3. Configured Tunneling Mechanisms
3.6. Decapsulation
O último subgrupo de fornecedores a ser apresentado é formado por aqueles cuja atividade é a prestação de serviços alimentícios e que de acordo com a ASA representam aproximadamente 80% do volume total de resíduos de óleo auferidos pelo programa. Oito estabelecimentos foram identificados e selecionados, seis são restaurantes, sendo um deles pertencente ao departamento de nutrição de um hospital e os demais são
delicatessens.
Quando questionados a respeito de quem tomou a iniciativa para o estabelecimento da relação de cessão e aproveitamento do óleo, cinco deles afirmaram que foi a ASA que entrou em contato com as empresas apresentando o programa, enquanto os demais afirmaram desconhecer a informação. Esse resultado demonstra a importância da prospecção de fornecedores para a prática de logística reversa do programa.
Ao se analisar a mudança de comportamento desses estabelecimentos no tocante à destinação deste resíduo, quatro respondentes informaram que já destinavam óleo para outra empresa que realizava o reaproveitamento do material. É interessante notar que os respondentes R3 e R4 informaram que anteriormente o óleo era vendido, mas que o fato de haver o repasse financeiro por parte da ASA para o IMIP foi fundamental para a mudança de fornecedor6, o que demonstra que o fator econômico não necessariamente é o que predomina na decisão dessas empresas. O respondente R4, por exemplo, enfatiza:
“a gente sabe que tem que ter a responsabilidade social, e a gente estava vendendo por
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É importante destacar que o comportamento contrário também foi identificado na pesquisa. Um restaurante que exibia o adesivo de fornecedor do programa quando solicitado a participar da pesquisa informou que já não cedia o óleo para a ASA que passou a vendê-lo a outra organização.
um valor tão irrisório, que não ia pesar no nosso orçamento. Então, porque não doar para alguém que está precisando fazer o uso disso em benefícios de outros?”.
Sendo assim, o restaurante demonstra atuar de forma coerente com o discurso da responsabilidade socioambiental contemporânea, que não privilegia apenas os acionistas, como era do pensamento de Friedman (1970), mas procura levar em consideração e satisfazer outros stakeholders, como propõe Freeman (2010), tais como clientes, consumidores, meio ambiente e comunidade, algumas das partes interessadas apontadas por Carroll (2004); Oliveira (2008) e Freeman (2010).
Além disso, nota-se que a empresa evidencia sintonia com a visão de Sachs (2008a), já que procura atender simultaneamente aos três critérios por ele mencionados: prudência ambiental, viabilidade econômica e relevância social. O primeiro deles é demonstrado pelo fato de proporcionar a destinação ambientalmente adequada, sem causar prejuízos ao meio ambiente; o segundo, por não comprometer de forma significativa suas finanças; e o último por proporcionar que sua ação contribua para beneficiar diferentes membros da sociedade.
Embora não tenha mencionado de forma direta ou indireta a questão econômico- financeira como sendo fonte de estímulo para a contribuição com o “Mundo Limpo, Vida Melhor”, a respondente D2 relacionou as duas outras dimensões do desenvolvimento sustentável como sendo os principais motivos que fizeram os donos aderir ao programa, já que poderiam tanto reduzir os danos ambientais que o óleo é capaz de gerar, quanto contribuir com a instituição que beneficia a sociedade. A representante ainda ressalta que os donos sempre se preocuparam com a questão ambiental e com o auxílio a instituições.
Os entrevistados R2 e R5 informaram que antes de aderirem ao programa “Mundo Limpo, Vida Melhor” destinavam o óleo ao lixo comum. Sobre essa prática o primeiro afirmou que colocavam os resíduos do óleo em um balde e, no dia da coleta de lixo comum realizado pela prefeitura o colocavam na rua. Sendo assim, percebe-se que o programa desenvolvido pela empresa ASA despertou a conduta socioambientalmente responsável empresarial, fazendo com que os resíduos, antes descartados inadequadamente pudessem ser reaproveitados e evitando danos ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que gera ganhos sociais. Dessa maneira, as empresas ao
proporcionarem suporte à prática de logística reversa e de reaproveitamento desse material, iniciaram uma nova prática organizacional que em sintonia com o pensamento de Michaelis (2003b) colabora com o consumo sustentável.
