O Seminário Seráfico Santa Maria foi projetado, como afirmamos acima, na intenção de centralizar e dar uma formação mais completa aos jovens recrutados nos estados do Paraná e Santa Catarina. Grande parte destes jovens eram provenientes das paróquias atendidas pelos freis, localizadas no Oeste de Santa Catarina, sudoeste e norte do Paraná. A meta era a composição de um quadro de frades suficientes para dar suporte canônico para ereção de uma província da Ordem no Estado do Paraná262.
262 De acordo com o Código do Direito Canônico, Cân. 621, Livro II, parte III. “dá-se o nome de província à união de mais casas que, sob o mesmo superior, constitua uma parte imediata desse instituto e seja
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Em Irati, região Sudoeste no Paraná, os Capuchinhos chegaram em 1948, com o propósito de assumir o trabalho pastoral na Paróquia Nossa Senhora da Luz263 e também buscavam um local para construir um novo seminário. A localização geográfica de Irati, aliada a estrada de ferro e o fator econômico foram importantes para a construção do seminário nesta cidade.
A fundação da cidade de Irati tem fortes laços com a inauguração da estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Nos finais do Império e início da República, o Paraná recebeu grande investimento federal que visava ligar o estado em outros ramais para o transporte de produtos das regiões por meio da ferrovia.
No complexo jogo do mercado internacional, o centro sul do Brasil dependeu desde o século XIX, do café e o Paraná da erva-mate. Na medida em que o modelo correspondia aos anseios internos, gerando riqueza, a produção foi-se avolumando. Sob impulsos de técnicas rotineiras e tradicionais, a erva-mate revelou-se abrangente, acompanhada de outro extrativo – a madeira, desde a região tradicional, Oeste até chegar ao Norte264
Na pesquisa realizada por Demczuk sobre o patrimônio cultural ferroviário em Irati, a autora destaca que a estrada de ferro São Paulo-Rio Grande foi o que impulsionou o progresso populacional na cidade, já que para construir a ferrovia muitos imigrantes recém-chegados no Brasil foram trabalhar naquela localidade. Planejada pelo governo de Dom Pedro II por meio do decreto no 10.432 de 09 de novembro de 1889, a linha ferroviária de Irati foi inaugurada em 1899, ou seja, dez anos após o decreto265. Com a inauguração, os agricultores transformaram o local em ponto de convergência, onde “grande número de carroças, carregadas de erva-mate, madeira e produtos agrícolas, começou a competir para expedir sua carga, levando em troca os gêneros que não
canonicamente erigida pela legítima autoridade”. A ereção da Província São Lourenço de Brindes dos freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina aconteceu canonicamente em 1968.
263 A paróquia de Irati, enquanto capela Nossa Senhora da Luz, esteve subordinada de 08/09/1904 a 11/03/1931 à Paróquia de Imbituva. A 25 de julho de 1926 procedeu-se o lançamento da pedra fundamental da futura Matriz e a 11 de março de 1931 foi elevada à condição de Paróquia, decreto nº 01 de Dom Antônio Mazzarotto, primeiro Bispo da recém criada Diocese de Ponta Grossa. Disponível em:
http://www.diocesepontagrossa.com.br Acesso dia 07 de nov. De 2015.
264 KROETZ, Lando Rogério. As estradas de Ferro do Paraná 1880-1940. Tese (Programa de Pós- graduação da Universidade Estadual de São Paulo). Universidade Estadual de São Paulo. São Paulo. 1985, p. 11.
265 DEMCZUK, Paula G. Ferrovia e Turismo: reflexões sobre o patrimônio cultural ferroviário em Irati (Pr). Dissertação (Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa). Universidade Estadual de Ponta Grossa. Ponta Grossa/Pr, 2011.
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dispunham”266. Isso fortaleceu o comércio local e transformou o pequeno povoado em promissora cidade.
Outro fator importante para a construção do seminário em Irati foi o econômico. Toda a área, em torno de 18 alqueires, e também os tijolos, foi uma doação oferecida pela família da Senhora Olívia Maria Anciutti Grácia (dona Mariquinha). Já o projeto arquitetônico do prédio foi de autoria de frei Luiz de Bassano, tendo a frente da construção frei Patrício Kodermaz.
Balizado pela formação disciplinar, intelectual e religiosa, no Santa Maria foram formados cento e vinte e cinco frades capuchinhos, tendo passado pelo seminário uma média de mais de dois mil alunos. Por mais de trinta anos, até o encerramento das atividades em 1987, o Santa Maria foi o principal local de formação da Província dos Capuchinhos para admissão e preparação à vida religiosa.
