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Em 1815 Andrada e Silva considerava que a área florestal do País, desde finais de setecentos até 1868, não atingiria 1/10 da superfície do reino, Varnhagen (1836) considerava que apenas uma sétima parte do país tinha “matas e árvores dispersas” e para Brotero (1827) metade do país estava inculto (Radich & Alves, 2000: pp. 13 e 16; Rego, 2001: p. 53).

Para Pery a superfície florestal não ultrapassava em 1875 mais de 7% do território, correspondendo a 640 000 ha, apenas 28% se encontrava cultivado e os incultos cobririam 68% do território, dos quais 45% seriam cultiváveis (Caldas, 1978: p. 102; Caldas, 1994: p. 26; Caldas, 1991: p. 413; Devy-Vareta & Alves, 2007: p. 72). Embora se possam encarar estas estimativas com alguma reserva, dada a sua menor fiabilidade científica, poderemos concluir que uma parte significativa do território português se encontrava inculto.

Ferreira (2001: p. 181) considera que o ano de 1880 marca uma modificação radical da paisagem rural do Alentejo traduzindo-se no recuo da área ocupada com charneca (brenha mediterrânea) e o aumento da área ocupada por montado, mantendo-se os exemplares de

13 Estes autores, com base nas dimensões das travessas utilizadas e no espaçamento entre elas, estimaram que num espaço de

tempo de 35 anos o volume de madeira utilizado variou entre os 261 712 m3 e os 469 892 m3. Se considerarmos, de acordo com os

dados do IFN 2005/2006, que o volume existente de Pinheiro-bravo em povoamentos puros por unidade de área é de 94,1 m3,

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azinhais mais antigos, pluricentenários, nos concelhos fronteiriços de Moura e Mourão e nas serras de Barrancos e Serpa.

Caldas (1991: p. 413) refere ainda que cerca de 1835, no termo da guerra civil liberal “os

terrenos incultos e desarborizados pelas queimadas do pastoreio e a rapina de lenhas, consentiam não mais do que 10% de área cultivada”.

Natividade (1969: p. 35), citando Rebelo da Silva, refere que no nosso País a área florestal era no século XVII “aproximadamente o dobro da que ocupava nos finais do século XIX”, isto mesmo depois de já ter sofrido graves delapidações.

Devy-Vareta (1993: p. 104), ao tentar estabelecer uma distribuição e fisionomia da área florestal em Portugal, considerava que o espaço florestal ou arborizado da Época Moderna era constituído por um mosaico muito heterogéneo, com maior presença de espécies mediterrânicas no Norte do País e soutos e carvalhais no interior, além de apresentar uma descontinuidade da área dos pinhais e de existirem grandes áreas de incultos.

Gomes (1876: p. 49) referia que o arvoredo florestal em Portugal era largamente dominado por cinco espécies de carvalho (Carvalho-roble, Carvalho-da-Beira, Carvalho-português, Sobreiro e Azinheira), duas espécies de pinheiro (Pinheiro-bravo e Pinheiro-manso), e pelo Castanheiro, Zambujeiro e Alfarrobeira. Na sua Carta dos Arvoredos, que constitui um importante acervo histórico, circunscreve a distribuição do Pinheiro-manso pelas Baixas do Sorraia e Baixo Alentejo Litoral, consociado com o Sobreiro.

O coberto florestal nas serras das Beiras e de Trás-os-Montes seria dominado por espécies dos géneros Quercus spp. e Pinus spp., tendo-se estabelecido o Pinheiro-bravo nas serras do Noroeste, dominadas por Quercus robur ou Quercus pyrenaica, no final da Idade do Bronze (Rego, 2001: p. 52), enquanto no Alentejo, com excepção da Península de Setúbal e da zona do Sado, ocupadas por pinhal, dominavam os carvalhos, formando também grandes matas a leste (Gomes, 1876).

Ribeiro & Delgado (1868), num relatório sobre a arborização geral do País, constataram uma enorme desflorestação, estimando-se que os incultos ocupariam uma área de cerca de 5 milhões de hectares, correspondente a quase metade do país. No século XIX registaram-se importantes transformações no espaço agro-florestal que conduziram à extensão do espaço agrícola (cerealicultura no sul e vinha e olival um pouco por todo o lado) e a um aumento da superfície florestal com sobreiro e pinheiro (Devy-Vareta, 1988: p. 170).

