Minha estadia em São Luís envolveu a maior parte da Pesquisa de Campo realizada no Maranhão. Nesse período, foram diversas as paisagens da cidade em que tive a oportunidade de estar, uma vez que a brincadeira ocupava diferentes espaços, tanto no âmbito das sedes quanto do arraial45.
A brincadeira de boi na cidade de São Luís estava estruturada em arraiais organizados por órgãos públicos, empresas particulares ou moradores da cidade que
45 Locais onde a brincadeira de boi acontecia. No Dicionário Aurélio, arraial possui cinco diferentes sentidos, sendo um deles “lugar onde se juntam romeiros, onde há tendas provisórias, barracas de comestíveis, de jogos e diversões, e ornamentado, com música, etc.” (FERREIRA, 1999, p. 195). De acordo com Furlanetto (2010, p. 109), “é possível considerar os arraiais como um território de encontros e representações sociais”.
realizavam festas na rua de suas casas, levando a brincadeira para o terreiro46. Os
grupos de bois eram convidados a se apresentar nos arraiais, o que durava em média uma hora e, muitas vezes, acabavam realizando mais de uma apresentação por noite.
O boi ocupava distintos lugares da cidade, atingindo uma diversidade social ampla. Ele brincava na rua, nas praças, nos terreiros, nos palcos, nos condomínios, nas empresas. A cidade estava repleta de arraiais que, em muitos casos, chegavam a ficar a uma distância de um quilômetro entre si.
Contabilizei, no ano de 2015, 24 pontos de arraiais em que aconteceram 882 brincadeiras de boi. Esse levantamento tratou-se apenas dos dados ditos oficiais, isto é, organizados pela Prefeitura de São Luís, uma vez que estavam registrados no sistema online do órgão. Entretanto, observei em campo que existiam brincadeiras marginalizadas, ou seja, não contabilizadas pelos registros oficiais governamentais, mostrando que o boi, em São Luís, tem uma dimensão ainda maior. Como exemplo, cito os bois existentes no Terreiro Fé em Deus de Mãe Elzita.
Ficou perceptível, na programação organizada pela prefeitura, que a divisão dos grupos em sotaques estava bem definida na cidade, incluindo, além dos da Ilha, da Baixada, de Zabumba, Costa-de-Mão e Orquestra, grupos parafolclóricos, que não se encaixavam em nenhum dos sotaques estabelecidos, sendo listados como alternativos na programação.
O material audiovisual da pesquisa em São Luís pode ser acessado em:
https://youtu.be/PlgBGBs-aXE . Sotaque da Ilha
Os bois de sotaque da Ilha possuíam uma característica musical marcante, pesada e estalada. O uso de uma grande quantidade de matracas47 de
diferentes tamanhos trazia, para a sonoridade, uma construção densa e volumosa.
46 De acordo com o Dicionário do Folclore Brasileiro, terreiro “é um pátio limpo diante das residências do interior, zona sob a jurisdição moral do dono da casa” (CASCUDO, 2012, p. 681). No Dicionário Aurélio, terreiro possui sete diferentes sentidos, sendo um deles “largo ao ar livre onde se realizam celebrações e cantos de desafio” (FERREIRA, 1999, p. 1950).
47 De acordo com o Dicionário do Folclore Brasileiro (CASCUDO, 2012, p. 442), matraca é um “instrumento de percussão, de madeira, com uma ou mais tábuas [...]”. Elas são tocadas, no Bumba- meu-boi, batendo uma tábua contra a outra, caracterizando um som marcante e estalado.
Além das matracas, apresentavam pandeirões, maracás de metal e tambor-onça.
As matracas neste sotaque são tocadas de duas formas. Normalmente, observa- se a forma de duas batidas por tempo (ritmo básico) contra três batidas do pandeirão. No entanto, nalguns grupos, há tocadores que percutem três batidas por tempo, o mesmo ritmo básico executado pelos pandeirões. Em uma tentativa de se destacar, muitos matraqueiros confeccionam matracas de dimensões fora do padrão, chegando algumas a ter quase um metro de comprimento. (PADILHA, 2014, p. 61-2).
