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O gesto de mergulhar nos problemas brasileiros foi amplo não apenas porque abrangeu geograficamente o Brasil inteiro, mas porque também se espalhou por um variado espectro de questões: foi uma literatura social não apenas no sentido econômico do termo, que remete à luta de classes, mas também na figuração dos papéis e funções destinados à mulher. (BUENO, 2006, p. 327)

Com o romance de 30, como já observado, o proletário, como um 'outro' marginalizado, ganhara destaque na literatura desse período. Todavia é importante salientar que não era apenas o proletário o alvo privilegiado pela postura engajada dos escritores, mas, sim, os marginalizados em seu todo.

Interessa-nos observar, por intermédio das personagens femininas do romance, o papel da mulher em sua conduta e posicionamento frente às questões políticas, entendendo que uma das condições de sua existência no romance como figura política está relacionada ao contexto da proletarização massificada de inícios do século XX. Sem pretender defender dogmas, procuraremos identificar, na figura feminina de Pagu e em sua intensa atividade intelectual, uma condição de diferença fundamental para o desrecalque da condição da mulher na sociedade.

O romance de Pagu ilustra o modo como a temática do engajamento, voltada para a conscientização do operariado brasileiro, alia-se à preocupação com a representação feminina. Por meio da narrativa, podemos perceber que a mulher abandona seu papel de figurante tanto na sociedade quanto na ficção, desvencilhando-se de estereótipos e tornando-se engajada e independente.

Além da luta por um mundo democrático em relação às classes, Pagu se interessa em demonstrar, em sua obra –, como feminista que era – como deveria ser a postura feminina frente aos embates e os arquétipos impostos pela sociedade. Por esse motivo, faz, em suas obras, uma crítica ferrenha ao papel que a mulher desempenhava na sociedade, e o que deveria ser feito para que esse arquétipo fosse desmistificado.

O imaginário da representação feminina, nas narrativas do período, estava baseado na exposição de dois estereótipos, o da namorada, que viria a ser a esposa, e o da prostituta. O que basicamente separava a namorada da condição de prostituta era a perda ou não da virgindade: “Nunca se viu tanta mulher caindo na vida como no romance de 30 [...]. Houve mesmo escritores que se especializaram no tipo”.(BUENO, 2006, p. 303). A prostituição, à época, significava a degradação da mulher, que não tinha escolhas, dependia apenas do seu destino. Apesar dessa representação pouco lisonjeira, tal atenção à condição feminina pode ser encarada como um passo adiante na problematização de sua identidade social: “Pode parecer pouco, mas é uma fuga considerável ao automatismo que marca o destino de um número enorme de personagens femininas do romance de 30.” (BUENO, 2006, p. 289).

redutora, não apenas como esposa ou prostituta, mas “como mulher, como gente”.

[...] havia a necessidade de descobrir ficcionalmente a mulher de uma maneira menos redutora – o que se confirmou com a boa aceitação dos romances escritos por mulheres que foram surgindo aos poucos e que, de uma forma ou de outra, contribuíram para dar uma nova figuração da mulher em nosso romance. (BUENO, 2006, p. 303)

Teria Patrícia Galvão, em Parque Industrial, conseguido problematizar a figura reduzida da mulher? Como é representada a figura feminina em seu romance? Pagu confirma ou não o estereótipo sobre a mulher ?

Em Parque Industrial, observa-se a presença de três personagens femininas e, embora suas trajetórias possam apontar para a confirmação do estereótipo feminino, reduzindo a sua figuração à prostituta ou à 'boa menina de família', pode-se afirmar, como supõe Bueno na citação acima, que há alguns avanços apesar dessas caracterizações.

Pagu deixa clara sua denúncia sobre o papel da mulher na sociedade, por isso, apresenta, em sua obra, três personagens principais: Eleonora, Corina, e Otávia. Três figuras muito importantes na obra, pois, a partir da apresentação de cada uma, podemos ter um ponto de vista a respeito do “arquétipo da mulher”. Os demonstrados por ela na obra são: o da mulher tida como o ‘sexo frágil’, aquela cujo único papel é o de servir ao marido, aos filhos e à sua casa. A figura da mulher ‘dona de casa’ e submissa ao pai e ao marido; por último, é apresentado seu alter-ego, uma mulher intelectual que enfrenta embates para conseguir o que quer.

Eleonora é normalista, filha de pessoas simples, seu pai trabalha na Repartição e sua mãe fora educada na cozinha de uma casa feudal. Seu sonho para sua filha era o de que ela tivesse uma família feliz, realizando-se como “dona de casa”, enquanto seu marido leva uma vida tranquila com outros amores. Eleonora era a namorada de Alfredo Rocha, rapaz da sociedade, com quem ela sonhava se casar, principalmente porque Alfredo era rico.

