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A Rede de Atenção Psicossocial da Região do Seridó é composta por cinco CAPS, sendo um CAPS III e um CAPS AD, na cidade de Caicó; um CAPS II, na cidade de Currais Novos; um CAPS I em Parelhas; e um CAPS I em Jucurutu. A cidade de Caicó conta ainda com um Serviço de residência terapêutica. Em relação aos leitos de Psiquiatria em hospitais gerais, segundo dados do Ministério da Saúde (2017) existem apenas dois leitos cadastrados no Cadastro Nacional dos Equipamentos de Saúde (CNES), sendo um na cidade de Lagoa Nova e outro na cidade de Parelhas (Quadro1).

Em julho de 2018, segundo registro no CNES, só existia um psiquiatra cadastrado no CAPS III de Caicó, com carga horária de 30h/semanais, enquanto o preconizado é que esse tipo de serviço conte com psiquiatra 24h. No Hospital Regional de Caicó, existem 8 leitos no setor de clínica médica que foram reservados para serem leitos psiquiátricos, porém os mesmos nunca foram habilitados, a equipe não recebeu capacitação para lidar com os pacientes e estes são levados ao CAPS III uma vez por semana para serem avaliados pelo psiquiatra daquela instituição. Caicó conta ainda com um ambulatório de psiquiatria pela prefeitura e outro pela Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM) da UFRN.

Na cidade de Currais Novos, onde existe outro Hospital Regional, não existem leitos de psiquiatria, mas nessa mesma cidade, além do psiquiatra do CAPS II, havia um ambulatório de Psiquiatria na Policlínica do município e outras 2 psiquiatras cadastradas pelo NASF.

O CAPS de Jucurutu encontrava-se sem psiquiatra e o de Parelhas contava com 1 psiquiatra, no momento da pesquisa.

Figura 02: Representação da RAPS na 4a Região de Saúde

Segundo Yoo et al (2013) uma diminuição na oferta de leitos de internação psiquiátrica está significativamente associada a uma maior probabilidade de prisão por pequenas acusações entre pessoas diagnosticadas com doença mental grave. O uso de substâncias parece mediar esse relacionamento. Além disso, o acesso limitado ao tratamento hospitalar para doentes mentais graves tem sido associado a maior risco de suicídio, mortalidade prematura, falta de moradia, crime violento e o próprio encarceramento (ALLISON ET AL, 2018).

Nos Estados Unidos, entre 1998 e 2013, o número total de leitos psiquiátricos diminuiu de 34 para 22 a cada 100.000 habitantes, sendo essa redução associada a períodos prolongados de permanência de doentes psiquiátricos nos serviços de emergênciae que precisavam ser hospitalizados. Esse acesso muito limitado a internações hospitalares é provavelmente um fator contribuinte para a crescente taxa de suicídio nos EUA (BASTIAMPILLAI ET AL, 2016).

O município de Caicó tinha um Hospital psiquiátrico, que foi desativado após a reforma psiquiátrica e não foram criados leitos em hospitais gerais suficientes para dá o suporte necessário no momento da crise suicida, que sabidamente é uma emergência médica e como tal necessita de um suporte hospitalar, assim como um paciente que é acometido por um infarto agudo do miocárdio necessita de um suporte em unidade de terapia intensiva (UTI). A depender do meio utilizado para cometer o suicídio o paciente que não tem êxito, pode necessitar de internação para suporte clínico, cirúrgico ou de UTI, mas de qualquer forma deve ser mantido em ambiente hospitalar até que esteja sem risco alto de suicídio (ABP, 2014).

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômica (OCDE) recomenda uma média de 71 leitos psiquiátricos para cada 100.000 habitantes. Apenas 4 dos 35 países da OCDE (Itália, Chile, Turquia e México) têm menos leitos psiquiátricos por 100.000 do que os Estados Unidos. Embora o sistema de saúde europeu seja muito diferente do sistema de saúde dos EUA, eles fornecem uma comparação útil. Por exemplo, Alemanha, Suíça e França, apresentam 127, 91 e 87 leitos psiquiátricos por 100.000 habitantes, respectivamente.

Segundo dados do IBGE (2014), a população da Região do Seridó potiguar é de

311.531 habitantes, com 68% da população seridoense nas zonas urbanas. Levando em consideração a recomendação da OCDE, temos um déficit considerável de leitos psiquiátricos

na região. Considerando que para caso de tentativa de suicídio estima-se que 20 pessoas tentem, e que para cada caso consumado, de 6 a 10 pessoas sejam atingidas diretamente, só no período estudado, temos um contingente de aproximadamente 12 mil pessoas na região que necessitam de um suporte profissional, multidisciplinar.

Entretanto a RAPS da região é muito frágil, com articulação deficitária entre os dispositivos e praticamente sem ações de matriciamento, poucos ambulatórios de saúde mental e pacientes institucionalizados nos CAPS.

4.2- PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO

Por se tratar de um mestrado profissional e após a análise dos dados epidemiológicos e da caracterização da RAPS, foram propostas algumas intervenções como:

1- Criação e implementação de fluxograma para casos de alto risco de suicídio nos hospitais regionais;

2- Educação permanente continuada para toda a RAPS;

3- Instrumentalização da notificação compulsória das tentativas de suicídio na RAPS;

4- Fortalecimento do apoio matricial;

5- Treinamento para identificação e rastreio de casos de risco pela atenção básica; 6- Criação de um ambulatório de Psiquiatria pela EMCM no Hospital Regional Mariano Coelho em Currais Novos.

