Em Platão (2016), observa-se a classificação de mentiras a partir dos seguintes parâmetros: a mentira intencional ou por omissão; a mentira má ou de outra natureza; quando a mentira é útil; e, por fim, a verdadeira mentira. Em termos de tipificação, considera as seguintes formas: os falsos mitos; a mentira nobre; e a mentira como sedução. Segundo Platão (2016, p. 12), as mentiras podem se dar de modo intencional ou por omissão, afirmativa que abre pressuposto para que se possa inferir a ocorrência contínua de mentiras, uma vez que, para sua efetuação, não necessariamente se requer uma ação afirmativa da razão no propósito de enganar; assim como asseveram Santo Agostinho (2017) e Mearsheimer (2012), para os quais: sem intenção, a mentira não se dá. Não obstante a inferência supracitada sobre a omissão, Platão considera que a falsidade que não se percebe, isto é, aquela que, mesmo sendo falsa, sai do espírito humano sem o consentimento, continuará sendo uma opinião verdadeira (PLATÃO, 2016, p. 135). A partir dessa reiteração, há margem para se questionar para quem determinada fala pode ser mentira e para quem a mesma fala pode ser verdade. A resposta decorreria de uma análise intencional, que é estritamente subjetiva; daí ser mais prudente a simplificação que se realiza na delimitação da mentira em falseamento consciente e interesse no convencimento de alguém.
Outra classificação que Platão estabelece decorre sobre o fato de ser a mentira “má” ou de outra natureza. Para o filósofo, o ato de mentir, em si, já deve ser censurado, sobretudo, quando a mentira for má. A mentira má consiste em “oferecer, com palavras, uma imagem falsa da natureza dos deuses e dos homens, como um pintor cujo retrato não representasse a menor semelhança com o modelo” (PLATÃO, 2016, p. 81). A partir dessa descrição, toda forma de engano, ou exposição de uma realidade destoante daquela que se concebe pelos sentidos do corpo e pela concordância social, sobre aquilo que seria a realidade, implicaria em uma mentira, e uma mentira má. Mas, ainda segundo a descrição, o caráter de maldade atribuído à mentira se reflete sobre a modificação da natureza daquilo que se considera divino e do ser semelhante. Essa classificação da mentira é tão depreciada que chega a ser também considerada como “a maior de todas as mentiras”, provavelmente, aquela mentira que agride o caráter do divino e de outro humano. A mentira seria, assim, sempre má, digna de reprovação; mas, se há alguma flexibilização sobre o uso de mentira, alguma mentira que seja menos maléfica do que a mentira má, para Platão, esta ainda não seria uma mentira boa, seria, antes, uma mentira útil. No máximo, a mentira em Platão pode ser vista como nobre, mas essa nobreza não decorre de uma bondade no ato de enganar, mas é a relevância de sua utilidade o que engrandece o engano ao
nível da nobreza, ou da utilização pelos governantes da cidade. A utilidade da mentira consiste em mais uma de suas classificações.
Na última das classificações platônicas empregadas à mentira, considera-se a “mentira verdadeira”, que é “enganar-se, ser enganado ou permanecer na ignorância com respeito às coisas essenciais, na parte mais nobre de nós mesmos, que é a alma” (PLATÃO, 2016, p. 88). A verdadeira mentira é a categoria que abarca o mais alto nível de engano ao qual alguém possa se submeter, sua completa reprovabilidade se expressa sobre o fato de que o seu uso revela uma completa corrupção do ser de quem a emprega. No ato da fala, essa mentira reflete o estado da alma de quem a elaborou, não é o tipo de engano puro, desvinculado do ser do mentiroso, construída para algum fim mais nobre que a mera existência do engano por vãos objetivos do mentiroso.
