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DATA ACQUISITION

Dans le document COMPUTER BASED LEARNING IN SCIENCE (Page 91-97)

Thomas Lee Hench

DATA ACQUISITION

O germe do que hoje se conhece como internet surgiu em meados dos anos 1950, durante a guerra fria. O programa espacial soviético e a possibilidade uma guerra nuclear

entre as duas potências antagônicas (URSS38 e EUA39) criou um clima de apreensão entre os

militares estadunidenses já que todas as informações das agências de inteligência estavam

alocados em alguns espaços centrais. A ARPA40, um braço do Departamento de Defesa,

começou a desenvolver pesquisas a fim de criar um sistema de informação que garantisse a sobrevivência dos dados caso houvesse algum ataque às suas centrais. Um sistema de comunicação desenvolvido por Paul Baran, no começo de 1960, baseada nas estruturas possíveis de redes, ocasionou um desenvolvimento significativo e permitiu a criação da primeira ancestral da internet, a ARPANET (cujo nome se relaciona à agência responsável), já no final desta década. A tecnologia utilizada procurava criar um sistema interligado de informações que permitisse que um de seus componentes fosse completamente retirado, ou destruído, sem afetar as informações guardadas. Esta tecnologia se inspira na assunção de que todas as sociedades se organizam em redes capilares de relações sociais; estas podem existir em pelo menos três configurações diferentes:

 centralizada, com um nó (pessoa ou grupo de pessoas) central que se conecta

a outros nós, não conectados entre si;

 descentralizada, que possuí vários nós principais interligando outros nós, estes

não conectados entre si;

38 União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 39 Estados Unidos da América.

 distribuída, uma rede com poucos centros e em que os nós se conectam primariamente uns aos outros.

Sobre as redes descentralizadas, utilizadas para conectar computadores, Pierre Lévy diz: “O computador não é mais um centro, e sim um nó, um terminal, um componente da rede universal calculante [...]” (1999, p. 44). Estas três dinâmicas possíveis das redes são ilustradas, de forma muito didática, pelo Diagrama de Paul Baran:

Fonte: Fundação em Foco.

Assinala-se que em todas as imagens os nós, isto é, os pontos (que podem representar, pessoas, organizações, computadores, etc.) encontram-se nos mesmos lugares, o que muda são as formas de ligação entre eles. O diagrama é baseado nas organizações das pessoas em sociedades e suas redes de relacionamentos, assim, as redes sociais não nasceram com a internet, mas tomaram outra dimensão com o seu surgimento: “As redes sociais são uma manifestação social muito antiga e se referem a uma estrutura social formada por pessoas (ou organizações), ligadas por um tipo de relação e que compartilham de valores e objetivos comuns. Uma rede é aberta, elástica e capilar.” (UTSUNOMIYA, 2011, p. 2).

Pierre Lévy (1999) assume que existem três tipos de dispositivos comunicacionais que mediam as interações entre as pessoas: um para um, um para todos e todos para todos; estes dispositivos estabelecem as relações entre os sujeitos envolvidos no processo de comunicação, que podem ser recíprocas, ou não. Nos dispositivos classificados como um para

podem ser exemplificados pelos jornais de grande circulação, redes de televisão, serviços de streaming, etc., estabelecendo relações evidentemente mais verticalizadas. Já os dispositivos

todos para todos são característicos de relações mais horizontalizadas, de comunicação direta.

Assim:

O ciberespaço torna disponível um dispositivo comunicacional original, já que ele permite que comunidades constituíam de forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto comum (dispositivo todos/todos). Em uma conferência eletrônica, por exemplo, os participantes enviam mensagens que podem ser lidas por todos os outros membros da comunidade, e às quais cada um deles pode responder. Os mundos virtuais para diversos participante, os sistemas para ensino ou trabalho cooperativo, ou até mesmo, em uma escala gigante, a WWW, podem todos ser considerados sistemas de comunicação todos/todos. (LÉVY, 1999, p.65).

As possibilidades da ARPANET acabaram por chamar a atenção da comunidade científica que começou a utilizar-se dela, de forma que, eventualmente, os militares migraram para a MILNET. Durante os anos 1980 outras redes de computadores foram criadas, mas a ARPA-INTERNET continuava sendo o nó principal de comunicação; logo passou a se chamar INTERNET. É só a partir da década de 1990 que a internet deixa de ser uma rede ligada à inteligência estadunidense e programas universitários de pesquisa e passa a ser privatizada, assim, a internet, como a conhecemos hoje, nasce na primeira metade daquela década.

