do cômodo, mas apenas ficam movimentando-se por impaciência ou angustia diante do ocorrido.

O cinema de horror tem na questão do cenário um dos seus principais elementos de identificação. E naturalmente eles podem trazer uma pluralidade de possibilidades. A sala de jantar de O massacre da serra elétrica, 1974, é um exemplo completamente antagônico do sótão de A bruxa conforme podemos perceber na figura 11 abaixo. De aspecto sujo, a sala de jantar é poluída de informações. Além da mesa com comida, utensilhos e partes de corpos, existem as cadeiras com os membros da família de canibais. Nas paredes destaque para um quebra-luz de um lado e um esqueleto do outro, além de quadros e partes de animais penduradas ou pregadas na parede. Para completar a ―decoração‖, destaque para uma luminária feita com um rosto humano.

Figura 22 - Sala de jantar de O massacre da serra elétrica.

Fonte: Reprodução de internet.

O segundo elemento de extrema importância na mise-en-scène responde pela questão de figurino e maquiagem. Em A bruxa, por termos um filme de época, torna-se obrigatório a utilização de figurinos antigos. No entanto, para destacar a questão da pobreza e até da falta de recursos dos personagens, suas vestes possuem aparência de antigas e muitas vezes já gastas. Desta forma, tanto o figurino como a maquiagem ajuda a destacar a construção e de certa forma a própria posição dos personagens dentro da trama.

O terceiro ponto que vamos destacar aqui é referente à iluminação. A ideia de luz sempre esteve presente nas produções fílmicas, mas aqui torna-se necessário pontuar não apenas que uma cena seja iluminada, mas que a mesma possua uma iluminação que auxilia ao desenvolvimento da questão narrativa da trama.

Na análise de A bruxa, a questão da iluminação é feita de caráter realista sem a necessidade de apresentar uma luz sobrenatural, como é comum em muitos títulos de horror. O destaque da sequência analisada em A bruxa no quesito iluminação é percebido quando Catherine se posiciona na frente da janela provocando uma espécie de estouro da luz atrás dela. Se estivéssemos falando de uma fotografia, provavelmente a mesma poderia ser criticada por este tipo de estouro. Mas por se tratar de um filme, aqui é natural perceber como esta iluminação específica é vista possuindo significado dentro da trama.

Na sequência em que acontece o estouro de luz, Catherine se ergue para puxar uma oração na tentaativa de salvar o filho Caleb da bruxaria. Metaforicamente podemos associar este estouro de luz com a forte retomada da oração por parte da mulher.

é bastante plural em suas possibilidades podendo ser utilizado na sétima arte de diversas formas. Em O sexto sentido, 1999, uma luz inferior destaca a questão sobrenatural do garoto que vê pessoas mortas. Em Alien – o oitavo passageiro, 1979, a tenente Ripley (Sigourney Weaver) tem apenas metade do rosto iluminado em uma cena antes de embarcar no veículo de fuga podendo ser interpretada como o medo da personagem em seguir adiante. Já em A família Addams 2, 1993, a iluminação é utilizada para compor um dos personagens. Trata-se de Morticia Addams (Angelica Huston), que sempre que está em cena é vista com uma luz tênue em seu olhar, neste caso destacando o mesmo.

Figura 23: Alien – o oitavo passageiro.

Fonte: reprodução de internet.

O quarto ponto da mise-en-scène que merece atenção é referente à encenação, aqui por meio do movimento e da interpretação. Neste caso, a ideia de interpretaçãao é compreendida como uma criação feita unicamente para ser filmada e por este motivo precisa funcionar dentro do quadro fílmico. Bordwell e Thompson (2013) destacam como a interpretação de um ator é composta por elementos visuais - como aparência, gestos, expressões faciais – e também questões sonoras como a voz e utilização da mesma. Naturalmente, estes elementos são guiados de acordo com o produto fílmico. Em outras palavras, a interpretação pode fazer parte do estilo do filme ou do grupo ao qual aquele filme pertence.

Em A bruxa, acompanhamos uma sequência na qual o desespero é visto no olhar e nos movimentos da mãe, a incredulidade no olhar da irmã que permanece estática diante da cena enquanto pai possui um olhar frio, como se não se permitesse sentir algo diante daquela cena. Para completar o quadro, temos o jovem Caleb se contorcendo e com olhar perdido para o

alto, sem fitar nenhum dos seus familiares. A motivação de cada um justifica os gestos e expressões.

Vistos estes qutro pontos do filme A bruxa, é possível destacar como estes elementos unidos ou isolados podem trazer dados sobre o fluxo narrativo de uma obra fílmica. Bordwell (2008) reforça que hoje o estilo de Hollywood é o do movimento e este pode ter diferentes origens.

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