Antes de acontecer o enlace matrimonial, Eleonora é pressionada por Alfredo a manter relações sexuais, criando para a moça um dilema. Sua dúvida parece confirmar o estereótipo da mulher que põe em risco sua moral ilibada, quando entrega sua virgindade. Mas, mesmo cedendo à insistência do noivo, Eleonora casa-se: “Eleonora casou no juiz com o rico herdeiro que ambicionava. É madame Alfredo Rocha. Agora vai para a sociedade. Passa com ele as portas de ouro da grande burguesia”.(GALVÃO, 2006, p. 40).

O casamento dos dois não tem sucesso, já que o que a personagem queria era uma vida luxuosa, enquanto Alfredo tinha outros desejos, queria engajar-se na causa proletária, pensava em ajudar os marginalizados, e, ao ver sua esposa como uma mulher fútil, a separação torna- se inevitável. Além disso, outra questão a se observar é o desejo de Eleonora por outras pessoas, que reflete, então, o seu adultério. Nos trechos a serem citados, verifica-se o seu caso homosexual com Matilde:

Eleonora continua suas desencontradas aventuras. Há de tirar tudo da vida.

O quarto, tapetado em azul, eternamente desmantelado. Os urros sexuais se ritmando diariamente nos ouvidos dos criados e comentados em todos os apartamentos do andar. Quer rebentar o útero de gozo. (GALVÃO, 2006, p. 78)

Na verdade, percebemos, na economia do romance, que a personagem aparece aí apenas como contraponto alienado do engajamento politicamente compromissado de Alfredo, cujas expectativas de casamento com Eleonora diziam respeito a ficar mais próximo ao operariado. Sua decepção, então, vem do fato de que Eleonora quer ascender socialmente, mudar de classe e usufruir da vida burguesa.

Já Corina é o contraponto perfeito de Eleonora. Ambas cedem às investidas sexuais de seus parceiros, mas Corina não se casa. Grávida, percebe-se sozinha e é obrigada a se prostituir para conseguir se sustentar, cumprindo o estereótipo a que se referia Bueno. “Corina, com dentes que nunca viram dentista, sorri lindo, satisfeita. É a mulata do atelier. Pensa no amor da baratinha que vai passar para encontrá-la de novo à hora da saída.” (GALVÃO, 2006, p. 25).

Corina era uma moça carente, que vivia com sua mãe e era obrigada a testemunhar as cenas repugnantes desta com seus “amigos”. Mulata, bonita e desprovida de tudo, deixa enganar-se pelo amor de um homem tendo um fruto desse enlace amoroso. Com a gravidez, decorre, então, a desilusão, pois o pai da criança pede a ela que “perca” a criança, mas como aquele pequeno ser já fazia parte de sua vida, ela não escuta as palavras daquele homem que era o pai de seu filho. Estando desempregada e necessitando alimentar-se, é obrigada a se prostituir para conseguir dinheiro.

No romance, a escritora retrata a degradação da condição da personagem por meio de uma narrativa muito realista. Ao descobrir a gravidez da filha, a mãe de Corina e seu amante Florino, a expulsam de casa:

A Vila Simeone toda sabe.

— Eu sempre disse que aquela sem-vergonha acabava num bordel. Os 32 dentões do seu Manoel aparecem debaixo dos bigodes. — Homem! Se não fosse a barriga!

Outras invejam o romance ricaço.

— Que o quê! O filho de Corina terá carro e criada. Vai morar num palacete. Será que ela leva a mãe? E o Florino?

Florino justamente aparece cambaleando. Como sempre. Brigando com os moleques.

— Sua filha comeu terra! Olha a barriga dela, imberê! Que o vento leva pro ar! Florino não compreende. Mas penetra em casa bufando. A bengala canta. —Pamarona! De quem é a barriga, strigueta! — Um grito.

— Me larga, bêbado!

Corina expulsa, chora na sarjeta, rodeada. Algumas mulheres falam com ela. Mas as crianças gritam, implacáveis de moral burguesa.

— Puta!

— Olha a barriga dela! (GALVÃO, 2006, p. 50-51)

Ao voltar ao trabalho, a costureira chama Corina e pede para que ela aborte, caso contrário, ela poderia sair do trabalho, pois lá havia muitas meninas, e Corina agora era uma mulher suja. Ela, como já ama seu filho, não aceita a proposta e sai de lá chorando muito. Sua única salvação seria o encontro com seu amante à noite:

Madame Joaninha aparece de tarde. As garotas cochicham com risinhos.

— Viu Otávia? A Corina de barriga! Juro que está!