7- Realização de ações de extensão nos Sindicato de trabalhadores rurais dos municípios da região.

8- Uso do protocolo de cetamina nos Hospitais Regionais para casos de alto risco de suicídio.

Algumas das propostas de intervenção já foram realizadas. Escolhemos os municípios de Caicó e de Currais Novos por serem os maiores da região.

Em agosto de 2018 organizamos um evento no Hospital Regional de Caicó, com a presença do Professor Dr. Emerson Arcoverde, psiquiatra do Hospital Universitário Onofre Lopes, o mesmo fez um relato da experiência desse hospital na criação e habilitação dos leitos

de psiquiatria, entretanto a adesão dos profissionais foi muito baixa, contamos apenas com a participação de 3 técnicos de enfermagem, 1 psicólogo e 1 assistente social.

Na cidade de Currais Novos escolhemos o mês de Setembro de 2018, durante a campanha nacional de Prevenção ao suicídio para realizar alguma ações.

Foi realizada uma reunião no mês de julho de 2018, com as equipes do NASF, CAPS e com os residentes multiprofissionais da UFRN, em Currais Novos, e foram definidas as metas para a campanha de prevenção ao suicídio desse ano. Durante a reunião, identificamos a fragilidade na rede de atenção desse município, principalmente em relação ao Hospital Regional Mariano Coelho (HRMC), por isso planejamos concentrar a maioria das ações nessa unidade.

Definimos uma agenda de capacitações para profissionais do HRMC, que foram conduzidas pelas equipes do CAPS/NASF e Residência multiprofissional, além da criação de um fluxograma para ser utilizado na Emergência daquele hospital.

A criação do fluxograma foi realizada junto com os alunos de medicina do 50 período da EMCM/UFRN, que estavam no módulo de Vivência Integrada na Comunidade, na cidade de Currais Novos, no mês de setembro, os quais também ficaram responsáveis por apresentar aos médicos plantonistas o referido fluxograma.

Além disso, foram realizadas capacitações para profissionais da RAPS, palestras em escolas públicas e privadas, para profissionais da mídia, em serviços de cunho religioso (Centro Espírita Seara de Luz e Comunidade Católica de Casais), e um fórum intersetorial para Prevenção ao Suicídio, que ocorreu no dia 28/09/18.

No mês de outubro de 2018, o fluxograma foi implementado também no Hospital Regional de Caicó e planejamos iniciar um ciclo de Educação Permanente nesse hospital, a partir de fevereiro de 2019, utilizando os internos do curso de Medicina da EMCM, que estarão no módulo de Clínica Médica.

Outra meta para 2019 é a realização de capacitações com os Agentes Comunitários de Saúde e com os Residentes Multiprofissionais, utilizando-se de escalas de rastreio de casos com risco de suicídio na Atenção Básica dos municípios de Caicó e Currais Novos, além de protocolo nos serviços de saúde mental para acolher as tentativas de suicídio nos principais municípios da região.

6 CONCLUSÕES

A partir do estudo aqui apresentado, podemos analisar que o suicídio na região do Seridó assume o status de grande problema de saúde pública, com repercussões e desdobramentos que vão muito além do indivíduo que cometeu suicídio, trazendo consequências para o contexto familiar, social, econômico e cultural de seu povo.

Embora já fosse de conhecimento e constatado em senso comum, por meio desta pesquisa demos visibilidade ao principal indivíduo implicado que emoldura as características e perfil do comportamento suicida na região.

Aqui, revela-se a figura multifacetada do homem agricultor, historicamente apartado dos serviços e cuidados em saúde em geral, muito além de problemáticas de sofrimento psíquico. Sabemos que a perda de sua terra e de seu gado diante da seca avassaladora e do descaso governamental cronificado nos últimos anos podem contribuir de várias formas para agravar o sofrimento psíquico desses indivíduos. Porém, mais estudos devem ser realizados para investigar possíveis correlações com fatores socioeconômicos e de exposição a agrotóxicos.

Entre os vários aspectos que pudemos aqui problematizar, é preciso salientar que, apesar da presença de equipes de apoio, equipamentos e serviços de saúde mental na região, estes ainda se mostram frágeis e insuficientes, em que pesem a precariedade de instalações, a falta de profissionais e materiais de trabalho, assim como o grande contingente de pessoas no meio rural completamente desassistidas dos serviços de apoio e retaguarda em saúde mental.

Nisso, aponta-se para a necessidade de ampliação e qualificação da RAPS em toda a região, com maior comprometimento e investimento dos governantes locais diante da problemática, bem como no que se refere ao arranjo e à costura social das redes de cuidado voltadas às pessoas com ideias e pensamentos suicidas. Urge a importância de serviços e equipes constantemente preparadas para acolher o indivíduo que sofre, seja ele nos cenários da Atenção Básica, serviços de saúde em geral e Prontos Socorros Municipais, com maior especialização e preparo dos profissionais, desde a prevenção à tentativa propriamente dita.

Dessa forma, a notificação imediata da tentativa de suicídio deve ser realizada oportunamente, com definição de fluxo para encaminhamento desses pacientes, garantindo o acolhimento e a prestação de cuidados necessários, além da adoção de medidas terapêuticas adequadas.

Ressaltam-se as insuficiências de um estudo produzido em nível de Mestrado Profissional com todas as limitações de um profissional que atua no cotidiano assistencial.

Todavia, aponta-se para a importância deste trabalho em despertar novas discussões nos vários segmentos sociais, bem como na produção de novos conhecimentos e saberes científicos sobre o fenômeno em questão.

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