Ao analisar os depoimentos, tem-se que a maioria dos fornecedores argumenta que a principal motivação para adoção da prática foram os problemas ambientais que o descarte inadequado pode gerar. Dessa forma, destacam apenas um dos pilares indicados por Elkington (2001) como sendo importante para o alcance da sustentabilidade, o que demonstra a maior ênfase dada à dimensão ambiental frente, por exemplo, à social. No entanto, foi possível identificar um restaurante, o de nº 4, que não apenas entende a importância ambiental da correta destinação do óleo como evidencia a importância social que a adoção do programa “Mundo Limpo, Vida Melhor” traz.
No tocante às etapas iniciais da relação de fornecimento do óleo de cozinha, apenas a respondente D1 não soube informar se houve algum tipo de orientação cedida pela ASA para os funcionários do estabelecimento quanto à maneira correta de armazenar este resíduo. Os demais estabelecimentos informaram que a empresa passou esse tipo de informação. Segundo o respondente R2, a ASA orientou armazenar o óleo na bombona cedida e mantê-la sempre fechada e sem exposição ao sol, informação semelhante à cedida pelo respondente R5, que acrescentou o fato de que não deveria ser misturado à água. A respondente R3, por sua vez, afirmou que no momento da formalização da relação, a ASA trouxe toda a documentação necessária, inclusive o que atestava que a empresa estava apta a receber esse material e explicaram como deveria ser realizado o armazenamento.
Com relação ao repasse de informações acerca dos problemas que o descarte inadequado de óleo pode causar, como forma, inclusive, de obter o comprometimento dos funcionários com o programa, quatro estabelecimentos informaram que receberam informações relacionadas com entupimentos, poluição e aparecimento de ratos e baratas. Enquanto os respondentes R3, D1 e RH1 não souberam responder, a respondente D2 informou que eles não fizeram esse processo de conscientização, mas que acredita que o fato de a própria respondente demonstrar conhecimento sobre o assuntou possa ter influenciado tal conduta.
Referente à manutenção das atividades e à configuração dos relacionamentos entre fornecedor e a ASA, o respondente R3 informou que ao perceber que a bombona fornecida pela ASA não era suficiente para atender a oferta de seu processo produtivo, pois “sempre ficava uma sobra de óleo acumulado em panelas, esperando o depósito”, foi solicitado mais um recipiente, o que foi prontamente atendido pela empresa. Contudo, o mesmo restaurante relata que solicitou por algumas vezes que fossem ministradas palestras para seus funcionários, mas que sua solicitação não foi atendida.
Nos restaurantes de nº 1, 2 e 5 não há possibilidade de o funcionário armazenar o resíduos de óleo que consome em casa e depositá-lo nos coletores dispostos na cozinha dos restaurantes. Para justificar a não permissão para o correto descarte do óleo de cozinha por parte dos funcionários nas bombonas ali existentes, o respondente R5 alega que o consumo doméstico é muito baixo e que o tempo para acumular uma quantidade significativa de óleo é grande e complementa afirmando que ele próprio joga o resíduo na pia.
Embora a prática de trazer o óleo de casa e depositar nas bombonas das delicatessens seja aceita, a respondente D1 informa que os funcionários nunca trouxeram e que eles não têm este costume, o que demonstra que a sensibilização da empresa e da ASA não foi capaz de modificar as práticas dos funcionários. O representante do restaurante hospitalar, por sua vez, informou que existe a possibilidade, mas que a ASA explicou que eles enquanto pessoas físicas podiam direcionar o óleo utilizado em suas residências aos postos de coleta da COMPESA. Os demais estabelecimentos alimentícios, os restaurantes de nº 3 e 4, informaram que a prática é possível e a representante do primeiro afirmou que a prática de destinar o óleo corretamente pode ser observada na mudança de comportamento de alguns funcionários que passaram a contribuir com o programa.