Selecting Representative Data Sets
3. Data splitting
A região amazônica tem vivenciado intensos processos de colonização em diversos tempos históricos, intensificados especialmente a partir da segunda metade do século XX, através da política de incentivos do Governo Federal.
É notório que esses processos foram facilitados e orientados com a abertura da rodovia Belém-Brasília, iniciada em 1956, e que tinha como meta “integralizar a região amazônica com as demais regiões do país”, intensificando-se no Governo Emílio Garrastazu Médici, a partir de 1970, sob a promoção do Programa de Integração Nacional (PIN) – o êxito do projeto significava a solução dos problemas de “homens sem terra” nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do país, ocupando “terra sem homens” na Amazônia. A propaganda de integralização regional tinha como base “a situação insustentável de milhares de agricultores pressionados pela crescente concentração da terra nas regiões de mais denso povoamento, como Nordeste, Paraná, Espírito Santo” (HÉBETTE, 2004, p. 333).
Entretanto, a abertura das estradas não foi fator determinante para a colonização na Amazônia. Documentos históricos e dados etnográficos revelam que os fluxos migratórios de grupos de camponeses e os sucessivos confrontos com povos indígenas antecedem as datações oficiais (IANNI, 1978; MARTINS, 1980; VIEIRA, 2001).
A Amazônia Oriental tem se constituído em lugar de projeção de sonhos e esperanças para migrantes vindos de todos os lados, especialmente nordestinos. No inicio do século, a exploração da borracha, que se fez em grande parte com a mão de obra nordestina, se apresentou como uma alternativa para aqueles que viam esgotadas as possibilidades de sobrevivência na região de origem. O garimpo de cristal em Goiás atraiu muita gente na década de 30 e 40. O povoamento de Tocantins, sul do Maranhão, sul do Pará, se fez principalmente por piauienses, cearenses, baianos. Para os sertanejos nordestinos, a Amazônia era sinônimo de mata,
de verde, contraposta à sequidão do sertão, possibilidade de plantio, de fartura. Nesta perspectiva, famílias inteiras migravam contando com a possibilidade de se apropriarem de áreas que, em princípio, não interessavam aos grandes donos de terra. Mataria bruta, sem sinal de cristão, onde se tinha que enfrentar feras e índios, onde era necessário amansar o lugar. (VIEIRA, 2001, p. 111)
A partir do entendimento desse contexto histórico e dos seus efeitos no imaginário e na constituição dos conflitos ocasionados pela disputa entre esses atores pelo direito à terra, procuro analisar os enfrentamentos e confrontos ocorridos, especificamente na região do Araguaia paraense e matogrossense, entre as décadas de 1970 e 1980, para pensar suas repercussões na constituição do campesinato regional, bem como as diversas relações travadas entre castanheiros, seringueiros, garimpeiros, indígenas, posseiros, latifundiários, Estado e mediadores.
Tentarei contextualizar essas dinâmicas sociais, a partir da identificação e análise de narrativas (rituais) em torno de líderes sindicais e agentes pastorais assassinados em conflitos fundiários, qualificados como mártires da terra e/ou encantados. Experiências etnográficas na Romaria dos Mártires, realizada no nordeste do Mato Grosso em julho de 2011, revelaram outras traduções para este termo, reconhecidamente entre povos indígenas que nomeiam lideranças indígenas mortas como “irmãos de luz” e/ou “encantados”.
Com isso, procuro compreender também os efeitos das imagens e dos sons na constituição dessas “sociedades inacabadas” construídas às “margens das margens” do campesinato brasileiro, olhando e ouvindo (ou pelo menos tentando) os gritos, os ruídos e os silêncios desses (nesses) espaços de luta, tensão, mediação e intermediação performáticas (TURNER, 1986; 2005; 2008; CICCARONE, 2003; DAWSEY, 2005; 2006), construindo uma etnografia da violência na/da Fronteira amazônica e contribuindo para o entendimento das diversas bifurcações dos atores ainda em construção numa zona de conflito de racionalidades, interesses e identidades.
Considerando, neste exercício, argumentos já formulados, que alertam para a constituição da fronteira e das articulações que a definem e compõem sua dinâmica, Henchen, Lima & Rodrigues, ao discutirem as subjetividades do campesinato
regional, afirmam que “por trás das narrativas é possível perceber, embora de forma tímida, as marcas das trajetórias, dos pertencimentos, dos dilemas vivenciados” pelos sujeitos deste campesinato, que “definem as bases de sustentação econômica e política da formação regional” (2005, p. 09).
No primeiro capítulo, discutirei as articulações dos agentes mediadores em conflitos agrários frente aos aparelhos do Estado, apontando para os reflexos e efeitos de enfrentamentos históricos entre atores regionais na formação de lideranças populares e das identidades do campesinato na Fronteira amazônica, sobretudo a partir das relações entre índios, camponeses, latifundiários, Estado e Igreja Católica pós-1970. Busco mapear espaços de violência no campo na região do Araguaia paraense e matogrossense, para pensar as lutas pelo reconhecimento de direitos sobre a terra e uso de recursos naturais, que se configuram enquanto estratégias (im)pertinentes de mediação em espaços de tensão e resistência.
Em seguida, no capítulo 2, atentarei para as traduções de símbolos e signos ritualísticos que perpassam os eventos de sacralização dos agentes pastorais, lideranças sindicais, camponesas e indígenas, e religiosos assassinados em regiões de intensos conflitos fundiários no Brasil, voltadas para a reflexão sobre o sentido dessas mortes na fundamentação de narrativas de luta e resistência dos agentes de mediação e dos coletivos. Das leituras dos rituais de santificação dessas lideranças – os Mártires da terra –, e das peregrinações decorrentes desses acontecimentos – as Romarias dos mártires da caminhada –, nas quais procuro aproximações etnográficas dessas figuras emblemáticas. O intuito é pensar os atos de ritualização e sacralização desses líderes, e as potencialidades das suas imagens e das narrativas dos enfrentamentos em defesa do grupo e dos projetos coletivos nas práticas de agenciamento.
Finalmente, no terceiro capítulo, investi na biografia de Raimundo Ferreira Lima (Gringo) e Francisco de Assis Araújo (Xicão Xukuru), com o objetivo de mostrar de que forma os líderes “mortos” estão ainda presentes entre os camponeses e os indígenas, seja através das suas imagens que acompanham toda a peregrinação, ou das narrativas sobre suas trajetórias, que começam no momento do engajamento político e da sua formação enquanto liderança, mas não terminam com o advento da
morte. Passo a mostrar, a partir de painéis com imagens dessas lideranças, a eficácia da linguagem visual como expressão de pertencimento e materialização da memória desses grupos de castanheiros, seringueiros, garimpeiros, posseiros, colonos e indígenas, entre outros.