A herança tridentina, concebida por Bencostta267 como um modelo de formação sacerdotal que aliava a rigidez disciplinar pela via da moral e dos estudos, predominou nos seminários pelo Brasil e também no Seminário Santa Maria. Memórias desta prática podemos perceber na entrevista abaixo de um ex-aluno:
Estava no Seminário [Santa Maria] e o pregador do retiro foi frei Salvador. Um frade austero, alto, falava bem (imitando a voz grossa do frade), uma voz grave. E nós, toda aquela piazadinha reunida no salão, e ele em cima do palco, armou um caixão, botou 4 velas, sentou na mesa, acendeu as velas, apagou as luzes. Chegou lá a noite, já era inverno como agora, batia no caixão ( imitando com a boca o barulho e fazendo o gesto): quem está ai? Quem que tá, não responde? Como que foi a tua vida? e vai e vai e vai. Você sabe que se estiver no inferno por ter cometido um pecado mortal, inferno nunca acaba? Você quer ter uma ideia do que é o inferno? Pense numa pombinha que esta lá no céu. A cada 100 anos ela vem de lá, pega um grãozinho de areia e leva embora. Vai levar toda a terra embora e o inferno esta ainda no começo. Bom, como a gente ficava? Acabou a conferência era aquela fila enorme no confessionário, todo mundo no confessionário porque todo mundo tava em pecado mortal e o pecado mortal era qualquer bobagenzinha. Um pensamento. Um pensamento, consenti ou não consenti? por via das dúvidas é melhor confessar porque se eu morrer nesta noite eu vou pro inferno. Quando eu fui pro noviciado, primeiramente cheguei no quarto, luzinha fraca lá em Barra fria [Santa Catarina], malemá dá pra ler. De noite
266 LUZ, Coaracy. E. Rede e Região – desmistificação do determinismo tecnológico: o caso da linha férrea Ponta Grossa – União da Vitória nos campos Gerais/Mata de Araucária (PR). Dissertação (Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Paraná). Universidade Federal do Paraná. Curitiba. 2006, p. 120.
267 BENCOSTTA, Marcos Levy Albino. Cultura escolar e história eclesiástica: reflexões sobre a ação romanizadora pedagógica na formação de sacerdotes católicos e o seminário diocesano de Santa Maria (1915-1919). Cadernos Cedes, ano XX, n 52, novembro/2000. Disponível em
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dormindo, pesadelo vendo o demônio em cima da janela que queria me levar. Isso me prejudicou muito, essa parte foi extremamente negativa, formação espiritual, embora tenha aspectos bons não é?268
Outro aspecto da herança tridentina era incorporar uma proposta de pastoral pedagógica à organização do espaço, o que exaltava a sacralidade do lugar, representado pela centralidade da capela no edifício, além do seu caráter supervisionado269. A imagem abaixo, uma fotografia aérea da década de 1980, demonstra que o estilo arquitetônico do prédio exaltava um modelo de sociedade disciplinar onde os futuros padres ali educados seriam os seus líderes.
Fotografia 1: Vista aérea do Seminário Seráfico Santa Maria de Irati/PR.
Fonte: arquivo da cúria provincial dos freis Capuchinhos do Paraná-Santa Catarina.
Este método de isolar da convivência social e familiar era visto como essencial para formar o padre, como podemos ler na instrução aos diretores, escrito em 1893 pelo
268 Entrevista concedida por BONASSI, Nelson. [julho 2016]. Entrevistador: Edson C. Guedes. Florianópolis, 2016. 1 arquivo mp3 (...minutos).
269 No artigo de Tagliavini sobre os seminários tridentinos no Brasil, o autor descreve sua experiência em visita aos prédios de antigos seminários mineiros, como de Mariana e Caraça e relata por meio de sua percepção, um ambiente rigidamente controlado. Este controle era exercido pelos superiores, seus ajudantes ou mesmo pela internalização de temas vocacionais espalhados pelos prédios como por exemplo: cartazes sobre a boa vocação, imagens de Santos, etc. TAGLIAVINI, João Virgílio . Os
seminários tridentinos no Brasil: escolas para formação do clero. Disponível em
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ministro geral Bernard de Andermatt:
Como os Seminários foram instituídos para dar uma educação clerical às crianças antes que sejam infectados pelos vícios do mundo, e para introduzi-los gradualmente nos estudos eclesiásticos, assim a primeira finalidade das Escolas Seráficas é preservar do contágio do mundo e educar cristãmente as crianças que oferecem alguma esperança de vocação religiosa. A segunda finalidade é dar as bases daqueles elementos que precedem o estudos das Ciências Sagradas. Esse estudo é necessário para abrir as mentes das crianças, amadurecer a vocação e provar a aptidão ao estudo270.