Uma delas vai linguarar para madame. A costureira chama a mulata. Todas se alvoroçam. É uma festa pras meninas. Ninguém sente a desgraça da colega. A costura até se atrasa.

— Abortar? Matar o meu filhinho?

A cabeça em reboliço. A narinas se acendem.

— Sua safadona! Então, vá se raspando. No meu atelier há meninas. Não posso misturá-las com vagabundas.

— Para onde hei de ir? — E o teu macho?

Ela sorri entre lágrimas. Logo mais, à noite, encontrará o amante. Está quase morta de fome. Se ao menos tivesse trazido o dinheiro. Tinha esquecido na moringa. Não tivera tempo pra nada. (GALVÃO, 2006, p.51)

Otávia é o contraponto às figuras femininas anteriormente apresentadas. Mulher que vive do seu trabalho, não se deixa levar pelas paixões, não se vê nem como esposa, nem como prostituta, mas, sim, como uma terceira categoria, a da mulher evoluída, que se reconhece como um ser pensante e com desejos: “Não há a menor dúvida aqui sobre o futuro que espera a mulher: entrar definitivamente no mundo do trabalho”.(BUENO, 2006, p. 313).

militante, lutava pelo novo, filiou-se ao PC (Partido Comunista) e se engajava na luta.

A oposição mais acirrada no romance diz respeito à caracterização das intelectuais feministas. Expõe-se um confronto de comportamentos em relação à representação das intelectuais burguesas e as intelectuais proletárias, principalmente no que se refere ao modo de enfrentamento das preocupações engajadas. O local de reunião da burguesia preocupada é o bar chamado de “prostituto” pelo narrador, mas que se torna “social” pela presença das intelectuais e pela “grandeza” dos tópicos lá discutidos. Enquanto isso, as intelectuais proletárias Otávia e Rosinha estão no sindicato lutando por sua classe.

[...] no bar prostituto que se tornou social.

Acorda com o alvoroço de mulheres entrando. São as emancipadas, as intelectuais e as feministas que a burguesia de São Paulo produz.

— Acabo de sair do Gaston. Dedos maravilhosos! — O maior coiffeur do mundo! Nem em Paris! — Também vocês estava como uma fúria! — A fazenda, querida!

— O Diário da Noite publicou minha entrevista na primeira página. Saí horrenda no clichê. Idiotas esses operários de jornal. A minha melhor frase apagada!

— Hoje é a conferência. Mas acho melhor mudar a hora das reuniões. Para podermos vir aqui!

— Será que a Lili Pinto vem com o mesmo tailleur? — Ignóbil!

— Ela pensa que a evolução está na masculinidade da indumentária. — Mas ela sabe se fazer interessante.

— Pudera! Quem não arranja popularidade assim? — Ela ainda está com o Cássio?

— E com os outros.

O barman cria cocktails ardidos. As ostras escorregam pelas gargantas bem tratadas das líderes que querem emancipar a mulher com pinga esquisita e moralidade. (GALVÃO, 2006, p. 76-77)

Enquanto as intelectuais burguesas se preocupam com a “frase apagada na entrevista”, com o modelito da companheira e comem ostras, as engajadas proletárias estão dividindo uma cadeira no sindicato para tentar entender melhor a sua causa e conseguir angariar mais participantes: “Rosinha Lituana e Otávia estão espremidas numa cadeira só. Perto delas, um menino pardo encara os olhos claros. Parece que sente tudo o que falam”(GALVÃO, 2006, p. 33).

A postura pró-ativa das trabalhadoras é mostrada de forma inequívoca. Quando não estão nas fábricas trabalhando, estão lendo panfletos, estão nos sindicatos ou tencionando passar a luta adiante. Talvez esse seja o momento da narrativa em que se torna mais evidente o acirramento das críticas ao modo de engajamento burguês e a aposta na crença de que a

revolução só se fará com a consciência dos próprios explorados, e, por isso, há a necessidade de representar o engajamento crescente das mulheres operárias, e em que mais fortemente podemos perceber a dicção panfletária, propagandística do romance.

O narrador trata os proletários como sendo a “humanidade”, fazendo com que a questão social atinja a todos sem distinção, cumprindo, portanto, seu papel de denúncia, de promotora da revolta e de estímulo à participação dos trabalhadores na revolução: “O apito escapa da chaminé gigante, libertando uma humanidade inteira que se escoa para as ruas da miséria. Um pedaço da Fábrica regressa ao cortiço”.(GALVÃO, 2006, p. 85).

Desta forma, após observar a relação do outro proletário na obra de Patrícia Galvão, é o momento de observar outra questão, como se dá seu compromisso e engajamento em Parque Industrial.

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