A finalidade desta pesquisa era promover uma discussão em torno das questões “estabelecidos-outsiders”, mas, acima de tudo, sobre os apontamentos e as considerações que foram surgindo, como respostas, na medida em que fomos caminhando esta pesquisa junto às entrevistadas que muito contribuíram para os resultados apresentados.
A primeira questão: Existem conflitos entre os grupos? buscou-se evidenciar, não somente a existência de conflitos entre os grupos de educadoras e PDI, mas a forma em que os conflitos aconteciam comprovando que o estudo de Elias e Scotson (2000) acerca das categorias estabelecidos e outsiders, se definem na relação que as nega e que as constitui como identidades sociais. Os indivíduos que fazem parte dessas escolas estão ao mesmo tempo unidos, mas também separados por uma relação de interdependência grupal.
Comprovada e exemplificada a existência de conflitos, tornou-se evidentemente necessário a exposição de dados que expunham tal forma, daí surge, de forma mais clara e consistente, respostas para a segunda questão:
Quais os mecanismos utilizados pelos grupos para concretizar os conflitos?
Esta questão foi essencialmente a base que estruturou toda a pesquisa, pois foi a partir deste questionamento que conseguimos juntar dentro de um emaranhado de acontecimentos e de opiniões, algumas categorias, que foram
118 divididas em quadros. Esses quadros geraram uma visão geral, e ao mesmo tempo detalhada, sobre algo tão complexo que é a relação de poder entre os dois grupos estudados. Pode-se constatar que a superioridade social e moral, o pertencimento e a exclusão, são elementos da sociedade que formam e exemplificam as relações de poder exercidas entre os estabelecidos e os outsiders na esfera social.
Esse ponto nos levou a compreendermos a terceira e última questão:
Das irregularidades do sistema de funcionamento, o que gera conflito entre os grupos?
Para responder a essa questão, apresentamos a figuração do sistema da Educação Infantil na cidade de Ribeirão Pires, como sendo parte de uma nova realidade e, dentro desta realidade, através da observação e das entrevistas com as educadoras e PDI foi possível compreender nos apontamentos e considerações, o porquê da existência dos conflitos, e como os mesmos ocorrem.
O relacionamento conturbado pode ser considerado o produto final, fruto das condições de trabalho e da forma como são encaminhadas as situações de desajustes, que surgem na coexistência dos grupos no espaço escolar, ou talvez nos expressaríamos melhor, se nos colocarmos da seguinte forma: da falta de encaminhamento das situações de conflitos que surgem, no espaço escolar, o que apontamos como sendo baixa burocratização.
De acordo com os dados apresentados, constatou-se, que nos conflitos existentes entre educadoras e PDI, a tradição foi uma ferramenta muito útil, para as educadoras, que se mantiveram como grupo estabelecido, no domínio do espaço, e até mesmo na forma de conduzir os afazeres no dia a dia, durante um curto espaço de tempo, durante a coexistência com as PDI. A formação das PDI pode ser igualmente, considerada a ferramenta que auxiliou a transposição da posição de outsiders para a de estabelecido, pois se percebeu que a tradição, expressa pelas educadoras, não pode sustentar por muito tempo o peso do sentimento de desvalorização apontado pelas educadoras, principalmente quando se refere a desvalorização salarial.
A diferença salarial aparece como pivô dos conflitos, e embora não recaia sobre as PDI, a responsabilidade por está disparidade de salário entre educadoras e PDI, nota-se que, talvez pela falta de oportunidades e até mesmo de força organizada para reivindicação direta à prefeitura, por melhores condições salariais, o meio encontrado pelas educadoras para manifestar suas insatisfações, sejam os meios de resistência e negação de algumas atribuições que elas julgam não lhes serem cabíveis, e até mesmo porque, alegam em muitas das suas falas, não terem formação, para exercerem, as mesmas, este meio de encontrado pelas educadoras, geram em parte, os conflitos entre os grupos.
Verifica-se que tanto educadoras quanto PDI apresentam-se insatisfeitas com as condições de trabalho devido a vários fatores aqui apresentados e, muito embora fique claro as vantagens das PDI, sobre as educadoras, devido a posse do diploma em nível superior, nota-se que não há grandes perspectivas de permanência na prefeitura de Ribeirão Pires. Tanto educadoras como PDI almejam melhoras e admitem reconhecer a deficiência da Prefeitura, no trato com seus estatutários.
Pareceu-nos, que as relações sociais e de poder no espaço escolar, entre educadoras e PDI, são partes da figuração geradas pelas reformas, mas também são partes das figurações configuradas, e preenchidas de sentimentos e expressões dos próprios sujeitos envolvidos, nos processos de construções e descontração dos espaços coletivos; E são nestes espaços que os sujeitos se deparam ou estabelecem relações de dependência, e estas ligações nem sempre são afetivas, principalmente quando há jogo de interesses, em que grupos tendem a disputar espaços ou posições de poder, onde possam ditar e criar suas próprias regras, mesmo que não sejam legais, mas que façam valer a honra do grupo, já que muitas das vezes o sistema não dá conta ou não conseguem respaldar e avaliar o trabalho que está ou deveria estar sendo desenvolvido.
É com esta preocupação, de que o trabalho do agente da educação, seja ele qual for, é de muita importância para o desenvolvimento educacional, que pausamos esta discussão (que certamente não se encerra), atentando
120 para o fato de que, “se nas relações de poder entre os grupos, os sujeitos envolvidos entram em confrontos, gerando mal estar, não estaria a qualidade do trabalho também comprometida?”