De acordo com as teorias econômicas clássicas, fatores típicos de produção são constituídos por mão-de-obra, território, recursos naturais, capital e infra-estrutura; são os elementos necessários à competição. Porter (1989b) afirma que cabe às empresas localizar a fonte de vantagem competitiva não nesses básicos, mas nos avançados, a partir do momento em que o país e as empresas geram fatores de produção sofisticados, como recursos humanos qualificados ou base tecnológica científica. Dentre as vantagens de localização no submédio do São Francisco, defende-se que este vértice do Diamante contribui de forma significativa para o sucesso das empresas lá situadas.
Conforme foi possível verificar, a Região Nordeste do Brasil possui uma característica original e vantajosa: tem o único clima semi-árido tropical do mundo, diferentemente de outras regiões semi-áridas como as localizadas no Chile, México, EUA e Austrália. Isso representa enorme vantagem, pois a constância do calor, a alta luminosidade e a baixa umidade relativa do ar, associadas à irrigação, resultam em condições favoráveis a uma agricultura eficiente. Essa é, pois, a grande vantagem comparativa da região que, explorada de forma racional e comercial, permite maior velocidade no desenvolvimento de cultivos hortifrutigranjeiros, melhor qualidade dos frutos, maior produtividade por área e menor infestação de pragas e doenças; a seca, que sempre foi tratada como um problema, deve ser encarada como vantagem. A Sra. Eliete Antão opina
[...] o Vale provou que o Nordeste é viável. Porque aqui é sertão, e você conseguir fazer o que faz aqui... É uma questão de querer: dos governos quererem fazer alguma coisa mais, melhor. Primeiro se provou que é viável, segundo a terra foi propícia, demais, o clima ajudou bastante a produzir os frutos que são produzidos aqui. De altíssimo nível, a manga do Vale do São Francisco é uma manga aceita em todo o mundo.
A sofisticação dos fatores de produção, representado por aqueles considerados avançados, sob a perspectiva do Modelo Diamante (PORTER, 1989), deveriam constituir
fonte real de vantagem competitiva para as empresas. Em tese, o país não herda, mas desenvolve tais fatores e habilita a empresa à competição internacional. Segundo a perspectiva dos entrevistados, não seria possível que, dado o clima da região, fosse desenvolvida uma fruticultura mundialmente competitiva, caso não houvesse a preocupação constante na melhoria tecnológica de produção e aproveitamento dos fatores já disponibilizados pelo ambiente natural, a exemplo das características climáticas e mão-de- obra. Na descrição das fases e eventos que compuseram a trajetória internacional da empresa, como exemplo, têm-se como fator básico de produção a água do Rio São Francisco e o avançado constituído pelos projetos de irrigação. E isso é em benefício da indústria do submédio, em detrimento de iniciativas empresariais isoladas.
O pólo em estudo, como visto anteriormente, é referência mundial na exportação de frutas, em especial de manga e de uva. Este fato isolado já fomentaria o questionamento acerca de quais atributos nacionais, regionais ou locais a indústria faz uso para tornar-se competitiva, independentemente das empresas que o compõem. Segundo o sr. Aristeu Chaves Filho, “primeiro, existem as vantagens comparativas; esta é a proposta fundamental, porque as vantagens comparativas, você não vende, nem troca – existem.”. As empresas, segundo a declaração do executivo, descobriram que poderiam produzir suas frutas nos doze meses do ano; conseqüentemente, essas trabalhariam dentro dos períodos apresentados pelas janelas comerciais. Em outras palavras, é possível a área técnica produzir exatamente o que a área comercial diz e quando fazê-lo, uma vez que há o domínio da programação genética das frutas, por meio da indução floral. Acrescenta ainda que “como nós podemos produzir 12 meses por ano, pensamos ‘o foco é a área comercial, usemos toda a tecnologia para fazer isso’”.