A internet surge centrada nas páginas, portais, serviços de e-mail, etc., e, ainda que, para os padrões atuais de comunicação em rede, possa ser caracterizada como pouco interativa, quando comparada à web 2.0, ela apresentava um avanço gigantesco de comunicação, inclusive interpessoal: no livro intitulado Cibercultura (1999), Pierre Lévy conta como, com a ajuda de buscadores digitais (antes da fundação do Google e o seu estabelecimento como monopólio de pesquisa on-line), conseguiu estabelecer contato com um antigo conhecido de sua esposa. O fato de que este relato pode parecer muito ultrapassado atualmente, evidencia o salto comunicacional que é a web 2.0: encontrar pessoas que fizeram parte de um passado distante já não causa estranhamento algum: as redes sociais e plataformas conectaram as pessoas de formas inauditas.

Algumas das grandes críticas ao ativismo digital vêm da assunção de que o virtual não é real e não produz efeitos na realidade, argumentação baseada na aparente falta de materialidade do virtual. Mas a imaterialidade virtual é ilusória, afinal todos os dados existem

e estão registrados em espaços físicos, seja em computadores pessoais, HDs41, servidores

remotos, etc.; para além disso a linguagem e a comunicação social são reconhecidos socialmente como realidades mesmo quando não estejam ligadas à materialidade. Pierre Lévy (1999, 2011) pensa a virtualidade através de duas chaves importantes: como potencialidade e como um processo de desterritorizalização. O virtual, antes de uma oposição, é uma potência do real, o verdadeiro contrário do virtual é o atual; assim, o atual é o virtual realizado, neste processo de realização do virtual ele se atualiza, já que sua virtualidade se torna outra. A virtualização, dentro da internet, significa a desterritorizalização das informações, que não estão necessariamente presentes nos computadores pessoais, mas que existem ali em potencialidade: “É virtual toda entidade desterritorializada, capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular.” (LÉVY, 1999, p. 47). Também, Abdel- Moneim (2002) pensa as redes como um lugar de desterritorizalização, já que a internet se caracteriza pela inexistência de um lugar físico, mas que se faz presente “o não lugar que é todo lugar”. O processo de virtualização permite o acesso à informações e também ações comunicativas remotas, de forma que se pode visitar um museu pela internet, ou criar comunidades de pessoas com interesses comuns (CASTELLS, 2013). A virtualização oferece, portanto, um potencial comunicacional social e educacional gigantescos, conectando pessoas e informações. Ainda que a virtualização represente possibilidades de agenciamento, de aprendizagem, de mobilização, etc., para as pessoas, para os grandes conglomerados de tecnologia essas possibilidades se alargam consideravelmente, considerando que o seu acesso à essas informações e suas possibilidades de ação são maiores:

[...] o conto de fadas do empoderamento, difundido pelo Vale do Silício, não passa disso: um conto de fadas. Ele oculta o fato de que a informação dita gratuita disponível no Google não é igualmente útil para um universitário desempregado ou para um fundo de hedge dissimulado com acesso a tecnologias avançadas que transformam dados em informações financeiras lucrativas. O mesmo vale para canais que dependem da nossa atenção, como o Twitter: eles não são igualmente úteis para uma pessoa comum, com cem seguidores, e uma empresa capitalista proeminente, seguida por um milhão de pessoas. Portanto, parece óbvio que a equalização do acesso aos serviços de comunicação não elimina nem reduz, sozinha, outros tipos de desigualdade (MOROZOV, 2018, p. 50-51).

Assume-se também que os processos comunicativos em rede são falseamentos ou

estão inscritos em uma lógica de superficialidade. A humanidade produz tecnologia desde o início da sua existência e as tecnologias que criamos nos traspassam. A separação entre o natural, orgânico e o artificial, mecânico, não são claras, óbvias ou possíveis; os sujeitos são conjuntos mestiços, cruzados: ciborgues (HARAWAY, 2009). As tecnologias são parte da nossa

ontologia e permitem que o humano se expanda, se crie. As redes não constituem, portanto, um espaço não humano, ou menos humano. Elas são produto e parte constituinte do humano. As redes distribuídas e a comunicação todos para todos permitem que a comunicação se realize de forma mais democrática e plural entre os sujeitos, e, a partir do processo de publicização e publicidade habermasianos (HABERMAS, 1984), se construa uma esfera pública virtual. Mas, assumir que as relações sociais se estabelecem nas redes de formas completamente descentralizadas ou horizontais é ingênuo: ainda existem relações de poder explícitas e implícitas, que condicionam, definem e até manipulam os discursos produzidos; a

web 2.0 não é um espaço neutro e os interesses econômicos e políticos envolvidos com

vigilância, uso de dados pessoais dos internautas, produção de algoritmos, propaganda direcionada, etc., não são desprezíveis.

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