Destacavam-se, como personagens nas brincadeiras desse sotaque, o boi, o amo, o vaqueiro, os caboclos, as índias, a burrinha, Pai Francisco e Mãe Catirina. Suas vestimentas eram bem peculiares, assim como seus movimentos e interações.
Nesse sotaque, havia dois tipos de caboclos: caboclos-de-pena (ou caboclos reais) e os caboclos-de-fita (ou rajados). Os primeiros eram caracterizados por uma vestimenta de penas que cobria todo o corpo do brincante, incluindo um pesado chapéu em forma de cocar. Eles apresentavam uma matriz de movimento que insistia no pulso vertical da coluna e na tração do cóccix em direção ao chão. Enquanto a postura vertical fincava o corpo-mastro, os pés ditavam a direção do movimento por meio de passos para as laterais do corpo. A cada dois passos para a direita, os pés do brincante se juntavam, pontuando a direção do movimento antes de ir para o lado esquerdo. Durante a pontuação dos pés, a matriz apresentava um floreio que consistia na pontuação de um dos apoios dos pés (calcanhar, bordas, metatarso ou dedos). Essa pontuação tinha uma qualidade de marcar um desses apoios no chão, como se o carimbasse. Dependendo da força imposta no contato do apoio do pé no chão, a qualidade desse carimbar tornava-se um empurrar e o corpo reverberava em uma saída do chão, apresentando um pequeno movimento de saltar. O peso do chapéu auxiliava a trazer uma qualidade de maior tração do corpo em relação ao solo.
Já os caboclos-de-fita caracterizavam-se por utilizar calças, camisas, coletes e um chapéu com longas fitas. Esses caboclos apresentavam o mesmo movimento da parte inferior do corpo dos caboclos-de-pena, porém sem a pontuação dos apoios e sem o impulso do corpo; além disso, o pulso era focado na região do esterno, com um movimento pendular frente-trás. A postura da coluna, levemente inclinada à frente, e a dobradura dos joelhos provocavam uma pequena báscula na região sacral.
Figuras 3 e 4: Caboclos de pena do Boi do Barreto em movimento. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
É importante considerar que foram observadas variações da matriz do caboclo-de-fita, quando uma pessoa em particular destacou o movimento de fremir da cintura escapular. Foi verificado que essa pessoa era a única, dentre os caboclos, que portava um bastão, representando uma vara de ferrão. Ele era um dos vaquejadores do boi.
Foi constatado, ao longo da pesquisa no Maranhão, que o bastão (ou vara de ferrão) era um instrumento que dava a permissão ou o poder de vaquejar o boi48.
Outros personagens que possuíam um instrumento eram o Pai Francisco, com um facão, e o vaqueiro, com um bastão, ambos sempre à espreita do boi.
O boi apresentava uma requintada construção da carcaça e do couro. Foi observado, no movimento do boi, o predomínio da postura vertical do corpo do miolo, segurando a carcaça na altura da sua cabeça. O balanço da carcaça era ditado pelo movimento circular dos braços e da cintura escapular do miolo, assim como pelo pulso vertical da coluna. Os pés do boi/miolo realizavam um movimento articulado e miúdo ao caminhar, mobilizando desde o calcanhar até o apoio dos dedos. A junção do pulso vertical (cima-baixo) e os pés articulados e miúdos qualifica a principal matriz do boi nesse sotaque, a qual denominamos pé-de-boi49.
Nos momentos em que ocorria a relação boi-vaqueiro, junto ao próprio vaqueiro ou ao Pai Francisco, ambos apresentavam a matriz do pé-de-boi em um fluxo circular pelo espaço. Como observado, a condução do boi tinha como elemento mediador os objetos – facão, bastões ou vara – que auxiliavam quem vaquejava a estabelecer a conexão com o animal. A relação entre o boi e os vaqueiros, observada neste sotaque, foi amistosa. O vaquejador conduzia o boi utilizando o objeto, ora encostado na testa, ora circulando ao redor da cabeça do animal. Os dois personagens entravam em um mesmo fluxo de movimento. O boi apresentava-se entregue à condução, evidenciando as ações de guiar no vaqueiro e de ser guiado no boi.