Por isso o seminário foi construído a uma distância segura da cidade de Irati de 10 quilômetros, na zona rural, numa localidade chamada Riozinho.
Apesar do processo de romanização teoricamente ter encerrado com o Concílio Vaticano II, a geração educada nos Seminários Seráficos foi fortemente influenciada pela noção de sociedade perfeita. De acordo com Sebim, essa noção exigia a “negação do mundo e requeria que os membros de ordens religiosas adotassem pseudônimos. Muitos seminaristas usavam a tonsura. Em suma, a Igreja e seus seminários punham-se acima da história”271.
Estes sinais da identidade religiosa anteriores ao Vaticano II como a tonsura, os pseudônimos, a barba longa e o uso do hábito franciscano foram, entre os Capuchinhos, de maneira geral suprimidas logo após o encerramento do Concílio e a maioria dos frades logo deixaram de usar, mas não sem resistências de alguns frades. Em 1968, o então ministro geral frei Clementino de Vlissinger (1958-1970) em visita aos frades da Província São Lourenco de Brindes do Paraná-Santa Catarina, deu a seguinte recomendação:
Parece-me que que a decisão nesta matéria pertence em primeiro lugar ao ministro provincial. Nada tenho ao contrário quando em determinada região, dentro deste princípio, se desse liberdade aos indivíduos. Desta maneira, numa mesma província, podem existir frades com hábito e frades sem hábito, frades com barba e frades sem barba. Isto eu aceito quando os superiores acham a melhor solução. No entanto, é de primeira necessidade que exista grande respeito entre de ambas as partes. Do contrário começarão os partidos e consequentemente a ruína da província272.
270 ANDERMATT, Bernard Christen de. Instrução para os responsáveis pelas Escolas Seráficas. Roma, 1893, p. 04.
271 SERBIM, Kenneth. Padres, Celibato e conflito social: uma história da igreja católica no Brasil. Trad: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das letras, 2008, p. 117.
272 Entrevista concedida por VLISSENGER, Clementino de. [fev. 1969]. ATOS da Província São Lourenço de Brindes, Abril/Setembro de 1969, n. 2, p. 200.
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Estas e outras mudanças tornaram-se focos de tensões na reconfiguração das identidades em questão, uma vez que não eram consensuais. Veremos de que forma as transformações advindas das mudanças propaladas pelo Concílio, tanto as relacionadas à formação quanto as relacionadas a vida dos frades, foram recebidas e de que maneira elas aparecem nas situações cotidianas do Seminário Santa Maria.
4.2 (RE)INVENÇÃO DO COTIDIANO NO SEMINÁRIO SANTA MARIA: TENSÕES NA TRANSIÇÃODOMODELOTRIDENTINOPARAOVATICANOII.
As fontes alusivas ao Seminário Santa Maria (atas do seminário, livro tombo, conclusões do capítulo, jornal da Província dos freis capuchinhos do Paraná-Santa Catarina (Atos), crônicas da fraternidade do seminário) nos fornecem algumas informações a respeito do seu cotidiano e as tensões geradas pela necessidade de adequar-se às novas diretrizes da Igreja relacionadas `a formação inicial ou a vida dos frades já professos na Ordem.
De acordo com Certeau, as interações sociais relativas às operações dos usuários, revelam que eles, neste caso frades e seminaristas, não foram consumidores passivos das transformações advindas de instâncias superiores, mas firmaram estratégias e táticas que revelam um campo de disputas em torno das identidades sacerdotal e religiosa. Da mesma forma que a relação dos consumidores com os produtos não se baseia simplesmente numa aceitação serena das imposições que tal produto enquadra, a fabricação de um consumo próprio da nova legislação advinda do Concílio fez com que as
maneiras de empregar tais recomendações no cotidiano tivesse seus próprios
procedimentos273. Ou seja, é nas relações cotidianas que podemos perceber de maneira mais concreta o como se deu das normas e determinações nas práticas diárias.
Na intenção de analisar tais procedimentos e consumos próprios a partir das fontes acima elencadas, dividiremos a seção a partir de três elementos que são constantes nas fontes e tornou-se parte das práticas educacionais na Província São Lourenço de Brindes:
a) As transformações dos métodos educativos, especialmente os de caráter disciplinar;
273 Os termos em itálico neste parágrafo refere-se a expressões utilizadas por Michel de Certeau em sua obra A invenção do cotidiano. Artes de fazer. 22a edição, Petrópolis: Vozes, 2014.
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b) A proposta de desclericalização da formação na Ordem; c) A automanutenção do seminário;
4.2.1 Por uma nova modalidade educativa no seminário: do disciplinamento para uma