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Melissa [Mabel Cezar] faz uma prece a Santo Antônio para que um homem seja ―arranjado‖. Em dado momento, o santo [Fábio Porchat] surge em cena e pede para ela tirar a camisola. Melissa, assustada, indaga sobre aquela atitude. Santo Antônio explica que não conseguiu ninguém para transar com Melissa e, por esse motivo, ele mesmo fará o ―serviço‖ para acalmá-la e ganhar uns ―três meses de folga‖. Melissa pensa bem e, por fim, concorda em transar com o santo. É quando ela exclama: ―ai, meu Deus‖. Sentindo-se convocado, Deus [Rafael Infante] surge de uma nuvem de fumaça para participar do ato, mas, após os créditos finais, aparece envergonhado por não ter conseguido transar com a mulher devido a problemas de ereção causados por estresse.

O título do vídeo evidencia que a produção faz referência a Antônio de Lisboa, frade franciscano, notável intelectual europeu do século XIII, canonizado pela Igreja Católica logo após a sua morte, em 1232. Santo Antônio ficou conhecido como ―santo casamenteiro‖ devido à forma como ajudava mulheres na busca por maridos. Diante dos casos bem sucedidos, passou-se a crer que Santo Antônio é poderoso para por um fim à solteirice e, até hoje, é lembrado como tal e devotado por uma série de pessoas, sobretudo mulheres à procura de um par amoroso.

A descrição nos ajuda a entender que o posicionamento adotado no vídeo em questão é semelhante ao posicionamento do último vídeo. O texto da descrição indica que a crítica está concentrada na relação utilitarista de alguns fiéis com a religião. De maneira específica, a descrição ironiza os pedidos por sexo e por bons casamentos. Vejamos:

Vida de santo não é fácil. Fora os percalços e sacrifícios que ele passou em vida, o cara não tem paz nem na morte. Ele mal chega no céu e já começam as cobranças e pedidos de favores. Mas o pior mesmo deve ser pra Santo Antônio. No desespero tem gente que até o faz de refém de cabeça pra baixo num copo d‘água. Mesmo sobrando homem e mulher no mundo tem gente insatisfeita cobrando o santo por um amor. Pra dar conta do recado tem vezes que vale a máxima de: se você quiser que um trabalho seja bem feito, faça-o você mesmo.112

Esse é o menor vídeo do nosso corpus de análise, cujo roteiro é de autoria de F. Porchat. O cenário é o quarto de Melissa, sem elementos de destaque. A mulher está vestida com uma regata branca com estampas de pequenos gatos pretos, um sutiã preto

que transparece abaixo da regata, possui cabelos curtos e penteados, usa brincos e colar. Santo Antônio está vestido como na representação adotada pela igreja católica: um hábito monacal marrom com uma corda amarrada na cintura e pouco cabelo em volta de uma careca que cobre toda a parte superior da cabeça. Deus, por sua vez, veste-se como no último vídeo, ou seja, túnica bege sem detalhes, cabelos e barbas longos e grisalhos.

Santo Antônio tem pressa em atender Melissa e demostra isso tanto com gestos quanto com palavras. O personagem possui fala rápida, é impaciente e se utiliza de um vocabulário chulo para convencer Melissa a transar com ele. A mulher, ao contrário, não compartilha da pressa de Santo Antônio e utiliza os braços para evitar os ataques do santo casamenteiro. Deus, que aparece por poucos segundos no fim do vídeo, não gesticula com os braços. O foco está na expressão facial de Deus, que insinua sexo libertino e que a mulher deva ser tratada como um objeto na cama com dois homens de uma única vez. No início do diálogo entre os personagens, vemos:

[0:00 – 0:11]

MELISSA: Santo Antônio, atende as minhas preces. Eu quero um homem na minha vida. Eu estou há tanto tempo sem ninguém.

[S. Antônio surge do meio de uma nuvem de fumaça] S. ANTÔNIO: Vamos lá. Vamos, tira essa camisola aí. MELISSA: O que é isso?

S. ANTÔNIO: Vamos... Vamos transar. MELISSA: O que está acontecendo aqui?

O questionamento de Melissa é facilitador para a análise. Ao indagar ―o que está acontecendo aqui‖, a personagem permite que entendamos a lógica operadora do vídeo, que é, a propósito, a mesma lógica da última produção analisada. De início, uma fiel está ajoelhada aos pés da cama para uma prece e, de repente, um clarão de luz rompe a normalidade e introduz na cena a entidade para qual a prece é dirigida. Através desse artifício, o canal faz humor ao imaginar de forma literal como determinadas entidades são receptíveis aos problemas de seus devotos.

Em cena, Santo Antônio é representado como um santo completamente fatigado e estressado com os inúmeros pedidos por parcerias sexuais e com o grau de exigência de suas devotas. O resultado é visto no comportamento da santidade que, para se ver livre por algum tempo, vê-se obrigado a transar com Melissa. Tal é o artifício cômico do vídeo: a redução. A leitura do pedido de Melissa é redutora na medida em que tudo é

entendido como mera falta de sexo. Através desse artifício cômico, o vídeo tece uma sátira irônica acerca do conteúdo de orações em torno de interesses pessoais, como a de Melissa. Na sequência final, Melissa aceitar transar com Santo Antônio e, após dizer uma expressão trivial, outro ser sobrenatural surge em cena. Vejamos:

[0:39 – 1:13]

MELISSA: Tá bom. Ai, Meu Deus... S. ANTÔNIO: Ah, chamou ele veio.

DEUS: Hum, gosta de um ménage, né, safada?

[CRÉDITOS FINAIS. O vídeo volta e mostra Deus inconformado] S. ANTÔNIO: Isso é normal. Acontece

DEUS: Acontece, mas nunca aconteceu comigo.

S. ANTÔNIO: Eu sei, mas é muita coisa nas suas costas, para um cara só. MELISSA: Você precisa de um tempo? Você precisa de um ar?

DEUS: Não. Eu acho que eu preciso elaborar tudo isso, entendeu? É guerra, Ucrânia, ebola, é Gaza, é Malafaia... Tudo pra uma pessoa só dar conta. Preciso colocar pra fora, explodir, gritar...

S. ANTÔNIO: Isso. De vez em quando eu acho que tem que dar umas dessas.

Deus é acionado para dar continuidade ao caráter literal e redutor empregado à prece de Melissa. A produção apresenta Deus que [também] trata a situação de forma libidinosa, mas que se esgota frente a tantos problemas e demandas individualistas. Posto isso, o vídeo em questão é uma crítica satírica à forma como a religião é instrumentalizada e individualizada. No fim, a fé de Melissa não é uma fé transcendental, ao contrário, é um recurso utilizado por Melissa para atender assuntos de interesse próprio.

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