48 Essa função do objeto enquanto mediador da relação boi-vaqueiro foi observada em todos os sotaques.
49 Essa matriz de movimento já vem sendo utilizada nas práticas corporais do Método BPI e é nomeada pela Prof.ª Dr.ª Graziela como pé-de-boi. Manteremos, nesta tese, a nomenclatura dada pela professora.
Figura 5: Boi e Pai Francisco do Boi de Madre Deus. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
A personagem burrinha era caracterizada por um miolo vestido com uma carcaça de burro suspensa em seu corpo por meio de duas alças acomodadas nos ombros. A burrinha apresentava uma movimentação permeada por giros ao redor do eixo, enquanto os pés realizavam uma transferência de peso entre eles, estando posicionados um à frente do outro. Ditando o ritmo dos pés, havia um pulso pendular (frente-trás) da região da bacia, propiciando um movimento de báscula expandida da mesma. Ambos os pulsos apresentados nas matrizes, dos caboclos, do boi ou da burrinha (coluna, esterno e bacia), acompanhavam o ritmo das batidas das matracas que marcavam dois tempos.
A disposição do grupo no espaço era caracterizada por formar uma trincheira em semicírculo; uma organização espacial que corroborava o título de batalhão50 conferido pelos próprios participantes.
Figura 7: Burrinha do grupo da Maioba. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
50 De acordo com Padilha (2014, p. 68), “o termo batalhão, segundo disseminado pela memória oral, teria surgido quando os negros que haviam combatidos na guerra do Paraguai (1874 - 1870) retornaram ao Maranhão e ao retomarem a brincadeira do Bumba-meu-boi começaram a relacionar o grupo de pessoas que dele participava com um batalhão”.
Figura 8: Boi do grupo da Maioba. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
Figura 10: Índias e Pai Francisco. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
Figura 11: Matraqueiros e Pandereiros do Boi da Maioba. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
Figura 12: Caboclos-de-fita do Boi de Madre Deus. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
Figura 13: Caboclo-de-pena do Boi de Madre Deus. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
. Sotaque da Baixada
O sotaque da Baixada possuía em sua sonoridade a marcação de matracas e de chocalhos, com uma batida mais lenta em comparação ao ritmo do sotaque da Ilha. O sotaque da Baixada, observado em São Luís, tinha uma característica bailada, enquanto o da Ilha caracterizava-se por uma marcação pesada.
Os tocadores articulam os sons nos instrumentos com menor intensidade que no sotaque de matraca [da Ilha], gerando um som mais suave e um pouco mais agudo em função dos seus instrumentos - matracas e pandeirões - serem de menor dimensão que os usados no sotaque de matraca [da Ilha]. (PADILHA, 2014, p. 69).
Nesse sotaque, fazia-se o uso de pandeirões, chocalhos51 (conhecidos
também como campa, badalo ou sinos) tambor-onça e matracas. Assim como no sotaque da Ilha, as matracas eram o eixo de musicalidade, porém observava-se em seus personagens e indumentárias uma rica diversidade. Nos grupos de Bumba-meu-boi de sotaque da Baixada, foram encontrados: boi, Pai Francisco, Mãe Catirina, cazumbás, caboclos ou baiantes, índias, índios, burrinha, amo, entre outras variedades de bichos, como zebra, ovelha e girafa.
A trajetória coreográfica da brincadeira iniciava com uma formação em fila que direcionava os brincantes, conforme caminhavam, a ocupar o espaço circundando o boi, mantendo o fluxo circular até a despedida do grupo.
O boi, localizado no meio desse fluxo, desfilava sua carcaça, intercalando com movimentos circulares da mesma, giros ao redor do eixo e rabadas. Estas caracterizavam-se por um impulso da região traseira da carcaça, chicoteando o rabo do boi. Normalmente, uma rabada era disparada depois dos giros, configurando, também, uma pontuação do movimento do boi.
Neste sotaque, o boi era vaquejado por distintos personagens. Viu-se Pai Francisco, caboclo ou baiante, índia e índio atuando como vaqueiros. Durante a brincadeira, um desses personagens, portando um facão ou um bastão, entrava no meio da roda e dançava com o boi. A ação de vaquejar assemelhava-se àquela do sotaque da Ilha, trazendo um sentido amistoso no guiar e no ser guiado.