As vantagens comparativas levaram as empresas a serem competitivas internacionalmente. Isto ficou evidente na produção da uva sem semente naquela região. Em nenhum lugar do mundo era possível produzir a fruta no semi-árido, condição muito mais adversa do que em climas temperados, sendo estes de produção mais fácil e barata. O sr. Aristeu Chaves explica:
[...] voltemos à história da vantagem comparativa. Eles têm uma uva perfeita, mas são estáticos, só produzem aquele mês ali e deixa os outros para a gente produzir. Um grupo paga em uma caixa de uva sem semente ao chileno, 16 euros. Pagam a nós 38. Ou ele paga 38 ou não tem uva. Então esta é a base do Grupo. Por exemplo, a manga. Temos a indução floral aqui. Aprendemos que o excesso de água e a falta provocam o mesmo stress. O México é o maior exportador de manga do mundo. É o periodozinho dele. Não sai dali. (grifo do entrevistado).
Um outro fator de produção citado, além do clima e do sol, é a “água do São Francisco; pouca gente sabe, mas é a segunda melhor água para consumo humano do mundo”, afirma o sr. Aristeu Chaves Filho. Pode-se inferir que as vantagens comparativas são utilizadas para o aprimoramento do diamante nacional; ao contrário do cultivo da manga, o clima semi-árido como fator de produção não ajuda tanto a produção de uvas, mas a ausência de variações ao longo do ano, contribui positivamente.
No entanto, se por um lado o ambiente natural representa uma fonte de vantagem competitiva, alavancando a partir do vértice condições dos fatores o diamante da indústria da fruticultura do submédio, por outro deixa as empresas vulneráveis às intempéries climáticas. Ainda que esta desvantagem seja esperada pelas empresas e fomentem o investimento em tecnologia para contorná-la (a exemplo da modernização do packing house), suas variações são imperativas e, por vezes, imensamente danosas. Acerca deste aspecto, a Sra. Lúcia Andrade comenta que:
[...] o clima ajuda. Só que devido ao fator estufa, a natureza às vezes dá um boom; fica difícil fazer previsões, se está quente, frio... Esse período, o clima, aí a gente ta falando de 99, 2000, com o fenômeno el niño foi ruim, com a la niña foi ruim. Qualquer mudança afeta, e principalmente em uma atividade como essa, é muito sentido. [...] prejudica, fica muito úmido, estoura os fungos e as pragas, estoura a uva, e compromete a qualidade. Mas assim, se você (pesquisadora) me perguntar quais a fases piores... A melhor foi quando eu entrei aqui, em 93, 94, 95, era uma maravilha.
Ainda assim, afirma-se que o vértice do Diamante “fatores de produção” é o mais importante, dentre aqueles que compõem o modelo, para estimular a competição das empresas da fruticultura no ambiente internacional. Na primeira fase apresentada, ressalta-se que tão somente quando os projetos de irrigação começaram a apresentar resultados, teve-se registro da atividade empresarial na área de exportação de frutas. Antes desse momento, apenas os colonos dedicavam-se à produção e esta era essencialmente voltada ao abastecimento do mercado brasileiro e à cultura de subsistência. Nas seguintes, percebeu-se que os fatores de produção, sejam os básicos como a interferência climática, ou avançados representados pelos projetos de irrigação, mão-de-obra especializada, pesquisas e tecnologia de produção, permitiram a consolidação da atividade no exterior. Não é possível visualizar um momento onde este vértice teve sua importância reduzida; o que ocorre é que começaram a aparecer outros fatores decisivos, a partir da intensificação da concorrência, no início da década de 90. Tais fatores são fortemente alicerçados nos preceitos dos recursos competitivos, a exemplo da competência empresarial e habilidades de negociação e o papel da liderança. Afirma-se, contudo, que o ponto de partida para que esses recursos tenham efeito são os determinantes da
vantagem competitiva nacional e em especial as condições dos fatores. Estes se apresentam, portanto, como condição sine qua non; suficiente até o início dos anos 90 e complementar a partir deste momento, mas continuamente presentes.
Posteriormente, essa discussão será resgatada no momento em que a análise da internacionalização da empresa for observada a partir da perspectiva dos três modelos conjuntamente. A próxima seção refere-se às condições da demanda e seus efeitos sobre a competição das empresas que formam o submédio.