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Iniciaram-se os trabalhos de fixação e arborização das dunas do litoral, cujo início sistemático e documentado se deve a José Bonifácio de Andrada e Silva14 (Radich, 1996: p. 74; Rego, 2001: p. 28), e à arborização de serras do interior. A arborização das dunas15 foi um processo descontínuo, assumindo uma maior regularidade apenas a partir de 1850 (Radich, 1996: p. 73), tendo segundo Caldas (1978: p. 116) abrangido uma área de 25 600 hectares.

O programa de arborização e de conservação do território (correcção torrencial e fixação das dunas) desenvolvido pelo Estado apoiava-se mais numa “silvicultura normativa do que

preocupada em apreender as motivações das populações”, o que se manteve nos anos

sessenta do século XX com o fomento e a arborização dos terrenos particulares de grande dimensão (Baptista & Santos, 2005: p. 10).

Em 1824 é criada a Administração-Geral das Matas, dependente da Secretaria de Estado da Marinha, que passa a gerir o património florestal da Coroa, que totalizava uma área de 14 464,31 hectares (Devy-Vareta, 2005a: p. 125) e era constituído pelas matas de Leiria, de Valverde, da Azambuja, das Virtudes e dos Medos. Esta data constitui um marco na história florestal portuguesa na medida em que, como considera Vieira (2000a: p. 20), marcou o início do Portugal Moderno. Mendes & Fernandes (2007: p. 77) consideram ser este um período de “transição florestal” por ser o momento que marcou a inversão da “tendência secular do

declínio florestal português”.

À grande desproporção existente entre a área pública e privada aludia Caldas (1978: p. 67) quando referia ser “esta a miséria de um Estado pobre, porque todo o resto do território

florestal (3.200.000 ha) se consolidou em privado com a legislação liberal, ou se conservou baldio no termo de alguns municípios e paróquias das serras”, o que constituiu para este autor

uma imprudência na defesa do interesse colectivo.

A evolução verificada entre 1874 (valores estimados por Pery) e 1910 (valores da Carta Agrícola e Florestal) deve-se a diferentes critérios de classificação da floresta. Com efeito, o ritmo de evolução da área florestal num período de 35 anos equivaleria, segundo Radich & Alves (2000: p. 72), a uma taxa de crescimento médio anual de 37 614 ha, o que, comparando com o ritmo de arborização efectuado no séc. XX, se apresenta como impraticável. Face à

14 Autor do que se pode considerar como o primeiro livro de Silvicultura intitulado “Memória sobre a necessidade e utilidade do

plantio de novos bosques em Portugal”. É considerado como o primeiro “silvicultor” português, tendo estudado silvicultura na Alemanha (Devy-Vareta, 1993: p. 99).

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heterogeneidade da informação, a Carta Agrícola e Florestal de 191016 constitui, ainda segundo estes autores, a primeira e única fonte de informação em que as áreas agrícolas, florestais e incultas do território nacional foram efectivamente medidas.

A evolução da paisagem florestal desde o século XIX caracteriza-se, assim, por uma progressiva ocupação de terrenos incultos e expansão da área de Pinheiro-bravo (Figura 2.3). Radich & Baptista (2005, p: 145) consideram que entre 1875 e 1938 a área florestal em Portugal “pode

ter registado um crescimento da ordem de um milhão e oitocentos mil hectares”,

fundamentalmente em resultado da iniciativa privada, sendo a contribuição do Estado diminuta.

Figura 2.3 – Evolução do uso do solo em Portugal Continental (Fontes: Mendes, 2004; AFN, 2010; ICNF, 2013a)

Devy-Vareta (1999: p. 66) refere a probabilidade elevada de se ter verificado uma regeneração acelerada dos montados durante a segunda metade do século XIX, a que se seguiu, de acordo com Ferreira (2001: p. 187), uma degradação dos montados durante a Campanha do Trigo com um corte maciço de arvoredo.

Os resultados preliminares do IFN6 apontam para um decréscimo das áreas de floresta no período de 1995-2010 de -4,6%, essencialmente devido à sua conversão em áreas de “matos e

16 Segundo a Carta Agrícola e Florestal os distritos com maior concentração de pinhal eram os de Lisboa (92 824 ha), Santarém

(70 354 ha), Aveiro (63 864 ha) e Leiria (54 282 ha), encontrando-se no extremo oposto os distritos de Coimbra, Beja, Évora e Portalegre (Radich & Alves, 2000: p. 74).

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pastagens”. Este decréscimo, apesar das perturbações que os espaços florestais sofreram

neste período, de que se destacam os incêndios florestais e a ocorrência de pragas e doenças, não é muito acentuado o que é demonstrativo da resiliência da floresta no território continental (ICNF, 2013: p.8), tendo incidido mais nas regiões Norte e Centro.

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