51 Manhães (2009, p. 110) diz que o som do chocalho faz a “relação com o divino, pela lembrança dos sinos de igreja e dos ferros utilizados no tambor de mina, uma espécie de alarme”.
Figura 14: Boi do grupo Santa Fé. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
Figura 15: Zebra, ovelha, girafa e seus miolos do grupo Boi Brilho de São João. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
O cazumbá ou cazumba é uma personagem sobrenatural, “uma mistura de homem e bicho” (FURLANETTO, 2010, p. 109). Essa figura era identificada por uma bata que cobria todo o corpo e pelo prolongamento lateral da bacia a partir da utilização de uma estrutura retangular amarrada nesta região, feita de cofo ou papelão. Além disso, tinham uma careta, “de formas antropomórficas” (ALBERNAZ, 2013, p. 13), constituída por uma máscara e uma torre (estrutura acima da cabeça também chamada de altar).
O cazumba pode ser homem, mulher, bicho, espírito ou também não ser nenhuma dessas coisas, ele transita entre essas posições e ocupa um lugar de fronteira, onde as margens e limites não são muito determinados e por isso podemos dizer que ele fica no reino do entre, entre o céu e a terra, entre os deuses e os humanos, são como mensageiros. (MANHÃES, 2009, p. 112).
O movimento dos cazumbás era composto por um pulso pendular lateral (direita-esquerda) da bacia e por um pulso vertical (cima-baixo) de toda a coluna. O pulso final trazia, ao mesmo tempo, lateralidade e aterramento à região do sacro. A bacia do cazumbá apresentava um requebrado. O movimento se integrava a uma caminhada gingada dos pés no chão, pois estes se interligavam ao ritmo imposto pela região sacral. Durante todo o movimento, a postura da coluna apresentava-se levemente inclinada à frente, o que propiciava ainda mais a amplitude e abertura da região sacral. Esses personagens eram responsáveis pelo chocalho, badalando-o junto com o ritmo do corpo. Em sua totalidade corporal, o cazumbá caracterizava-se por um movimento de molejo, formando uma imagem de muita densidade e volume.
Os caboclos ou baiantes eram caracterizados pela utilização de um grande chapéu enfeitado com bordados, penas de ganso e longas fitas de cetim. Usavam calça e camisa, além de colete e saiote bordados como o chapéu, os quais também foram observados na indumentária do amo e dos cantadores, que se diferenciavam dos baiantes apenas pelo modelo do chapéu. O chapéu deste último era um típico chapéu de vaqueiro com bordados e canutilhos pendurados. Enquanto os cantadores eram responsáveis por tocar os pandeiros e o amo portava um grande maracá de metal e apito, os baiantes ficavam a cargo das matracas. Estes apresentavam a postura da coluna levemente inclinada à frente e traziam a pulsação do esterno e as passadas iguais às dos caboclos-de-fita do sotaque da Ilha, configurando uma das matrizes conectada à imagem dos caboclos. Nesse sotaque, essa matriz apresentava-se mais reduzida, dando a impressão de que os brincantes quase não saiam do lugar. Havia uma maior interiorização e contenção em relação ao sotaque da Ilha.
A dinâmica de movimentação das índias e dos índios caracterizava-se por uma matriz de movimento que integrava o pulso vertical da coluna, sendo que um dos pés pisava em contratempo em relação ao ritmo das matracas. A cada pisada, o corpo buscava um maior aterramento em direção ao chão. Eles apresentavam variações dessa matriz com giros ao redor do próprio eixo e, também, dobrando o tempo do movimento em relação ao ritmo das matracas.
Na maioria das vezes, o percurso coreográfico da tribo (índios e índias) durante a brincadeira era circular, porém esse grupo de personagens apresentava, em determinado momento, a formação de uma trincheira, enquanto os cazumbás continuavam com a dinâmica circular, guarnecendo o boi. Em contraposição aos caboclos, as índias e os índios, nesse sotaque, eram os detentores do dinamismo. Eles faziam as energias circularem e ocuparem todos os espaços. Os bichos e a burrinha também eram personagens que dinamizavam o espaço, molejando de um lado para o outro.