No que tange à tipificação, osfalsos mitos são o tipo de mentira má e intencional que altera a natureza dos deuses e dos homens, construindo uma imagem falsa sobre aquilo que seria essencial para construção de uma justiça harmônica na cidade, como o livro “A República” vem propor (PLATÃO, 2016, p.81). Para Platão (2016, p. 88), assim como para os filósofos de um modo geral, a verdade estava imanentemente ligada à justiça social, que por sua vez, era o fundamento de uma sociedade onde cada indivíduo exercia seu papel funcional, seja como pensador e político, soldado guerreiro ou população em outras atividades comuns. Haja vista, a relevância que a verdade exercia nesse contexto, a propagação de mitos que modificavam a visão atribuída aos deuses e turvavam a própria crença trazia danos à sociedade e, portanto, o mito deveria ser censurado, bem como os sofistas que o promulgavam.
A mentira como sedução é o engano que ocorre em decorrência da mudança de critério daqueles que são influenciados pelo medo ou pelo prazer (PLATÃO, 2016, p. 136). Esse tipo de mentira é equiparada ao roubo, isso porquê aqueles que são seduzidos por esse tipo de mentira, são furtados de tempo para racionalizar a realidade que se lhes apresenta, por causa do medo ao qual são submetidos ou circunstância de desgosto que os obrigue a mudar de opinião. Aqueles que são enganados pela mentira da sedução, podem ser comparados aos que são envolvidos pelo engano da “difusão do medo”, que é uma das tipificações da mentira construídas por Mearsheimer (2012, p. 70); esta é a mentira em que um governante difunde o terror populacional para tornar o povo maleável às suas decisões governamentais controversas. A mentira nobre, por sua vez, é a maior contribuição platônica para a instrumentalização do engano na política. Consiste na mentira menos danosa, menos reprovável, que se utiliza excepcionalmente em uma sociedade que preza pela verdade, para fins de remediar alguma situação prejudicial à ordem ou à harmonia social. Esse tipo de mentira
trata-se de uma ferramenta perigosa e que só pode ser manipulada por um especialista, assim como um remédio só pode ser prescrito por um médico (PLATÃO, 2016, p. 96), tal é a mentira nobre; não obstante, continue sendo um engano, quanto à depreciação do valor moral, a sua utilidade lhe confere grande relevância e até mesmo “nobreza” (PLATÃO, 2016, p. 137). As mentiras úteis ao favorecimento nacional são as verdadeiras mentiras nobres, capazes de convencer não apenas os líderes de outros governos, como também a própria população. Essa mentiras são consideradas, por Platão (2016, p. 200), como até mesmo frequentes entre os governantes, porque elas se dão para a obtenção dos interesses dos governados, que é a função primordial daqueles que os governam.
Quanto à recorrência do uso da mentira nobre de Platão (2016), que se equipara a mentira política de Swift (2006), bem como a mentira estratégica de Mearsheimer (2012), ou seja, a mentira legitimada pelo benefício coletivo que proporciona sobre uma nação, os autores citados convergem e divergem em opinião. Para Swift (2006), as mentiras são recorrentes e quase que inevitáveis, porque o engano em sua concepção é uma das principais vias da política, sobretudo tendo em conta que o autor postula sobre uma sociedade ideal de mentirosos. Já para Mearsheimer (2012), as mentiras, embora muito úteis e comprovadamente estabelecidas na política internacional, não são corriqueiras; pois, doutra sorte, não haveria credulidade entre os enganados, tampouco credibilidade entre os líderes que a empregam. Bobbio, no entanto, concorda com os primeiros autores sobre a frequência da mentira e a estende para além do nível da política em sua recorrência; no entanto, especialmente, na política é que se pode verificar a frequência entre aqueles que manipulam a outros para fins de adesão aos seus propósitos (BOBBIO, 1998, p. 727). Embora os autores discordem sobre o fato de as mentiras serem frequentes ou não, sobre a sua utilidade para os objetivos da persuasão e sobre a necessidade de cuidado estratégico ao empregar o engano, todos serão concordes. As contribuições destes e dos demais autores desta seção ajudarão a delinear o escopo do tema, a descrição da mentira que é útil à política internacional.