Quando o Pai Francisco não estava na relação com o boi ou nos momentos de cortejo do grupo, a movimentação dessa personagem tinha como destaque o manuseio do facão. Ele circulava o objeto sobre sua cabeça, como se o mostrasse para todos. Ele também fazia movimentos de vem e vai, ora com a intenção de amolar o facão, ora com a de esfaquear. Os movimentos do Pai Francisco traziam à tona ações envolvidas com a morte do boi.
Figura 18: Índia vaquejando Boi, grupo Santa Fé. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
. Sotaque de Orquestra
Os bois de sotaque de Orquestra eram maioria nos arraiais em São Luís. O sotaque possuía uma característica marcante de show musical, com uma sonoridade ditada pelos instrumentos de sopro, cordas e percussão. A dinâmica de apresentação era produzida para palco, com a formação de filas de cada um dos personagens, virados para o público, exibindo movimentos coreografados, saltitantes e com índias e índios de corpos exuberantes. A indumentária desses grupos era vibrante, com penas artificiais coloridas e uma alta exposição dos corpos.
As índias foram as personagens que mais apresentaram momentos de relação com o boi. Quando o animal se aproximava de uma delas, esta mantinha uma dinâmica de rodear o boi juntamente com movimentos de fremir dos ombros, indo até o chão com o apoio dos joelhos. A relação entre índia e boi era marcada pela sedução e pelo encantamento. De acordo com Albernaz (2013, p. 18), no sotaque de Orquestra, “as representações sobre o corpo das mulheres parecem se deslocar da significação de fertilidade, para de sensualidade/erotismo”.
O estudo de Padilha (2014) destacou o processo civilizatório ocorrido no folguedo do boi do Maranhão:
[...] as brincadeiras populares passaram por um processo civilizatório para lhes garantir a aceitabilidade pela classe social dominante, o que, no caso do Bumba- meu-boi, vai acontecer com a introdução dos instrumentos de sopro de orquestra. A inclusão dos instrumentos de sopro vai transformar significativamente o folguedo, alterando-lhe a música, que ficará mais parecida com a música ouvida nas estações de rádios [...]. O boi, que apresentava os instrumentos de sopro, também apresentava em sua dança a formação em fila tipo indiana, como ocorre na quadrilha francesa, diferentemente dos outros bois que dançavam em círculo, como os negros e os índios. [...] O Bumba-meu- boi de orquestra é, talvez, o estilo performativo [...] que melhor exprime os desejos de uma sociedade hierarquizada e elitista, que procura símbolos de identificação que são ao mesmo tempo locais e globais (europeus). (PADILHA, 2014, p. 6-7).
Essa ressignificação em busca de aceite social do Bumba-meu-boi reverberou na qualidade dos movimentos corporais relacionados a esse sotaque, pois, de acordo com nosso foco de trabalho, as personagens não apresentavam uma qualidade de movimento expressiva. O estudo de Padilha (2014, p. 11) corrobora nossa observação:
[...] a prática do BMB [do sotaque de orquestra] passou por um processo que o transformou do ato de brincar (comunal, a partir de promessas votivas, onde figuras sagradas eram evidenciadas e reverenciadas) para o ato de dançar (onde a música e a dança são os elementos principais e a figura do sagrado é abandonada).
Figura 22: Boi e miolo do grupo BMB da Lua. São Luís, junho de 2015.
Foto: Mariana Floriano.
Figura 23: Movimento do boi do grupo BMB da Lua. São Luís, junho de 2015. Foto: Mariana Floriano.
. Sotaque de Zabumba
O sotaque de Zabumba possuía uma qualidade musical caracterizada por uma batida volumosa. Os tambores (tambor-onça e tambor de fogo), zabumbas, pandeirinhos de couro e maracás de metal eram tocados de forma a produzir um ritmo acelerado, pulsante, assemelhando-se a um samba. De acordo com Padilha (2014), o uso dos tambores rememora as sonoridades expressas nos terreiros de Mina e, por isso, esse sotaque vem sendo referenciado como o mais próximo das origens africanas.
A sonoridade completava-se com pronúncias dos vaqueiros que rodeavam o boi, parecendo tangê-lo.
A temática preferida pelos grupos do sotaque de zabumba tem sido as atividades que ocorrem nas fazendas de gado. Nelas podem se notar a referência sistemática ao contexto rural, onde o boi é de sobremaneira